sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM ALICE VIEIRA



A entrevista com uma grande senhora das letras que muito nos honra com o seu brilho. Dona de um humor e energia invejáveis, sucinta, prática e concisa. "Amigo respostas curtas, que já não estamos em tempo de discursos".

Alice Vieira nasceu em Lisboa, em 1943. Nos anos 60 deixou-se levar pelo jornalismo – e nunca mais de lá saiu.
A partir de 1979, acumulou com a escrita de livros. Mais de 70, até hoje. Para crianças, para adolescentes, para adultos.
Muitas traduções por esse mundo fora,  alguns prémios.
Mas continua a não saber nada, como não sabia ao princípio.

1 - O mundo, tal como o conhecemos, está em rápida desagregação, crise de valores, falta de solidariedade e com acentuado e excessivo incremento do poder financeiro. De que forma pode a literatura modificar ou alterar este estado de coisas ou qual o seu papel neste nosso novo mundo?

A literatura não muda coisa nenhuma. A literatura pode fazer de nós pessoas melhores – e isso é que é importante.
   
2 - A literatura e os seus suportes estão, também eles, em mudança assistindo à expansão dos suportes digitais em detrimento do velho papel. E o leitor actual? Mudou? Evoluiu? É mais exigente? Continua com sede de aprender ? Ou busca apenas entretenimento?

O mundo mudou, os leitores mudaram, todos nós mudámos. Mas os clássicos – em suporte papel ou digital – continuam a ser as nossa referências. Não sei, nem me importa saber, se o público evoluiu, se é mais exigente, se continua com sede de aprender ou só quer entretenimento (e porquê separar o “aprender” do “entretenimento”???). Sei que eu sou, como sempre fui, muito exigente e, ao mesmo tempo, muito egoísta: escrevo para mim, como eu acho que devo escrever. Se depois as pessoas me leem… ótimo. Mas nunca penso nelas à partida. (Não estou a falar dos livros para crianças muito pequenas, porque isso é outro departamento… Estou a falar de literatura.)

3 - Na sua actividade literária já percorreu todos os tipos de público. Juvenil, adulto, etc. Há muitas diferenças entre esses tipos de público? Qual o grau de exigência ou pontos de contacto?

Penso que já ficou respondido. O grau de exigência é o mesmo.

4 - Passando a sua obra em revista, qual a importância da memória e do quotidiano na sua escrita?

A memória e o quotidiano são o meu alimento. Sempre foram. Como jornalista, acho que nunca poderia ser de outra maneira

5 - Em Bica Escaldada reúne uma série de textos onde se vai impondo uma crónica de costumes da sociedade portuguesa das últimas décadas. À luz dessas histórias e dos tempos que vivemos sente que se perdeu a inocência, o humor, o interesse e preocupação pelo outro  em detrimento de uma certa desilusão?

Essa de “estarmos desiludidos”, coitadinhos de nós, é uma ótima desculpa para não fazermos nada… E é evidente que não podemos cair em generalizações. As  minhas crónicas da “Bica Escaldada” foram publicadas nos anos 80. Não há telemóveis, nem iPads, nem outras maravilhas fatais da nossa idade. Mas continuam a ser lidas hoje. Como  acontece, por exemplo, com o “Chocolate à Chuva”, um romance que escrevi há 30 anos, e que continua, ainda hoje, a ser lido nas escolas…
O mal de muitos autores é quererem escrever para a posteridade... A gente sabe lá o que vai ser a posteridade… Escrever para nós, no nosso tempo, com grande rigor e com grande exigência é a única solução.



ALFABETO

Foto retirada de Painters amateurs

Queria saber que alfabeto era aquele com que escrevia amor a gemer baixinho, que caminho levava  a  curva suave do perfil, a respiração melosa e o rosto a transpirar ternura em maiúsculas.
Só o tempo, avaro nas horas, a impedia de ver de que tamanho era aquele gostar. Ele acabou por se vestir à pressa,  de olhos postos no seu corpo à espera de um sinal, distendido  de forma lânguida, sobre a cama. 

Um beijo, um sorriso e um silêncio…

A vida era mais bonita assim… sem explicações…

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FANTASIAS TEXTUAIS




Estava exausta. Exausta de palavras e de espera. Apesar disso, sabia que ele viria e, assim, esperava. Esperava só mais uma vírgula, mais um  parágrafo, para sorrir com o desvelo e o carinho das suas palavras doces e seguras.  Ele acabava por chegar. Chegava sempre. Um sono tardio e incompleto num bocejo quase sorriso que lhe escancarava  a porta para o encontro físico, na matemática de dois corpos que se enrolavam num algarismo mágico  pleno de química e afecto, numa equação infinita onde o tempo era apenas um espaço entre linhas. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM CATARINA FONSECA




Um espaço que se pretende vivo não se limita a ser juíz (com mais ou menos polémica salarial) em causa própria. De vez em quando mete a foice em seara alheia. Voltamos, por isso, ao ciclo de entrevistas a algun escritores da nossa praça.
Nasceu em Lisboa em 1969. Licenciada pela Faculdade de Letras de Lisboa e mestre em Literatura Inglesa mantém a imagem fresca e jovem, levemente rebelde, que lhe conheci nos tempos de estudo. Ainda muito jovem publicou A Malta do 2º C que lhe valeu o Prémio Inasset Inéditos de Literatura Infantil 1988. Mais tarde publicou A Herança, obra merecedora do Prémio Revelação APE 1987 e Adeus, Al Capone.Tendo iniciado, posteriormente  a sua escrita para adultos com Boi Vermelho a que se seguiram muitos outros títulos e colaborações com diversos autores, mantendo, actualmente, colaboração regular com a revista Activa. Passemos pois às cinco questões da praxe onde a dscontracção e o bom humor são a tónica dominante.

1 – Entre “A Malta do 2º C” e “Boi Vermelho” ou “A Guardiã” experimentou uma série de registos e de abordagens ou temas. Sendo o primeiro dedicado ao leitor jovem e, salvaguardadas as diferentes faixas etárias, de que forma sentiu o grau de exigência dos dois tipos de leitores? Algum foi mais fácil que outro? Ou por outra: Há algum leitor” fácil?”

- Esta pergunta é muito fácil: o meu leitor sou sempre eu, portanto em teoria ele nunca muda, o que dá imenso jeito. Como eu sou uma leitora incrivelmente chata, não dá jeito nenhum porque passo o tempo a levar na cabeça de mim própria. E aborreço-me com muita facilidade, daí estar sempre a mudar de registo. Numa revista, temos sempre a preocupação de chegar aos leitores, e sabemos mais ou menos quem eles são e de que é que gostam. Um livro é essencialmente egoísta: nunca tenho a sensação de que há alguém a quem eu tenho de agradar ou que não vai perceber isto ou aquilo. Claro que, como sou otimista, confio que haverá do outro lado muitas almas gémeas que me vão perceber e acompanhar. E há.

2 – “Talvez, pensou ele, aconteça como nos espelhos partidos. Talvez agora a imagem e a realidade se tornem a unir por um momento, antes de se voltarem a separar” (Boi Vermelho) Afinal, É isso? Imagem e realidade da vida separam-se para se voltarem a unir? Ou a literatura é o elo de união entre ambas?

 - Hehehe. Não. É só uma frase bonita que não vale a pena explicar. As frases bonitas são como as anedotas, se as explicamos deixam de ter graça.

3 – Relativamente ao trabalho literário… Acha que o trabalho literário é reparar no que está escondido no quotidiano ou, por outro lado, as coisas estiveram “lá” sempre visíveis e é a intervenção do autor que nos ilumina o caminho?

- hmmm. Não sei se percebi a pergunta. Acho que as coisas não são ‘visíveis’, as coisas existem para cada um segundo aquilo que queremos ou podemos ver, por isso o estar visível depende de quem vê. Cada um tem um código de descodificação do mundo diferente e a literatura é a celebração dessa diferença. Eu gosto de tentar fazer com que as coisas sejam vistas de uma maneira diferente da habitual, para quem as quiser ver comigo. O que me fascina nos livros é precisamente essa elasticidade da alma. Ver o que é visível a outra pessoa, entrar dentro dos seus olhos e do seu código e aprender a ver de outra maneira.

4 - “Herdeiros da história da família, Pedro e Gloriana vão ter de encontrar uma forma de resistir àquilo que os afasta.” ( A Guardiã) Considera ser esse o papel da literatura? Dar-nos o instrumento para ver o mundo diferente de cada vez que olhamos e, assim, encontrarmos forma de resistir àquilo que nos afasta dele?

- Sim, nunca tinha pensado na literatura como uma espécie de treino da atenção, mas é isso mesmo. Não necessariamente atenção ao mundo que está fora de nós (eu sou a pessoa mais distraída do universo, tenho sempre imensa vontade de rir quando me falam em atenção ao mundo, penso sempre ‘ó coitados, se eles soubessem…’), mas atenção à forma como o tornamos nosso e o recriamos. Um escritor não presta atenção ao mundo, presta atenção à forma como ele existe em nós. A teoria da caverna não é necessariamente uma coisa má… Acho mesmo que é uma das coisas que todas as artes têm em comum: tornam-nos mais atentos (seja ao que for…), e mais subversivos, quando nos mostram outros caminhos para lá daquele que a nossa tão pouca atenção nos mostra…

5 – A questão mais fácil… Afinal, já sabe” para que é que ainda serve um homem?”

- Hehhehe. Eu sei, eles é que, coitados, parece que ainda não perceberam…

sexta-feira, 27 de julho de 2012

ONE NIGHT



One night
Softly, anchored in the greatness of the word, love came.
"I love you" ...
Graphic, powerful, stripped, giving itself generously like a promissory note without retirement or protest, to remind them of the simplicity of things and they rolled, contemplating them so lined up, challenging them to measure the geography of desire where both were consumed, not as far as he seemed not as close as they desired by guessing the manners, the looks, the scents of bodies and the bittersweet compulsion of sex ...
To hell with the world, the conventions and the time to flee in their awake! Love was thus a long history of patience to leaf through the next chapters, with attendance. He, seething, pretending to be simple, to give himself completely without remorse, a gift, an exchange without receipt or invoice in joyful living and the hustle and her trying to catch him in the brief dash strokes in a short sketch where briefly, the body had spent the night, but the heart stayed a lifetime ...

IDENTITY



From her world he only knew of the weight carried on her shoulders, framed in the plasticity of the word from which she seized the days. Destiny was turning itself in an accomplice and the inner will to draw her body, loosing himself in the sweet curve of her eyes, a in short pause, realizing in a flash of childhood memories of explicit arithmetic where Mrs. Ruth often divided baskets of oranges, collected kings of Portugal in the history and geography book or in the manifest fear of heights which prevented him from crossing bridges, and the best of all happened in between moments, life squinting and sliding while death was distracted, and time was so old and scattered like the sailboats to India and to win the world was to look upwards, measuring the distance in dreams and smiles, feeling her skin scenting broom and heather in the late hours of the day,  surrendering himself to that look, baring her soul and desiring to find out if love lived far beyond that bridge torn on the margins of Neruda. 

In a moment, as intense as time, just long enough to read the invitation to cross the bridge into the depth look of her eyes, and him, with an eager and innocent smile, indicating even without realizing, that more than a halfway was already crossed ...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

AS PALAVRAS


Sentia falta das palavras, dos gestos, do mimo e do sorriso com que pintava o dobrar dos dias, do olhar terno e profundo, convite explícito e aberto a devassar-lhe a alma, em  final de tarde, remendo de primavera colado à pressa sobre aquele Dezembro irreconhecível e confuso no jardim de relva bem tratada, com um castanheiro secular, um banco pintado de fresco  e uns arcos de pedra do tempo dos romanos obscenamente grafitado sem acento: “Antonio ama Maria Inês” com o peso do apelido a reforçar a sinceridade da declaração.
Doía-lhe a inconstância da presença. O sobressalto, o tempo, os silêncios. Caprichos do destino a brincar sem cerimónia. Doía-lhe a falta dos seus braços envolvendo-a no reflexo do espelho, pela manhã. E de tanto doer achava, por vezes  que o coração era uma dor do tamanho do mundo, percebendo, afinal  de contas,  que o amor, era coisa maior que ele…

segunda-feira, 23 de julho de 2012

HISTÓRIAS DA TERRA - OS PANFLETOS


Fermín Garcia Sevilla

Foi logo a seguir ao último cruzamento entre a História e a Civilização, já os dinossauros tinham recolhido aos compêndios de ciências naturais, que José Gonçalves, à força de muitas flexões do estômago à hora da refeição, abraçara as teorias Marxistas. Levando atrasos de comboio regional para juntar duas letras da dimensão duma junta de bois, achava, contudo, que a justiça só punha palas na manta verde e retalhada de aridez endémica no terreno sinuoso de Castelo Branco e, apesar das intermitências com que dedilhava o alfabeto, a ideia de justiça, igualdade, pão e trabalho para todos, fora cultura que germinara, sem esforço, no terreno ávido e fértil do seu cérebro. Após o despedimento pelo capataz depois do episódio do almoço condimentado a pedradas, não arranjara outro sustento melhor que uns vagos e dispersos biscates pastoreando umas cabras e limpando mato. Nas suas longas passeatas pelos pinhais fora recrutado por um finalista universitário para lhe guardar e distribuir panfletos subversivos de apelo à luta armada contra a ditadura. A princípio, atraído pelos símbolos do trabalho, a foice e o martelo e, mais tarde, pela conversa do estudante, acabara por se empenhar na guarda e distribuição dos panfletos. Ao certo, não sabia o que continham, mas sabia aferir da sua importância…

Três dedos, assim alcunhado desde que, na festa em honra de Santo André das Tojeiras apanhara um foguete perdido e o mesmo lhe rebentara entre os joelhos, acabando com a serventia das partes pudibundas e destroçando-lhe dois dedos da mão direita, aliara a frustração ao desempenho activo e alarvemente zeloso da função de agente da P.I.D.E. Perseguia sem dó, ré, piedade ou outra inscrição de pauta, os “inimigos” do estado. Célebres tinham sido as suas investidas, com ajuda dos militares da GNR, na caça a perigosos subversivos vermelhos que tinham posto em cheque a segurança da Pátria. Certa ocasião, Sebastião Béu Béu, onomatopaico por baptismo e borracho pelas vicissitudes da vida, alegara ter visto o Armando do Lagar a caminhar sobre as águas do rio Ocresa…” Milagre”!! A notícia rastilhara célere e chegara aos ouvidos enfarinhados em serume do agente. “Que não! Não podia ser… Milagres só em Fátima com a bênção de sua excelência o Presidente do Conselho” (fazendo uma vénia reverencial), “se o povo começa a ver milagres fora da órbita do regime, ao invés de termos todos a ver para o mesmo lado, temos uma zarolhice subsversiva que põe em causa a argamassa sustentadora do regime: Deus Pátria e Família… Se não respeitam a família é como o outro... Estes burros só sabem pedir forragem na manjedoura, mas confrontar o milagre oficial sancionado pela Pátria... Isso é que não!” Sebastião andava sempre borracho e a visão fôra atribuída ao seu estado de embriaguês permanente, mas perante a insistência nas visões, Três dedos, num dia em que ele andava a regar umas leiras de terra num povoado distante, empurrara-o para dentro do poço… A explicação oficial dita em tom irónico era que “Deus escrevera por linhas tortas: o homem que andava sempre borracho acabara por morrer afogado… em água… “Deus estendera-lhe a mão e ajudara-o a lavar os pecados nas mesmas águas puras que batizaram São João Baptista…” Abriam-se-lhe as portas do céu para uma vida imaculada que não soubera levar em terra”… A explicação não convencera ninguém, muito menos o José Gonçalves... Três dedos, apenas por curiosidade mórbida, ainda se deslocara ao local indicado tendo, com a ajuda de uma vara, detectado um caminho de pedras bem no meio do rio… Milagre não era, decididamente! Quanto muito, algum comunista que ali plantara os seixos para escapulir à polícia ou para mangar com a fé cristã…

José Gonçalves tinha alguns animais de criação e uma cavalo tingido comprado nos ciganos chamado Russo, o bicho era má rês, arisco, agitado, não tolerava arreios ou cangote. Escouceava tudo e todos, bastas eram as vezes em que tinha que consertar o estábulo, não servia para trabalhar mas afeiçoara-se ao bicho e, entre eles, estabelecera-se uma cumplicidade de estado de espírito, ambos queriam ser livres. Limitava-se a dar-lhe comida, guarida no palheiro e a passeá-lo pelos matos. Tinham grandes diálogos, o cavalo já ouvira os postulados de Marx, Trotsky e outros teóricos, José Gonçalves discorrera sobre o paraíso na terra lá para as bandas de leste numa sociedade onde os homens não eram explorados pelos homens ou qualquer outro tipo de besta.

Três dedos, pressionado pelo chefe de brigada, queria encontrar, a todo o custo, os panfletos do partido comunista, não pela mensagem, pois aquela gente não sabia ler, mas porque lhe custava andarem a mangar com o estado e porque contava passar, ele próprio, a chefe de brigada se apanhasem o tipógrafo. Não fôra preciso muito para desembocar no encalço do José Gonçalves. Numa noite, acompanhado de dois cabos da guarda, batera-lhe à porta. À força de bastonadas vasculharam tudo em busca dos panfletos e de um tal Marx…”Que não o acobertassem porque era pior!” Perante o choro e a resposta atabalhoada da mulher de José Gonçalves, a ignorância, que aliada à maldade e ao poder constituem uma trilogia perigosa e violenta, só se saciou com a senhora prostrada no chão jurando por Deus e todos os cromos da santíssima trindade que o tal Marx pernoitara ali mas abalara há meia hora atrás…Não querendo aparecer de mãos a abanar, até porque não tinha dedos suficientes para contar até dez, levou-o para o posto da guarda onde deu continuidade à sessão de sevícias e tortura. O chefe de brigada, homem arguto e enfadado com ridicularias menores, decidira mandar soltar josé Gonçalves: “solto ele indica mais facilmente onde estão os panfletos, quiçá a tipografia, quiçá o tipógrafo...”

José Gonçalves regressara a pé levando uma eternidade de via sacra, lenta e dolorosa, a chegar a casa, mas o tempo suficiente para arquitectar a resposta à altura da baixeza do infame três dedos…

Alguns dias depois andava a guarda, esbaforida, revolvendo céus e terra em busca do Três dedos. O agente não mais fora visto desde a noite do interrogatório ao José Gonçalves, ninguém lhe pusera a vista ou outro órgão em cima…decidiram ir a casa do José...
Nada… Ninguém… Silêncio absoluto, apenas o escoucear e relinchar do Russo… Arrombaram a porta, nem vivalma, nem sinais, verrugas ou cheiro do josé Gonçalves e da mulher... “Ai o madraço que preparou alguma! Vai ter muito que contar no Torel! Vasculharam tudo deixando para o fim o palheiro, ninguém se atrevia a chegar perto do Russo. O cabo decidu ir buscar a carabina ao carro...
À mesma hora, José Gonçalves, ainda combalido, seguia com a mulher no carocha preto e discreto do tipógrafo rumo a Espanha, com um sorriso nos lábios...

Bang! Bang! - Dois tiros para o ar e o Russo, assustado, rebentou com o que restava da porta e deitou a correr em direcção à liberdade do pinhal… De lanterna na mão, os polícias entraram, a medo, dentro do palheiro… A uma canto, completamente ensaguentado e marcado pelas ferraduras do Russo, jazia inanimado, o agente da P.I.D.E. junto a uma prensa artesanal, no meio de centenas de panfletos subversivos esvoaçando pela força da corrente de ar…

quinta-feira, 19 de julho de 2012

VOAR

Eric Fischl. Bad Boy


- Apeteces-me! – A desenhar-se-lhe nos lábios, sussurro solto e certeiro agitando a melancolia das memórias, dúvidas e hesitações com que se mirava, a medo, ao espelho, fugindo do reflexo baço da existência, qual pássaro de asa curta a ensaiar o vôo.

- Apeteces-me! – A tocar-lhe a pele, onde, numa obediência cega e gramatical, as palavras se diziam e deixavam dizer, impregnadas de cheiro e  entrega, em território livre com o amor à redea solta a baixar a guarda e sem saber que nome dar a tanta intensidade.

- Apeteces-me! – E ele a regressar à doçura com que a acarinhava com palavras firmes... estou…tenho…devo… quero... tão sequencialmente doce, a terminar num baraço irremediavelmente fiel à singeleza do encanto próprio da inocência da criança e que lhe fizera, lenta e paulatinamente, perceber que era no perfume e  leveza das mesmas que poderia voar ou, simplesmente, encontrar forma de existir...

terça-feira, 17 de julho de 2012

A PONTE



Do mundo conhecia-lhe apenas o peso carregado em ombros, moldado na plasticidade da palavra com que brindava os dias. O destino a fazer-se cúmplice e a vontade a desenhar-se no corpo e a perder-se na curva doce do seu olhar,numa breve pausa, percebendo , então, num flash de memória da infância medida na explícita aritmética da Dona Rute onde dividia amiúde cestos por laranjas com resto zero, coleccionava reis e rios de Portugal no caderno de história e geografia ou no manifesto pavor de alturas que o impedia de atravessar pontes , que o melhor de tudo acontecia nos intervalos,  com a vida a olhar de soslaio e a deslizar enquanto  a morte se distraía, que o tempo era tão antigo e disperso como as naus para a Índia, que ganhar o mundo era levantar os olhos do chão, medir a distância em sonhos e sorrisos, sentir-lhe a pele com cheiro de giesta e urze no final da tarde e render-se àquele olhar a desnudar-lhe alma e uma vontade imensa de descobrir se o amor morava para lá daquela ponte rasgada sobre as margens de Neruda.
Momento tão intenso quanto breve, o tempo suficiente de lhe ler na profundidade do olhar o convite para a travessia da ponte e ele,esboçando um sorriso  sôfrego e inocente, indicando que, sem se dar conta, já levava mais de meio caminho feito

A FOME



Acordo num salto impulsionado por mola invisível. O despertador há muito que estrebuchara em alarmes perdidos na twilight zone. Sete e um quarto!!! A dor de cabeça aumentou proporcionalmente à consciência do atraso. Nem tempo tinha para pequeno almoço.O banho ! Rápido.! Um duche forreta com água morna, uma passagem de máquina ao de leve pela pele,  metade dos pelos teimosamente semeados na face. Não há tempo a perder...tou atrasadíssimo!!!... Detesto isto! e esta dor de cabeça... e de estômago... que seca! Os patamares descem-me sob os pés ao ritmo de records olímpicos, deito rua abaixo até à esquina onde está estacionado o meu amado Golf de 1989. Mochila arremessada , cinto,  sapatada no acelerador... sapatada no acelerador...chave...Não! hoje não! não me vais dar nega...que nervos!...vá lá!!...vá lá... pegou!!... Rápido!... autoestrada e ainda chego a tempo... o pior é esta dor de estômago... porra! Nem café, nem pequeno almoço, todo desalinhado... o Golf rola em aceleração máxima para os seus cavalos cansados da fadiga acumulada ao longo de 19 anos...Filipe Massa faz uma prova impressionante, destreza máxima na descida do Monsanto... e esta dor de cabeça potenciada pela fome... que dor de estômago... Amoreiras... lá tá... a tal ruazinha com parquímetros avariados... A sorte brilha na forma dum lugar vago... mesmo à maneira... 8h15... vamos...corre... corre Carlos Lopes... do Rato à Castilho, frente ao Heron, é um tirinho... atravesso o largo em corrida desenfreada. Chego à esquina da Herculano... cinco minutos... se não chego em cinco minutos os telefones já devem estar todos a tocar... detenho-me diante do velho que, à falta de rendimento mínimo garantido, arredonda a pensão de sobrevivência distribuindo o Destak... e é então que reparo na velha... olhar vago, aflito, desesperado, tom lamentoso, roupas puídas e as mãos retorcendo-se em movimentos infinitos:
- Hoje não estão a dar nada?
- Não... - respondeu o velho - hoje nem os da Danone, nem os da Matinal...nada!
Olhei para o relógio...já está...vou chegar atrasado...A curiosidade matou o gato e eu, que de felino e belo apenas guardo as seis vidas que me restam, perguntei:
- Estão a dar o quê?
- Ah...Normalmente estão aí as carrinhas a fazer publicidade e dão iogurtes, leite, sumos...mas hoje não vieram...a velha vem cá todos os dias para comer qualquer coisa...
Olhei para ela. O seu olhar, vago, perdido, olhando em redor na esperança de que ainda aparecessem...
O Velho deu-me o Destak. Levei as mãos ao estômago... 
- Foda-se! Perdi a fome...

CONTAR ESTRELAS



Aprendera que a vida corria a várias velocidades, especialmente na idade adulta, em quarta a fundo, quando regressava à marcha lenta e engasgada da infância, lá na terra, com o pai a perguntar-lhe  o que fazia ele, tão hirto e sério a olhar para o céu.

- Conto as estrelas! - Assim, obscenamente seguro e despido de vaidade. Deves contar deves…nem pró ano sais daí…anda! Mexe-te! Vai lavar os dentes e cama, que elas não fogem. Tens a vida toda para as contar…

- Dois milhões quatrocentas e trinta e duas mil cento e vinte e uma…- Com rigor de contabilista encartado em minudências. O pai cofiou a barba e alternou o olhar desconfiado e prescrutador entre o miúdo e o céu, escuro como breu, pejado de pontos brilhantes que ele iria jurar, ter visto, naquele momento, estarem a sorrir…

domingo, 15 de julho de 2012

SILÊNCIO


Alfredo Araújo Santoyo

Três pequenas histórias, três perspectivas sobre o silêncio com leituras nas entrelinhas. A morte, o quotidiano e o amor.

O SILÊNCIO - I


Num frémito, a brisa acenara-lhe à janela onde passava páginas em branco, noites a fio, a desenrolar o silêncio das palavras de olho nas estrelas. Sibilina, a morte segredara-lhe que cair nos seus braços era viver como estrela, brilhando, as boas, mais que as más. Não havendo pecados a expiar, nem grandes nem pequenos, pegou na alma, subiu ao terraço, galgou o parapeito e deixou-se levar, de um sopro, no brilho do silêncio…


SILÊNCIO! - II


Amarelecida de inutilidade, ciosa do traço tosco da enfermeira de dedinho em riste sobre a boca, a placa sobrevivia, a custo, num equilíbrio precário entre a força de gravidade e a cola ressequida, escorregando numa lentidão imperceptível pela parede abaixo, ante a algazarra anárquica instalada na sala de espera do centro de saúde. Novos, velhos e assim-assim, exibiam com orgulho bacoco e ruidoso, chagas, fístulas, feridas infectadas e outras enfermidades constantes dos alfarrábios clínicos, como condecorações de guerra de uma vida esgotada, com esforço, numa olimpíada masoquista repartida em retalhos e privações entre a Sueca no jardim e as filas intermináveis, em pé, sobre joanetes inflamados, à cata do primeiro prémio da lotaria de consultas. De um lado, uma conformada brigada do reumático onde soldados sem brazão no apelido ou homem de peso à beira da pia baptismal remexiam, com irritante insistência, na sacaria repleta de embalagens vazias de analgésicos e ampolas esmolando assinatura e vinheta do sotôr na receita. Do outro, uma exaurida plebe de classe média empregada por conta de outrém, irrequieta, prisioneira do crochet nervoso e miudinho, da fofoca de novela e do quotidianozinho semeado de injustiças, esgravatando no divórcio frequente das vedetas ou na maldade da besta da professora da Nini do quinto esquerdo da travessa que a tomara de ponta, embirrara com ela e insistia em dar-lhe más notas preparando-se para lhe oferecer uma raposa mais que certa. Alguns miúdos espojavam-se no chão numa descontraída gritaria para desjejuar do fastio das horas de cárcere involuntário na sala. O Sotôr, de nervos em franja, arrepanhava a melena por entre relatórios e credenciais, mal dormido pelo peso do enfeite com que o presenteara a namorada que, apesar de vestir mal de cara se evidenciava em intermináveis jogos de cintura que, afinal andava distribuindo de forma generosa, por seara alheia. Mais pelo peso do ruído do que pela força do ciúme, num assomo de ira, abriu a porta do gabinete de rompante e, rubicundo, vomitou-se em berros e imprecações exigindo silêncio:

- Se torno a ouvir uma mosca, um verme ou uma lesma rastejando no mosaico vou-me embora, não dou mais consultas hoje e não há receitas pra ninguém!
Enfiou-se para dentro fechando a porta com enfadado estrondo.
A placa não resistiu ao apelo das leis da física e estatelou-se no chão desagregando-se , com o impacto, em parcelas de composição molecular.
E então fez-se silêncio…


O SILÊNCIO - III


No princípio, apenas o verbo, lento, sorrateiro, conjugado no verbo amar insinuando-se aos pedaços. Logo a seguir a paixão, tomando forma escrita na espera transformada em desejo dos corpos nus, em pé, contra a parede, consumindo-se em silêncio…



OS SEGREDOS DA COZINHEIRA



Não podíamos deixar passar em claro esta “pérola” decoberta no “Mestre Cozinheiro”, uma décima edição datada, algures, dos anos noventa e que, anacronicamente, manteve em edição o texto que se segue. Da esposa linda, limpa e asseada, à pega fora do lugar ou ao cuidado para não verter gotinhas da tampa da panela nos ladrilhos, o texto é uma preciosidade de clichés e anacronismos sobre uma certa imagem da mulher pronta para servir o marido e convenientemente vestida para receber os amigos com galanteria... Aqui fica o desafio para rirem a bandeiras despregadas ou, pelo contrário, acharem que, realmente, é este o seu lugar...Está lançado o mote para a discussão e debate... Força!

OS SEGREDOS DA COZINHEIRA

Nenhuma senhora, ciosa da sua própria aparência física, e, também zelosa da boa harmonia conjugal sob os seus múltiplos aspectos deve descurar o seu vestuário dentro de casa, e principalmente na cozinha, onde a sua acção é preciosa.
      O marido, quando chega a casa, aprecia ver a esposa limpa e arranjada. É bem conhecida a gota de água que faz transbordar o vaso. Uma pega que não está como deve ser, uma nódoa, um aspecto desmazelado, ofendem, não só os olhos mas, o que é mais grave, o coração. Todas as mulheres devem meditar nesses problemas caseiros, que por vezes assumem carácter desagradável. O marido entrando em casa, gosta de ver a esposa radiosa, fresca, com um vestido impecável e um gracioso avental posto como resguardo e emprestando ao conjunto certa graça, particularmente atraente.
      Conta-se até, a propósito, uma queixa de certo marido. Dizia ele: “Encontrei uma linda rapariga, limpa, asseada, cuidadosamente penteada, e discretamente vestida. Gostei e casei com ela. Um ano mais tarde, quando entrava em casa, comecei a encontrar uma mulher descuidada que durante o dia, tratou das suas ocupações de dona de casa, permanecendo enfarpelada com um vestido enxovalhado e com um avental mal posto, sem feitio e sem forma. Experimentei com doçura fazer-lhe sentir a minha desaprovação”, ao que ela replicou num tom de ofendida: “ O que queres: não se pode ao mesmo tempo tratar do governo da casa e conservar a aparência de uma senhora”.
        Não há dúvida, que este marido é quem tinha inteira razão. Há que sermos não só senhoras, mas também muito femininas, dentro da nossa casa. Isso predispõe bem aqueles que nos rodeiam. Na cozinha, manter uma aparência de frescura é um segredo notável.
        O problema do vestuário da mulher em casa, tem até sido estudado por pessoas especializadas no género. Os vestidos de trazer por casa devem ser tecidos sólidos, resistentes e duráveis. Coloridos, frescos e agradáveis à vista. Os aventais poderão ser em tecidos claros, luminosos, às riscas, em escocês, com flores, com pintinhas ou às barras. E assim, convenientemente vestida, a mulher poderá estar na cozinha e receber os seus íntimos com extrema galanteria. (…) Quando se destapa uma panela, ter o cuidado de não espalhar nos ladrilhos as gotinhas que recobrem o interior da tampa….

10ª edição
Editorial Lavores
Agência peninsular
Avenida da igreja, 68, 1º dtº

DORMIR




A estrada estendia-se à sua frente, lenta, vazia, a deixar-se tomar de curvas com o verão a esgueirar-se de fininho em final de tarde, breve, como breves eram as palavras e o tempo a amaciar a melancolia suspensa da certeza  milimétrica de que o céu era sempre azul e que à noite se enchia de estrelas. Os dias são o que fazemos deles, e ele sem jeito para domador, alinhando na inércia com que os deixava tomar o freio no vazio da consciência em exílio absoluto escondendo-se na desconcertante imutabilidade do mundo.
Adivinhava-lhe o cheiro gravado na pele,  os gestos, as mãos finas de dedos esguios a enrolar-lhe o cabelo  com carinho, insistência e outras coisas que o coração sussurrava  e o corpo não esquecia...
Sempre desprezara os caprichos do tempo, marcas, dores ou achaques da idade. Quase não dormia, dormir era morrer um pouco no travesseiro, sobrando-lhe, assim,tempo para recordar. Por isso naquele final de tarde pegara no carro para uma viagem sem sentido ou à procura dele. Prego a fundo, uma dose de amnésia e duas de desapego , cavaleiro do asfalto em demanda da rainha  sem saber onde desenbocava aquela harmonia, as luzes e os murmúrios que ouvia agora.
Afivelara um sorriso amarelo mal a vira. – És bela! Imaginava-te de capuz e segadeira… Não terás vindo cedo demais para me levar?
- Sou capaz!... Se calhar distraí-me, mas já que cá estou…
- Deixem passar! Afastem-se por favor! – Maqueiros e paramédicos furavam pela multidão para chegar com rapidez ao local do acidente.
 Sentia-lhe ainda o cheiro, as carícias e o beijo a escorregar até ao seu gosto… Entreabriu os olhos e apercebeu-se dos pontinhos brilhantes entretidos a acender o céu, estirou-se com dificudade entre o lençol apertado  e afundou a cabeça no travesseiro… 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PRÉMIO LITERÁRIO FNAC


700 participantes e 10 textos escolhidos por um júri constituído por Valter Hugo Mãe, Doris Graça Dias e Carlos da Veiga Ferreira. O meu conto, Fashion Heroine,  está a concurso no site da FNAC  com vista à publicação até 12 de Agosto. Basta seguir o link e votar... Ou seguir as instruções: Site FNAC / cultura fnac / novos talentos literatura/ comece a votar/ escolher conto/ colocar nome, mail,data de nascimento e cidade e validar no final da página. Cada endereço de e-mail pode validar um voto uma única vez.

http://www.novostalentosfnac.com/literatura/2012/user/create?postId=4

EPÍSTOLAS

William Whitaker
Longo, o pedaço em que concedi licença sem vencimento à consciência e à vontade. Num “ (…)país de marinheiros a navegar nas águas insonsas da subserviência” nem a má companhia do Lobo Antunes me diluiu a inércia e a omissão. Só as  palavras nos salvaram, laboriosamente esculpidas ou, simplesmente, acocoradas, à laia de pedreiro, a partir pedra , num futuro enviesado e matreiro, abrindo caminho à poética do sobressalto.
 “Animula Vagula Blandula”…  Esta sim, a par com a tua, uma excelente companhia pela memória, pela delicadeza, pela “tendresse jolie et doux” com que a tua existência me premeia. Não nos vemos e sinto-te por perto, não falamos e oiço-te em silêncio.
Porventura, não vão as nossas cartas beijar a luz do dia com a têmpera das incetetezas de Adriano nem passear-se nos corredores vetustos de L’Academie, acima de tudo é pelo desejo e pela necessidade , mais pelo desejo da necessidade de  moldar, na plasticidade da palavra, o teu sorriso terno e franco , a firmeza com que escondes as fragilidades, o coração, ainda e sempre, adolesecente, a escorrer da boca e guardar tudo num ponto parágrafo docemente infinito, que te escrevo.
- Impossível! – Disse o orgulho.
- É arriscado! – Disse a experiência.
- Não faz sentido! – Disse a razão.
- Tenta-o! – Sussurrou o coração…

E assim, necessariamente, sussurro-te…

EL GUÉS - LAS PAMPAS EN LISBOA

Foi ao volante do velhinho décimo primeiro ano, sem jantes de liga leve nem direcção assistida que, com as manobras de apoio do velho professor de Português, aprendi a ouvir e partilhar histórias. E porque uma história bem contada é um bálsamo para a alma que devemos partilhar com o vizinho para prevenir a virose da mente,  deixo-vos a narrativa de "El Portugués"

Sebastião Afonso partira cedo a ganhar o mundo à procura da cidadania Socrática e do verdadeiro espírio filosófico. Afonso por parte do pai, que lhe vaticinava bons augúrios de rei descendente de nobre linhagem e Sebastião por parte da mãe pela materialização de um desejo pedido em dia de nevoeiro, cansado dos xistos, da miséria e da fome, e, dado que a noite se mantém calada na companhia das estrelas, fugiu por ela a dentro depois de mais uma sessão de bebedeira cozida a paulada nos costados. Por entre colcheias e semibreves de Beatles e Rolling Stones tão em voga à época, chegara, após várias peripécias, ao El Dorado sonhando com rios de prata e refeições quentes no estômago... Perdeu-se de amor pelas Pampas. Mares de erva húmida e verdejante, terra plana onde perdia a vista só a rencontrando semanas depois, toneladas de gado manso em liberdade... tão diferente dos xistos, das escarpas e das oliveiras mortas de sede das beiras. Sebastião Afonso enamorou-pelas terras, perdeu a sua virgindade num primeiro amor de entrega total e inconsequente... Os anos passaram e, entre a condução do gado e trabalhos vários que lhe grangearam fama e dinheiro, Sebastião Afonso amealhou um bom pecúlio que lhe permitiu abir uma venda... a "Tienda d'el Portugés"... fosse pela dificuldade fonética, fosse pelo carinho, a mudança do nome foi um passo tão curto como a redução da palavra: chamavam-lhe a "Tienda d'el Gués". Os anos iam passando, os negócios e a fortuna tinham criado vinculos de familiaridade muito próxima. Sobrava-lhe tempo para desfrutar da beleza ímpar das Pampas. Passava dias a percorrer as fazendas montado no seu corcel malhado de crina branca na companhia do mar de erva e do sol de cristal, de peito aberto, erguia-se ao vento gritando numa alegria infantil: "El Gués!! Sou El Gués"... Embora a liberdade de movimento e a beleza das Pampas fosse o número premiado na lotaria da sua vida, tinha investido toda a sua fortuna na Argentina e em Portugal, o regresso a Portugal, agora que lhe tinham diagnosticado doença má... afigurava-se para breve... Às nove da manhã de uma segunda-feira negra e obscura, atendera o telefone...era o gerente da agência bancária... a vista turva, a nausea galopante e o desfalecimento rápido só lhe permitiram perceber as últimas frases..." A Argentina entrara em banca-rota...o seu dinheiro estava investido na totalidade em hedge funds... os mercados caíram em perdas irrecuperáveis..."
Paralelamente, o dinheiro que em Portugal tinha entrege a um gestor de negócios evapora-se a trás do dito... de degrau em degrau numa cadeia ascendente de infortúnios, o fio descarnara sob a forma de um coágulo e o curto circuito fôra rápido e indolor... nunca mais ficara o mesmo... passava, desde o regresso, a galopar pelas ruas da baixa em trajes andrajosos dizendo coisas sem nexo, varejando o ar como se conduzisse milhares de cabeças de gado invisíveis, urros inempestivos e gritos: El Gues El Gués!! que assustavam turistas e transeuntes... O vão de escada era o seu abrigo... a rua era a sua fazenda...
- Deixem passar por favor! - A voz firme do paramédico não deixava margem para dúvidas...
Afastei-me para deixar passar a maca onde se vislumbrava um amontoado de cobertores rotos e encardidos enrolados no que parecia ser um corpo...A meu lado o velhote informava os passantes:
- Era o El gués...o gajo foi emigrante na Argentina...perdeu o dinheiro... foi roubado... e deu em maluco coitado... Deus o tenha em descanso...
Não me contive... com delicadeza peguei-lhe no braço virei-o e disse-lhe:
- Não morreu nada! A esta hora anda a percorrer as Pampas de peito aberto, montado no seu corcel malhado de crina branca sobre o mar de erva verde e húmida e um sol de cristal...

TRANSPARÊNCIAS II


Era refugiado na transparência do olhar, debelando uma timidez à distância a que não resistia ao vivo, concordando às escondidas como se fazê-lo de outra forma fosse uma afronta, que percebera ser a sua vida feita de pretéritos e memórias. Ácidas umas, doces as outras, por vezes era na noite fresca com míngua de chuva e um quarto de lua que, lenta e suavemente, regressava às palavras. Amavam-se por palavras. Mais que perseguidos eram empurrados por elas . Ganhavam contornos de fino recorte iterário que apelavam aos sentidos de uma forma tão física quanto o permitia a metáfora colada à alma com a pontuação  dedilhando borboletas no estômago.   E assim, trazidas pela brisa suave ou em caixas de letras, as palavras respiravam por perto, lembrando-lhe que era na generosidade e na entrega sem pausas, elos únicos, francos e irretocáveis que a vida se tornava tão fácil, no momento em que elas os levavam para lá do céu com o arco-iris e o mundo inteiro lá dentro…

TRANSPARÊNCIAS I

            (...) 
Nua, encostada à parede, de pernas abertas, ligeiramente flectidas, dedilhando as pregas do sexo com a perícia sincopada de um pianista, afundava  o dedo médio e o indicador e transportava-os até à superfície humedecendo a entrada enquanto a sua mão esquerda comprimia,  ao de leve, os seios. Ansiava tê-lo ali, já, em permanência, desfrutando do seu prazer. O ritmo do toque acelerou-se mal sentiu a chave na porta. Lá fora chovia com uma intensidade digna de filme e ele, encharcado e a tiritar de frio, olhou-a e, de imediato, se desembaraçou do casaco, do qual, segurava ainda com uma lassidão morna, as abas e um destroço de guarda-chuva. Tirou a camisa e deixou-se tombar de joelhos diante do seu sexo. Apoiou-se lhe nas pernas, ligeiramente acima do joelho estendeu a língua e começou um lento percurso de carícias  pelas coxas, titilando, ao de leve o clíoris. Ela cravou-lhe as mãos na nuca empurrando-o, com firmeza, para o sexo que  entreabria  em flor
saudando a chegada das manhãs de Abril.
- És meu! – Sussurrou-lhe ela.
- Seeempree… -  Anuiu ele..
Puxou-lhe o cabelo para trás despegando-o de si. Introduziu o dedo médio e o indicador,  alguns segundos, dentro do aveludado húmido do sexo  não se coibindo de lhe enterrar os dedos na boca para que ele se inbriasse com o seu perfume adocicado. Empurrou-o de novo, com ligeireza. Ele, dexou-se cair  e deitou-se no chão em câmera lenta, ela ajoelhou-se  e puxou-lhe as calças molhadas e as boxers. A língua dela descobria, agora, um carreiro  até ao interior das suas pernas sentindo  na face a carícia do sexo entumescido. Não resistiu: provou-o … Uma e outra vez... E estendeu-lhe os lábios para um beijo de partilha e volúpia.Deixou descair as ancas e num espasmo arregalou os olhos mal o sentiu entrar. Começou então um lento vai-vem entrelaçando os dedos nos dele com os nós apoiados no chão. O movimento tornara-se mais rápido e insistente. Consumiam-se na transparência fluida do olhar onde cabia o arco-íris e o mundo inteiro lá dentro  (...). A fricção tomara uma cadência frenética só parando no estremeção e no murmúrio imperceptível dos sons guturais até se sentir inundada de prazer. Ela oferecera-se com generosidade, ele entregara-se sem obstáculo.  (...) ele estranhava-lhe o silêncio. Ela, para quem as palavras eram supérfluas quando a certeza era firme e esta se manifestava no movimento  do corpo em tradução livre do desejo, sorria-lhe encontrando, finalmente, não aquilo que procurava, mas aquilo que os fazia felizes…