O Desacontecimento
Lembrares: uma forma de encontrar o passado
Um dia, uma pequena coisa escureceu o paraíso dele. Um estorvo a que não dera importância, uma sombra que lhe passou por dentro, sem aviso. Ainda assim, o corpo dela desmoronou-se sob o seu num êxtase obsceno a que não puderam fugir, apesar de viverem uma espécie de neutralidade espacial. Um lugar contaminado pela forma mais severa de aniquilamento do ser humano: a perda da memória.
Toda a vida dele fora um desacontecimento. Um vazio constante, sem morada fixa para cartão de visita, pautado pela inércia, pelos azares, pela falta de vontade e de sorte. E, ainda assim, conseguia enchê-lo de fantasmas e histórias. Talvez porque sempre quisera estar noutro lugar, noutra função, noutro tempo. Percurso errático a que precisava de deitar mão a outros lembrares para tentar percebê-lo.
Lembrares — dizia ele…
