
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Hora:
21:30 - 23:30
Local:
Casa de Teatro de Sintra,R.Veiga da Cunha, na Estefânea

Enquanto não sai, mais logo, o grande final da "Estrada nacional 103", o escriba contribuiu com uma pequena participação na blogagem colectiva da Fábrica de Letras com umas pequenas linhas subordinadas ao tema: Preto e Branco.

(CONTINUA...)
- Ficas?
- Sim! Fico!... Gosto de ti! - Sussurrara-lhe ao ouvido numa brisa fresca de superlativos.
Ele corria num sonho alado, nas memórias da infância mágica e feliz na doçura alienada da mãe de ouvido colado na rádio onde rolava, invariavelmente, no “Quando o telefone toca”, dedilhado num piano de métrica romântica e afinada: “Vem… viver a vida amor…que o tempo que passou…não volta não”...
Ela sonhava com o castelo e o príncipe que, mesmo que imperfeito, apareceria limpo e barbeado para a salvar do dragão de fogo ou do sapo inchado de inveja e enfado. Os dois, sonhavam, em comunhão perfeita de corpos numa harmonia sem falsetes, notas soltas ou maestro, com a melodia que, em uníssono, os ajudasse a trocar as voltas da vida e do seu xadrez impreciso de jogadas dúbias.
Perto do Porto, já por estrada nacional, rasgava o asfalto no calor do pé febril e pesado da aceleração máxima contra o tempo, esse obscuro cavalheiro eternamente contraditório e escasso, para lhe susurrar ao ouvido, apesar da lomba traiçoeira que acoitava o camião monstruoso e grotesco em sentido contrário.
Ela acordou, de sorriso rasgado e dolência preguiçosa estendendo os braços.
Ele vinha a caminho do Porto e chegaria num qualquer momento parco e desejado, era só o tempo de um duche rápido e uma corrida pronta para a imobiliária.
Ele insitia em querer sussurrar-lhe… apesar da curva fatalmente apertada…
Ela soergueu-se na cama e estendeu os braços fazendo cair, desastradamente, o candeeiro que se transformou em cacos…
Ele carregava no acelerador, exangue e inútil, até ao limite duma mecânica possível e frouxa derrotada por K.O, simples e directo, pelas leis da física…
Ela juntou os cacos do candeeiro numa pressa ansiosa…
Ele, que viera para ficar, conseguira, numa volta sem retorno, mesmo nos últimos metros antes da derrapagem anunciada, exausto, feliz, de olhos brilhantes fitos nos seus, sussurrar-lhe com paixão numa brisa fresca de superlativos:
- Sim! Fico!... Gosto de ti!...


Após tantas manifestações de apoio e carinho, decididamente, não pode o escriba abandonar com esta leveza, este espaço pelo enorme respeito que o público leitor merece. Fazê-lo, por contrapartida das dificuldades no término da história da Maristela ou pelos desaires face à ditadura dos critérios insondáveis das editoras nacionais, seria facilitismo e fuga pela esquerda baixa do palco. Não foram os números pesados das visitas nem dos seguidores argumento suficiente para convencer as ditas. Ao escriba restaria provocar um escândalo público ou uma presença na televisão. Não sendo adepto de uma nem partidário da outra... Paciência! Agora, livre do fardo pressionante das tentativas de publicar umas míseras linhas nas sacrossantas editoras nacionais, vai o escriba dar continuiade ao blogue voltando à pureza original: Tertúlias virtuais, blogagens colectivas, gincanas, desafios, sempre na expectativa de produzir os melhores textos para o público leitor na linha humanista e de humor cáustico que vinha seguindo. O bichinho da escrita é mais forte que o apelo fácil da desistência. Assim sendo, não se furtará o escriba a acabar a história da Maristela, sem saber bem como, amanhã... Vai agora o escriba à cata dumas palavrinhas para alinhavar, depois de ter ouvido "poucas e das boas", inclusivé por mail, de um público que merece ser brindado com o melhor do melhor.
Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:- E tu…Voltas?Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:- Não… Fico!!<
Este foi o parágrafo final do conto erótico que a Maristela Bairros da Clínica da Palavra se propôs desenvolver. Aventurando-se por novos registos e trazendo uma nova dinâmica à narrativa.. aí está o texto da Maristela...
<
Dissera “fico” com tamanha determinação que o coração ficou aos pulos. E agora? Como faria para levar esta loucura toda em frente? Uma transa é, afinal, uma transa. Puro prazer. Nada a ver com problemas, conseqüências, culpas. Ainda sentia o gosto de toda ela em sua boca, as mordiscadas no lóbulo, o dedo atrevido que o deixara até meio incomodado mas que, depois, o fizera repensar conceitos.
O corpo inteiro sofria uma espécie de espasmo interior, ao ritmo da veia jugular. Medo? Com certeza, sim. Junto com a tesão que não passava.
Ela ouvira “fico” entre o satisfeita e o incomodada. Satisfeita por confirmar o poder de comando que tanto amava. Incomodada porque não tinha interesse em ir adiante com aquela coisa que não era nem mesmo uma relação. Só uma transa. Lembrou, então, da banheira cheia de champanhe que havia exigido de Leon, capricho caro que ele havia bancado. A sensação de ser possuída e de possuir envolvida pelo cheiro do álcool, pelo sabor da bebida misturada com o sabor de fluidos. Esse cara não parecia ser do tipo. Ao contrário.
Quando sentiu que ela o pegava pelas costas, puxando-o pela cintura tramando a perna em volta de seu quadril, esqueceu do medo. Deixou que ela o guiasse, rindo baixinho, estendendo as mãos para trás, buscando-lhe a cabeça, as orelhas, os cabelos, por sobre o ombro, o hálito quente e com cheiro acre, mas estimulante. Fechou os olhos, por um instante se imaginou a caça e não o caçador. Pensamento que por tanto tempo expulsara mas, com ela, admitia. O movimento ritmado dela, úmida, como se estivesse implorando, num jogo de masoquismo, as unhas cravadas em seu peito, parecendo mais um animal que brigava para não cair dali, a vontade crescendo, duro, duro, duro como um adolescente de 18 anos.
Não queria estar com ele, não queria pensar que queria estar com ele, mas precisava dele mais uma vez, ou duas, ou três. Ele a obedecia, todo o corpo dele a obedecia, ao menor toque dos mamilos em suas costas, ele reagia todo alerta, ela sentia aquele tremor quase imperceptível, ela sabia que ele ficaria pronto sempre que ela quisesse. Montada nele, como um bicho, sem qualquer elegância, sugando seu pescoço, seu ombro, parecendo em desespero, queria espantar qualquer outra vontade que não fosse a de gozar fundo e sem intervalos. Nem Leon nem os outros, nem aquele velho nojento que a alimentava e para quem ela dava de olhos sempre fechados, nada era melhor, naquela hora, que aquele cara que nem conhecia. Rápida, sem falar nada, mordeu-lhe forte a nádega. Ele gemeu. E se virou.
O que aconteceria agora, quando voltasse? Poderia ficar ali semana inteira. Um dia, iria voltar. E enfrentar o olhar morno de Agnes. Abafou o pensamento segurando os dois pés daquela louca, erguendo-os no ar, acima de sua cabeça, olhando-a com o interesse de um predador. Ela queria. De qualquer maneira, ela queria. Ela empinava a barriga para cima, tentando se impor à sua boca, ele recuava, a abaixava, submetia sua vontade, seu poder, não falava, apenas respirava, a cabeça latejando, o sexo doendo, ele castigando, até desabar dentro dela, sem piedade, sem carinho, sem sentimento. Até ouvir ela soltar como que um rangido longo. Não era um som de gozo. Era diferente. Ele gostou ainda mais.
Assim, presa pelos pés, sugando as mãos, desgrenhada, se debatendo, o ventre subindo e descendo inutilmente diante dele, provocação, submissão, revolta, ela pensava em quanto estava no comando, em quanto era boa nisso. E só pensar já lhe bastava para o prazer vir como um jorro quente. Sem ligar para a dor em cada pedaço da pele, a madeira, as felpas, corpo esfolado. Marcas. Queria, mas não aceitava. Tentou arrastar a cabeça dele, para sentir de novo a língua áspera. Ele recuou. Ela gostou. Uma surra às avessas, pensou. Mas ele vem, eu consigo. Eu mando. Eu quero. De repente, o solavanco, o rosto dele tão perto agora, num esgar, deformado, assustador, mau. E tão bom , tão bom, tão bom.
Tentavam em vão parar, encerrar, se permitir. Mas agora era tarde. Não eram eles que mandavam. Eram seus corpos. Como desligados deles mesmos. Se governavam, comandavam, não aceitavam ordens. Simplesmente ondulavam, e tremiam, e se agitavam com fúria. Davam um tempo, amansavam-se, docilmente, até recomeçar, olhos buscando um o outro, bocas sem tempo para um beijo que fosse, garras em vez de mãos, sons assustadores, ardência doída, ausência de vida, quase morte. Rostos vazios, se abraçaram automaticamente. Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.
Apenas esperando.





( A fotografia é minha!)
Ao rebentar da aurora começa mais um acto eleitoral para escolhermos aqueles que vão rebentar connosco... O Bento não re...Benta...com ninguém! Antes pelo contrário, rebenta com os cânones estabelecidos para as boas práticas literárias e com a própria imagem. O texto que vai sair mais daqui a pouco é mais uma crítica de língua afiada para ler nas entrelinhas. O texto veio rebentar com a linha editorial de histórias com humor. Antes que os leitores rebentem com o escriba, exerçam o vosso dever cívico e "votem" os vossos comentários na caixinha aqui de baixo.

Foi dos primeiros blogs que conheci: Clínica da palavra . Rapidamente se estabeleceu uma empatia e uma necessidade de acompanhar as suas novidades. Pessoa generosa, em constante divulgação do trabalho alheio, surpreendeu-me com um post sobre o Lusitânia Online. Surpresa pelo carinho e conhecimento manifestado, surpresa por se ter antecipado à divulgação do projecto ecocasa para o Jardim Botânico da autoria da sua filha Arquitecta Manoela Schmidt. Já consultei o link e vi as fotos dos interiores. Aqui fica a divulgação, acima de tudo porque é um projecto de grande qualidade e porque, num futuro muito próximo, é nestas casas que viveremos.
(imagem cedida pela Cat)


Pois parece que, além de mais de uma centena de reservas de livros ansiosamente aguardados pelos nossos leitores, o escriba teve a benesse de ver dois textos seus escolhidos para um programa de televisão e a forte possibilidade de falar sobre eles em directo... mas, em virtude de um atraso de cerca de trinta dias no envio dos exemplares do Brasil para Portugal, tal acabou por não acontecer. Por forma a dar resposta cabal aos nossos leitores vamos averiguar a razão da demora e "apertar" com a editora... pô-la no tronco e fustigá-la até vomitar páginas a rodos... 




À hora marcada os presos recolheram à rudeza fria e esfíngica das celas. Todos, excepto Manuel da Cruz de Sousa Tobias Lettermann. A kilometragem do nome não o impedira de tirar guia de marcha para a penitenciária com carimbo de dolo e burla agravada. Tomara todos os cuidados e precauções: unira-se ostensivamente aos indivíduos de maior índice de massa muscular por centímetro quadrado, untara as mãos aos guardas, habituara-se a olhar de soslaio por cima dos ombros, evitara deixar cair o sabonete no duche e passara uma estadia agradável e isenta de preocupações. As diversas contas em off-shore ali para os lados entre o cruzamento de Gibraltar com New Jersey almofadavam-lhe, comodamente, o sono na tarimba despida de lençóis e preconceitos. Contudo, a permanência no cárcere ao longo daqueles três anos, exacerbara-lhe o desejo e a ansiedade. A privação da liberdade, o carinho da mulher e da filha, os passeios de domingo, as viagens e as mordomias inerentes à qualidade de homem livre, eram chagas num crucifixo ferrugento arrastado, penosamente, num calvário de olho posto naquele dia gizado na parede. Foram sem conta, as cartas manuscritas numa caligrafia ávida de notícias, trémula de nervosismo e faminta de liberdade. Escrevia de rajada, sem pontuação porque não era concurso e sem acentos porque as relia de pé... Piada fácil de escritor, que acentuava a dor e a tormenta duma personagem farta dos exíguos metros quadrados do recreio, calcorreados numa "Ronda dos Prisioneiros" para a qual ele não tinha estofo. Mago de finança fraudulenta, sim! Mago da paleta, não! O daltonismo não lhe deixava margem para sentidos estéticos e pictóricos dignos de Rembrandt.
À hora marcada, vestido e perfumado, olhou uma vez mais para o relógio. Os portões começaram a rodar ruidosamente nos gonzos. Ouvia o bater compassado do coração atingir a velocidade da luz num nervisismo sem fim. O bater era cada vez mais forte, mais intenso, ensurdecedor, quase lhe cortando a respiração. Os portões giravam numa lentidão exasperante. Limpava o suor da testa com o suor das mãos. O esgar incial tornou-se numa torrente de riso. Não aguentou mais! Com os portões escancarados num convite libidinoso, deitou a correr mal divisou a mulher e a filha no outro lado da estrada.
- GRRINCCHHHHH!!! - Tarde demais... na ânsia, não reparara no camião basculante que se apresentava pela direita a alta velocidade... E ali mesmo, transformado em Ketchup, vendera a alma ao criador em papel de vinte e cinco linhas, livrança e estampilha fiscal...
MORAL DA HISTÓRIA:
Podes querer ser livre, mas... convém olhar para a estrada!
Porque este blog não vive só de textos humorísticos, mas também apoia causas justas... aqui transcrevemos o texto da petição.
- E tá com muita sorte!... - Ouviu do médico à saída de São José após um lindo enfeite de gesso compacto no braço esquerdo. – Podia ter sido pior - Agora, estropiado e com um braço partido nem força tinha para fazer andar a cadeira, mais o dinheiro que a mãe amealhara na pedinchisse já quase integralmente fumado e bebido no meio de matraquilhos e snookers… não faltou muito para descer o manto pesado da depressão e da choradeira… - Ò homem… Deixa lá isso... - Disse o seu primo do alto do conhecimento de experiência feito - O que tu precisas é de afogar as mágoas nas meninas da Buraca ou na Buraca das meninas! Não foram à buraca, mas foram até à praça da alegria…depois de um streap tease mal enjorcado no ambiente decrépito do Maxime, toca de escalar um everest de escadas ocas e inseguras na pensão manhosa em frente, levaram o desgraçado ao colo e deixaram-no em cima da cama... ao lado de um cão aninhado.
- Sai daí farrusco - disse a puta no meio de uma tosse cavernosa. O cão revirou um olho aborrecido, rosnou sonolento e aninhou-se com dificuldade e muito má vontade na ponta da cama. Pagaram-lhe de avanço...
Quinze minutos mais tarde veio à janela com uma mama saindo pelo robe mal apertado e em altos berros despejou:
- Venham buscar o coxo que ele já tá servido!!! - E lá foi a tropa fandanga
carregar com aquele peso inerte, saciado e engessado escada a baixo e escada acima…
-Estás bem? Hem? - Perguntou-lhe o Chico piscando um olho matreiro.
- Bem...agora ia uns bolinhos quentes da Praça do Chile...
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E a quarta parte desta saga fica por aqui. Lá mais para a frente retomaremos as desventuras deste animado grupo. A partir de amanhã cá vos espera um textinho daqueles a brincar com as palavras...



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