sábado, 7 de março de 2026

LISBON BY NIGHT

 

Imagem IA


No camarim estreito do bar — uma divisão improvisada com um espelho rodeado de lâmpadas baças — ele terminava de se maquilhar. As plumas estavam penduradas numa cadeira, as lantejoulas do vestido cintilavam numa luz cansada, um brilho um pouco triste, como as decorações de Natal que ficam esquecidas depois de Janeiro. Já tinha vestido o cinto de ligas e puxado as meias pretas de malha larga, rede de pescador, que lhe apertavam as coxas com uma disciplina quase elegante. Passava o pó de arroz com a ponta de uma esponja e olhava-se no espelho como quem examina um estranho.


Faltava um quarto de hora para entrar em palco.

Foi então que se lembrou da transferência. A escola de música. O filho. O piano.

A lembrança veio-lhe assim, de repente, como um pequeno sobressalto no meio da maquilhagem.

Suspirou.

Deixou o camarim, atirou para cima dos ombros uma gabardina curta, cor creme, da Loja das Meias — comprada em saldo dois invernos antes — e saiu para a rua. A gabardina ficava-lhe aberta, talvez por descuido, talvez por indiferença. As meias negras apareciam por baixo, e o cinto de ligas, e o peito exagerado que o soutien empurrava para fora, duas curvas impossíveis naquela noite fria.


No multibanco da esquina não havia ninguém.

A luz branca da máquina tornava tudo mais nítido e mais absurdo. Ele ali, de gabardina aberta, pernas compridas nas meias de rede, o rosto maquilhado com o cuidado de quem prepara uma máscara. Introduziu o cartão, digitou o código. Transferência para a escola de música. Mensalidade de piano.

Enquanto esperava o recibo, pensou que o filho não sabia exactamente o que ele fazia à noite. Ou talvez soubesse e fingisse não saber. Às vezes os filhos são assim: aprendem cedo a organizar o silêncio.


Voltou para o bar.


No interior, o ar tinha aquele cheiro persistente a cerveja, detergente barato e fumo antigo entranhado nas paredes. O anão estava a esfregar o chão atrás do balcão, com uma vassoura quase do tamanho dele. Movia-se com uma eficiência silenciosa, como quem já desistiu de explicar aos outros que tinha vindo para Lisboa com ideias de teatro, de palco, de luz.


Chamava-se Alberto.


No início tentara trabalhar em companhias pequenas, projectos experimentais, qualquer coisa onde a sua estatura pudesse ser interpretada como personagem. Mas o melhor que conseguiu foi aquilo: limpar mesas pegajosas e recolher copos partidos depois das duas da manhã.


Mesmo assim, às vezes ficava a ver o espectáculo. Encostado à porta da cozinha, com os braços cruzados, como quem ainda ensaia um papel que nunca lhe deram.


À porta do bar estava o segurança. Um ucraniano alto, ombros largos, que parecia demasiado sério para aquele lugar. Chamava-se Mykola e tinha estudado física e matemática em Kharkiv antes de a vida se partir em direcções difíceis de explicar.


Os clientes viam apenas o corpo: um homem capaz de separar uma briga em segundos. Mas Mykola não tinha prazer nenhum nisso. Quando dois bêbados começavam a empurrar-se, ele limitava-se a colocá-los na rua com um gesto calmo, quase pedagógico.


Na semana anterior tinha enviado uma candidatura para uma bolsa de investigação no LNEC. Um antigo professor ajudara-o a reunir os papéis. Preencheu o formulário numa madrugada silenciosa, depois do turno.


Ninguém no bar sabia disso.


Nem o travesti, que entretanto subira ao palco entre aplausos dispersos, nem Alberto, que passava o pano nas mesas, nem os clientes que riam alto demais.

Entrou então um casal.

Dois homens que, vistos de longe, tinham qualquer coisa de semelhante — talvez o corte de cabelo, talvez o modo de inclinar a cabeça quando falavam. Um deles trazia uma camisola de lã dobrada nos punhos, o outro segurava-lhe o braço enquanto caminhavam até à mesa.

Sentaram-se perto da parede.

Pediam vinho, conversavam em voz baixa. Discutiam sobre coisas pequenas: quem tinha deixado a cozinha por arrumar, quem se tinha esquecido de comprar detergente, quem devia convidar os amigos para jantar no domingo.

Uma vida normal, pensou Alberto enquanto limpava a mesa ao lado.

Tão normal que até parecia extraordinária naquele lugar.

No palco, o travesti rodopiava lentamente. As lantejoulas devolviam a luz em pequenos fragmentos que saltavam pelas paredes. Cantava em playback uma canção antiga, gestos amplos, exagerados, quase cómicos.

Mas havia qualquer coisa no olhar — um peso silencioso que não cabia na música.

Talvez a mesma coisa que estava nos olhos de Alberto quando recolhia copos vazios.

Ou no rosto de Mykola quando observava a rua através do vidro.

Uma dor discreta, quase uniforme, que atravessava todos eles.

Alguns conformavam-se. Outros alheavam-se. Outros ainda, muito poucos, lutavam contra um destino que parecia já escrito.


A maior parte tinha sido apenas apanhada desprevenida pela vida.

Horas depois, quando o bar começava a esvaziar, Mykola verificou o telemóvel. Havia um e-mail novo. Leu-o duas vezes, como se as palavras pudessem desaparecer.

A bolsa tinha sido aprovada.

Ficou alguns segundos parado, encostado à porta, ouvindo o barulho distante do espectáculo que terminava. Depois guardou o telemóvel no bolso.

Talvez houvesse, afinal, uma saída.

Lá dentro, o travesti retirava lentamente as plumas diante do espelho. A maquilhagem começava a rachar nas margens do rosto, como tinta velha numa parede húmida.

Olhou-se.

No seu conjunto — nas atitudes, nos gestos, nas mudanças súbitas de humor — ele próprio percebia que não passava muitas vezes de uma soma de aparências sobrepostas.

Como todos os outros.

Camadas frágeis, improvisadas, que cada um vestia para atravessar o dia seguinte.


quarta-feira, 4 de março de 2026

NICK VEASEY

 

‘Smartphone?’

C-Type print, mounted to dibond, plexi face (DIASEC)

420 x 594mm (approx. 16.5 x 23”) 6/25



Nick Veasey foi referência temática e bibliográfica nos meus estudos de mestrado e doutoramento e continua a surpreender pelo seu olhar único, para dentro das estruturas escondidas dos objetos presentes no nosso dia a dia, encorajando-nos a olhar para além da superfície.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

REVISTA MEER - ARTIGO DE FEVEREIRO 2026

 


Um excerto do meu artigo de Fevereiro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.



O Desacontecimento


Lembrares: uma forma de encontrar o passado


Um dia, uma pequena coisa escureceu o paraíso dele. Um estorvo a que não dera importância, uma sombra que lhe passou por dentro, sem aviso. Ainda assim, o corpo dela desmoronou-se sob o seu num êxtase obsceno a que não puderam fugir, apesar de viverem uma espécie de neutralidade espacial. Um lugar contaminado pela forma mais severa de aniquilamento do ser humano: a perda da memória.

Toda a vida dele fora um desacontecimento. Um vazio constante, sem morada fixa para cartão de visita, pautado pela inércia, pelos azares, pela falta de vontade e de sorte. E, ainda assim, conseguia enchê-lo de fantasmas e histórias. Talvez porque sempre quisera estar noutro lugar, noutra função, noutro tempo. Percurso errático a que precisava de deitar mão a outros lembrares para tentar percebê-lo.

Lembrares — dizia ele…



domingo, 4 de janeiro de 2026

REVISTA MEER - ARTIGO DE JANEIRO 2026

 



Um excerto do meu artigo de janeiro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.



A mania de existir

A dificuldade do escritor em coabitar com as personagens


Idealizava o paraíso como um espaço pessoal de resistência às coisas do mundo, ao mal, à guerra, à estupidez geral. Silêncio, luto, luta, rendição — palavras que o acompanhavam sempre na escrita, como rosário íntimo. Como escritor, tinha dificuldade em coabitar com as personagens: oferecia-lhes corpo e respiração, mas elas invadiam-no como hóspedes ruidosos, nunca devolvendo o sossego inicial.

domingo, 7 de dezembro de 2025

PORTUGAL, LEITOR INTERMITENTE




“ (…) numa época de crise, os setores da cultura vivem o pesadelo do afundamento de todos os modelos, e quando não há modelos avalizados nem avalizáveis não resta outra saída senão a utopia ou o cinismo, às vezes disfarçados de um pragmatismo disfarçado de eficácia histórica disfarçada da virtude da prudência.”


Manuel Vázquez Montalbán



Vem esta crónica a propósito da leitura de um conjunto de artigos na LER sobre a alegada decadência — ou crise — da ficção em Portugal. O tema regressa ciclicamente, como quem insiste em medir o pulso a um doente que ora parece febril, ora apenas entediado com os próprios sintomas.

Segundo dados recentes da APEL, em 2024 24% dos portugueses não leram um único livro

Apenas 5% leram mais de dez. Entre os livros vendidos, só 25% são de ficção, quando em 2022 eram 38%. Os números não contam toda a história — mas contam uma parte suficiente para nos interrogarmos sobre o que, afinal, está a acontecer.

O argumento do “livro caro” é tão repetido que já perdeu elasticidade. Mais gasto ainda fica quando o contrapomos aos bilhetes de concertos e festivais de verão, esses sim, verdadeiras provas de esforço financeiro nacional. O país parece ter dinheiro para tudo o que seja barulhento, luminoso, partilhável em stories — e cada vez menos para a silenciosa lentidão de um livro.

Haverá também quem diga que somos herdeiros de uma brutalidade primitiva, descendentes directos das pelejas de Viriato, incapazes de nos demorarmos na leitura. É discurso de mesa de café, mas circula: a imagem tomou o lugar da palavra, a televisão e depois o telemóvel arrastaram a escrita para o rodapé da nossa atenção. Só que, paradoxalmente, nunca se escreveu tanto em Portugal. E nunca se publicaram tantos livros. É um país de autores à espera de leitores.

Talvez a explicação esteja menos na caricatura antropológica e mais na alteração profunda das rotinas. Os telemóveis deram-nos acesso a um fluxo contínuo de informação — rápida, truncada, instantânea. Primeiro vieram as SMS, depois o WhatsApp, e com elas a normalização da palavra comprimida, do pensamento abreviado, do tempo dividido em micro pedaços. Não é que não se leia: lê-se muito, mas lê-se curto, lê-se disperso, lê-se para chegar a outra coisa. O livro exige o contrário disso.

Não ajudará também um programa escolar que insiste em clássicos distantes de leitores demasiado jovens. Lêem-se obras importantes, sim, mas muitas vezes antes de tempo, num desfasamento que transforma a literatura em obrigação e raramente em descoberta. Por outro lado, os jovens que leem… leem em inglês, compram originais em inglês, vivem num ecossistema global de tendências que ignora a literatura portuguesa — não por desprezo, mas por ausência de visibilidade.

Há ainda um fosso entre o que se escreve e o que se procura. Uma parte dos autores portugueses continua presa a um cânone literário que, embora nobre, já não dialoga com a experiência quotidiana do leitor comum. Fala-se muito de existência, pouco do dia-a-dia. E a ficção, para sobreviver, precisa de “pessoas dentro”, não apenas de ideias.

Os provérbios populares também contam a sua história, essa sabedoria resignada que herdámos:

  • “Livros cerrados não fazem letrados.”
  • “Amigos e livros, poucos e bons.”
  • “Mais vale ler um homem que dez livros.”

Há neles uma certa desconfiança em relação ao livro, uma exaltação da experiência directa. São ecos antigos, mas permanecem.

Temos, pois, um cenário curioso: uma oferta gigantesca de livros, um acesso fácil — físico e digital —, mais gente alfabetizada, mais plataformas a discutir literatura. E, no entanto, uma sensação generalizada de que se lê cada vez menos. Será exactamente assim? Ou lê-se de forma diferente? Talvez a leitura se tenha tornado mais fragmentada, mais intermitente, mais ansiosa. A informação que recebemos é demasiada, não necessariamente excessiva, mas constante, e a constância cansa.

A imagem, rápida e sedutora, ocupou o espaço onde antes morava o texto. E o tempo — esse recurso finito — está mais curto, ou parece mais curto. O futuro? Um povo que lê menos sabe menos, e um povo que sabe menos decide pior. Não é dramático dizê-lo; é apenas constatar o óbvio.

Talvez a crise da ficção não esteja na ficção, mas no país. Ou no ritmo a que vivemos. Ou na forma como fomos empurrados para um presente perpétuo onde tudo se consome, nada se demora e muito menos se relê.

A ficção portuguesa não está morta — mas está, como tantos de nós, a tentar respirar num mundo que respira depressa demais.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE DEZEMBRO



Um excerto do meu artigo de dezembro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.


A memória dos outros ao largo da Gulbenkian

A mesma vontade, o mesmo desassossego, a mesma ilusão de sempre. Há dias em que sou dado a princípios, objectivos, comissões e instrumentos protocolares, como os políticos. Noutros, enrijeço nos costumes, cinzento, cheio de dúvidas e interrogações, a pensar que o mundo foi capturado pelo longo braço neoliberal, ensinando as pessoas na arte de não ver. E concordava, nesses momentos, com o meu vizinho — sisudo, mas pensativo, recto na acção, a fingir uma frieza que nunca lhe pertencera, homem de ombros quadrados, olhar baixo, como se o peso da vida lhe tivesse sido entregue sem manual de instruções.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE NOVEMBRO

 


Um excerto do meu artigo de Novembro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.


Serviços mínimos
Um colectivo em permanente algazarra


E o tirocínio continuou, desta vez sobre o privilégio de se estar vivo, que todos tinham mais a agradecer do que a reclamar, da mãe de uma que morreu com quarenta e cinco anos e a deixou órfã com quatro anos, outra que não aguentava o cheiro a xixi de velho pela casa, do pai com alzeihmer e que precisava de cuidados médicos e um rol de desgraças de que me desliguei rapidamente, tudo me soava igual: histórias remendadas com mais ou menos moralismo. Estamos todos em serviços mínimos, pensei. Falta-nos empatia, falta-nos espanto. Por isso vou escrevendo umas coisas, linhas e rabiscos à procura de qualquer coisa de sublime que me proteja da pequenez que nos afoga.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE OUTUBRO

   


Um excerto do meu artigo de Outubro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.

Tantos quantos cabem num instante

Uma intimidade com a natureza das coisas


Nunca consegui estabelecer uma intimidade com a natureza das coisas, só participo na vida de través, espécie de culto que espreito das esquinas. Sinto-me um inquilino que regista os sons da noite, sussurros de gente anónima na cartografia da cidade. De dia aproximo-me de um instinto doméstico num mundo que acredito pertencer a um berço comum, falantes de um mesmo léxico que, ainda assim, nos afasta lentamente. 

À revelia da sobrevivência sinto ser demasiado tarde para me agarrar a ficções, ficamos na orla do isolamento a apanhar bocados desgarrados de um amor demorado, um risco de giz a sublinhar as palavras que começo a escrever a eito, uma verdade à espera de voz sem temer o olhar do ponto final.


https://www.meer.com/pt/94712-tantos-quantos-cabem-num-instante

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE SETEMBRO

 



Um excerto do meu artigo de Setembro na revista MEER.

Uma vida desarrumada como uma pintura abstracta

 Ela tinha uma vida tão desarrumada como se fosse uma pintura abstracta, em que as formas se atropelam, se repelem, e escorrem umas sobre as outras, um desenho ou uma folha cheia de gatafunhos, que não se parecia com nada, nas suas formas irregulares, pontiagudas, sobrepostas, como se o mundo a tivesse cuspido ao acaso numa tela, e pronto, ficas assim, sem moldura nem parede que te acolha, vai-te habituando. 

Sonhava com formas geométricas, não viajava, o mais longe que tinha ido fora à Malveira, faltava-lhe mundo, dele tinha apenas o que lhe chegava pelas notícias da televisão e que aquelas desgraças eram longe, muito longe, mais de um dia de viagem e isso dar-lhe-ia, com certeza, vómitos. Agoniava quando andava de carro. Onde suportava melhor a viagem era no lugar do pendura com a janela toda aberta e a cabeça inclinada para fora.”

https://www.meer.com/pt/94392-pintura

domingo, 3 de agosto de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE AGOSTO



Excerto do meu artigo de Agosto na revista MEER.

Hora de Almoço 

“Tudo começa como acaba. Em nós.

Com a idade, aprende-se a dar importância a outros pormenores. Acordar sem dores nas costas, pagar as contas sem tropeçar em dívidas, ter vizinhos sossegados que não arrastem móveis pela madrugada, saborear um café em paz numa manhã de sol a espreitar por entre os estendais. Há um prazer silencioso nas pequenas rotinas, uma espécie de segredo cúmplice com o tempo que se instala nos gestos repetidos, na previsão dos ruídos, no acerto das manias.”

https://www.meer.com/pt/92696-hora-de-almoco


quinta-feira, 17 de julho de 2025

CARLOS CARRANCA

 


Este poema de Carlos Carranca foi publicado em 2005.
Caramba! Em vinte anos nada mudou?



quinta-feira, 3 de julho de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE JULHO

 


Um excerto do meu artigo de Julho na revista MEER.

Fragmentos de um homem à margem.

 Viviam-lhe os dias colados ao corpo como um casaco de má medida. As pessoas achavam-no cordial, inteligente até, e ele mantinha essa impressão com o cuidado de um actor que sabe que o papel é a única coisa que o separa do abismo.”

https://www.meer.com/pt/92139-gestos-simples

terça-feira, 1 de julho de 2025

agap2IT




Vai fazer agora seis anos desde que deixei a actividade bancária e entrei nos quadros da Agap2IT, consultora de tecnologias de informação, e foi, com muito agrado, que recebi a notícia sobre a execução de um projecto especial cujo objectivo pretendia envolver os colaboradores na cultura corporativa, partilhar e promover a arte e a diversidade nomeadamente, na pintura, fotografia, música, poesia e outras artes.


É, por isso, com manifesto orgulho que divulgo a exposição do meu trabalho literário, durante o mês de julho, no espaço da empresa, em Lisboa, subordinado ao tema: “Des existir do Improviso” - O livro que foi distinguido com Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, na sua 27.a edição.


Se produzes algum tipo de arte (ex.: pintura, fotografia, música, poesia, etc.) e gostavas de participa algum tipo de arte (ex.: pintura, fotografia, música, poesia, etc.) e gostava

DISTÂNCIA

 



quarta-feira, 4 de junho de 2025

REVISTA MEER - ARTIGO DE JUNHO


O meu artigo de Junho na revista MEER.

Passar rente à vida dos outros.

“Abro o caderno.

Esplanada, frio, sol, reformados a jogar às cartas, algum trânsito, eléctricos a passar, transeuntes (sempre gostei da palavra transeunte), mesa, buzinas, café, pastel de nata, o ronco de uma mota (sempre gostei de motas), pombos, rua, prédio em frente, laboratório de análises clínicas Germano de Sousa, cigarro, revista, conversas, não se aprende nada, está frio, o Pingo Doce está cada vez mais caro, namorados, beijo, trotinete, autocarro, semáforos, um homem tosse, o outro fuma, o empregado aparece para receber, vai mudar de turno.

O declinar da tarde não trouxe melhoras, tropeço no vizinho, fiscal das finanças por obrigação, perdido na vida por afinidade, a mulher saiu de casa. O passado é uma ausência estranha que passa rente à vida dos outros deixando um rasto de histórias. Há algo de surrealista na nossa vida, um exercício evidente de memória e percepção que passa por ideias imaginárias, anatomia do medo latente em todas as latitudes do mundo. Não escapo à prelecção de filosofia e aos rankings da sua vida sexual. Para ele, os dias eram estilos de narrativa com um mundo em perda, sem moralidade, más escolhas e banalização. Quando fez quarenta anos, a contas com as dívidas, um filho pequeno e um cargo médio numa empresa onde fazia coisas de que não gostava, arranjou uma amante virtual e comprou o livro “Cheguei aos quarenta, e agora?” 

E leu-o de fio a pavio em busca de uma solução milagrosa para o desnorte, ou uma explicação plausível para o fracasso. Completara quase meia vida sem dar por isso, tinha um ar frágil, uma tosse seca por excesso de tabaco e não tinha planos para o futuro nem meios para concretizar os seus sonhos. Vinha de um tempo em que muita coisa parecia mal, o respeitinho era muito bonito e a moralidade e bons costumes definiam a sociedade. A verdade é sempre violenta, sobretudo para aqueles que se negam a entender os tempos de mudança, e os tempos mudavam muito, hoje não seria problema, mas nos anos setenta, a sua prima fora apanhada a “fazer marmelada” dentro do carro de um desconhecido, ainda conseguiu casar com um noivo recauchutado de cinquenta anos, refugo inocente de um casamento sem sucesso, era meio dia e picos quando o pai, já trôpego, a deixou no altar, numa cerimónia rápida não fosse o diabo tecê-las. Menos mal porque estava calor.

Regresso a casa, aqueço o jantar processado, quem trouxe foi o Pingo Doce. A mulher está fora e o filho em Erasmus. Dou comida aos gatos, ligo a televisão, desgraças, futebol e big brothers a derreter vidas inúteis. Ouço discutir lá fora, carro em segunda fila, polícia e reboque, o prevaricador a gesticular como se fosse a vítima, alguns cães nos apartamentos ladram. Fumo um cigarro, banho e cama, daqui a pouco estou ao serviço. Homework em Lisboa, trabalho operacional em Bombaim, em Lisboa faz-se análise do trabalho operacional em Bombaim pago à peça.

Vizinhos correm pela manhã, fato de treino fluorescente, chuva miudinha, mails, mais mails, notificações, pausa, almoço, regresso, reunião, procedimentos, restart ao computador, mais análise. Sábado à tarde, volto à esplanada onde sempre escrevo, está um homem sentado muito parecido com o Sting, apetece-me perguntar-lhe como está a luta pela Amazónia, talvez na Message in a Bottle. Conversas de café, mural auditivo das redes sociais, a prima que foge com o primo, os filhos ao Deus-dará e eu pergunto-me se estes operários da maledicência alguma vez leram a Alexandra Lucas Coelho. Mesa ao fundo, no lado oposto do meu, um argumentista, um actor desempregado e mais dois amigos relembram episódios caricatos, “brancas” e cenas pífias. 

A meio, uma dona de casa com um Lulu ao colo, os pombos aparecem de repente à cata de migalhas, a conversa geral é sobre o espanhol que parecia boa pessoa e degolou a família inteira, já deve estar longe, num sítio onde não façam perguntas e as pessoas não vejam televisão. A cidade está suja e cheia de gadelhudos, já não ouvia a palavra gadelhudos desde o pós 25 de Abril, o José Mário Branco e a luta anti-capitalista. Andamos sempre à roda e acabamos nos bons costumes que não aleijam ninguém, também já não ouvia a palavra aleijar, agora é magoar, os pombos tornam-se atrevidos, agora andam sobre as mesas mesmo com as pessoas. Uma ambulância passa em marcha lenta e eu lembro-me do caos nos hospitais. Um grupo de miúdos ri com vídeos do tik tok.

O sábado passa a correr, compras, aspirar a casa, ménage doméstica, portanto. Almoço, centro comercial para entrar nas lojas, ver e não comprar, um exército de voyeurs sem limite no cartão de crédito. Fast food, estacionamento, casa, Netflix, adormecer no sofá. Quatro da manhã, próstata, bexiga, casa de banho, um par de horas mais tarde pequeno almoço na marquise e café na esplanada, a conversa gira em torno do espanhol boa pessoa que matou a família em contexto de violência doméstica. Gosto da palavra contexto. Ele fugiu para parte incerta. Um homem sem linhas de expressão no rosto manda uns bitaites, futebol e política, ou a falta dela, Trump e Ventura, economia nickles, cultura zero. 

Outro queixa-se que está farto da vida que tem, aos cinquenta, a mulher faz ioga em casa com uma APP brasileira e só come vegetais, ele fuma e come carne vermelha, bebe café e deprime-se porque a pele engelha, as dores persistem e o sexo mirra. A seguir há de ir para casa comer e ver televisão, ou vídeos na net. 

Nova semana, carrossel, mais uma volta mais uma viagem, na copa do emprego um cheiro indescritível das marmitas variadas, o plim do microondas, a fila para aquecer a comida. Sexta-feira, em preparação para a lerda inércia psicológica do novo fim de semana, o dia nasceu cinzento, prenúncio de um cliché mais-que-estafado para o rame-rame laboral. Às cinco há fila no elevador, corridas para o autocarro, chuvisca, bloquearam-me o carro. Enquanto espero pela EMEL vejo os títulos no Google notícias, o marido espanhol assassino em contexto doméstico foi apanhado, era boa pessoa, cumprimentava sempre só não gostou que a mulher passasse tempo ao telemóvel e a filha passasse madrugadas a jogar. Vidas… Um cadáver dá-se a mais respeito.

Fecho o caderno.

Fim.”

https://www.meer.com/pt/90917-pasmaceira