Num tempo em que deixámos de acreditar nos alpinistas da política, da finança e do humor, apetece recordar aquele senhor do Gato Fedorento antes de se tornar serventuário da Portugal Telecom: "Eles falam, falam, falam, falam, mas"... A imagem explica...
bento-vai-pra-dentro
UM OLHAR SARCÁSTICO SOBRE OS PORTUGUESES... MISCELÂNEA DE HUMOR, LITERATURA E CENAS DO QUOTIDIANO. PENSAMENTOS DO DIA... E DA NOITE. UMA PITADA DE CRÓNICA POLÍTICA, TIRO AOS DARDOS, PITTA SHOARMA E BATATAS FRITAS...
Sábado, 10 de Dezembro de 2011
SUBTILEZAS
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
PALAVRAS
Sentia falta das palavras, dos gestos, do mimo e do sorriso com que pintava o dobrar dos dias, do olhar terno e profundo, convite explícito e aberto a devassar-lhe a alma, em final de tarde, remendo de primavera colado à pressa sobre aquele Dezembro irreconhecível e confuso no jardim de relva bem tratada, com um castanheiro secular, um banco pintado de fresco e uns arcos de pedra do tempo dos romanos, obscenamente grafitados sem acento: “Antonio ama Maria Inês” com o peso do apelido a reforçar a sinceridade da declaração.
Doía-lhe a inconstância da presença. O sobressalto, o tempo, os silêncios. Caprichos do destino a brincar sem cerimónia. Doía-lhe a falta dos seus braços envolvendo-a no reflexo do espelho, pela manhã. E de tanto doer achava, por vezes, que o coração era uma dor do tamanho do mundo, percebendo, afinal de contas, que o amor, era coisa maior que ele…
Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
CÃO PISTEIRO
Só mesmo o amigo Nuno Pires, certamente preocupado com a busca incessante de referências ao bento vai pra dentro por esse mundo fora, conseguiria deitar mão, e olho clínico, a uma notícia destas... Talvez ele, e muitos, não tenham ainda reparado nas profundas alterações operadas neste espaço. Nova imagem, cor, criação de sub-páginas no topo do blog com desenhos, caricaturas, a página do Lusitânia no Facebook, biografia, sítios que falam de nós, outros espaços e entrevistas, ligação a outras redes e mais duas rubricas que se avizinham: Bloco de imagens para pensar e... Piadas curtas. Em face disto, só nos resta ir farejar... umas palavras...
Domingo, 27 de Novembro de 2011
ESPAÇO EM RECONSTRUÇÃO
Autor a trabalhar... Depois do susto do ataque à página do bento-vai-pra-dentro, decidimos mudar radicalmente de imagem e estrutura. Mais textos, mais humor, mais intervenção e reparos sobre o quotidiano, mais sub-páginas e a integração do Lusitânia Online no Facebook no blog. Espaço em reconstrução e a aguardar melhorias para mais logo...
Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
VÍTIMA DA QUINTA
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| http://vtmadaquinta.blogspot.com/2010/04/outras-vitimas-que-nao-foram-da-quinta.html |
Fui Vítima da Quinta! Um blog do Eduardo Penteado Lunardeli que, através do traço caricatural me apanhou algumas características que o espelho teimava em esconder e, generosamente, me emoldurou juntamente com tanta gente boa .
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PÁGINAS
Sim... eu sei... para além das recordações da música do Vítor Espadinha há um desejo comum ao autor e aos leitores: as palavrinhas! Marotas! Andam por aí a saltar ao eixo, mas eu apanho-as! De vez em quando faz bem ao ego receber mimos, desenhos e mensagens de quem lê ou ser confrontado com uma estatística que diz tudo:
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Quase Duzentas e noventa mil páginas visualizadas?? Obrigado a todos! Um excelente incentivo para continuar a escrever.
Sábado, 19 de Novembro de 2011
BANDA DESENHADA
| Carregar na imagem para aumentar |
Outra surpresa, outro gesto de amizade. Desta feita, pela mão do Nuno Pires. Cansados que estamos de ler contas para pagar, bulas de medicamentos e notícias sobre a crise, há que levantar o ânimo e pousar a vista sobre os textos de humor, de amor, do quotidiano, da pitta-shoarma e batatas fritas e de muita coisinha nova que por aí vem, no bento-vai-pra-dentro...
ESQUISSO
E é quando me faltam as ideias ou que os textos não saem a contento que se manifesta sempre um gesto de amizade, seja pelo incentivo na busca das palavras, uma mensagem ou, como desta vez, no traço firme e generoso do Paulo Fonseca que me tirou umas rugas e, com isso, uns bons vinte anos de cima...
Sábado, 12 de Novembro de 2011
ENTREVISTA COM MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
Retomamos hoje o ciclo de entrevistas com um nome incontornável das letras a quem agradecemos, desde já, a generosidade das suas palavras.
Maria do Rosário Pedreira , nascida em 1959, licenciou-se em Línguas e Literaturas modernas na variante de estudos Franceses e Ingleses pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1981. Foi professora de Português e Francês (durante cinco anos), actividade que a influenciou decisivamente a escrever para um público jovem. Coordenou ainda os serviços da Editora Gradiva, foi directora de publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt/97 e editou os catálogos das exposições temáticas da Expo'98, entre outros.
Iniciou a sua carreira literária em 1996, escrevendo o seu primeiro livro de poesia A Casa e o Cheiro dos Livros, cuja edição se esgotou de imediato. Para esta autora, distinguida com alguns prémios literários, detentora de uma obra diversificada, em prosa, poesia, ensaio e crónica, constituindo a literatura juvenil - grosso da sua ficção - um veículo de transmissão de valores humanos e culturais, a casa pode ser considerada como um mundo onde se encerra tudo aquilo que vai perdurando, mesmo que sob a forma da memória,
Actualmente desempenha funções editoriais no grupo Leya onde dá asas ao seu reconhecido talento para a descoberta e divulgação de novos valores. É sobre esta sua vertente que conduzimos a entrevista de forma a fornecer pistas para quem lê e para quem escreve sobre a busca de sentido no interminável alinhavar de letras. Resta-nos agradecer a amabilidade e disponibilidade da autora/editora que tão gentilmente acedeu ao nosso pedido.
1 – Tendo desenvolvido uma intensa actividade literária e encontrando-se, agora, ligada ao mercado editorial, vê alguns pontos de contacto entre estes dois mundos? O que tem um a aprender com o outro? É uma mais valia para o escritor? Para o editor? Ou não há vantagem em conhecer “o outro lado”?
Na verdade, a minha actividade literária foi quase sempre simultânea à editorial: entrei no mundo da edição em 1987,embora só me tenha tornado editora em 1998 (que é como tem de ser – embora hoje haja editores que nunca foram assistentes nem saibam o que é rever umas provas). Ainda que tenha começado a escrever poesia muito cedo, só tive livros publicados nos anos 90, já passava dos 35 anos. E isso tem que ver seguramente com o grau de exigência que desenvolvi no meio editorial – só deixar sair os meus livros quando estava absolutamente convencida de que não iria ser capaz de fazer melhor e, por outro lado, quando outros (uma espécie de editores) me disseram que o que escrevia tinha qualidade e merecia a publicação. Mas também a minha actividade literária facilitou o meu contacto com os autores portugueses. Sempre que lhes sugeria alterações, por exemplo, o facto de eles saberem que eu própria escrevia e tinha livros publicados parecia dar uma qualquer garantia de que eu sabia o que estava a dizer. Houve vantagens, evidentemente, em conhecer os dois lados. A desvantagem maior foi ter deixado praticamente de escrever por ter sempre a cabeça cheia de livros de outras pessoas.
2 – Como é escolher um manuscrito? Tenta, de alguma forma, identificar um estilo de autor? “Fareja” o potencial literário e comercial? Quais os critérios que a ajudam a definir a “qualidade” para o grupo Leya?
Seleccionar um original para publicação é sobretudo ler muitos medíocres ou sofríveis à procura de um bom (em suma, uma grande teimosia). Mas, quando se encontra um bom, isso sente-se, não é coisa que se possa definir. No entanto, a sensação mais comum é a da descoberta de uma forma diferente de escrever, de uma voz nova (porque a língua é de todos e fica cada vez mais difícil reinventá-la). Mas há também escritas muito límpidas e directas que fazem excelentes livros, apostando numa estrutura fora do comum em detrimento do trabalho de linguagem. Tudo isto e outras coisas acabam por definir as marcas do autor ao fim de uns quantos livros publicados. Quanto a potencial comercial, é sempre muito difícil conseguir grandes vendas num primeiro livro: as pessoas raramente dão atenção às estreias, a menos que, por um acaso feliz, de repente toda a gente se ponha a falar de um autor, como aconteceu com o José Luís Peixoto quando começou. Por isso, acabo por estar mais atenta à qualidade do que ao potencial comercial. Em literatura, se o autor for realmente bom, mais cedo ou mais tarde – depois de alguns prémios, de preferência – os seus livros começarão a ter vendas significativas. Basta ver o que aconteceu a valter hugo mãe recentemente (o seu primeiro romance vendeu apenas cerca de mil exemplares quando saiu). Há, mesmo assim, que dizer que às vezes existem livros de qualidade que não publico por crer que o número de leitores que o apreciariam não justifica o risco e os custos da edição; mas são poucos, na verdade.
3 – Existe um estilo de escrita tipicamente português ou europeu? Ou, com a globalização e todas as ferramentas de comunicação que nos tornam vizinhos à força, entende que a escrita é, na actualidade, uma mera tradução trans-nacional de um mesmo estilo/tendência/literatura popular?
Na chamada literatura para mulheres (romance, por oposição a novel) e em alguma outra ficção comercial (histórias de vampiros, thrillers e certos policiais, mas não todos) não se consegue de facto distinguir a nacionalidade do autor, a não ser, talvez, se este situar sempre os enredos no respectivo país. Digamos que a linguagem utilizada neste género de ficção é mais global e simultaneamente mais pobre (quase me apetece dizer que nestes livros não existe um «estilo»). Mas, na verdadeira literatura, todos os autores são diferentes, independentemente do país donde sejam, e pode haver dois autores tão diferentes como Gonçalo Tavares e João Tordo a escreverem na mesma época e no mesmo país. Na América Latina, o realismo mágico constituiu de facto uma espécie de «estilo de grupo», de estilo típico de uma região, mas hoje a literatura desses países nada tem já que ver com García Márquez ou Juan Rulfo e os livros de alguns mexicanos ou chilenos podiam ter sido escritos por europeus (li há uns tempos um romance do argentino Andrés Neumann e senti-me a ler um livro alemão ou russo). Enfim, o estilo não é uma questão de país ou continente, embora isso não queira dizer que, por não conseguirmos identificar o país do autor pelo seu estilo, todos os autores escrevam hoje da mesmíssima maneira.
4 – Ultrapassando um pouco as questões comerciais, a editora tenta formar um pouco a sociedade? Vêem-se como uma entidade que tenta ter um papel interventor na sociedade?
Não posso falar em nome da empresa, evidentemente, e acredito que um grupo com tantos editores (de vários géneros e com idades muito diferentes) inclua visões bastante distintas sobre os objectivos do livro, da leitura e da edição. Nem sequer posso afirmar que é pior editor o que se preocupa apenas com o entretenimento – e gera receitas importantes ao «patrão» – do que aquele que vive obcecado com a formação intelectual e não só não gera receitas, como publica apenas para uma elite. Acredito, mesmo assim, que o livro foi até há muito pouco tempo (antes da Internet e da TV Cabo, por exemplo) praticamente a única maneira de conhecermos outros mundos e entendermos a mentalidade das pessoas. E não falo especialmente de ensaio, pois, tanto ou mais do que o ensaio, a literatura tem a capacidade de nos dar a ver realidades longínquas ou desconhecidas através de uma história com personagens inventadas (nos policiais, por exemplo, aprende-se imenso sobre a sociedade). Todos os romances de qualidade são, nessa medida, formadores – e os editores que os seleccionam têm um papel importante nesta formação, a par dos professores, dos jornalistas, das famílias. Porém, tendo-se a edição tornado nos últimos anos uma verdadeira indústria (saem 40 livros por dia em Portugal!), é muito difícil evitar a publicação de livros mal escritos e com deficiências estruturais ou esteticamente deploráveis (logo, que nada farão pelo desenvolvimento cultural do leitor) se o autor for alguém conhecido e, portanto, um potencial sucesso de vendas. A única coisa que me consola é que as receitas desse tipo de livros às vezes servem para publicar outros que se vendem bem menos, mas podem, efectivamente, oferecer qualquer coisa de positivo aos leitores em termos formativos.
5 – Uma última questão: Na situação actual (crise de valores, económica, social, cultural) entende que o equilíbrio se encontrará, algures, no desempenho de um papel de maior relevância da literatura e da cultura em geral ou, pelo contrário, esse papel estará irremediavelmente condenado pela ditadura financeira?
Dizem que por vezes é preciso que as coisas batam no fundo para as nações e as pessoas acordarem para os problemas. Se assim for, podemos aprender muito com esta crise que atravessamos. Os financeiros, no fundo, são os grandes culpados dela – e talvez isso ajude, no futuro, a relativizar a sua importância. Gilles Deleuze acreditava ser possível haver um período de ouro a seguir a um período pobre (em termos artísticos). Vamos dar-lhe razão e ser optimistas: é muitas vezes nas piores condições e nos piores momentos que os criadores produzem a sua obra-prima. É possível que os constrangimentos (económicos, logo sociais) que se vivem hoje levem de facto a um maior envolvimento dos cidadãos e a uma maior necessidade de estes se informarem. Até há uns anos, os mais jovens nem sequer iam votar quando atingiam a maioridade, hoje manifestam-se pelo direito a um emprego nas nossas ruas. Talvez daqui nasça uma geração mais culta e interessada, em lugar de uma geração acomodada que não tem de lutar pelas coisas. Mas, claro, ainda haverá muitos gestores em todos os ramos que tentarão reduzir a realidade a números. Não é de um dia para o outro que se perdem os (maus) hábitos…
Terça-feira, 8 de Novembro de 2011
DORMIR
A estrada estendia-se à sua frente, lenta, vazia, a deixar-se tomar de curvas com o verão a esgueirar-se de fininho em final de tarde, breve, como breves eram as palavras e o tempo a amaciar a melancolia suspensa da certeza milimétrica de que o céu era sempre azul e que à noite se enchia de estrelas. Os dias são o que fazemos deles, e ele, sem jeito para domador, alinhando na inércia com que os deixava tomar o freio no vazio da consciência, em exílio absoluto, escondendo-se na desconcertante imutabilidade do mundo.
Adivinhava-lhe o cheiro gravado na pele, os gestos, as mãos finas de dedos esguios a enrolar-lhe o cabelo com carinho, insistência e outras coisas que o coração sussurrava e o corpo não esquecia...
Sempre desprezara os caprichos do tempo, marcas, dores ou achaques da idade. Quase não dormia, dormir era morrer um pouco no travesseiro, sobrando-lhe, assim,tempo para recordar. Por isso naquele final de tarde pegara no carro para uma viagem sem sentido ou à procura dele. Prego a fundo, uma dose de amnésia e duas de desapego , cavaleiro do asfalto em demanda da rainha sem saber onde desenbocava aquela harmonia, as luzes e os murmúrios que ouvia agora.
Afivelara um sorriso amarelo mal a vira. – És bela! Imaginava-te de capuz e segadeira… Não terás vindo cedo demais para me levar?
- Sou capaz!... Se calhar distraí-me, mas já que cá estou…
- Deixem passar! Afastem-se por favor! – Maqueiros e paramédicos furavam pela multidão para chegar com rapidez ao local do acidente.
Sentia-lhe ainda o cheiro, as carícias e o beijo a escorregar até ao seu gosto… Entreabriu os olhos e apercebeu-se dos pontinhos brilhantes entretidos a acender o céu, estirou-se com dificudade entre o lençol apertado e afundou a cabeça no travesseiro…
Domingo, 30 de Outubro de 2011
HALLOWEEN
Às vezes vale a pena escorregar pelo “nonsense” e levar o país a brincar. Sem traumas, sem densidades literárias, sem pretensiosismos... para bom entendedor...
Era uma vez… Um país de faz de conta, sem cheta, rumo ou moral. Sombra dúbia do passado, refém da Nossa Senhora, de milagres e nevoeiro. No leme, um bolo-rei. À retranca, a dar passos , um coelho pouco seguro numa casa em ruínas sem se ver portas janelas ou nesga de futuro.
- “ Lá vai a nau Catrineta que tem muito que contar”…
E assim, perdidos no fingimento entre uma mine, o dedinho em riste e o golo do Benfica, lá ia o povo cantando e rindo , seguindo pelo desvio… colossal!
Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
VOAR
- Apeteces-me! – A desenhar-se-lhe nos lábios, sussurro solto e certeiro agitando a melancolia das memórias, dúvidas e hesitações com que se mirava, a medo, ao espelho, fugindo do reflexo baço da existência, qual pássaro de asa curta a ensaiar o vôo.
- Apeteces-me! – A tocar-lhe a pele, onde, numa obediência cega e gramatical, as palavras se diziam e deixavam dizer, impregnadas de cheiro e entrega, em território livre com o amor à redea solta a baixar a guarda e sem saber que nome dar a tanta intensidade.
- Apeteces-me! – E ele a regressar à doçura com que a acarinhava com palavras firmes... estou…tenho…devo… quero... tão sequencialmente doce, a terminar num baraço irremediavelmente fiel à singeleza do encanto próprio da inocência da criança e que lhe fizera, lenta e paulatinamente, perceber que era no perfume e leveza das mesmas que poderia voar ou, simplesmente, encontrar forma de existir...
Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
A PONTE
E cá estamos de novo após prolongada ausência. Não o fazemos propositadamente ou por uma qualquer obscura técnica de marketing, mas, tão só, pelo respeito que nos merecem os leitores a quem queremos sempre, com denodo, surpreender ou brindar com o melhor. Seja pela variedade de registos, pelo humor amargo ou, simplesmente, para falar de amor, a ideia fundamental é sempre a mesma: semear algumas palavras com intensidade.
Do mundo conhecia-lhe apenas o peso carregado em ombros, moldado na plasticidade da palavra com que brindava os dias. O destino a fazer-se cúmplice e a vontade a desenhar-se no corpo e a perder-se na curva doce do seu olhar, numa breve pausa, percebendo , então, num flash de memória da infância medida na explícita aritmética da Dona Rute onde dividia amiúde cestos por laranjas com resto zero, coleccionava reis e rios de Portugal no caderno de história e geografia ou no manifesto pavor de alturas que o impedia de atravessar pontes , que o melhor de tudo acontecia nos intervalos, com a vida a olhar de soslaio e a deslizar enquanto a morte se distraía, que o tempo era tão antigo e disperso como as naus para a Índia, que ganhar o mundo era levantar os olhos do chão, medir a distância em sonhos e sorrisos, sentir-lhe a pele com cheiro de giesta e urze no final da tarde e render-se àquele olhar a desnudar-lhe alma e uma vontade imensa de descobrir se o amor morava para lá daquela ponte rasgada sobre as margens de Neruda.
Momento tão intenso quanto breve, o tempo suficiente de lhe ler na profundidade do olhar o convite para a travessia da ponte e ele, esboçando um sorriso sôfrego e inocente, indicando que, sem se dar conta, já levava mais de meio caminho feito…
Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
ENTREVISTA COM CRISTINA CARVALHO
De volta às entrevistas após prolongada ausência. Uma presença e um equilíbrio que se pretendem, a partir de agora, constantes. E de volta com a generosidade e a afabilidade de uma autora com uma extraordinária capacidade de efabulação que nos faz ver o mundo de forma solta e com um forte apelo à nossa capacidade de sonhar.
Agradecendo , desde já, a sua presença, segue-se então uma pequena nota biográfica e as cinco questões a que Cristina Carvalho teve a amabilidade de responder e enriquecer este espaço.
Maria Cristina Nunes da Gama Carvalho Meira da Cunha (Lisboa, 10 de Novembro de 1949) é uma escritora portuguesa.
Publicou o seu primeiro livro, “Até Já Não É Adeus” em 1989. É filha do professor e poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e da escritora Natália Nunes. Publicou contos em várias revistas e jornais, nomeadamente no Jornal de Letras e Revista Egoista. Publica em Março de 2009 o romance “O Gato de Uppsala”, na Sextante Editora.Trata-se de uma história de amor entre dois jovens, Elvis e Agnetta, uma história feliz de iniciação, de descoberta e sonho: a viagem, a pé, desde Uppsala até Estocolmo, movidos pelo desejo de descobrir o mistério do mar e de ver uma das maravilhas do seu tempo – o grande e rico Vasa – navio de guerra mandado construir por Gustavus II Adolphus, rei da Suécia. Quis o destino que, no dia 10 de Agosto de 1628, dia da viagem inaugural, a vida de Elvis e Agnetta fosse salva por um gato.
Maria Cristina Nunes da Gama Carvalho Meira da Cunha (Lisboa, 10 de Novembro de 1949) é uma escritora portuguesa.
Publicou o seu primeiro livro, “Até Já Não É Adeus” em 1989. É filha do professor e poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e da escritora Natália Nunes. Publicou contos em várias revistas e jornais, nomeadamente no Jornal de Letras e Revista Egoista. Publica em Março de 2009 o romance “O Gato de Uppsala”, na Sextante Editora.Trata-se de uma história de amor entre dois jovens, Elvis e Agnetta, uma história feliz de iniciação, de descoberta e sonho: a viagem, a pé, desde Uppsala até Estocolmo, movidos pelo desejo de descobrir o mistério do mar e de ver uma das maravilhas do seu tempo – o grande e rico Vasa – navio de guerra mandado construir por Gustavus II Adolphus, rei da Suécia. Quis o destino que, no dia 10 de Agosto de 1628, dia da viagem inaugural, a vida de Elvis e Agnetta fosse salva por um gato.
1 – Esta pergunta é incontornável: O seu livro Nocturno, o romance de Chopin foi incluído nas listas do Plano Nacional de Leitura de 2011 como leitura autónoma recomendada para o ensino secundário. Que mudanças se operaram na sua obra com essa inclusão? E que balanço faz das actividades do PNL no incremento e criação de hábtos de leitura em Portugal.
Cristina Carvalho - É o meu segundo livro no Plano Nacional de Leitura. O ano passado, 2010, entrou O Gato de Uppsala. Na minha cabeça, sim, algumas mudanças se verificaram. Com dois livros já no PNL penso que, realmente, posso ter alguma "utilidade" para os jovens leitores. Penso que posso contribuir de alguma forma para o despertar da leitura, penso que pode ser um caminho a seguir, penso que essa aceitação me deu um imenso prazer e uma imensa vontade de continuar nesta linha embora continue também a escrever outro tipo de romance mais para adultos, digamos assim.
O Plano Nacional de Leitura é um programa de extrema e elevadíssima importância ao nível escolar desde as primeiras aprendizagens, de um primeiro contacto com o livro até ao final da escolaridade. Há livros recomendados para todas as idades e para todos os níveis de conhecimento. É um grupo de trabalho conhecedor, moderno e dinâmico, com uma extraordinária responsabilidade e que, a meu ver, tem obtido resultados verdadeiramente excepcionais. Tenho visitado dezenas de escolas com alunos de várias idades e de vários graus de ensino, tenho conversado com eles, respondo às suas questões sobre os meus livros e é sempre um prazer renovado ter esse contacto com pessoas tão novas e algumas tão interessadas. As bibliotecas escolares, regra geral, são espaços muito bons, amplos, confortáveis, bem organizados - o acesso à informação hoje totalmente informatizada - cheios de livros portugueses e estrangeiros.
Não estou a querer dizer que tudo é "um mar de rosas" e que tudo funciona "às mil maravilhas"! Estou a querer dizer que longe vão os tempos mais escurecidos; longe vão os tempos duma remota divisão com um armário e meia dúzia de livros a aguardar que algum "cocabichinhos" os lesse; longe vão os tempos dum desinteresse continuado e triste quer pela leitura quer pelos espaços de vida que a leitura proporciona.
Para toda esta claridade e eficácia, sem dúvida alguma e para além do esforço dos professores, está o Plano Nacional de Leitura que queremos cada vez mais atual e permanente.
2 – Em ,O Gato de Uppsala, Um gato sem nome, uma história de amor e o naufrágio de um navio sueco (Vasa) constituem os elementos chave para, segundo palavras suas, construir “um romancezinho a partir do qual se pode explicar o mundo”. É esse o papel da literatura? Explicar o mundo? Deixar pistas para aquilo que não vemos no dia-a-dia?
Cristina Carvalho - Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. A vida pode ser experimentada a cada linha que se lê e sempre diferente, vista por diversos olhares.
O Gato de Uppsala, quem o leu, sabe que reuniu metaforicamente, as três principais fases da vida, quer humana, quer animal: o nascimento, simbolizado pela caminhada de Kiruna até Uppsala; a juventude e o encontro com a morte; a idade adulta depois de várias e inesquecíveis experiências pelas quais toda a gente devia passar antes de se aventurar em águas mais profundas. O navio Vasa simboliza, na minha história, a idade adulta, a conquista, o ganho e a perda, a alegria e o desgoverno, a paz e a guerra.
Se o escritor consegue deixar pistas para o que não se vê dia a dia, isso depende. Claramente que o "dia a dia" é subjetivo. O que eu vejo, "tu" não vês! O que eu quero ver, não quero que "tu" vejas, senão como vou conseguir explicar-te?
Conheço e toda a gente conhece, literatura cheia de preconceitos, clichés e lugares comuns. Conheço também literatura absolutamente impenetrável para o leitor comum, quase impossível de descodificar. Nada deste tipo de livros me interessa. Uns porque são "eu e tu e tu e eu" e não passam daí e outros porque não se consegue chegar "lá!"
Para chegarmos a conceitos complexos como todos os que a vida oferece, temos sempre de partir da aparente simplicidade.
3 – No seu último livro Lusco-fusco brinda-nos com uma bela história, com Gnomos, fadas, sereias e uma extraordinária capacidade de efabulação. À luz dos acontecimetos actuais considera que o ser humano perdeu essa capacidade de efabulação e de acreditar, principalmente, naquilo que não vemos?
Cristina Carvalho - Não pretendo retrocessos, regressos ao passado, às histórias de fadas, aos anõezinhos da floresta, às bruxas e temas deste género, embora estas histórias sejam interessantíssimas e, se quisermos, sempre atuais. Há uma idade nova, uma época nova, conceitos totalmente diferentes. Por exemplo, aqui há uns anos, surgiram no mercado uns bonecos horrendos e temíveis Os Master do Universo. Eram rijos, de cores atrativas e com eles arquitetava-se as mais inconcebíveis aventuras. Isso também é muito interessante mas é preciso, antes de mais, explicar um certo número de coisas às crianças sempre com linguagem simplificada. Também as histórias de fadas boas e fadas más e bruxas e gigantes eram assustadoras, contudo, maravilhosas. Uma pessoa ficava ali presa aqueles enredos dias e dias e dias.
Não! Não acredito que os homens tenham perdido essa capacidade de imaginar! Hoje sonham coisas diferentes, talvez. Isto quem sonha, claro! Porque todos nós sabemos o deserto que existe, atualmente, entre muitos pais e filhos: vá, vai ver um filme ou vai lá jogar um bocadinho que é para ires para a cama ou agora jantas, lavas os dentes e cama que amanhã tens de te levantar muito cedo. Isto não é exagero. É assim mesmo. Não há tempo para histórias. Quase que não há tempo para olhares nem que sejam de soslaio.
Era muito bom que Lusco-Fusco pudesse transformar alguma coisa. Nem que fosse por um período. É uma história que pode ser lida por qualquer pessoa em qualquer idade. Está lá escrita a vida toda.
4 – Lusco-fusco fala do mundo dos espíritos da Natureza acabando, também ela, por se tornar uma personagem. Natureza essa que já detinha, também, um papel forte em O gato deUppsala. É esse o verdadeiro amor? O amor pela Natureza?
Cristina Carvalho - Não faço a mínima ideia o que é o verdadeiro amor. Ninguém sabe o que é o verdadeiro amor. Ninguém. Essa força de sentimentos são clarões, são relâmpagos fugazes, hoje é assim, amanhã pode não ser. Enfim, não é esta a resposta que o Luís pretende, penso eu. O Luís quer que eu fale do amor pela Natureza e é isso que lhe vou dizer como já disse anteriormente e parafraseando o meu pai : A Natureza sou eu. Somos nós, humanidade, os únicos capazes de a compreender e de a amar a ela, Natureza. Sento-me numa pedra ao fim do dia, cruzo os braços no colo e olho para a fina fita do horizonte tentando compreendê-la no seu todo incompreensível. Nunca chegaremos lá, mas somos os únicos que tentamos alcançá-la porque todos os outros, já lá estão.
5 – Uma última questão, mais leve e em pleno desconcerto com o título de um dos seus livros: Considera que "escrever é um prazer, uma alegria, e não é nada trágico ou doloroso” assim sendo, poderemos afirmar que o processo criativo é leve e que o tempo que medeia entre cada livro é um… Até já não é Adeus ?
Cristina Carvalho - O que eu quis dizer com essa frase é que, para mim, escrever histórias é, realmente, um prazer. Não quero dizer com isto que seja fácil ou rápido. Não. Não é fácil nem é rápido. E não é trágico nem doloroso, claro que não! Aliás, não conheço nenhum escritor que sofra horrores para escrever o livro. E conheço bastantes escritores. Pode ser um processo mais pensado, mais lento, pode dar muito "trabalho" e se quiser, alguma "dor" mas uma pessoa escreve, pinta, desenha, fotografa, come, bebe porque sente essa necessidade, não é? É uma condição da vida como outra qualquer. Eu tenho de escrever histórias. Essa é uma certeza da minha vida. E sei onde quero ir e também sei que tenho uma nave espacial à minha espera em cada esquina que dobro.
Sábado, 17 de Setembro de 2011
THE PRINTED BLOG
Faz tempo que prometemos novidades para breve, o que mereceu reparos de alguns leitores sobre a elasticidade do nosso conceito de “breve”… Mea Culpa! Mas agora este espaço voltou a entrar nos eixos. Algumas palavras já se encontram acantonadas em parágrafos com vista à publicação, outras encontram-se na “The Printed Blog” . Publicada em Portugal sob licença da sua congénere americana, a revista reuniu alguns nomes representativos da blogosfera e não só, para dissertar sob o tema: “ o nosso papel ”. Ana Bacalhau, Edson Athayde, Eduardo Pitta, Fernando Alvim, Helena Sacadura Cabral, Lauro António e muitos outros, entre os quais, o autor destas singelas linhas. Por motivos editoriais a crónica não pode ser publicada no blog, por isso, façam favor de comprar a revista de excelente grafismo e qualidade conceptual acima da média e divirtam-se, entre outras coisas, com a desconcertante crónica sobre a banca e um gerente … sui generis…
Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011
O RETORNO
E pronto! Um verão com mau feitio, envergonhado e soluçante e o tempo, invejoso, a sussurrar a brevidade da existência. Dois dias para a vida, três para o carnaval e um corredor aberto, na chapa do fotógrafo, para as férias. O filme já está na exibição da ficha técnica. Acenderam-se as luzes e cerraram-se as cortinas. O regresso às palavrinhas segue muito, muito em breve... E com novidades...
Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011
CONTAR ESTRELAS
De volta às letras, parágrafos e afins desbravando novos caminhos e projectos com valentia. Por ora um texto pequenino e singelo como singela é a vida e a necessidade pueril de contar estrelas...
Aprendera que a vida corria a várias velocidades, especialmente na idade adulta, em quarta a fundo, quando regressava à marcha lenta e engasgada da infância, lá na terra, com o pai a perguntar-lhe o que fazia ele, tão hirto e sério a olhar para o céu.
- Conto as estrelas! - Assim, obscenamente seguro e despido de vaidade. Deves contar deves…nem pró ano sais daí…anda! Mexe-te! Vai lavar os dentes e cama, que elas não fogem. Tens a vida toda para as contar…
- Dois milhões quatrocentas e trinta e duas mil cento e vinte e uma… - Com rigor de contabilista encartado em minudências. O pai cofiou a barba e alternou o olhar desconfiado e prescrutador entre o miúdo e o céu, escuro como breu, pejado de pontos brilhantes que ele iria jurar, ter visto, naquele momento, estarem a sorrir…
Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
ENTREMARES
Às vezes ficamos sem ideias. Outras sem palavras. Este é um momento desses. De vazio total perante o sucedido. Rolando Palma. Trocámos alguns comentários em tempos idos. Simpático, afável, generoso. Encontrei-o agora e perdi-o. Sem palavras...
Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
ENSEMBLE SONG
São jovens, bem dispostos e cheios de gana. Semínimas, colcheias, oitavas e compassos são segredos desvendados na formação musical , no trabalho e na dedicação, daí resultando um conjunto equilibrado, com ritmo, de voz pura e cristalina escorado na autoridade dos metais e na segurança dos restantes instrumentos. Ah... e um dos elementos tem a particularidade de ser meu amigo e colega de trabalho...
A não perder... aqui!
Terça-feira, 26 de Julho de 2011
EDUARDO PITTA - A ENTREVISTA
Preenchemos o post de hoje com mais uma entrevista a gente ligada ao mundo das letras. Eduardo Pitta, cuja presença marcante e multifacetada no panorama literário reflecte , de modo directo e sem hesitações, um homem sem papas na língua, frontal, justo, de personalidade forte e grande capacidade de análise do quotidiano e que, por isso mesmo, veio enriquecer o nosso espaço.
Resta-nos agradecer a generosidade e disponibilidade do autor e ficar a conhecê-lo um pouco melhor através da nota biográfica da sua página oficial e das nossas cinco perguntas da praxe.
EDUARDO PITTA é um poeta, escritor e ensaísta português. Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2010 publicou oito livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, cinco volumes de ensaio e crítica e um diário veneziano. Os títulos mais recentes são o romance Cidade Proibida (2007), a colectânea de ensaios Aula de Poesia (2010) e o volume de poesia Desobediência (2011). Fractura (2003), breve ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, foi considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Actualmente escreve crítica literária no jornal PÚBLICO e é colunista da revista LER. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura.
1 - “(…) Brunetière apresentou o género literário como um organismo que perfaz todo o ciclo vital: nasce, desenvolve-se, envelhece, morre ou transforma-se” in Teoria da Literatura – Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Tendo em conta todas as variáveis dos nossos dias, o ritmo de vida, as crises, as tendências e as mudanças dos leitores, a poética em que estádio estará hoje? Viva, morta ou em transformação?
Eduardo Pitta – No estádio em que sempre esteve, cumprindo o ciclo da criação. Tendemos a sobrevalorizar o nosso tempo, que no essencial (amor, amizade, guerra, fome, violência) não difere do passado.
2 – A nossa cultura está tingida e fortemente marcada pelo cristianismo, não pela fé ou pelo dogma, mas pela escala de valores, pela atitude de espírito e pelo condicionamento do pensamento (Jean Dubuffet). Sente, de alguma forma, essa pressão? Essa “consanguinidade"?
Eduardo Pitta – Não. Os princípios (cristãos ou outros) são anteriores a essa tradição.
3 – “A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.” In Helena Vasconcelos, Ípsilon, 2007. É aqui que reside o fim último da escrita? Isto é, para além da técnica e mestria literária é na transgressão e subversão de códigos e normas que se agitam as consciências e se transforma o mundo para além dos valores estéticos?
Eduardo Pitta – A mestria literária (como lhe chama) não serve para nada se o autor não tiver nada para dizer. O mesmo se diga da subversão de códigos e normas.
4 – Em “Cidade Proibida” retrata uma Lisboa tradicional, conservadora, preconceituosa onde Rupert e Martim levam uma vida em comum lutando contra certas zonas de sombra, muitas vezes obrigados a agir de forma diferente pelo jogo de aparências. A par do que se passa na sociedade, sente que exista preconceito na escrita? Nas tendências literárias? Ou, pelo contrário, a sua escrita, solta e crua na transgressão e no interdito é, por si só, um desafio ao preconceito?
Eduardo Pitta – Em si mesma, a escrita pode ser preconceituosa ou transgressora. No caso do livro que refere, limito-me a ser objectivo. Dito de outro modo: não podemos relatar situações cruas como se estivessemos a descrever uma missa.
5 – Levando em linha de conta os seus múltiplos pontos de vista na escrita (Poesia, ensaio, crítica) e olhando para a nossa literatura e, em última análise, para a nossa sociedade, acha que há espaço e, sobretudo, necessidade para uma… Fractura?...
Eduardo Pitta – Para ser franco, não percebo o sentido da pergunta. O meu ensaio «Fractura» foi uma encomenda da editora Angelus Novus, na sequência de debates sobre o tema (homossexualidade na literatura portuguesa) organizados por Coimbra Capital da Cultura 2003. Pelos vistos havia necessidade. Em Portugal continua a ser o único título sobre o assunto. E o livro foi adoptado por departamentos de estudos gay e quer de universidades estrangeiras.
Terça-feira, 19 de Julho de 2011
A EUROPA EXPLICADA EM GREGO
É uma necessidade em estado bruto! Esta busca incessante e febril de palavras para lhes moldar o volume, amaciar arestas e contornos e alinhá-las, direitinhas, em frases cheinhas de sentido, ironia, pontos, vírgulas e concordância gramatical. Entre o silêncio prolongado e a verborreia esticada até aos limites da hipérbole não há lugar para concessões ou botão de "turn off" para desligar os nervos, a irritação ou a falta de paciência com o estado das coisas. "Se o mundo fosse bom o dono morava nele"... A afirmação surgiu assim, seca, fria e cúmplice no conformismo envergonhado com o derrotismo longo e obsceno do "estado a que isto chegou" no mural de uma amiga... O mundo tem dono, o senhorio apenas nos deixa viver nele sem pagar renda e nós, ainda assim, não fazemos obras. Deixamos ruir as fundações suportando, a custo, a pintura de fachada explicando a gregos e portugueses que ratings, taxas e resgates são apenas acordes de uma única melodia segundo o modelo alemão: Certinhos, direitinhos e a toque de caixa...
... Revivalismos...
* É um vício... esta minha mania dos segundos sentidos e leitura de entrelinhas...
Sábado, 16 de Julho de 2011
SILENCE
O silêncio em inglês, numa excelente tradução, enquanto não chegam novas palavrinhas...
SILENCE I
In a flutter, the breeze waved him by the window where he spent blank pages, nights, unwrapping silence within words, looking at the stars. Cryptic, death whispered him that to fall into her arms was to live like a star, shining, good rather than bad. There being no sins to atone neither great nor small, he took his soul, ascended to the roof, climbed the railing and let himself go in a breath, in the brightness of silence ...
SILENCE!
Yellowing of worthlessness, jealous of the crude trace of the nurse’s ready finger over the mouth, the board on the wall survived with difficulty, in a precarious balance between gravity and dried glue, slowly slipping imperceptible down the wall, against the installed din of anarchy in the waiting room of the health centre. New, old and so-so, exhibiting silly and noisy pride, wounds, fistulas, infected wounds and other ailments listed as clinical, like war honours of an exhausted life, with effort, in a masochistic Olympiad distributed in patches and deprivation among a Swedish card game in the garden and the endless standing rows on inflamed bunions in search of the first prize of lottery queries. On one hand, a conformal rheumatic brigade where the crest surname or weight man on the edge of the baptismal font with annoying insistence on digging up bags full of empty vials of painkillers and begging the doctor’ signature and sticker in the prescription. The other, a battered middle class mob employed on behalf of others, restless, imprisoned in a nervous and niggling crochet, of soap gossip and a daily existence seeded in a public divorce and inequities of the evil beast, a teacher of the fifth left lane floor, who had taken Nini off the edge, insisting on giving her bad grades and preparing to offer her a year’s disapproval. Some kids stood down on the floor in a relaxed screaming spur the tedium of hours of involuntary incarceration in the room. The doctor, in jangling nerves, hands in the hair amidst reports and credentials, badly slept under the weight of the ornament of the girlfriend’s gift despite wearing an evil face was evident in endless games of waist which were ultimately and generously distributed. He, in a sudden fit of rage caused way more by the weight of the noise than by force of jealousy, burst openly the office door and vomited screams into the silence thus demanding:
- If I hear a fly, a worm or a snail crawling on the tile, I’ll leave, I won’t give further consultations today and there will be no recipes for anyone!
He thrust himself closing the door with a bored bang.
The card on the wall did not resist the appealing laws of physics and crashed into the ground disaggregating in plots of molecular composition.
And then there was silence...
SILENCE II
In the beginning, only the verb, slow, slightly conjugating the verb to love, insinuating itself into pieces, and immediately after, passion taking a written form, the waiting turning into desired naked bodies, standing against the wall, consuming themselves in silence ...
Domingo, 10 de Julho de 2011
KASSFINOL
A internet é um imenso espaço de partilha e colaboração. Uma vez mais voltamos à divulgação de autores do outro lado do oceano. Desta feita uma jovem autora. Vinte e quatro anos, economista, diplomada em tributação, venezuelana e um interesse pela escrita manifestado desde muito cedo. Trata-se de um novo registo abordado neste espaço: novelas que oscilam entre o romântico, o fantástico, humor negro, onde as protagonistas são fortes e deciddidas e vêm com um defeito : Uma vez enamoradas não podem deixar a relação sem sofrimento… Com quatro livros publicados e três por publicar deixamos aqui as respectivas ligações para o blogue, para os livros a publicar e a sinopse da trilogia da invocação.
http://novelasromanticas-kasu.blogspot.com/
1.- ENTRE EL INFIERNO Y LA TIERRA
Sinopsis:
Una misteriosa y alocada historia donde una bruja llamada Alondra, desata el mayor de los desastres amorosos sobre la vida de Angineé, la misma creerá tomar una decisión sobre su futuro, pero ya todo está previsto, nadie puede cambiar lo que le depara, y menos cuando has hecho un pacto de vida con Alondra sin saberlo.
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2.- ENTRE EL CIELO Y LA TIERRA
sinopsis:
A vida le ha demostrado a Sofía que todo no es lo que parece, ella se vera envuelta en el lugar que menos esperaba, el lugar en que nunca pensó llegar, y se dará cuenta que el destino que le preparo su adorada tía Alondra no será el mas indicado, pues esta la emparejo con los seres que mas detesta y a los que mas recelo les tiene... UN ÁNGEL
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2.5.- Relato corto: ENTRE HUMANOS QUE NO LO SON
Sinopsis:
UNA HISTORIA CORTA.... VARIOS CABOS SUELTOS.... DEMASIADAS VIDAS COM PLICADAS.... INUNDADAS DE ALAS Y CUERNOS... ¡Y YO!... SIENDO HUMANA DE NUEVO.
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3.- ENTRE DOS MUNDOS

Sinopsis:
Mientras Amelia intenta vivir en su mundo normal. Aun no esta enterada de que su amado "Ya elegido" la asecha para sumergirla en un lugar que ella solo a leído en sus libros de ficción. El problema es que Amelia no es amante de los animales... Y pronto tendrá que aceptar que será Reina de ellos.
PUBLICACIÓN AGOSTO 2011
LINK VER EL 1ER CAPITULO
http://novelasromanticas-kasu.blogspot.com/2011/06/capitulo-1-libro-3-entre-dos-mundos.html
ESTOS SON LOS LIBROS COMPLETOS DE LA TRILOGIA. A PARTE, UNA HISTORIA CORTA, ROMANTICA, LLAMADA: DECIDISTE TARDE
Sinopsis:
No siempre las cosas terminan con un final feliz. Cuando una mujer ama realmente y no es correspondida las cosas pueden tomar un giro inesperado. A veces para amar hay que ser paciente... Y ser fuerte. Pero... ¿Tu podrías ser fuerte?..... ¿ Podrías ser paciente? Y si ...
Deciden Tarde Amarte.
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
VERDE, CÓDIGO VERDE
Um "cheirinho" daquele que não há meio de ver a luz do dia...
(...) Pousara as mãos sobre os seus ombros por breves instantes e deixara-se escorregar envolvendo-a com os braços. Um beijo no cabelo indisciplinado e um sussurro: O amor navegava à bolina sem capitão, estrelas ou carta de marear numa entrega sem hesitações, sempre por escolha, nunca por renúncia...
Terça-feira, 5 de Julho de 2011
ENTREVISTA A PEDRO ALMEIDA VIEIRA
Regressámos a nova série de entrevistas com gente ligada ao mundo das letras. Desta vez, o escritor e jornalista Pedro Almeida Vieira a quem colocámos as habituais cinco questões. Aos leitores, aconselhamos a visita ao seu site onde, para além da exposição da obra, se podem deliciar com uma original e desconcertante autobiografia. Resta-nos agradecer a disponibilidade e generosidade do escritor bem patente nesta excelente entrevista.
Pedro Almeida Vieira, escritor e jornalista nasceu em Coimbra, em 17 de Novembro de 1969, licenciou-se em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora em 1993. Dois anos mais tarde tornar-se-ia jornalista "free-lancer", com colaborações nos jornais Expresso e Diário de Notícias, bem como nas revistas Forum Ambiente e Grande Reportagem. Em 2003 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Ambiente «Fernando Pereira», pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, pela sua contribuição, como jornalista, para as causas ambientais.
Em 2003 publicou um livro de ensaio de temática ambiental intitulado «O Estrago da Nação». Tendo, no ano seguinte, editado o seu primeiro romance histórico, «Nove Mil Passos», sobre a construção do Aqueduto das Águas Livres. Seguiram-se em 2005, «O Profeta do Castigo Divino», que aborda a vida do jesuíta Gabriel Malagrida e a ascensão política do Marquês de Pombal, em 2006 “ O Vermelho e o Negro, um livro de investigação sobre a floresta e os incêndios em Portugal e em 2009 o regresso ao romance histórico, com «A Mão Esquerda de Deus» - obra finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa. Em 2010 debruçou-se sobre a saída dos jesuítas de Portugal, França e Espanha com o romance Corja Maldita». Em 2011 publicou o primeiro volume de «Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes», um conjunto de 30 narrativas sobre crimes em Portugal até à abolição da pena de morte. Encontra-se também a preparar uma edição actualizada da obra «O Estudante de Coimbra», publicada em 1840 e 1841 por Guilherme Centazzi, o pioneiro do romance português. Tem ainda em preparação um ensaio sobre censura e crítica literário no período do barroco.
1 - O que leva um jornalista a transpor a fronteira da escrita literária? Que fascínio exerce esse tipo de escrita sobre a factualidade e objectividade? É fácil manter a separação das águas?
Talvez a mesma coisa que também levou um licenciado em Educação Física, como o Gonçalo M. Tavares, a escrever ficção. Ou outro qualquer escritor com uma qualquer profissão. Respondo assim para destacar que não são as profissões que determinam se alguém «transpõe» ou se «transpõe» para a escrita literária. Sobre o facto de ser – ou ter sido – jornalista, talvez possa ter ajudado a encontrar um ritmo, a pensar na forma de pesquisar e arrumar as ideias antes do acto da escrita. Mas tudo o resto sai da imaginação, da criatividade e do trabalho. Posto assim, claro que é fácil separar as águas; difícil é escrever, ou tentar escrever, um bom romance.
2 - A escrita criativa ou literária tende a ser mais livre que a joranalística. Contudo, no romance com afinidades históricas há pesquisa, fontes, cânones e princípios a que não se pode escapar. Quando escreve sente-se, de alguma forma, preso nesse espartilho?
Não é um espartilho, são as «regras do jogo». Num romance, mesmo de factos contemporâneos, o escritor desafia o leitor, «dizendo-lhe»: faz de conta que isto é verdade, sabendo ambos que é ficção. A partir daqui, o único e hercúleo compromisso do escritor é não abusar dessa combinação, que só na aparência lhe dá liberdade. Num romance do género histórico aparentemente até poderia haver mais liberdade, porque só uma pequena parte dos leitores tem conhecimentos para encontrar anacronismos ou erros históricos. Mas sou apologista de que o romancista não deve subverter a História – a menos que o assuma desde o início. Ou melhor dizendo, pode ficcionar em torno da História – até porque há muitas partes obscuras –, mas sem violentar os factos históricos comprovados nem tão-pouco cometer anacronismos ou relatar situações completamente descontextualizadas da época retratada. Diga-se que nem todos os romancistas do género histórico fazem isso, porque dá muito trabalho.
3 - O que o fascina mais no romance histórico? A elaboração da trama, o desenvolvimento e densidade de personagens e ambientes? Ou , acima de tudo, o aturado trabalho de pesquisa e investigação, estudos e consulta de fontes para a realização da obra?
Não me sinto fascinado pelo romance histórico. Sinto-me fascinado por boas histórias, pelo passado – porque o passado ajuda a compreender o presente e a perspectivar o futuro –, por me permitir «viajar» no tempo e por outras vivências. Se até agora escrevi romances do género histórico – mas o último, «Corja Maldita» até subverte o género –, não é por ser mais fácil; é exactamente por ser mais difícil, até porque vou sempre para além da História. Em todos os meus romances há muita pesquisa, sem dúvida: e isso é uma parte que me agrada. Mas a parte da criação é a mais interessante, bem como a escolha do narrador e da estrutura do romance. De resto, é preciso vincar que não há grandes diferenças entre escrever um romance de factos contemporâneos e um romance do género históricos. Em ambos os casos é preciso sobretudo imaginação e criatividade.
4 - “Crime e castigo no país de brandos costumes” ...lendo o seu livro, uma selecção de narrativas sobre crimes passionais, banditismo e associações criminosas, homícios diversos e crimes contra a fé , à luz dos acontecimetos e sentenças judiciais da actualidade, mantém-se o problema ou estamos hoje mais tolerantes e impotentes face ao crime?
O mal está na natureza humana, não propriamente na época em que se vive. Aquilo que pode eventualmente mudar é a consciência colectiva, que é uma coisa muito ambígua e talvez corporizada pelo Estado. Nesse aspecto, o Estado tem evoluído para uma postura mais tolerante: agora já não temos a pena de morte em Portugal, não há prisão perpétuas, nem degredo nem trabalhos forçados, nem tortura para apurar a «verdade», como sucedeu até ao século XIX. Sobretudo até meados do século XIX, o Estado era sobretudo justiceiro, o que implicava a utilização de castigos e formas de chegar ao culpado que hoje nos escandalizam. E, claro, havia também o fundamentalismo religioso. Mas os crimes mais hediondos são tão graves agora como eram há séculos. E só não são mais, talvez porque o Estado é mais omnipresente na salvaguarda e protecção dos cidadãos.
5 - Uma última questão, mais ligeira e armadilhada. “A Mão Esquerda de Deus é um romance que questiona princípios e valores da natureza humana, cenários de intolerância, hipocrisia e maldade”. Deus escreve direito por linhas tortas, mas é canhoto? A alma humana é perversa e Deus assiste impávido e sereno? Ou é apenas bode expiatório e não devia ser chamado para estas contas?
Não lhe sei responder a essa questão. Pensei muito nessas questões enquanto escrevia esse romance. E isso transparece no próprio protagonista, Juan (ou Alonso) Perez de Saavedra, cuja biografia e formas de pensar são exclusivamente uma completa criação minha, pois nem se sabe ao certo se ele existiu (são as tais partes obscuras da História que referi atrás). E assim, quem ler esse romance compreenderá que, se Perez de Saavedra «viveu» tudo aquilo que relata e não conseguiu compreender Deus, então eu também não consigo.
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