terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

INCLUSÃO SOCIAL


O texto de hoje faz parte de uma iniciativa da Fábrica de Letras sobre a temática da Velhice. O escriba optou por reutilizar um post de 2009 não por falta de matéria, mas porque esta se mantém bem actual. Não pretende ser um ataque a nenhum extracto social, apenas põem a nu um flagelo global fruto do rumo de uma sociedade virada para o consumo e para a imagem, totalmente desprovida de valores. A cena desenvolve-se numa família de classe média na periferia de Lisboa.

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Cravou mais um prego na cruz do crédito bancário.

Fiat Punto, novinho em folha e reluzente, estacionado à porta do prédio rabiscado de graffitis.

Puxou os lençóis do cartão visa até ao topo e "ala que se faz tarde" para a rodagenzinha da viatura até ao Algarve, numas mini-férias recheadas de prazer.

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- António! O teu pai está doente! Tens que o levar ao médico!

- Logo agora!? Irra que o "velho" arranja sempre boas alturas para ficar doente!

"Não o vou meter no carro... ainda se vomita e suja-me o carro todo. Chamo mas é os bombeiros que eles levam-no."

Nem esperaram pelo cumprimento dos formalismos. Mal o homem deu entrada na triagem, assim que as portas se fecharam atrás dos maqueiros, apanharam um táxi, rapidamente e em força, com destino a casa. Um Algarve divertido esperava poreles.

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A semana passou a correr. Queimados da praia, cansados da viagem, foi só o tempo de ir passear o cão que estava "à rasca" para mijar e ir buscar "o velho" ao hospital.

Sim, era o seu pai... mas era um estorvo! A reforma que lhe esmifravam mensalmente nos correios, à força de botar o indicador direito no recibo, mal dava para os medicamentos. Queriam sair e não podiam. Adoecia a torto e a direito. Não tinham dinheiro para o pôr no lar... grande bico de obra!

"Agora chego lá e invento a desculpa que tivemos uma gastrointerite e ficámos sem telemóvel... Também... que se lixe.. o"gajo" ali ainda teve cama, mesa e roupa lavada... e ainda andou no trolaró com os outros... Portanto! Não se queixe.

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Já em casa, "o velho"manifestou a sua vontade em ir ao jardim. Uns meneios de cabeça, uns gestos e uns sons guturais era quanto bastava para exprimir as suas vontades. Desabituara-se de falar. Fosse pela trombose, fosse pela impaciência e má vontade da família em tentar entendê-lo, desabituara-se de falar.

Lá fora, vagarosamente, dirigiu-se ao muro de pedra sentando-se junto dos demais, apanhando as últimas réstias de um sol que teimava em não fugir de si...

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

VINDA - SIM. ERA BONITA...

(Paula Rego)




Auscultadas as opniões do público decidiu, o escriba, dar seguimento à história da Vinda. Porventura, não é o final libertador ou libertário que todos esperavam, mas é, isso sim, o mais verosímil e, em certos pontos, o mais próximo de uma certa realidade que ainda perdura.
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Ali, naquele cantinho bombeado a oitenta e cinco batimentos por minuto, ainda soçobrava, esbracejante, uma réstea de amor próprio, náufrago, no meio de dúvidas e questões. A frase caíra como uma facada. Desabituara-se de esperar uma palavra de conforto, quanto muito, uma imperativa ou interrogativa, nunca uma exclamação sincera, ainda que coxa por tardia, alicerçada na deficiência. Tanta dúvida ortográfica e gramatical não era apanágio do seu raciocínio, o cérebro há muito que fora classificado de zona morta, local de estudo arqueológico em busca de vestígios de pensamento e cogitação. O que poupara em tempo de escola não o gastara sequer com a Maria ou a Caras. Letras e algarismos eram sinalefas míopes no verso de contratos e livranças assinados na apressada hora de almoço, diante do gestor de conta, o mesmo que agora lhe exigia a honorabilidade dos seus compromissos. Sim… Assine aqui… Carência de juros e capital… Vá lá… Durante três meses não paga nada, depois… Depois logo se via… Entre o Fiat Punto lavado, parafinado e encerado todo o santo sábado, a dormir amedrontado, ao relento, entre a ameaça do vidro escaqueirado e o roubo do auto-rádio, entre a avaria do microondas, do frigorífico e o aparelho dos dentes do miúdo, sobrava em incisivos e molares o que havia em débito excessivo para mastigar. Fosse a familia desdentada e o problema estaria resolvido. Não tivera cabeça para a escola. Farta de servir os senhores deixara-se levar pela mão do marido. Agora… Agora deixara os sacos tombados no chão com o garrafão de água do luso a rebolar até ser travado pela arrastadeira, a meio, debaixo da cama.
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“RODAR PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”, era a inscrição no metal ferrugento da enxerga saída de filme do canal dois sobre o Vietname. Aqueles também, coitados… esventravam a existência em caixas de sapatos minadas por engraxadores meia leca de chupa chups na boca : - Quer graxa? Quer graxa? - Bum! Quilo e meio de fígado esfrangalhado e pedaços de pâncreas solidários com a vitrine da barbearia por onde escorria o intervalo com anúncios do Oculista Cristal de Ouro e da mistela capilar do Restaurador Olex que recuperava, autênticos tufos de relva, em carecas seborreicas fascinadas com o milagre imediato a troco de cinco escudos e cinquenta centavos. Sem intervalos era a vida dela que passava numa fita dolente e sem côr entre a tarefa hercúlea de acordar o marido enterrado, a sono solto, nas molas lassas e cheias de fome a comer tecido a olhos vistos, da poltrona que ele trouxera das obras de remodelação do consultório do doutor Evaristo, que apalpava as mamas das pacientes na auscultação da tísica e na prescrição avulsa e distraída de remédios para os nervos. Parecia mal… Queria ela bem saber que parecesse mal. Más eram as berlaitadas ao sábado à noite, de empurrão, com a ajuda do canal dezoito a servir de motor de arranque, as mãos ásperas da lexívia na camisa branca que ele tanto gostava e que era lavada e esfregada com pedra pomes para não ficar encardida, assim como má era a lancheira preparada, de madrugada, para sobrar para a gasolina para a praia das maçãs, onde molhava os pés sempre de olho no miudo e comia um cornetto, ao final da tarde, num prazer lânguido e sensual sorvido aos bocados e de forma obscenamente ruidosa. E se tinha tido oportunidades... O gestor do banco. Sim… Aquele boneco de matraquilho de cabeça enterrada no pescoço e com os pés perdidos e coladinhos no fundo da palmilha trinta e três de bailarina de caixa de jóias, comprada na Praça da Concórdia durante a lua de mel dos tios, muito amigos do senhor Cabral da contabilidade, que o conheciam desde o ventre torturado em pontapés num ânsia de nascer. De dedinhos trémulos roçava-lhe as costas da mão, enquanto fazia mais uma cruz nos poucos espaços em branco da livrança armada em chagas de uma cruz que viera, na companhia doToyota, para ficar … Ou o senhor Rodrigues do mini-mercado… Esse sim, homem com arcaboiço de touro do Farmville que se babava todo sempre que lhe sentia os vapores da colónia de drogaria usada com parcimónia. Sempre arranjava alguma coisa para arrumar e roçar-se no rabo dela, em bicos de pés, a tirar os pickles da prateleira para chegar às azeitonas pretas em rodelas, mesmo boas para o bacalhau à Gomes de Sá. Ele esvaía-se em suor, antecipando orgasmos na vontade indómita de a agarrar à força e possuí-la entre as paletes do Mimosa meio gordo e as caixas repletas de melão de Almeirim. Sempre se contivera até ao dia em que a fizera rodar e a encostara ao escadote, aberto para trocar a lâmpada fluorescente, salpicada de caganitas de moscas mortas em combate desigual, num campo de batalha mortífero que grelhava, sem piedade, o insecto mais incauto ou atrevido. Só lhe percebeu a vontade férrea quando sentiu os dedos, doidos, aos saltos, a forçar a entrada no seu sexo , dócil, a oferecer uma ténue resistência embalada pela língua que lhe invadiu a boca quase até ao esófago… Ainda o empurrara e tentava recuperar a respiração, mas já os mamilos túrgidos se escondiam nas mãos ávidas do merceeiro. Não fosse a dona Cristina , típico exemplar de coxinha de novela dando umas bengaladas, inspiradas no Eça, no ferro de trancar a porta: - Ó senhor Rodrigues ! Esqueceu-se das minhas compras? Tou que nem posso das minhas costas! Vá lá a ver… E rodou nos calcanhares ruminando imprecações pela falta grave , mancha negra e irrecuperável na folha de serviço do profissionalismo ostentado a retalho e a aventura teria terminado lá no fundo, húmido e sem reservas, da lascívia fértil em prazer, tanto mais saboroso quanto proibido. Mas desde aí nunca mais houvera nada. Fosse por medo das léguas que a conta já levava no asfalto da dívida, fosse porque a empregada da casa de móveis lhe escancarava as coxas, sem rebuço ou interesse, enquanto se extasiava com as páginas da Maria, mastigadas de boca aberta numa chiclete a desfazer-se em excesso de saliva, ele nunca mais a procurara. Ainda bem que não… Se descobrissem , parecia mal… Com o miúdo na escola e a vizinhança, recomeçar tudo do zero cheirava-lhe a vida recauchutada na fábrica Dunlop com pneu acabadinho de tratar que durava mais uns anitos, mas com jeitinho e sem avarias….
- Vinda ? Em que estás a pensar Vinda?

- Nada! Não estou a pensar em nada – Acordara do torpor de lembranças e emoções. Parecia mal… Parecia mal era a distância entre ajeitar a gola do pijama de flanela mal engomado do aleijadinho e deitar a correr pelas escadas abaixo na companhia do Cloney ou outro qualquer, em direcção ao infinito da ficção, onde o amor acontece sempre entre um take repetido por capricho do realizador ou na amálgama retorcida de argumentos e frases fáceis dos capítulos pobres e de letra miudinha do Corin Tellado.

- Estás estranha! Logo hoje que estás tão bonita….

“RODAR A MANIVELA PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”… Deparara, de novo, com o anúncio no ferro quando se baixava para apanhar o garrafão que rebolara até à arrastadeira. Rodou a manivela enquanto lhe ajeitava a almofada atrás do pescoço. Sim… Estava bonita. Era bonita. Assim como ele… Que também fora bonito desde o momento em que chegara à vida e até ao momento em que a abandonara…

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

VINDA... CONTINUA OU ACABA AQUI?

(Do álbum my photos de Maria Lessa)



Sim, o escriba é um provocador! Para além dos parágrafos perdidos e das palavras arredias houve quem achasse que a alegria da Vinda não se poderia esgotar na pobreza vocabular do: "Estás tão bonita!"
E agora José? Não sabia o Drummond nem sabe o escriba! Entre a dúvida metódica e existencial de elaborar um texto novo, prolixo, verborreico e a fazer festinhas ao humor e dar continuidade ao texto da Vinda, muitas interrogações se levantaram. Prosseguir com a grandeza de coração da Vinda? Emancipá-la? Deixá-la cair nas garras da vingança?
Um mail, um comentário na caixa, um aceno, um sopro... o leitor sugere...o escriba escreve!

domingo, 10 de Janeiro de 2010

BEM VINDA E A BELEZA


Bem Vinda não chegara a acertar contas com a beleza, mas o algoritmo matemático do cálculo não era matéria que lhe tirasse o sono. O sono era pesado e justo e matéria era coisa que não lhe faltava, ali, no lado direito do lava-loiças onde escorriam preguiçosamente uns fiozinhos de água dos pratos acabados de lavar ou no monte de roupa amarfanhada no cesto de plástico do Ikea, comprado em promoção, a pedir com urgência umas festas de ferro de engomar. Primeiro passear a vassoura pela marquise repleta de pêlos do snoopy que ainda não fora à rua e fazia cruzes com as patas em aflitiva contenção urinária, mas só depois de estender a roupa, ainda húmida e vincada, acabadinha de sair do carrossel lento e ruidoso dos sessenta graus de AEG Lavamat a estrebuchar de ferrugem , que não escolhera hora para cair doente e que tinha sido prenda de casamento dos padrinhos. Umas jóias de pessoas que Deus os tivesse no céu, em boa conta e a seu lado, na companhia de anjos e querubins por entre nuvens de algodão e árias de harpa afinada. Nunca lhes faltaram com nada, graças a Deus, mas também não se podiam queixar. Fora ela que lhes valera com caldos e carinho na fase terminal da doença. O mal já andava lá dentro e a gangrena traiçoeira sugara-lhes uns previsíveis bons anos de vida.Vinda distraía-se com as horas. Vinda … Sempre se habituara ao diminuitivo. Os pais, lavradores de profissão e remediados por afinição, já sustentavam uma prole ranhosa e aflita de cinco mancebos, o descuido nocturno por gula intempestiva do macho fizera o resto, obrigando ao milagre da multiplicação dos pães por força de arranjar espaço para mais um na gamela. Foi a tia Emília mais a mulher do lugar, aquela lojeca das ferramentas, potassa e carvão a granel com um arco feito de barrotes à entrada ,enfeitado com um reclame de metal corroído e desbotado com o cavaleiro dos correios telegramas e telefones onde se ia levantar o vale da pensão nas vezes da Casa do Povo, fechada, porque a dona Mina andava sempre doente, quem acalmou os berros e enxugou as lágrimas com toalhas quentes. Por ser uma gravidez extemporânea e pela pressa em nascer, o pai baptizara-a logo ali, no quarto pequeno e atarrcado onde o soalho exibia mazelas profundas dos pregos soltos.
-Bem Vinda ao mundo! - Bem Vinda chegara e Vinda ficara. Assim que ganhara corpo os pais mandaram-na para Lisboa para casa do doutor Rodrigo proveniente de uma família com uma carrada de nomes, para servir. Que Deus os tivesse em boa conta pois que os senhores lhe providenciaram cama, mesa, roupa lavada e ainda a meteram a estudar. Ficara-se pelo nono ano, o suficiente para ler os recados e fazer contas na praça sem se enganar no troco. Enamorara-se dele, do seu homem. Um artista. Fora a casa dos doutores para compôr umas tomadas e dar luz aos candeeiros. Algures, entre a fase e o neutro, dera-se o curto-circuito da paixao. Era esbelto, olho vivo e resposta pronta, trabalhador e despertava o olho gordo da cobiça das amigas. Quase três horas!... E ainda tinha que ir levantar o dinheiro para pagar o condomínio, porque já tinha vergonha de encontrar a velha da administação, uma antiga professora de piano, reformada, chata, má como as cobras rumorejando sem descanso dichotes sobre a vida alheia. Desde que o marido morrera, ficara amarga destilando fel às postas a cada meia sílaba do discurso. Desculpe o atraso o patrão não pagou ao meu marido mas esta semana faço o depósito. Se pudesse, ainda passaria pela mercearia a acrescentar mais umas parcelas na conta que já chegava à China. O mal de tudo era o Pingo Doce não aceitar cheques. Que vergonha! Desde que lhe voltara um para traz, cheio de pressa para anunciar ao mundo que andava a descoberto e em pêlo, que nunca mais fora ao supermercado. Desculpe trouxe os cheques da outra conta, deixo aqui o carrinho e já volto… Nunca mais! O empregado do piercing na língua e a tatuagem dos Scorpions que o arrumasse nas prateleiras na companhia do ordenado mínimo. Tinha que se despachar ou perdia o autocarro para ir buscar o miúdo à escola arrojando com ele por uma mão e a mochila na outra, mais a nintendo dependurada, a lancheira e a bola de futebol. Era só o tempo para passear o snoopy, dar banho ao miúdo e preparar o jantar. Por vezes, enevoa-se-lhe a vista com uma sombra de tristeza. Ela bem suspeitava e a suspeita ganhara força quando o subsídio de Natal estoirara por completo na oficina do Carriço, para arranjar o carro que o marido espatifara no cruzamento da João Crisóstomo com a Defensores de Chaves. A vizinha do segundo esquerdo, mesmo por cima da padaria, bem lhe dizia que ele andava às gatas… Pois era zona de elas irem miar. Depois disso a cunhada do Victor do banco afirmara tê-lo visto com uma mastronça e a partir daí, o enredo ganhara forma e volume. Lá lábia para as outras tinha ele, mas olhos ou uma palavra de conforto para ela haviam-se perdido, há muito, na via láctea da indiferença e do esquecimento, tanto mais injusto quanto doloroso. Ela bem sabia quando ele chegava bem disposto e sorridente. Um beijo de fugida com receio de que lhe tomasse o gosto da outra… Havia moura na costa. Na costa, nas ancas, no sexo… Era um fartote, ela bem sabia ele dizia que tinha muito trabalho, mas ia ter com ela. Cambalhotas no quarto a rebolar nos lençóis encardidos do prazer alheio, quarenta euros de aluguer e dois de gorjeta para a recepcionista e não se fala mais nisso… Imaginava as gargalhadas, as volúpias, o prazer, o duche com sabão azul e branco, de ph neutro, para tirar o cheiro. Certamente, a outra fazia aquelas coisas dos filmes. Vinda também faria de bom grado, mas ele não pedia. Era um frete quando ele se encostava. De mau humor, bem lhe via, pelo canto do olho, o ar enjoado pelo seu cabelo com cheiro a fritos do peixe do jantar que ficara a descongelar, desde manhã, em cima da bancada lavada com neoblanc. Montava-se em cima dela sem a fitar nos olhos, esses estavam presos no mastro que metia logo todo. De uma só vez… E depois começava a tremer, forte, cada vez mais forte como se estivese cheio de frio. A rapidez com que fugia de dentro dela e se virava para o lado não lhe dava margem para protesto ou questão. Tou cansado, despejava ele, hoje tive muito trabalho. Já dormia a sono solto por entre roncos e silvos enquanto ela, de olhos postos no tecto e a mão entre as coxas, ia acabar o resto que ele não chegara a começar, para a casa de banho silenciando, a custo, o prazer que teimava em romper os pulmões e arranhar a garganta rouca de raiva. Deixava-se tombar sobre a sanita em sobressalto. E se a ouviam? Não. Ele roncava longe, num sono pesado imaginando-se, porventura, num quarto de lençóis encardidos de prazer alheio e o miúdo trilhava, a fundo, o caminho de sonhos e fantasias. Não. Ninguém a ouvira. Era hora de deitar porque no dia seguinte a rotina começaria bem cedo…
A partida era difícil. Duas equipas em campos diametralmente opostos. De um lado: lavar, passar, engomar, cuidar do filho, no final: ganhava a das mamas grandes… Ela bem queria, mas a hérnia não lhe permitia avarias. Ela tinha que ficar por baixo, direitinha, de perna aberta e ele não lhe podia dar com muita força, por isso lhe justificava os desvarios. Apesar de tudo, gostava dele. Era um bom homem, quanto mais não fosse pelo amor e carinho que devotava ao filho. Isso já lhe bastava. O que não bastava era a indiferença. A ausência da palavra. Ao menos uma palavra. Pequena , por mais pequena que fosse, assim a mais pequena do dicionário Michaelis, aquele muito pesado que havia na biblioteca da escola onde ela esmifrava, às prestações, o seu cérebro fraco num nono ano tirado a ferros. Mas não. Nada! De certeza que as dizia à outra. Ela tirara-lhe a radiografia numa reles partida do destino. Sentira na noite anterior umas fortes dores abdominais que a levaram a aceitar quatro horas de espera na urgência. Cocktail de Voltaren na nádega esquálida ao léu, credencial para análise e exames complementares e ala que se faz tarde. Contrariado, o patrão deixara-a sair mais cedo sob promessa de compensar a hora num dia a combinar, para ir buscar as análises. E foi aí, na rua, que os vira. Saíam da pensão. Abracinhos e miminhos… Ele, um matulão… Embevecido, debicando-lhe os dedinhos em beijos e chupadelas e ela, bonita, alta, loura, de mamas grandes, contorcendo-se de riso e suspiros enlevados. A princípio estacara, mas rápido se recompusera. Não era mulher de chorar. Cada um carrega a sua cruz, a dela era maior que a dos outros todos, fazia chispas no chão e calos no lombo, mas não chorava. Água havia muita da chuva de outono evaporando-se na calçada. Fora buscar as análises.
- Vesícula… Seguir o tratamento, a dieta e daqui a quinze dias venha cá para vermos como é que isso tá… Tá bem?... Sim senhor doutor, reverencial e pronunciado às arrecuas, saindo rápido do consultório porque, o senhor doutor ,já fechava a porta do alto da proeminente responsabilidade de ter que atender uma chamada no telemóvel que acabava de se anunciar… Não se lhe ouvira um queixume. Nada. O jantar continuava a estacionar a horas sobre a mesa impoluta e posta com esmero, o miúdo asseado, trabalhos de casa feitos e o leitinho quente ao deitar, a roupa, o chão o pó, a casa de banho as camas lavadas… Tudo! Às vezes, o calendário estendia o fim do mês para além do admissível. Nessas alturas, a economia familiar, já de si débil, entrava em rota de colisão com o equilíbrio bancário. E era nas vagas de fragilidade que ela mais sentia o peso da ausência de uma palavra. Que lhe dissesse que ainda gostava dela,que a queria, que estava bonita. Mas não. Pobre ou remediado, o pão cai sempre da mesma maneira: com a manteiga virada para o chão. E caíra!… Num segundo de distração, a fatalidade dum andaime mal escorado rebentara com ele no asfalto dando-lhe guia de marcha para o hospital. Se voltasse a andar era um milagre…Deus era injusto… Se escrevia direito por linhas tortas, então a caneta estava romba. O miudo tinha que ficar nos avós. Três quartos de hora de sobressalto e sevícias no comboio até à agualva-cacém , o patrao a moê-la com argumentos estafados para não lhe dar folga, a ginástica da visita hospitalar a fazer mossa na economia débil sempre a nadar no vermelho. Ainda assim, arranjara tempo e coragem para se entregar nas manápulas nodosas da chica cabeleireira para uma mise a preceito , para deixar as camas feitas, fazer a canja, a maçã cozida, arranjar as flores, o garrafão de água mineral, as bolachas e levar as melhoras do Arnaldo da tabacaria, do Armindo e do primo que estava na Guarda e soubera, por um compadre taxista, do acidente e lhe mandara cumprimentos e mais os do Manel que andava lá fora a lutar pela vida. Chegara a tempo mesmo do início da visita, com aquele vestido que só punha nos casamentos e os sapatos pretos, a pedir verniz desde a chegada dos Romanos à península. mas sem ínfimo traço de cansaço. Carregada de sacos, sentara-se na borda da cama, numa respiração entrecortada pela enumeração exaustiva das coisas que lhe trazia. Foi então, naquele momento, talvez porque tivesse ganho consciência, talvez pelo arrependimento ou pela reacção aos sedativos ou talvez porque , afinal, Deus talvez tivesse acabado por comprar uma caneta nova, que ela abrira a boca de espanto enquanto ele, com um fiozinho de lágrimas piegas, quase a descambar para o choro convulsivo a escorrer pela face, vermelho e tremelicando, lhe estendeu a mão balbuciando:
- Estás tão bonita!

domingo, 3 de Janeiro de 2010

ENTREVISTA À ALAGAMARES


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A ALAGAMARES é uma associação cultural sem fins lucrativos, sedeada em Galamares, na freguesia de S. Martinho, em área classificada de património mundial, fundada com o objectivo de promover o debate e a acção cultural nas áreas da história, património, artes e ambiente do concelho de Sintra. Fundada em Março de 2005, a ALAGAMARES-Associação Cultural é actualmente constituída por cerca de 280 associados.
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A ela agradeço a oportunidade de poder participar no encontro literário por si promovido e a presente entrevista ao escriba.

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

BOM ANO! ESTAMOS DE ACORDO??



Water Effect by Crazyprofile.com



Após tão prolongada ausência por excesso de trabalho, vem o escriba desejar aos seus leitores um excelente ano e uma auspiciosa entrada, com pena leve, no novo acordo ortográfico. De fato, a manhã amanheceu úmida e fria e, apesar de se ter perdido na volatilidade das borbulhas de champanhe e no estrelejar do fogo de artífício, não foi por gralha tipográfica ou devaneio lírico que o escriba grafou os termos iniciais sem C e sem H... De fato, o escriba, com ou sem gravata, já tirara um bilhete para o novo acordo em Junho, altura em que O Lusitânia Online foi impresso no Brasil já segundo a grafia do novo acordo posto em prática, de imediato, pelo país irmão. Assim sendo, e apesar do fato estar consumado, o escriba vai continuar a usar as mesmas linhas para coser um texto procurando que o mesmo, confusões retais à parte, fique, isso sim, correto à luz da gramática.

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

QUARENTA E CINCO...


Pois é... Depois de se ter empanturrado em bolo-rei, filhozes, jingle bells trauteados a eito e boas festas distribuídas a esmo. O escriba começou a trilhar a estrada 45! Já lá vai um dia! Após tantas mensagens de felicitações e parabéns, às quais não pôde responder em tempo útil por variadíssimas razões, entre elas um bicharoco de nome: bugbear.B.oom que procurou guarida no Win 32, lá conseguiu o escriba pôr a funcionar a sua máquina e colocar um textozinho alusivo à efeméride. Sem mais delongas, recuperamos "A verdadeira história do Bento" que, apesar da graçola fácil, tem o mérito de pôr a nú, pelo menos no papel, a razão do baptismo do escriba com tão prosaico nome: Luís Alberto. Quis a excelsa progenitora marcar o seu reBento com o ferro do sucesso socorrendo-se de um nome muito em voga à época: Luis Alberto del Paraná. Não só pela sua voz que deleitava os mais finos e belos exemplares do belo sexo, mas também porque, a acreditar no singelo escrito alinhavado em forma de reclame na capa, bons augúrios se afiguravam ao futuro triunfador. Vá-se lá saber porquê, e apesar de bastas vezes ter passado debaixo do arco do mesmo nome em Paris, até ao momento, do termo, o escriba apenas guarda o doce sabor da bolacha torrada com idêntica terminologia...



LISBOA, 1964





Com mais de dois dedos de testa e outros tantos de dilatação dera entrada na maternidade, às nove horas da noite, aflita de dores e rebentada de águas. Numa consoada abençoada por Deus e apadrinhada pelo Natal dos Hospitais, fora obrigada a suportar as dores com paninhos quentes, supositórios bem-uron e muito “schiu” de enfermeira para não acordar as “outras”.Às nove da manhã de vinte seis de dezembro de mil novecentos e sessenta e quatro dera à luz um macho raquítico, lingrinhas, roxo de berraria e excesso de permanência uterina no meio de dúzia e meia de médicos mal encarados, bêbados de sono e a arrotar bolo rei temperado a vinho do Porto. « Numa época em que o inglês ainda não era obrigatório por força duma reles redacção de vinte e cinco linhas cheias de erros ortográficos do engenheiro Sócrates, o moço, ganhara o nome em homenagem ao mexicano que aquecia os corações das donas de casa, no constante circular das setenta e oito rotações de Luis Alberto del Paraná, aos microfones da Emissora Nacional mesmo antes do folhetim diário da “coxinha do Tide”. Abençoado pela casualidade divina do apelido paterno e da coragem e intrepidez do avô José Gonçalves, dava à estampa, no meio de outros cromos ilustres, Luís Alberto Gonçalves Bento...


segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

MAIL DE UM MALUCO...



Ele há cada uma... Pois é... o escriba foi apanhado na curva sem travões... embora tivesse descoberto parte da marosca uns minutos depois através dum mail prontamente enviado:

luis bento para mario mostrar detalhes 15:25 (Há 9 horas)

O meu amigo Escreve muito bem e com muito humor...uma estratégia brilhante para levar as visitas ao seu blog..."ganda maluco" he he he... Depois diga-me se a Sílvia Romão foi na conversa..
Luis Bento
O certo é que o escriba foi apanhado... Ele há com cada uma... passada a surpresa inicial resta-me
regozijar-me com a atenção dada pelo Mário Dias a este espaço. O Mail de um louco é uma prova de que, afinal, os portugueses têm sentido de humor. Um espaço a visitar. Deixo-vos com as palavras do Berdades:
Francamente... então desconhecem o Mário Dias que há pouco tempo ocupou só!! 6 páginas da revista Sábado?!Pois então eu dei destaque no meu blogue e o maroto atacou aqui o Bento. É um blog louco mas o mais divertido que até hoje conheço.Vejam o post original sobre este mail enviado a vários blogues em:http://maildeumlouco.blogspot.com/
Ele há com cada uma...

ELE HÁ COM CADA UMA...


Já tinha acontecido de tudo aqui ao escriba: mails a pedir textos para a tia, para o chefe e para a namorada. Já me disseram que não sei EXCREVER... assim mesmo, com xis e tudo, já vi blogs com textos muito parecidos com os meus apenas com o nome dos personagens alterados, agora...um pedido destes...não lembrava ao diabo nem à santíssima trindade... Pareço o Saramago envolto em polémica...Aqui vos deixo o control C de alguma da tralha que recebo diariamente...
Blogue
Caixa de entradaX


Responder
mario dias
mostrar detalhes 02:32 (Há 10 horas)


Olá boa noite,
chamo-me Mário e sou leitor assiduo do seu blogue que, apesar de considerar um pouco feminino em algumas partes, gosto bastante.
Eu tinha também um blogue que entretanto apaguei pois não conseguia que ninguém o visitasse.
Não tenho muita imaginação e às vezes dou uns erros de Português, o que pode ter ajudado ao insussesso do mesmo.
Há umas semanas conheci na internet uma rapariga, a Sílvia Romão, ela disse me que gostava de pessoas inteligentes, que escrevem bem, com imaginação e com uma sensibilidade acima da média.
Pensei logo em si e no seu blogue.
Disse à Silvia que tinha um blogue e comecei a enviar-lhe textos seus os quais ela adorava.Isto mais no inicio porque agora os seus textos como sabe não são muito bons. Claro que também alterei algumas partes...há coisas que às vezes diz que não cabem na cabecinha de ninguém...
Adiante...
Estamos completamente apaixonados um pelo outro.
Eu pelo corpo e cara laroca dela e ela pela minha pseudo-sensibilidade e pseudo-forma de escrever (nas palavras da própria, menos o pseudo que fui eu que acrescentei).
Vamo-nos encontrar durante a próxima semana mas antes ela quer que eu lhe diga qual o link do meu blogue para me fazer uma surpresa.
Ontem quando ela me disse isso na internet fingi que a ligação caiu, mas hoje já me mandou duas mensagens a perguntar o mesmo.
Por isso lhe escrevo...
Precisava apenas que durante a próxima semana colocasse a minha foto em cima do lado direito como se o blogue fosse de facto meu...
Há também meia duzia de posts que lhe pedia que retirasse por serem mesmo muito femininos.
É só até quinta-feira, depois estou com ela, consigo o que quero e não me interessa mais nada...
É Natal, época de solidariedade...ajude-me por amor de Deus.
Eu sei que isto parece um daqueles clássicos do cinema Português em que na primeira parte do filme alguem dizia que era rico, na segunda parte tentava demonstrar uma riqueza que não tinha, para no final a verdade vir ao de cima.
Só que de filme isto não tem nada e queria por isso saber se me ajuda a tornar em realidade uma inesquecivel noite de quinta-feira com a Sílivia.
Ela tem mesmo um corpo fenomenal...
Cumprimentos,
Mário Dias
P.S.Em compensação prometo que um dia que reactive o blogue faço lá uma pequena referencia ao seu.


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sábado, 19 de Dezembro de 2009

O NATAL JÁ NÃO É O QUE ERA...

Respondendo ao amável convite/desafio da Ana Martins sobre a temática de "O Natal já não é o que era" aqui fica a contribuição do escriba a juntar aos textos dos restantes convidados que podem encontrar aqui: Ana Martins , Ana Paula Motta , Isa Silva , Nuno Gervásio , Vasco Catarino Soares



- O Natal já não é o que era!

Apanhada à solta no ar, a frase não lhe escapara fazendo-o girar a cabeça na direcção da mulher atafulhada em sacos da Zara e afins em amena cavaqueira com uma amiga bem no meio do passeio. Aproveitara os escassos minutos de benesse laboral para uma breve visita à Conservatória do Registo Automóvel a fim de dar baixa do Fiat 128 de mil novecentos e setenta e sete, de cuja propriedade cancerosa se livrara há um ror de anos por excelsa generosidade de um ferro velho lá para os lados de Algueirão, mas que as finanças insistiam em querer cobrar o respectivo imposto de circulação. A frase transportara-o para a catequese aos sábados de manhã onde o padre Baltasar refugiado na opulência do nome bíblico, impunha o catecismo à força de vara e muito puxão de orelhas. A semana acabava, paulatinamente, com o estímulo doloroso da reguada firme e sonora da dona Rute. Vermelho de raiva e vergonha pelo ar trocista dos colegas, a lágrima infantil só se continha na proporção da força com que as suas mãos apertavam o ferro forjado da carteira onde encontrava abrigo para a raiva e alívio para o ardor das palmas já calejadas de rotina pedagógica. No dia seguinte, o vestir à pressa e o empurrão materno - Despacha-te! Vais chegar atrasado à catequese! Raio do miúdo ! Traz o diabo no corpo… Anda! Mexe-te! - E lá ia em corrida desenfreada pelo declive da rua de Campolide até desaguar em suor esbaforido, no centro paroquial balbuciando um bom dia a medo e um desculpe senhor padre Baltasar envergonhado, sentando-se, pé ante pé, na cadeira minúscula aninhada entre os cochichos dos colegas. Maiúscula era a imperativa do padre que nem o deixava aquecer o pequeno rectângulo de pinho.


- Anda cá! - Entre a prelecção sobre a necessidade de chegar a tempo, havia tempo para a brutalidade de um beliscão pela ímpia falha de se ter esquecido do ”O meu primeiro catecismo”… Então sim… Podia sentar-se em paz lavado dos pecados da alma inconsequente, imaculado, acabadinho de sair do banho no rio Jordão. Era irresistível. Sentado, mirradinho entre os dichotes jocosos dos colegas imbuídos no mais puro espírito cristão de quem se achava ter sido bafejado pela graça de Deus por ter chegado a tempo e horas, não resistia a olhar para o crucifixo prateado colocado a meio da parede branca, manchada de humidade e rachas por causa das obras na sacristia. E falava com Ele. Desconhecedor do duplo sentido do termo pregar, achava ele não ser Cristo pessoa de bem, pois se pregava aos Filisteus significaria que andava pelos desertos a pregar pessoas em cactos e palmeiras ou, à sua semelhança, em cruzes prateadas, mas se ressuscitara na páscoa ou os pregos eram rombos e de má qualidade ou o marceneiro não fizera, convenientemente, o seu trabalho. De qualquer forma achava estranho que entre a pregação de cristo e a passividade de Deus, o Senhor tivesse deixado morrer o filho mais velho da vizinha do rés-do- chão, entrevada após um acidente de carro e da qual ele era o único sustento, ou que, simplesmente, deixasse a dona Rute ou o padre darem reguadas e puxões à fartazana sem castigo. Se tudo acontecia nas suas barbas ou ele não era mesmo pessoa de bem ou andava constantemente distraído. O desperdício do monólogo interior esgotava-se na incapacidade argumentativa de Deus, que baixava à terra na mão iluminada do padre Baltasar com mais um puxão de orelhas pela sua falta de atenção.


- Sempre na lua, sempre na lua!

Certo, certo é que depois da catequese e da confissão e, apesar do bacalhau cozido, as filhozes da mãe e a presença dos avós com histórias de encantar da aldeia arrumada nas franjas do vale do rio Ocresa, para onde se ia envolto na fumarada do comboio a diesel após quatro horas e meia de jornada, faziam com que o Natal brilhasse nas luzinhas intermitentes e nas bolas coloridas caídas do céu, sob a forma de uma rifa premiada na feira de Santo André onde o pai, por mero acaso , fora fazer um pequeno trabalho de construção civil, penduradas no pinheiro raquítico, mas real, ao lado do presépio em madeira feito pelo senhor Alberto, que tinha uma oficina de carpintaria onde uns aprendizes esborrachavam os dedos, em marteladas cegas de ignorância, a troco da aprendizagem forçada de um ofício. A manhã de vinte e cinco era suprema! Ao desembrulhar as prendas, o raio do Pai Natal acertava sempre e, à excepção das pistas de automóveis, lá lhe trazia os legos ou o carro telecomandado que estava na montra da tabacaria do senhor Anselmo… Matava sempre a cabeça como é que o raio do homem conseguira ir à loja com as renas, pela calada da noite, sem nunca ninguém ter dado por nada…
Despertara da memória doce do Natal de infância já no guichet do registo automóvel. A funcionária, boçal e arrogante, esgrimia argumentos numa sintaxe de distância e desprezo:


- Se o carro está registado nos nossos computadores é porque existe! - Nos nossos computadores… - Figura desprezível que de informática só dominava apenas o facto de enviar sms e embevecer-se com powerpoints, em corrente, exacerbando a amizade universal embrulhada em música de Vangelis e fotografias de rouxinóis e colibris. Entre a necessidade de renunciar ao sigilo bancário para reclamar das finanças e pagar a coima… Não tendo uma caixa de robalos à mão, decidira pagar a coima apesar da injustiça de, na qualidade de defunto, o veículo, com trinta e três anos, se encontrar morto e enterrado nos fornos duma siderurgia, transformado em cambota ou tubo de escape!


Pagara e recebera um ausente e monocórdico Bom Natal…

Preparava-se para regressar ao trabalho para mais uma sessão de devolução de cheques sem cobertura e mais o telefonema para o senhor Eustáquio. Apesar da reapreciação do processo, o departamento de risco indeferira-lhe o pedido de empréstimo para despesas hospitalares…

Cá fora, os sacos da Zara jaziam no passeio, mas a senhora ainda gesticulava com a amiga sobre uma terrível dúvida existencial exposta, com requinte e preceito segundo os Cânones do método cartesiano, relativamente ao destino ou rumo no Reveillon… Casino Estoril ou Barcelona…

- Está tudo pela hora da morte e mais a gandulagem que para aí anda…

A frase despertara-lhe de novo a atenção, mas agora, ao invés das memórias doces do seu Natal de infância, não se furtara a deixar escapar com algum desencanto:

É… Decididamente, o Natal já não é o que era…

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

O MEU... CONTO DE NATAL...

http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

"A menina pegou nas bombocas e foi com o avô no comboio ao circo."


Era este o Natal da sua infância, entalado entre a memória de um anúncio de televisão e a mãe que fazia filhozes num alguidar enquanto o bacalhau cozia em lume brando.

Salvavam-se as filhozes ! Entre os tostões da avó e as peúgas da tia, só o diabo insistia em oferecer camisolas de gola alta que picavam no pescoço "como o caraças", ásperas por natureza e feitio. O melhor vinha depois. No sorriso sereno e generoso do padrinho com um bolo-rei do tamanho do mundo e uma "lembrança" para comprar a prenda.

Feitos os trabalhos de casa, acabavam-se as férias e, com elas, o cheiro de rosmaninho e madressilvas que partia com a avó no regresso à terra.

As estrelas perguntavam-lhe se tinha algum recado para o Pai Natal. Tinha! Sim! mas ele próprio lho daria. Afinal de contas, o Pai Natal havia de ser aquele gajo de barbas com a testa colada à montra da mercearia a dizer:

- Bombocas? Não há mais! São para mim!...


quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

EM PREPARAÇÃO


O escriba teve uma ideia! Bem diferente do registo a que estamos habituados. Está em preparação... Para além de reeditar, em breve, uma velha parceria com o Trono do Horus sobre um Pai Natal com uma Face Oculta, para além de ter na gaveta o romance Verde, código Verde que aguarda a luz do dia ou os néons da noite, o escriba engendrou uma metáfora que é um arrepio...Enquanto não sai e vos pede um pouco mais de paciência... podem ir lendo o...





sábado, 28 de Novembro de 2009

ALAGAMARES - ENCONTRO LITERÁRIO

O escriba teve a oportunidade de participar no encontro literário promovido pela associação Alagamares com o excelente profissionalismo organizativo do Dr.Fernando Gomes e moderado pela generosidade e empenho do escritor Miguel Real. O evento decorreu no dia 26 na Casa do Teatro, em Sintra, com uma boa afluência de público manifestamente interessado e participativo.
Não podíamos deixar de agradecer a generosidade e intermediação da escritora Ana Martins nesta primeira participação do escriba num evento de grande qualidade. Agradece- se também o voluntarismo e o excelente trabalho fotográfico do Nuno Pires na cobertura do evento.http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/cultura/334-decorreu-o-encontro-literario-da-alagamares


Os oradores da direita para a esquerda: Dr.Fernando Gomes, Ana Costa Ribeiro, Ana Martins, Miguel Real, António Salles, Filipe de Fiúza e Luís Bento

Miguel Real na leitura dos textos


Miguel Real Ana Martins e Ana Costa Ribeiro.


Luis Bento e Filipe de Fiúza.




Leitura de um texto.




António Salles e Miguel Real


Parte do painel e das obras em divugação.




Uma perspectiva do público

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

ESTRADA NACIONAL - O FIM...


Passado tão longo prazo sobre a história inicial convém aqui fazer um breve resumo antes de entrarmos no gande final.
Um casal da Rinchoa segue pela estrada nacional numa Renault 4L desconjuntada, a desoras, rumo à terra após uma chamada da mãe. Deparam-se com um corpo morto no meio da estrada, aparece a brigada de tânsito, dois indivíduos armados perseguem outros dois exigindo-lhes o dinheiro e acabando por matar um deles. O condutor da Renault 4L é detido, quando aparece um dos fugitivos afirmando que pode explicar a história toda… Confusos? Nah… Vem já aí o finalzinho…


O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:
- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?
- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…



UM PAR DE HORAS ANTES


O tempo habituara-se a uma marcha lenta para lugar nenhum, na pacatez da aldeia onde o casal de velhotes levava uma vida de privações e fintas ao estômago, na frugalidade diária de um cardápio constante de pão com azeitonas , sopa e carne assada em domingo de festa, mais por vício do que necessidade. Saúde de ferro sem indícios de ferrugem e uma casa a gritar por electrodomésticos e outros “luxos”, tinham ajudado a amealhar um bom pecúlio ao longo do seu rotineiro quotidiano de sol a sol. Apesar da partilha das terras, o grosso do dinheiro proveniente da venda de uns terrenos fartos em oliveiras que deram origem a um projecto de turismo rural, aumentou-lhes, de forma significativa, o peso dos cifrões no banco. Haviam decidido dividir o dinheiro pelos dois filhos, tendo adiado a sua entrega dvido aos contínuos afazeres citadinos destes. O dinheiro, à muito que repousava no fundo da arca das cebolas enroladinho num saco plástico do Pingo Doce junto aos dentes de alho e ramos de louro. O velho, entretanto, desenferrujara a língua, oleada pela pomada nova, na tasca do Aires até ao pormenor do cêntimo e do logotipo do saco. Se as paredes tinham ouvidos, mais depressa ganhariam olhos ávidos e gananciosos. Bateram-lhe à porta. Pensando ser o filho mais velho que tinha ido à caça com o amigo, nem tempo tivera para uma ave-maria. As tenazes da mão direita fincaram-se-lhe nos gorgomilos bem como um soco potente na cara do velho que caiu inanimado no chão. Indiferentes à gritaria e frouxa resistência da mulher sairam a correr rés-vés com o regresso dos homens da caça que, de imediato, se lançaram no seu encalço. A mulher pressentindo desgraça no horizonte apressara-se a ligar ao filho que estava em Lisboa obrigando-o a vir a desoras no seu chaço velho. “Com sorte ainda os apanharia na mata” – Remoía o caçador. E apanhou-os, com a ajuda dos cães pisteiros, em menos de nada, muito menos que um advérbio, alcançara-os no meio do mato junto ao declive sobranceiro à estrada…


ENTRETANTO NO POSTO DA GUARDA

O maltrapilho desbobinara a cassette sobre a conversa na tasca do Aires e o ataque à casa dos velhos garantindo que não lhes tocara tendo aquele, provavelmente, quinado com o susto. Susto apanhara ele com a perseguição dos caçadores valendo-lhe contas antigas ajustadas por via da misericórdia divina. O resto da história era por demais conhecida. Os guardas limitaram-se a ouvi-lo, preencher os autos e mandar aguardar em lberdade. Quanto ao atirador o mais provável ,caso se entregasse, ficaria obrigado apenas a apresentações periódicas no posto, dado não ter antecedentes criminais e por não se encontrar na “posse momentânea das suas faculdades” tendo por isso, cometido tão tresloucado acto num momento de cegueira psiquiátrica. O casal, verificada a licença de uso e porte de arma e a consulta do registo criminal, fora também mandado em paz gozar a paisagem, sem percalços, até à malfadada praceta na Rinchoa.

EPÍLOGO

O carro, tossindo por todos os lados, a cada curva simulava o último estertor de um moribundo. Mais do que uma suite de luxo num clínica privada necessitava de uma campa condigna num cemitério automóvel. Na sinuosidade esburacada do tapete esfarrapado em tiras de alcatrão e gravilha, a ronceirisse da velocidade máxima do chaço potenciava o constante matraquear da mulher. Agora com o dinheiro da divisão materna, era hora de trocar o frigorífico, o microondas, a televisão e demais quinquilharia electrodoméstica. Renovar o guarda roupa, arranjar os dentes e inscrever-se num ginásio. Ideias não faltavam para aplicar despudoradamente o pecúlio.

- Sabes há quanto tempo não vou ao cabeleireiro? Sabes? Pois... tu nem sequer olhas para mim! Deves andar lá pelo beicinho com as tuas colegas…


“Rais partam que já não aguento mais”… Encostou à berma , deu mais uma olhadela ao monte de notas, trinta mil euros bem redondinhos , maços ainda cintados e carimbados pelo banco. Ela continuava a pregar em causa própria. “Aquele jarrão muito bonito do tempo dos chineses na loja do Victor e um telemóvel novo daqueles que faz tudo…” Olhou para ela, não a ouvia, apenas lhe divisava, de forma turva, o maquinal abrir e fechar da boca. Sem saber como, a sua mão direita deslizara, sorrateiramente, para debaixo do banco entre o tapete puído e as molas partidas sacando, com uma calma de morte, da nove milímetros…

- Então paraste porquê? - Não chegaria a conhecer a resposta, a canhonaça bem no meio da testa abriu-lhe, com estrondo, uma brecha enorme. Com a massa encefálica a escorrer pelo vidro, o homem maldizia da sua sorte face à necessidade absoluta de ter que levar o chaço à oficina do Carriço para mandar limpar os estofos…

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

ENCONTRO LITERÁRIO ALAGAMARES


Mesmo antes de colocar o final da Estrada Nacional ... O escriba teve a oportunidade de poder fazer parte de um encontro literário moderado pelo escritor Miguel Real.


"Nesta primeira sessão, serão abordadas as temáticas dos modernos caminhos da literatura nacional, com enfoque em nomes que vão surgindo e querendo criar espaço na cena literária.A Alagamares convidou para tanto António Augusto Sales, Ana Martins,Filipe de Fiúza,Luis Bento e Ana Costa Ribeiro para falaram da sua obra, em diálogo com os leitores, actuais e futuros, lerem partes da sua obra e divulgarem a mesma.Assim se pensa encorajar novos valores em torno das palavras escritas num contexto de palavras ditas.Leia sobre os autores propostos para esta primeira sessão em" www.alagamares.net



Aqui deixamos os dados a quem estiver interessado em aparecer.



quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Hora:
21:30 - 23:30
Local:
Casa de Teatro de Sintra,R.Veiga da Cunha, na Estefânea

sábado, 14 de Novembro de 2009

FÁBRICA DE LETRAS - PRETO E BRANCO

Enquanto não sai, mais logo, o grande final da "Estrada nacional 103", o escriba contribuiu com uma pequena participação na blogagem colectiva da Fábrica de Letras com umas pequenas linhas subordinadas ao tema: Preto e Branco.
Preto e branco, assim estampado em grossa letra de imprensa na prata mágica do chocolate, sucedâneo das melhores marcas “à venda nas casas da especialidade”, que a mãe lhe comprava, numa memória longínqua, enrodilhada em café torrado e feijão branco a granel, na mercearia do senhor Rodrigues, encravada num prédio a cair de podre no declive acentuado da General Taborda, para as bandas de Campolide onde hoje funciona um banco, lembrava-lhe, com clareza, o gesto rotineiro do senhor Rodrigues ao balcão. Após as compras, sacava do rectângulo carcomido de madeira com uma mola a prender meia dúzia de folhas amarelecidas e enroladas onde assentava, no rol, as dívidas, os calotes e a vida da vizinhança penhorada de remedeio omnipresente. O melhor de tudo era quando o senhor Rodrigues oferecia um chupa daqueles coloridos , aos montes dentro dum boião enorme de vidro com tampa vermelha, embrulhado no cinismo das parcelas amontoadas a eito no rol. O chupa sabia a ginjas mesmo sem nunca as ter provado. Outro gesto rotineiro numa praxe instituída, eram os vinte e cinco tostões que a mãe dava sempre ao homem em cadeira de rodas, junto à berma, que se esquecera das pernas, numa mina cravada no meio do mato, naquele pontinho pintado a amarelo no globo terrestre com umas letras a dizer Guiné.Na chegada a casa, derretia paulatinamente o chocolate na companhia do “Jornal do Cuto” sob o pano de fundo do “Simplesmente Maria” do Rádio Clube Português.


Saudades… Tinha saudades das memórias doces, do cheiro do café, do chocolate…

Da Mãe…

domingo, 8 de Novembro de 2009

NACIONAL 103 - O CRIME...

(CONTINUAÇÃO)
Passada esta longa ausência vamos hoje dar seguimento à história, num registo livre de humor, esse, fica para o final. Para já, é necessário pegar no último parágrafo do texto anterior e tentar perceber que aconteceu ao típico casal de classe média da Rinchoa que, a altas horas em direcção à terra após uma chamada da “velha”, se depara com um corpo morto no meio da estrada. Vamos apenas levantar a ponta do véu… dado ser mais excitante, vamos lá começar a despir a história aos poucos em vez de a destapar de uma vez só…

- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo e chegava-te o lume para alumiar a estrada… tá calada e…cala-te!
De pistola em punho saiu do carro e avançou, receoso, um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tablier com a fronha colada no vidro a mulher guinchava:
-Que é homem? Diz lá! O que é?
- É um corpo!... É um homem… E parece morto! - Disse enquanto espreitava para o barranco.De repente… arregalou o olhar… ao fundo, a alta velocidade…

MEIA HORA ANTES…

Sob o mesmo céu estrelado, sem mácula de nuvens, com uma luazinha cheia de cumplicidade, só a respiração pesada e ofegante dos dois homens em corrida desenfreada cortava o silêncio de morte naquela mata densa e traiçoeira. Experimentavam o terror puro e absoluto lapidado no pânico de que a sua corrida vertiginosa não lhes evitasse a morte. Perto, cada vez mais perto, sentiam os latidos dos cães e dos outros dois homens que os perseguiam, longe, cada vez mais longe, esfumava-se o declive junto à estrada nacional, sua única hipótese de escapar com vida naquela terra ensopada e cheia de ratoeiras.
Do bafo gélido e esparso do homem que seguia na frente sairam-lhe as últimas frases que conseguira articular:

- Só mais um esforço…arf, arf… Acolá, onde estão aqueles dois carvalhos, há um declive e depois a estrada nacional… arf, arf… Se chegarmos à estrada estamos safos… a seguir é uma ribanceira lisa, lisinha é so escorregar até ao rio… Corre… se nos apanham matam-nos… Corre caraças!

O outro ainda balbuciara qualquer coisa entaramelada no meio da espuminha a escorrer pelo canto da boca e deixara-se cair exausto.Preparava-se para voltar à corrida, mas num ápice foram alcançados pelos dois perseguidores de camuflado, caçadeira em punho e muita raiva nas palavras, acompanhados dos cães.
Um indivíduo alto e entroncado estacou e, apontando-lhe a caçadeira, perguntou-lhe de chofre:
- O dinheiro? Onde está o dinheiro? Dá-mo já!

O homem só pensava na ribanceira lisa, lisinha que os levaria até ao rio, mas estendendo a mão direita atirou-lhe aos pés um volumoso saco de plástico cheio de notas. É então que o atirador repara no outro caído no chão. Reconhecera-lhe as feições, o seu amigo Chico duma infancia feliz e longínqua e do dia em que, sem saber nadar, caíra no poço e quase morrera afogado não fosse a pronta intervenção do amigo estendendo-lhe um pequeno tronco para o ajudar a sair.
- Eu não tenho nada a ver com isto, não fiz nada! Juro! Foi ele – Apontando o companheiro com a mão a tremer.
- Raspa-ta! Ordenou-lhe o atirador – Raspa-te! E Oxalá eu não me arrependa…
O indivíduo levantara-se a custo, embora receoso de ser abatido pelas costas não se fizera rogado e ante tal benesse nem olhou para trás… Já mais recomposto , estugou o passo e embrenhou-se no emaranhado de arbustos e ramos rasteiros.
O atirador virou-se então para o indivíduo que levava o dinheiro:

- Quanto a ti… Vais arrepender-te aqui e explicar-te lá em cima - Disse apontando com o queixo para o céu.
Aterrorizado, o homem começou a cambalear às arrecuas implorando que o deixasse ir também… Que nunca mais o veria… A chumbada fora certeiramente fatal no peito. Com o embate, o homem rodopiou e, estando já à beira do declive, rebolou pela encosta abaixo só estacando no meio da estrada.

- Merda! - Pragejou o companheiro - Isto vai dar raia!
- Agora já está… - Ripostou o atirador…

Lá do alto avistaram a 4L que se aproximava…

- Vamos, vem lá um carro…
- E se o outro dá com a língua nos dentes?
- Agora já não há nada a fazer… Vá, vamos…
- Deixaste-o ir embora pá!
- Pois… Logo quem havia de dizer… Coicidências dum raio, o gajo salvou-me a vida em miúdo…
- Tá bem, tá bem… Só espero que ele desapareça e não dê com a língua nos dentes… Tens o dinheiro?
- Sim… - Disse-lhe exibindo o saco na sua mão - De caçadeira ao ombro afastaram-se dali.

ENTRETANTO NA ESTRADA…

O homem ainda contemplava com espanto animal o corpo morto à sua frente, quando, num repente, se lhe arregalaram os olhos…

Só me faltava mais esta, disse para com os seus botões, ante a visão do carro da brigada de trânsito da GNR de cujo interior acabavam de sair dois agentes.
Os homens vinham para o autuar pela falta da luz de presença traseira, mas ao sair do carro, de imediato, lhe deram voz de prisão. No meio da confusão o condutor esquecera-se que tinha a pistola na mão. Coincidência dum raio… Ter-se esquecido de que ainda empunhava a pistola. Bom ou mau pagador, o certo é que não lhe aceitaram desculpas ou justificações. Dentro do carro, a mulher não resistira a tanta emoção mais forte que a novela das oito e desmaiara. De repente, quando os guardas se preparavam para algemá-lo, vindo dos arbustos junto à valeta, do lado esquerdo da estrada, surgiu aquele a quem os dois perseguidores tinham poupado a vida. Demasiado exausto e cambaleante, sucumbira ao remorso e ao pragmatismo duro da realidade, sem forças, cheio de sede, arranhado e ensanguentado das silvas, o homem decidira entregar-se…

O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:

- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?

- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…

(CONTINUA - O próximo episódio “ Estrada Nacional 103 – O regresso” será o último ficando, desde já, assegurado um regresso ao humor e sarcasmo e um final… inesperado…)





segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

DENTRO DE MOMENTOS...



Para além da constipação de caixão à cova, também as palavrinhas deram às de Vila Diogo deixando o escriba numa camisa de onze varas para justificar o aparecimento do corpo morto e explicar quem vinha na direcção do casal. Foi grande o esforço e empenho na tentativa de alinhar as palavrinhas com a coerência suficiente para manter o suspense. Sem mais delongas, agora que a forte constipação parece estar controlada, a emissão vai seguir dentro de momentos. Mais daqui a pouco... A revelação do crime da estrada nacional 103... Até já!

sábado, 31 de Outubro de 2009

NACIONAL 103 - A VIAGEM



Tarde e a más horas, mas o escriba cumpriu. Mais um textozinho daqueles de fazer chorar as pedras da calçada ou de soltar os pregos do crucifixo à força de gargalhada. Desta vez, nem uma coisa nem outra... Uma história de crime, suspense, humor negro e... final inesperado! Nas entrelinhas lá vamos tendo as ferroadas do costume à nossa sociedade pôdre e mal frequentada.
Sem mácula de nuvens, o céu apresentava-se estrelado e bem acompanhado por uma bela lua cheia que, generosa, se oferecia para iluminar o sentido do pavimento tosco e esburacado diante do tremeluzir fosco dos mínimos. O casal seguia na sua 4L de cavalagem estafada por duas décadas de uso intensivo esgrimindo, no seu interior, acusações, gestos e gritaria. Decididamente, ela não entendia porque não remendara ele uma desculpa, por mais esfarrapada que fosse, na enorme manta de retalhos em que se tornara a sua vida amarfanhada de dívidas e preocupações nos exíguos metros quadradados hipotecados ao banco, numa obscura e perigosa praceta atafulhada de carros num quarteirão de má morte na Rinchoa. Quem quer que fosse, chamasse os bombeiros ou gritasse “Ó da guarda” que a eles nem a santa da ladeira derramava sangue , lágrima ou piscadela de olho para ajudar. Ele, por seu lado, apesar do adiantado da hora, cismara na urgência do telefonema lá da terra e, só o facto de viverem apertados pela pressão constante das ameaças do gestor de conta, o fizera aventurar-se numa carcaça velha com fortes indícios de fadiga dos metais, pela estrada nacional. O pouco que lhes coubera das partilhas da morte da tia materna dera de sinal para o apartamento, estoirando o resto na Renault 4L, à época, novinha em folha, mais brilhante que o aço das facas de trinchar do Augusto do talho 24. Não fosse a viagem dura e sinuosa a desoras e o encanto ímpar do percurso faria par com o estampado de estrelas só retratado com mestria igual em postais e guias turísticos. Já não a podia ouvir falar. "Vais depressa demais!... Matamo-nos antes de lá chegar!" Matar-se era coisa que não lhe passava pela cabeça, nem antes nem depois daquela prova de resistência à paciência de santo de que se munira à custa de dois brandys na estação de serviço. Sem dúvida que nem os santinhos do altar, alinhadinhos em sacrossanta disposição milimétrica, ficariam quietos pelo constante matraquear de avisos, ais, uis, sustos e resmungadelas ao longo da jornada. Olhava-a de soslaio e dava-lhe na veneta de pegar no calibre 9 mm entalado entre o tapete e as molas partidas do assento do condutor e desferir-lhe, à má fila, a canhonaça bem no meio da testa. Não fosse a imagem da massa encefálica a escorrer pelos vidros e salpicar os estofos lavados e aspirados na oficina do Carriço e não teria pejo dos trinta euros gastos na mordomia higiénica. Só a tinha trazido para não se deixar adormecer ao volante na frugalidade de conforto da máquina que, carregada com uma vintena de anos, se havia esquecido de aquecimento e leitor de CD’s. Aquele constante matraquear , contudo, era garantia suficiente de nervos em ebulição com visita inadiável ao centro de saúde para medir a tensão . Pior fora ter-se esquecido das cassettes do Dino Meira…
No meio da serpentina de asfalto divisava, a custo, as sombras de pinheiros e carvalhos estratégicamente plantados em curvas sibilinas… Já faltava pouco, o único receio era que aparecesse a Brigada de Trânsito, o médio traseiro fundido e o atraso na inspecção eram motivos de receio mais que fundados para coima da grossa. "Que quereria a velha àquela hora? Uma chamada a meio da noite… teria algum dos primos acordado nas partilhas do belo pedaço de terra junto ao Rabaçal? Mas àquela hora? … Sentira-se mal? Teria o velho morrido? A vozinha dela estava estranha… A lua preenchia grossas fatias de asfalto na amarelice quase fundida dos mínimos alimentados a bateria a dar toque a finados. Dos cento e quarenta kilómetros percorridos na companhia de caracóis vermes e outras lesmas, faltava-lhe palmilhar a derradeira légua… Era questão de aguentar com estoicismo a ligeira subida ladeada pelo barranco e no cume, iniciar-se-ia a descida até à casa rural que ainda não tinha ido a sortes pelos irmãos.
Olhou então para a rampa de estevas e arbustos que se apresentavam do seu lado direito. Alguns torrões e pedregulhos rebolavam em direcção à estrada. Um gande volume de forma rectangular rebolava com maior velocidade, desamparadamente, estacando no meio da via. Travou bruscamente. A chiadeira dos pneus, recauchutados desde a última folha perdida no calendário em que tinha recebido o décimo terceiro mês silenciara grilos, espantara morcegos e tornara ainda mais lúgubre o silêncio que invadira a zona. Só a tosse rouca dos cilindros se fazia ouvir naquele cenário fantasmagórico. A mulher começou então aos guinchos com avisos e alertas. Ele gritou-lhe meia dúzia de impropérios. Era estranha a forma daquele volume.
- Dir-se-ia… hum…nah… - Pegou na pistola entalada entre o tapete e as molas partidas debaixo do seu assento e abriu a porta.
- O que vais fazer homem? Contorna isso… o que quer que seja…
- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo e chegava-te o lume para alumiar a estrada… tá calada e…cala-te!
De pistola em punho saiu do carro e avançou, receoso, um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tablier com a fronha colada no vidro a mulher guinchava: -Que é homem? Diz lá! O que é?

- É um corpo!... É um homem… E parece morto! - Disse enquanto espreitava para o barranco.

De repente… arregalou o olhar… ao fundo, a alta velocidade…

(CONTINUA...)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

SIM... FICO! - A TERCEIRA PARTE


Eis a terceira parte da saga. Iniciada com o conto erótico "Se tivesse um título chamava-se letra M" e desenvolvido posteriormente pela Maristela, conclui-se hoje a trilogia num registo pretensamente literário.

…”Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.Apenas esperando.”
(Maristela)

… Apenas esperando que o último gemido rouco, solto a custo do fundo da garganta, lhes escorresse, como as vidas, em parágrafos desgarrados de prazeres suados e vontades assumidas. De mãos dadas num nó cego de cumplicidade, contemplando o tecto vagamente iluminado pelo fosco do candeeiro, mais do que personagens com densidade psicológica pretendiam ser protagonistas dum romance sem fim voando, agora, lado a lado, no meio de asas de primavera, flutuando num céu devassado de azul, recheado de metáforas.




- Ficas?




- Sim! Fico!... Gosto de ti! - Sussurrara-lhe ao ouvido numa brisa fresca de superlativos.





Ele corria num sonho alado, nas memórias da infância mágica e feliz na doçura alienada da mãe de ouvido colado na rádio onde rolava, invariavelmente, no “Quando o telefone toca”, dedilhado num piano de métrica romântica e afinada: “Vem… viver a vida amor…que o tempo que passou…não volta não”...




Ela sonhava com o castelo e o príncipe que, mesmo que imperfeito, apareceria limpo e barbeado para a salvar do dragão de fogo ou do sapo inchado de inveja e enfado. Os dois, sonhavam, em comunhão perfeita de corpos numa harmonia sem falsetes, notas soltas ou maestro, com a melodia que, em uníssono, os ajudasse a trocar as voltas da vida e do seu xadrez impreciso de jogadas dúbias.




Perto do Porto, já por estrada nacional, rasgava o asfalto no calor do pé febril e pesado da aceleração máxima contra o tempo, esse obscuro cavalheiro eternamente contraditório e escasso, para lhe susurrar ao ouvido, apesar da lomba traiçoeira que acoitava o camião monstruoso e grotesco em sentido contrário.




Ela acordou, de sorriso rasgado e dolência preguiçosa estendendo os braços.




Ele vinha a caminho do Porto e chegaria num qualquer momento parco e desejado, era só o tempo de um duche rápido e uma corrida pronta para a imobiliária.




Ele insitia em querer sussurrar-lhe… apesar da curva fatalmente apertada…




Ela soergueu-se na cama e estendeu os braços fazendo cair, desastradamente, o candeeiro que se transformou em cacos…




Ele carregava no acelerador, exangue e inútil, até ao limite duma mecânica possível e frouxa derrotada por K.O, simples e directo, pelas leis da física…




Ela juntou os cacos do candeeiro numa pressa ansiosa…




Ele, que viera para ficar, conseguira, numa volta sem retorno, mesmo nos últimos metros antes da derrapagem anunciada, exausto, feliz, de olhos brilhantes fitos nos seus, sussurrar-lhe com paixão numa brisa fresca de superlativos:


- Sim! Fico!... Gosto de ti!...

MAIS LOGO... CONCLUSÃO DO TEXTO DA MARISTELA...




Não é o big brother nem o "profundo olhar" é o escriba a anunciar o final da saga da Letra M... O texto começou como erótico, teve desenvolvimento com a Maristela e vai acabar num novo registo. Um risco sem cálculo, um passeio no arame sem rede. A ler mais logo...

sábado, 24 de Outubro de 2009

LUSITÂNIA ONLINE - DENTRO DA LIVRARIA OBRAS COMPLETAS



O Lusitânia Online, editado pela Novitas, chegou à Livraria Obras Completas no Centro Comercial Dolce Vita Miraflores. Para os não residentes na área de Lisboa/Oeiras poderão continuar a receber, no recato do lar, a obra devidamente acondicionada e almofadada nas fronhas do envelope de correio verde.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

POR RESPEITO PARA COM O PÚBLICO LEITOR

Após tantas manifestações de apoio e carinho, decididamente, não pode o escriba abandonar com esta leveza, este espaço pelo enorme respeito que o público leitor merece. Fazê-lo, por contrapartida das dificuldades no término da história da Maristela ou pelos desaires face à ditadura dos critérios insondáveis das editoras nacionais, seria facilitismo e fuga pela esquerda baixa do palco. Não foram os números pesados das visitas nem dos seguidores argumento suficiente para convencer as ditas. Ao escriba restaria provocar um escândalo público ou uma presença na televisão. Não sendo adepto de uma nem partidário da outra... Paciência! Agora, livre do fardo pressionante das tentativas de publicar umas míseras linhas nas sacrossantas editoras nacionais, vai o escriba dar continuiade ao blogue voltando à pureza original: Tertúlias virtuais, blogagens colectivas, gincanas, desafios, sempre na expectativa de produzir os melhores textos para o público leitor na linha humanista e de humor cáustico que vinha seguindo. O bichinho da escrita é mais forte que o apelo fácil da desistência. Assim sendo, não se furtará o escriba a acabar a história da Maristela, sem saber bem como, amanhã... Vai agora o escriba à cata dumas palavrinhas para alinhavar, depois de ter ouvido "poucas e das boas", inclusivé por mail, de um público que merece ser brindado com o melhor do melhor.
Obrigado!

SEXTA-FEIRA É O FINAL...



Faz agora uma ano que este blogue abriu... entre a dificuldade em alterar o rumo da história da Maristela, manter a história sem rumo ou, sequer, dar um rumo aos escritos, é hora de fazer um balanço. Se o fácil não tem apelo e o difícil não tem solução... Sexta-feira é o ponto final...

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

ENTREVISTA DE SARAMAGO AO BLOGUE DO BENTO



JORNALISTA: Acredita em Deus?
SARAMAGO: Eu? Deus me livre!
JORNALISTA: Em que acredita?
SARAMAGO: Em Jeová!... Porque há Testemunhas...
JORNALISTA: Tropeçou num argumento estafado...
SARAMAGO: Não...Caim...

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

A CONTINUAÇÃO - DE MARISTELA BAIRROS

Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:- E tu…Voltas?Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:- Não… Fico!!

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Este foi o parágrafo final do conto erótico que a Maristela Bairros da Clínica da Palavra se propôs desenvolver. Aventurando-se por novos registos e trazendo uma nova dinâmica à narrativa.. aí está o texto da Maristela...

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Dissera “fico” com tamanha determinação que o coração ficou aos pulos. E agora? Como faria para levar esta loucura toda em frente? Uma transa é, afinal, uma transa. Puro prazer. Nada a ver com problemas, conseqüências, culpas. Ainda sentia o gosto de toda ela em sua boca, as mordiscadas no lóbulo, o dedo atrevido que o deixara até meio incomodado mas que, depois, o fizera repensar conceitos.

O corpo inteiro sofria uma espécie de espasmo interior, ao ritmo da veia jugular. Medo? Com certeza, sim. Junto com a tesão que não passava.


Ela ouvira “fico” entre o satisfeita e o incomodada. Satisfeita por confirmar o poder de comando que tanto amava. Incomodada porque não tinha interesse em ir adiante com aquela coisa que não era nem mesmo uma relação. Só uma transa. Lembrou, então, da banheira cheia de champanhe que havia exigido de Leon, capricho caro que ele havia bancado. A sensação de ser possuída e de possuir envolvida pelo cheiro do álcool, pelo sabor da bebida misturada com o sabor de fluidos. Esse cara não parecia ser do tipo. Ao contrário.


Quando sentiu que ela o pegava pelas costas, puxando-o pela cintura tramando a perna em volta de seu quadril, esqueceu do medo. Deixou que ela o guiasse, rindo baixinho, estendendo as mãos para trás, buscando-lhe a cabeça, as orelhas, os cabelos, por sobre o ombro, o hálito quente e com cheiro acre, mas estimulante. Fechou os olhos, por um instante se imaginou a caça e não o caçador. Pensamento que por tanto tempo expulsara mas, com ela, admitia. O movimento ritmado dela, úmida, como se estivesse implorando, num jogo de masoquismo, as unhas cravadas em seu peito, parecendo mais um animal que brigava para não cair dali, a vontade crescendo, duro, duro, duro como um adolescente de 18 anos.


Não queria estar com ele, não queria pensar que queria estar com ele, mas precisava dele mais uma vez, ou duas, ou três. Ele a obedecia, todo o corpo dele a obedecia, ao menor toque dos mamilos em suas costas, ele reagia todo alerta, ela sentia aquele tremor quase imperceptível, ela sabia que ele ficaria pronto sempre que ela quisesse. Montada nele, como um bicho, sem qualquer elegância, sugando seu pescoço, seu ombro, parecendo em desespero, queria espantar qualquer outra vontade que não fosse a de gozar fundo e sem intervalos. Nem Leon nem os outros, nem aquele velho nojento que a alimentava e para quem ela dava de olhos sempre fechados, nada era melhor, naquela hora, que aquele cara que nem conhecia. Rápida, sem falar nada, mordeu-lhe forte a nádega. Ele gemeu. E se virou.


O que aconteceria agora, quando voltasse? Poderia ficar ali semana inteira. Um dia, iria voltar. E enfrentar o olhar morno de Agnes. Abafou o pensamento segurando os dois pés daquela louca, erguendo-os no ar, acima de sua cabeça, olhando-a com o interesse de um predador. Ela queria. De qualquer maneira, ela queria. Ela empinava a barriga para cima, tentando se impor à sua boca, ele recuava, a abaixava, submetia sua vontade, seu poder, não falava, apenas respirava, a cabeça latejando, o sexo doendo, ele castigando, até desabar dentro dela, sem piedade, sem carinho, sem sentimento. Até ouvir ela soltar como que um rangido longo. Não era um som de gozo. Era diferente. Ele gostou ainda mais.

Assim, presa pelos pés, sugando as mãos, desgrenhada, se debatendo, o ventre subindo e descendo inutilmente diante dele, provocação, submissão, revolta, ela pensava em quanto estava no comando, em quanto era boa nisso. E só pensar já lhe bastava para o prazer vir como um jorro quente. Sem ligar para a dor em cada pedaço da pele, a madeira, as felpas, corpo esfolado. Marcas. Queria, mas não aceitava. Tentou arrastar a cabeça dele, para sentir de novo a língua áspera. Ele recuou. Ela gostou. Uma surra às avessas, pensou. Mas ele vem, eu consigo. Eu mando. Eu quero. De repente, o solavanco, o rosto dele tão perto agora, num esgar, deformado, assustador, mau. E tão bom , tão bom, tão bom.


Tentavam em vão parar, encerrar, se permitir. Mas agora era tarde. Não eram eles que mandavam. Eram seus corpos. Como desligados deles mesmos. Se governavam, comandavam, não aceitavam ordens. Simplesmente ondulavam, e tremiam, e se agitavam com fúria. Davam um tempo, amansavam-se, docilmente, até recomeçar, olhos buscando um o outro, bocas sem tempo para um beijo que fosse, garras em vez de mãos, sons assustadores, ardência doída, ausência de vida, quase morte. Rostos vazios, se abraçaram automaticamente. Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.
Apenas esperando.

(Maristela Bairros)
Há alguns dias, nestes papos de twitter e facebook, fiz um convite ao Luis Bento, do Bento Vai Pra Dentro. Ele havia escrito, na maior farra e provocação, um texto erótico, incentivado por alguns amigos, em especial da web. Tudo por causa da insensibilidade das editoras: ou vende porque é sacanagem ou não vende. Enfim.Pois eu propus ao Luis Bento que desse continuidade ao texto. Ele disse que tinha de pensar. Eu então, na farra, propus uma brincadeira: eu escreveria o seguimento e ele o seguimento da minha continuação. Ele topou.
Topei sim! Mais daqui a pouco..o conto da Maristela...

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

MARISTELA - A PROPOSTA...BREVEMENTE



Pois em conversa no twitter surgiu uma ideia excelente... Depois do desafio da Ana Martins surgiu a proposta da Maristela. A Maristela Bairros (jornalista, dois filhos, humor variável, atenta, dois cachorros) do blog Clínica da palavra vai dar sequência ao texto erótico: "Letra M de...Mais..." Diz a Maristela que já sabe o que vai fazer com os personagens e, posteriormente, o escriba dará sequência à sequência da Maristela... Isto promete! Até final da semana aguardemos pois pelo texto... quente... da Maristela...

domingo, 18 de Outubro de 2009

BLOG DO CONCISO - BLOGGINCANA DE OUTUBRO






1 - Escolhi porque era o blog anterior ao meu.

2 - Se é do meu agrado? Sim! Porque é desconcertante e vanguardista.

3 - Nunca frequentei, mas vou frequentar. Blog moderno, joga com as imagens e obriga a leitura atenta para percceber as mensagens subliminares.

4 - É um blogue inteligente.



domingo, 11 de Outubro de 2009

AÍ ESTÁ: O DESAFIO DA ANA MARTINS


Escrito à pressão, resposta ao desafio da escritora Ana Martins lançado no facebook: "Olha Luís, desafio-te a colocares uma personagem fictícia no Blog logo a seguir às 20h de amanhã, a saber o resultado das eleições, sendo esta pessoa candidata a uma qualquer Edilidade fictícia, porém nacional. Aceitas?" Aceitei!... e de imediato lhe lancei um repto: "Em contrapartida lancei-te outro desafio... Um texto sobre as redes sociais e o preconceito. Pela tua abordagem, já antecipo surpresas!"
Pois... aqui está a resposta...quanto ao desafio feito à Ana podem lê-lo AQUI:
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Publicado em simultâneo às 20 horas com o site http://anamartins.com/

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Partira ainda pequeno, pouco mais de dez réis de gente, de mão dada com o pai, com o infortúnio por traz e a fome pela frente.Para trás das costas deixara os xistos, as couves e o abecedário soletrado pela metade. França, pródiga em liberdades e oportunidade, cravada numa europa distante o suficiente e esquecida deste rectângulo quedo e amordaçado, trouxera-lhe a paz e o desafogo financeiro. Uma vintena de anos depois, seduzido pela saudade servida em doses duplas de nostalgia regressara ao cheiro, ao húmus e ao caldo de infância. Regressara pois, e conhecera mulher e fora pai e trocara a enxada e a talocha pelo fato/gravata da política. Mais por justiça e sede de construir do que por ambição, farto das quezílias em torno de marcos, fontes e estradas para nenhures, desenvolvera um trabalho de esmero e dedicação à causa pública que ofuscava pelo brilho e irritava pela inveja. Sempre se orgulhara de ser diferente “deles”, dos outros, daqueles que floresciam à sombra da causa pública alicercando a ostentação parola na ignomínia e no desvario. Sempre se furtara aos favores, às fugas e às pressões presidindo aos destinos da Câmara Municipal com denodo e honradez. Até que um dia, ao filho, único rebento do casal, fora-lhe diagnostica enfermidade rara para a qual tinham canalizado e esgotado todas as economias. Cego de amor, não resistira e organizara, metodicamente, contabilidade paralela e desviara a quantia suficiente para a operação urgente em Londres. Descoberta a tramóia, tornara-se presa fácil dos abutres que há muito pressionavam e exigiam a construção do aterro sanitário a troco de múltiplas e obscuras vantagens para causa própria. Cedera, mais uma vez… A exposição pública de mácula no cadastro moral seriam dor maior maior que a perda do mandato eleitoral. Perto das oito, minutos antes do anúncio dos resultados, em plena praça pública, os magotes de gente aproximavam-se regozijando e antecipando a vitória.
De fatiota cara e vistosa, dois dos investidores acercaram-se com sonoros cumprimentos:
- Dê cá um abraço homem, que você é cá dos nossos!!
Não contendo um nó seco na garganta , de olhar preso no horizonte marejado de lágrimas enquanto os militantes esfuziavam de alegria com os resultados pela retumbante vitória, não conseguia deixar de pensar:
- Sim, agora era um deles…

O DESAFIO DA ANA MARTINS




A Ana Martins lançou um desafio ao escriba: "Arrisca a ficção factual, o drama... Olha Luís, desafio-te a colocares uma personagem fictícia no Blog logo a seguir às 20h de amanhã, a saber o resultado das eleições, sendo esta pessoa candidata a uma qualquer Edilidade fictícia, porém nacional. Aceitas?" ... .... ...- Aceito! Atordoado pela surpresa do repto e orgulhoso pela escolha, o escriba balbuciou um sim antes de pensar nas condições ou consequências pelo facto de arriscar mais uma jogada em novos registos de escrita. Mesmo antes do intervalo, ainda teve tempo para, num passe de mágica, colocar, por sua vez, a bola no lado de lá: "
Bom dia! Aceitei o desafio e lanço-te também um repto...E que tal lançares um personagem fictício onde abordes dois temas? Redes sociais e preconceito? Por exemplo, o número crescente de amizades nas redes sociais que o personagem tem , mas que se evapora quando o conhcem... ao aparecer em cadeira de rodas... acho que é um bom ponto de partida... Eu sei que o tempo é curto, mas vais fazer-nos uma boa surpresa!" E pronto! Eis-nos a brincar à cabra cega com as palavrinhas que teimam em aparecer... Prognósticos... só mais logo, nos blogues de ambos, lá pelas 20 horas...

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

SE TIVESSE UM TÍTULO CHAMAVA-SE: LETRA M... COMO M DE... MAIS!!...





O prometido é de vidro. O escriba, aventurando-se num registo que não é o seu, não se furtou ao desafio. Mais que o hipotético interesse das editoras, foi o frenesim de entrar por um terreno excitante e sensível. Sendo a “primeira vez”, espera o escriba levar a bom porto o navio, pois que se naufragar no meio dos escolhos deixará as palavrinhas a pão e água…





Metera-se a caminho do Porto rolando em velocidade excessiva no atapetado do asfalto. Mais do que a compra da casa foram os traços finos e elegantes, que lhe divisara nos bytes da net percorrida a fio e insistência, que o levavam em busca daquele olhar forte e perturbador que, aos quarenta o mantinha em suspenso, preso daqueles quarenta debruados a quilates prenhes duma sensualidade acanhada..
Chegara cinco minutos antes da hora marcada aos escritórios da imobiliária. Dera com ela sentada na secretária de saia e casaco pretos, camisa adivinhando formas na sua transparência, uns sapatos de salto agulha, lábios rasgados e finos, nariz direito, cabelos longos, soltos num volume selvagem e aquele olhar felino onde, de imediato desejara perder-se no verde das suas sete vidas. Aproximou-se com um cumprimento de mão leve sentindo-lhe o aveludado e o tremor expontâneo. Olhos nos olhos, balbuciaram cumprimentos a rodos e sorrisos a destempero. Finalmente, ela retirara a mão, compondo o casaco deixando a descoberto parte da alvura redonda e firme de um seio desamparado e atractivo. Sentira-lhe o suspiro inflando de impaciencia e excitação. A química não se confinava aos tubos de ensaio das aulas de liceu. A reacção em cadeia dera-se ali mesmo, em catadupas de odor, olhares e respiração em códigos trocados no esboçar de sílabas alinhavadas a silêncio.







De mãos dadas, voaram numa vertigem estancada à porta da moradia com a placa “VENDE-SE”. Mal entraram no hall, ele não se conteve e, pegando-lhe no pulso, fê-la rodopiar até ficar de frente para si, acto contínuo, empurrou-a contra a parede nua, prendendo-lhe os pulsos. Por entre pastas, papeis e documentos espalhados nas lajes, esmagou os seus lábios finos e rasgados com um beijo longo e quente, ao mesmo tempo que comprimia o seu corpo , meneando-se de forma a sentir-lhe o sexo. Generoso e faminto, o corpo dela oferceu-se ao movimento libidinoso deixando-se prender, desta feita, pela face, nas suas mãos nodosas e másculas. Ávidos, os lábios não encontravam o fim num beijo cada vez mais longo, quente e húmido que abriam, agora, passagem a uma língua exploradora que encontrara companhia e se deixara enlaçar num turbilhão de fluidos e desejo. Ela mordiscava-lhe agora os lábios repuxando-os de olhos fitos nos dele. Matreira, a mão masculina desceu com um vagar anunciado , de forma possessiva e penetrante, em direcção ao sexo dela comprimindo-o e acariciando-o. Ela retirou-lhe a mão e obrigou-o a enlaçá-la pela cintura. Teimoso, por entre beijos afoitos e distraídos acariciou-lhe o ventre passeando com mão até aos seios roçando, ao de leve, um dos mamilos. A um tempo subiram as escadas em direcção ao quarto num compasso de ânsia. Abraçou-a pelas costas tirando-lhe o casaco à força de beijos e caricias no pescoço. A mão direita dele, teimosamente acariciava, de novo, o sexo dela e de novo rechassada com suavidade. Foi a vez dela. Virou-se cobrindo o seu peito de lábios excessivos por centímetro quadrado de pele. Ele, rendido e perdido nas vagas daquela maré de olhar verde e felino, empurrou-a para cima da cama e deixando cair todo o peso do seu corpo num desfalecimento embevecido, puxou-lhe as abas da camisa fazendo saltar os botões, passando a mão direita, num gesto de destreza, pelo fecho do soutien. Os seios, agora desnudados e com a pele arrepiada surgiam, alvos e puros, oferecendo-se generosamente aos seus lábios. Não se fizera rogado.Iniciara uma doce tortura com a sua língua deixando um rasto húmido de desejo ante o seu tórax que se arqueava e arrepiava, a língua dançava sobre os mamilos túrgidos, duros e ansiosos, do beijo e da sucção. Começou por mordiscá-los rodando os maxilares o que provocou um frémito pelo seu corpo. Sugou-os, sentia-lhe o arfar, a respiração pesada e as suas unhas cravadas no cabelo. Desceu então, lentamente, em direcção ao ventre, novamente deixando um sulco brilhante e quente. Puxou-lhe a saia,alçou-lhe as pernas apoiando-as nos seus ombros. Puxou-lhe, com uma lentifdão lasciva e calculda, os slips enquanto lhe beijava a face visível das pernas junto aos seus lábios. Iniciou então um percurso exploratório em sentido ascendente. Sem lhe retirar os sapatos de salto alto, beijou-lhe os dedos dos pés demorando-se um pouco, depois o peito do pé onde a sua língua fez novas acrobacias. Ajoelhou-se diante dela e egeu-lhe as pernas ao nivel dos joelhos. A língua subiu arrastadamente pela zona interior das pernas em direcção às sua coxas. Ela fincava-lha as unhas no cabelo puxando-lhe a cabeça em direcção ao sexo. Em menos de nada os seus dedos afastavam as pregas do sexo que se oferecia generoso e húmido ao seu olhar faminto e ao seu desejo. Penetrou- com a língua, demoradamente, sentiu-lhe o estertor as coxas que o apertaram repentinamente e o gemido rouco que vinha lá de longe do mais fundo do seu prazer. Ela puxou-o pelos ombros exigiu-lhe o beijo sentindo o odor e o travo agridoce do seu sexo. Demoraram-se num beijo apaixonado, e então ela girou o corpo e ficou sobre ele. Prendeu-lhe os pulsos e deixou-se inclinar de modo a facilitar a entrada do seu sexo. Iniciando um vaivém ritmado, sincopado cada vez mais ávido e célere. Atingiram o clímax em uníssono, conjugado de forma activa a duas vozes. Ela deixou-se cair sobre o seu corpo, aninhando-se sobre o seu peito de respiração ofegante enquanto ele brincava com os seus cabelos longos…






Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:
- E tu…Voltas?
Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:
- Não… Fico!!


terça-feira, 6 de Outubro de 2009

MAIS LOGO...

(Tirada da net)
A pedido de várias famílias e porque eu não sou de deixar cair desafios em saco roto, logo mais à noitinha, o escriba vai aventurar-se num registo de forte carga erótica que, por si só, já é empresa de monta. Seja pelo apelo do público seja pela dimensão do saco, o desafio terá resposta, forte, quente e determinada. O escriba não vai formular a resposta sacramental: " Depois não digam que eu não avisei"... Eu... Avisei! A excitação do desafio e a possibilidade de, assim, ter alguma visibilidade nos critérios míopes dos editores nacionais... aguçaram-me o apetite... Aguentem-se...

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

ESCREVER SOBRE A VIRGINDADE? OU REVISITAR O DILEMA DE HAMLET?





Não sendo a Queda de um Anjo na companhia do Camilo Castelo Branco foi, pelo menos, um tombo de santinho com pés de barro... Excitaram-se os neurónios perante a "alembradura" dos tempos de catequese após uma conversa com um blogger brasileiro: " Se escrever sobre coisas sérias... ninguém publica, mas se contar como perdi a virgindade... vem editora até de Plutão"... e agora? Escrevo ou não escrevo?... Hum ?...

ALGUÉM ESCUTA O BOLO-REI?

Triplicaram os ataques ao sistema informático do governo após declarações de Cavaco Silva...afinal ... parece que toda a gente ESCUTA o que o presidente diz...

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

QUEBRAR O TABU!



É HOJE!! É HOJE!! QUE VÃO QUEBRAR O TABU!!

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

ESCUTAS DO SIS? - OU A NOVA TESE DO MITO SEBASTIÂNICO

( A fotografia é minha!)


Cruzaram-se num passeio estreitamente vesgo, entalado entre paredes decoradas a graffitis e carros ordeiramente semeados em segunda fila. Iluminou-se-lhes o semblante num sorriso rasgado a lâmpadas de cem velas quando se reconheceram de abraço estendido, comum e imediato. Refastelados numa esplanada de má morte (que a boa andava na companhia de santos de pagela) estenderam o rol de recordações desde os tempos de faculdade.
Esfomeada, a curiosidade, disparou perguntas a eito de parte a parte, o tempo era escasso e curto, mas com tecido suficiente para dois, três ou quatro dedos de conversa. Conversaram uma mão inteira! Madame esferovite, a quem o cognome assentava que nem uma luva pela tamanha frieza, palidez , arrepios e desfalque sucessivo e constante nos mais elementares padrões estéticos, dissecava até à exaustão o mito sebastiânico espraiando-se por kilómetros de aulas áridas e recheadas de absentismo, na cadeira de Cultura Portuguesa. Filha única, marrona por natureza e inteligente por benção divina, devotava a sua vida a extirpar a ferrugem mental aos néscios que lhe caíam no regaço. Desta feita, os três estarolas que subtilmente lhe boicotavam as aulas, embora não se catalogassem na referida categoria passeavam, amiúde, pelos limites da desfaçatez e despreocupação. Intelectuais de algibeira traziam nos fundilhos das calças, uma amálgama de conhecimentos assente em manuais de alfarrabista , novidades do quotidiano e dicas do Reader’s Digest. A piada surgia a despropósito e com uma celeridade estonteante. Ficara célebre a intervenção do escriba após uma (mais uma) extensa dissertação da Madame esferovite sobre o mito de D.sebastão. Enumerara ela numa ode triunfal e numa complicada equação matemática assente no logaritmo “por A+B”, que o mito se baseava no regresso do Desejado numa madugada de nevoeiro trazendo, a tiracolo, a salvação e que, por si só, a crença no seu regresso era o leit motiv para muita temática literária e para que o Povo não perdesse a esperança no regresso de uma liderança forte, una e que fomentasse a coesão e o desenvolvimento da identidade nacional. Assente nesses pressupostos, o escriba , num misto de sarcasmo e ironia despejara com um sorriso infantil:

- Então estamos safos! - Por entre a risota geral e o enfado furibundo da professora, choveu nova prelecção alertando para o facto de se tratar de um mito e que o povo português deveria canalizar as suas energias, as sua crenças e a sua vontade de mudar o rumo do país para as qualidades e capacidade de trabalho, honestidade e liderança da classe política portuguesa. Face à derrocada dos seus argumentos e desiludido com o peso da prelecção, a resposta não se fez esperar, desta vez mais contundente:

- Então… Estamos fodidos!
As semanas seguintes seriam passadas num mutismo total e numa clausura forçada no canto da sala. Lá mais para o final do ano lectivo, um dos estarolas, que embora tivesse cérebro, a massa encefálica, muitas vezes ausentava-se para parte incerta, era filho-de-uma-doméstica-que-tinha-um-primo-que-era-amigo-do-cunhado-dum-doutor-vizinho-dum-professor-universitário-ligado-ao-centro-de-estudos-judiciários-que-tinha-sabido-que-ia-abrir-um-concurso-para-agentes-do-SIS, tinha avisado o grupo para a oportunidade de arranjar um tacho no estado. Lá foram os três estarolas a concurso, provas, testes psicotécnicos e outros exercícios de perícia dignos de cromos da bola. Mal chegaram à velhinha sede do SIS na Alexandre Herculano, quando subiram ao primeiro andar, acompanhados por um esbirro, onde se iria fazer uma prova escrita, o escriba empalideceu… Estava envelhecido, levemente corcunda e sem cabelo, mas os seus passos não deixavam margem nem rio para dúvidas: aquele som que vinte anos depois lhe recordara o terror da mãe sempre que ele entrava no prédio… Era o “Botas”!! Sim! Esse mesmo daquela história de agentes da pide contada há uns meses atrás!! Perdera a tesão toda! Foda-se! Triste democracia que vai buscar os seus algozes para lhe ensinar a defesa do traseiro. Declinou o convite, rasurou a prova e desceu em direcção à porta de saída acompanhado pelo esbirro. Formado em letras por opção e algarismos por necessidade, aceitara um lugar discreto, limpo e bem remunerado numa instituição bancária.
Os outros dois estarolas acabaram por ficar. Um como perito de logística de segunda classe, dedicando-se alegremente à montagem de aparelhos de escuta nas redondezas das zonas-alvo, o outro como operacional, entretendo-se na recolha e tratamento de informação de rua. Submetera-se a concurso interno para técnico de análise de informação, mas uma-estagiária-que-era-prima-de-um-assssor-de-um-secretário-de-estado-que-era-boa-todos-os-dias-e-com-umas-mamas-descomunais-e-fazia-repetidamente-serões-com-o-inspector-cordenador, acabara por ficar com o lugar…
Estava saturado, entre as vigílias aos professores e as escutas aos sindicalistas, pouco sobrava de resquício terrorista para investigar. A menos que Bin Laden se acoitasse na C+S de Sobral de Monte Agraço ou no seu célebre parque infantil, de atentado nem cheiro, só o demente e quotidiano rol de fugas de informação para a imprensa fomentado pelos serviços secretos militares.
A conversa é como as cerejas … E os caroços, muitos, já se espalhavam pela calçada. Das recordações e desabafos regressavam agora, sem vontade, à realidade do presente do indicativo pensando em tempos pretéritos e temendo pelos futuros. Sem certezas clínicas de futuros reencontros, despediram-se com uma tese comungada por ambos: Entre o Pai Natal e o D.Sebastião, não restavam grandes esperanças aos portugueses… Um era apenas figura decorativa de calendário de Coca-Cola, o outro...nunca regressaria na tal ansiada madrugada, antes pelo contrário, foram os portugueses que se tinham enfiado, de borco, no lodaçal pantanoso, num entardecer de nevoeiro, na companhia dos cavaleiros do apocalipse embrulhados em fatinhos Armani...

P.S. Dado que “Eles” até andam a ler blogues… antes que venha o D. Sebastião travestido de processo… é melhor dizer que isto é ficção,… Não é?

domingo, 27 de Setembro de 2009

REBENTAR... COM OS VOTOS...

Ao rebentar da aurora começa mais um acto eleitoral para escolhermos aqueles que vão rebentar connosco... O Bento não re...Benta...com ninguém! Antes pelo contrário, rebenta com os cânones estabelecidos para as boas práticas literárias e com a própria imagem. O texto que vai sair mais daqui a pouco é mais uma crítica de língua afiada para ler nas entrelinhas. O texto veio rebentar com a linha editorial de histórias com humor. Antes que os leitores rebentem com o escriba, exerçam o vosso dever cívico e "votem" os vossos comentários na caixinha aqui de baixo.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

BLOGGINCANA - SETEMBRO



O Varal de Ideias pela generosidade, pela divulgação e por manter vivo o espírito da blogosfera
Parece que o conheço desde sempre...

O REGRESSO DO ESCRIBA!!


Ora aí está, de regresso, o escriba! Enterrado em faraónica busca, não da arca perdida, mas dos cento e cinquenta mil postos de trabalho prometidos pelo Sócrates logrou, finalmente, sacudir a areia fina do esquecimento e voltar à verve incial deste espaço de crítica e tertúlia. Perdido, dias a fio, por entre domésticas com-rendimentos-mensais-de-quinhentos-euros-a-comprar-casas-em-offshore-de-meio-milhão-de-euros-com-desconto-de-cento-e-setenta-e-quatro-mil-euros- para-pagar-menos-IMT, não almejou o escriba encontrar os postos de trabalho e, dado que, nos dias de hoje, falar do Freeport é guia de marcha com carimbo e selo branco para fazer companhia à Manuela Moura Guedes…vamos antes falar do mito Sebastiânico… brevemente…

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

RECEBI UM LIVRO...


Recebi este livro pelo correio, uma gentil oferta da amável autora Ana Martins. Já o li. Li num ápice, numa vertigem. Normalmente, expansivo em palavras, esgotaram-se-me hoje os vocábulos. Evitando o lugar comum e a simples exposição de factos e situações, Ana Martins brinda-nos com um exemplo de luta, com orgulho (muito) e um sorriso (sempre). Numa narrativa bem construida e apaixonante revela-nos “entre lágrimas e sorrisos, o mundo desconcertante do autismo” ou, mais propriamente, os tiques do desconserto do mundo…
O autismo não é uma diferença, é uma forma diferente de ver o mundo que, às vezes, bem precisaria de ser diferente…

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

A ECOCASA - PROJECTO ARQ. MANOELA SCHMIDT

Foi dos primeiros blogs que conheci: Clínica da palavra . Rapidamente se estabeleceu uma empatia e uma necessidade de acompanhar as suas novidades. Pessoa generosa, em constante divulgação do trabalho alheio, surpreendeu-me com um post sobre o Lusitânia Online. Surpresa pelo carinho e conhecimento manifestado, surpresa por se ter antecipado à divulgação do projecto ecocasa para o Jardim Botânico da autoria da sua filha Arquitecta Manoela Schmidt. Já consultei o link e vi as fotos dos interiores. Aqui fica a divulgação, acima de tudo porque é um projecto de grande qualidade e porque, num futuro muito próximo, é nestas casas que viveremos.


Amigos.No ano passado, minha filha, Manoela Schmidt, obteve o primeiro lugar concurso cujo objetivo foi criar uma ecocasa para o Jardim Botânico. Agora, como arquiteta que obteve sua graduação em agosto, ela já pode tocar o projeto adiante e tentar patrocínio para a sua construção, o que também pode e deve ser buscado pela instituição beneficiada, no caso a Fundação Zoobotânica.Para divulgar mais o projeto, Manu criou um blog cujo link envio a vocês e peço que divulguem como puderem.Um abraço da mãe-corujamaris
http://ecocasajardimbotanico.wordpress.com/-- Maristela BairrosJornalista




O Projeto
Arq. Manoela Bairros SchmidtProposta para Eco-Casa no Jardim Botânico de Porto Alegre.Projeto classificado em 1º lugar no concurso de ideias.A diferença da eco_casa em relação às casas comuns é o fato de buscar uma correta integração com a paisagem, utilizar materiais naturais ou de reuso, tratar e reaproveitar a água, associar à edificação o plantio de espécies para consumo próprio, buscar uma adequada orientação solar (a fim de minimizar o calor no verão e maximizar no inverno), valer-se da energia solar para aquecer a água da casa, buscar uma ventilação natural dos ambientes (melhorando a qualidade do ar), etc.
No caso do protótipo no Jardim Botânico, o que diferencia a eco_casa das demais é o fato de buscar um contato com a terra.
A exemplo dos índios, que enterravam suas habitações, a eco_casa no jardim botânico é semi-enterrrada (fica a um metro abaixo do nível do terreno, correspondendo à altura dos peitoris), promovendo, assim, um contato com a terra.
A variação da temperatura do solo é menor que a do ar durante o dia e o ano, por isso ocorre uma transferência de calor entre a casa e a terra: no inverno, ocorre o aquecimento por irradiação, quando a casa ganha calor pela terra; já no verão, ocorre o oposto, quando a casa é resfriada por irradiação, ao perder calor para a terra). Buscou-se solucionar de forma natural o problema do frio e do calor intensos em Porto Alegre.
Outro diferencial é o fato de buscar uma manutenção da paisagem existente: por ser semi-enterrada, fica camuflada no terreno, não agredindo a paisagem e mantendo, em parte, o seu aspecto natural.
contato:
manoela.schmidt@gmail.com

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

NOVO CAMPO DE TREINO DA SELECÇÃO NACIONAL




Novo campo de treino da selecção Nacional... pelo menos nesta baliza eles conseguem acertar! Acho eu...

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

MAIS UM BLOG CENSURADO NO BRASIL...SE A MODA PEGA...

Denúncia Caros e caras, recebi na tarde de ontem um curto comunicado do WordPress via e-mail solicitando, em prazo de 24 horas, a remoção de todo e qualquer logotipo ou imagem da Petrobras e a mudança da minha URL “petrobrasdadosefatos”, pois, segundo o comunicado, estaria essa causando confusão com o “petrobrasfatosedados” (Mas essa era a intenção oras! Uma companhia bilionária quer ter exclusividade com um domínio gerado em serviço gratuito?!).
Nesse momento percebi que meu blog estava totalmente bloqueado, e que não era mais possível postar nem alterar conteúdos, nada. Por isso coloquei um comentário avisando da censura que estava sofrendo, pois a ferramenta de moderação de comentários continuou ativa.
Estranhei tal comunicado curto, sem maiores explicações e solicitei um detalhamento do por quê dessas imposições, e se havia pressão ou alguma ação formal por parte da Petrobras. Recebi como resposta apenas alguns detalhamentos técnicos que também indaguei, nada sobre o motivo. Muito estranho.
Hoje, novamente, enviei os mesmos questionamentos, incluindo se haverá a possibilidade de um “linkamento” direto entre a minha atual URL e uma nova, caso essa seja realmente congelada. Ainda não obtive resposta. O blog, porém, voltou ao normal, por isso estou postando esse texto.
Não quero criar problemas para o WordPress, que presta um ótimo serviço gratuíto, e aceito qualquer solicitação caso seja necessário. Gostaria apenas de saber exatamente o que está ocorrendo. Claro que pelo teor do comunicado inicial, existe pressão da Petrobras para que esse blog se cale, mude, perca-se.
Enfim, hoje estou cobrindo todas as imagens da empresa, conforme solicitado. Estou colocando tarja preta de censura. Já criei um novo URL cujo endereço deixo aqui como segurança caso
deletem o atual, anotem aí:
http://petrobrasilfatosedados.wordpress.com/
Vamos aguardar novas comunicações ou ações. Aproveito para agradecer todas as mensagens de apoio que esse blog vem recebendo. É um estímulo diante de um fato tão deprimente. Valeu pessoal!
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quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

VOU DE COLECTIVO - ADORMECER AQUI E AMANHECER NOUTRO LUGAR

(Marienbrücke)

Acabada a preguiça autorizada por decreto, lá vem o escriba amealhar mais umas palavrinhas num texto com sentido obrigatório em direcção à blogagem colectiva.

A frequência com que, em noites de insónia aguda e agitada lhe assaltava o desejo de adormecer aqui e amanhecer noutro lugar, mesmo encostadinho aos imberbes raios de sol da manhã, era unidade de medida costumeira que o acompanhava desde tenra idade, isenta de rugas e nervuras. Fosse por manifesta impaciência de Deus, perdido em páginas de bíblias da Europa-América ou a vistoriar milagres, fosse por enfado ou incapacidade do maldito narrador, as noites sucediam-se ao ritmo febril de vigílias improdutivas e constantes sem vislumbrar a meta do seu objectivo. Entre cigarros apagados a preceito nas espessas manchas de alcatrão, a inundar sucessivos raios-x vomitados de taxas moderadoras, ia dando emprego a sapateiros e tecelões pelas longas marchas solitárias no interior do seu quarto, a abarrotar de livros cheios de mofo e bibelots regados de vulgaridade, em desalinhos estudados, numa órbita caótica impregnada de delírios vocabulares. Esmagava-se-lhe o peito entre a ansiedade impulsiva e a cobardia repressiva alimentada a resignação. Entre o querer, o dever e o fazer geravam-se conflitos intermináveis que desaguavam em suores febris, de ira prolongada, em noites longas que abocanhavam grossas fatias de madrugada.

Uma noite, daquelas com iníco a meio do texto, cumprimentou Darwin cedendo ao impulso. Pegou no carro, agarrou-se ao volante e fundiu-se no macadame atrevendo-se, numa alegria pueril, até ao infinito numa voragem de quilómetros em excesso de rotações.

Amanheceu num lugar distante e desconhecido a meio de uma ponte entalada entre penhascos, mesmo encostadinhos aos imberbes raios de sol da manhã. Envolto numa neblina cúmplice de divino mistério, divisou, ainda agarrado ao volante do carro, uma figura caminhando lentamente na sua direcção.

- Que aconteceu? - Perguntou-lhe.

- Adormeceste! - Respondeu-lhe a figura com enfado e algum desprendimento.

- Adormeci?... Como?

- Adormeceste ao volante!

- Ah... Morri?...

- Não! Atingiste a meta!

- Estou ... no Céu!!

- Não! Amanheceste noutro lugar...

- Hum... És Deus?...

- Não pá!!! - Retorquiu-lhe a figura no limite da impaciência - Sou o maldito do narrador que te encaixou entre um sujeito e um predicado para pôr um ponto final nesta história!!!