domingo, 8 de Novembro de 2009

NACIONAL 103 - O CRIME...

(CONTINUAÇÃO)
Passada esta longa ausência vamos hoje dar seguimento à história, num registo livre de humor, esse, fica para o final. Para já, é necessário pegar no último parágrafo do texto anterior e tentar perceber que aconteceu ao típico casal de classe média da Rinchoa que, a altas horas em direcção à terra após uma chamada da “velha”, se depara com um corpo morto no meio da estrada. Vamos apenas levantar a ponta do véu… dado ser mais excitante, vamos lá começar a despir a história aos poucos em vez de a destapar de uma vez só…

- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo e chegava-te o lume para alumiar a estrada… tá calada e…cala-te!
De pistola em punho saiu do carro e avançou, receoso, um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tablier com a fronha colada no vidro a mulher guinchava:
-Que é homem? Diz lá! O que é?
- É um corpo!... É um homem… E parece morto! - Disse enquanto espreitava para o barranco.De repente… arregalou o olhar… ao fundo, a alta velocidade…

MEIA HORA ANTES…

Sob o mesmo céu estrelado, sem mácula de nuvens, com uma luazinha cheia de cumplicidade, só a respiração pesada e ofegante dos dois homens em corrida desenfreada cortava o silêncio de morte naquela mata densa e traiçoeira. Experimentavam o terror puro e absoluto lapidado no pânico de que a sua corrida vertiginosa não lhes evitasse a morte. Perto, cada vez mais perto, sentiam os latidos dos cães e dos outros dois homens que os perseguiam, longe, cada vez mais longe, esfumava-se o declive junto à estrada nacional, sua única hipótese de escapar com vida naquela terra ensopada e cheia de ratoeiras.
Do bafo gélido e esparso do homem que seguia na frente sairam-lhe as últimas frases que conseguira articular:

- Só mais um esforço…arf, arf… Acolá, onde estão aqueles dois carvalhos, há um declive e depois a estrada nacional… arf, arf… Se chegarmos à estrada estamos safos… a seguir é uma ribanceira lisa, lisinha é so escorregar até ao rio… Corre… se nos apanham matam-nos… Corre caraças!

O outro ainda balbuciara qualquer coisa entaramelada no meio da espuminha a escorrer pelo canto da boca e deixara-se cair exausto.Preparava-se para voltar à corrida, mas num ápice foram alcançados pelos dois perseguidores de camuflado, caçadeira em punho e muita raiva nas palavras, acompanhados dos cães.
Um indivíduo alto e entroncado estacou e, apontando-lhe a caçadeira, perguntou-lhe de chofre:
- O dinheiro? Onde está o dinheiro? Dá-mo já!

O homem só pensava na ribanceira lisa, lisinha que os levaria até ao rio, mas estendendo a mão direita atirou-lhe aos pés um volumoso saco de plástico cheio de notas. É então que o atirador repara no outro caído no chão. Reconhecera-lhe as feições, o seu amigo Chico duma infancia feliz e longínqua e do dia em que, sem saber nadar, caíra no poço e quase morrera afogado não fosse a pronta intervenção do amigo estendendo-lhe um pequeno tronco para o ajudar a sair.
- Eu não tenho nada a ver com isto, não fiz nada! Juro! Foi ele – Apontando o companheiro com a mão a tremer.
- Raspa-ta! Ordenou-lhe o atirador – Raspa-te! E Oxalá eu não me arrependa…
O indivíduo levantara-se a custo, embora receoso de ser abatido pelas costas não se fizera rogado e ante tal benesse nem olhou para trás… Já mais recomposto , estugou o passo e embrenhou-se no emaranhado de arbustos e ramos rasteiros.
O atirador virou-se então para o indivíduo que levava o dinheiro:

- Quanto a ti… Vais arrepender-te aqui e explicar-te lá em cima - Disse apontando com o queixo para o céu.
Aterrorizado, o homem começou a cambalear às arrecuas implorando que o deixasse ir também… Que nunca mais o veria… A chumbada fora certeiramente fatal no peito. Com o embate, o homem rodopiou e, estando já à beira do declive, rebolou pela encosta abaixo só estacando no meio da estrada.

- Merda! - Pragejou o companheiro - Isto vai dar raia!
- Agora já está… - Ripostou o atirador…

Lá do alto avistaram a 4L que se aproximava…

- Vamos, vem lá um carro…
- E se o outro dá com a língua nos dentes?
- Agora já não há nada a fazer… Vá, vamos…
- Deixaste-o ir embora pá!
- Pois… Logo quem havia de dizer… Coicidências dum raio, o gajo salvou-me a vida em miúdo…
- Tá bem, tá bem… Só espero que ele desapareça e não dê com a língua nos dentes… Tens o dinheiro?
- Sim… - Disse-lhe exibindo o saco na sua mão - De caçadeira ao ombro afastaram-se dali.

ENTRETANTO NA ESTRADA…

O homem ainda contemplava com espanto animal o corpo morto à sua frente, quando, num repente, se lhe arregalaram os olhos…

Só me faltava mais esta, disse para com os seus botões, ante a visão do carro da brigada de trânsito da GNR de cujo interior acabavam de sair dois agentes.
Os homens vinham para o autuar pela falta da luz de presença traseira, mas ao sair do carro, de imediato, lhe deram voz de prisão. No meio da confusão o condutor esquecera-se que tinha a pistola na mão. Coincidência dum raio… Ter-se esquecido de que ainda empunhava a pistola. Bom ou mau pagador, o certo é que não lhe aceitaram desculpas ou justificações. Dentro do carro, a mulher não resistira a tanta emoção mais forte que a novela das oito e desmaiara. De repente, quando os guardas se preparavam para algemá-lo, vindo dos arbustos junto à valeta, do lado esquerdo da estrada, surgiu aquele a quem os dois perseguidores tinham poupado a vida. Demasiado exausto e cambaleante, sucumbira ao remorso e ao pragmatismo duro da realidade, sem forças, cheio de sede, arranhado e ensanguentado das silvas, o homem decidira entregar-se…

O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:

- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?

- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…

(CONTINUA - O próximo episódio “ Estrada Nacional 103 – O regresso” será o último ficando, desde já, assegurado um regresso ao humor e sarcasmo e um final… inesperado…)





segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

DENTRO DE MOMENTOS...



Para além da constipação de caixão à cova, também as palavrinhas deram às de Vila Diogo deixando o escriba numa camisa de onze varas para justificar o aparecimento do corpo morto e explicar quem vinha na direcção do casal. Foi grande o esforço e empenho na tentativa de alinhar as palavrinhas com a coerência suficiente para manter o suspense. Sem mais delongas, agora que a forte constipação parece estar controlada, a emissão vai seguir dentro de momentos. Mais daqui a pouco... A revelação do crime da estrada nacional 103... Até já!

sábado, 31 de Outubro de 2009

NACIONAL 103 - A VIAGEM



Tarde e a más horas, mas o escriba cumpriu. Mais um textozinho daqueles de fazer chorar as pedras da calçada ou de soltar os pregos do crucifixo à força de gargalhada. Desta vez, nem uma coisa nem outra... Uma história de crime, suspense, humor negro e... final inesperado! Nas entrelinhas lá vamos tendo as ferroadas do costume à nossa sociedade pôdre e mal frequentada.
Sem mácula de nuvens, o céu apresentava-se estrelado e bem acompanhado por uma bela lua cheia que, generosa, se oferecia para iluminar o sentido do pavimento tosco e esburacado diante do tremeluzir fosco dos mínimos. O casal seguia na sua 4L de cavalagem estafada por duas décadas de uso intensivo esgrimindo, no seu interior, acusações, gestos e gritaria. Decididamente, ela não entendia porque não remendara ele uma desculpa, por mais esfarrapada que fosse, na enorme manta de retalhos em que se tornara a sua vida amarfanhada de dívidas e preocupações nos exíguos metros quadradados hipotecados ao banco, numa obscura e perigosa praceta atafulhada de carros num quarteirão de má morte na Rinchoa. Quem quer que fosse, chamasse os bombeiros ou gritasse “Ó da guarda” que a eles nem a santa da ladeira derramava sangue , lágrima ou piscadela de olho para ajudar. Ele, por seu lado, apesar do adiantado da hora, cismara na urgência do telefonema lá da terra e, só o facto de viverem apertados pela pressão constante das ameaças do gestor de conta, o fizera aventurar-se numa carcaça velha com fortes indícios de fadiga dos metais, pela estrada nacional. O pouco que lhes coubera das partilhas da morte da tia materna dera de sinal para o apartamento, estoirando o resto na Renault 4L, à época, novinha em folha, mais brilhante que o aço das facas de trinchar do Augusto do talho 24. Não fosse a viagem dura e sinuosa a desoras e o encanto ímpar do percurso faria par com o estampado de estrelas só retratado com mestria igual em postais e guias turísticos. Já não a podia ouvir falar. "Vais depressa demais!... Matamo-nos antes de lá chegar!" Matar-se era coisa que não lhe passava pela cabeça, nem antes nem depois daquela prova de resistência à paciência de santo de que se munira à custa de dois brandys na estação de serviço. Sem dúvida que nem os santinhos do altar, alinhadinhos em sacrossanta disposição milimétrica, ficariam quietos pelo constante matraquear de avisos, ais, uis, sustos e resmungadelas ao longo da jornada. Olhava-a de soslaio e dava-lhe na veneta de pegar no calibre 9 mm entalado entre o tapete e as molas partidas do assento do condutor e desferir-lhe, à má fila, a canhonaça bem no meio da testa. Não fosse a imagem da massa encefálica a escorrer pelos vidros e salpicar os estofos lavados e aspirados na oficina do Carriço e não teria pejo dos trinta euros gastos na mordomia higiénica. Só a tinha trazido para não se deixar adormecer ao volante na frugalidade de conforto da máquina que, carregada com uma vintena de anos, se havia esquecido de aquecimento e leitor de CD’s. Aquele constante matraquear , contudo, era garantia suficiente de nervos em ebulição com visita inadiável ao centro de saúde para medir a tensão . Pior fora ter-se esquecido das cassettes do Dino Meira…
No meio da serpentina de asfalto divisava, a custo, as sombras de pinheiros e carvalhos estratégicamente plantados em curvas sibilinas… Já faltava pouco, o único receio era que aparecesse a Brigada de Trânsito, o médio traseiro fundido e o atraso na inspecção eram motivos de receio mais que fundados para coima da grossa. "Que quereria a velha àquela hora? Uma chamada a meio da noite… teria algum dos primos acordado nas partilhas do belo pedaço de terra junto ao Rabaçal? Mas àquela hora? … Sentira-se mal? Teria o velho morrido? A vozinha dela estava estranha… A lua preenchia grossas fatias de asfalto na amarelice quase fundida dos mínimos alimentados a bateria a dar toque a finados. Dos cento e quarenta kilómetros percorridos na companhia de caracóis vermes e outras lesmas, faltava-lhe palmilhar a derradeira légua… Era questão de aguentar com estoicismo a ligeira subida ladeada pelo barranco e no cume, iniciar-se-ia a descida até à casa rural que ainda não tinha ido a sortes pelos irmãos.
Olhou então para a rampa de estevas e arbustos que se apresentavam do seu lado direito. Alguns torrões e pedregulhos rebolavam em direcção à estrada. Um gande volume de forma rectangular rebolava com maior velocidade, desamparadamente, estacando no meio da via. Travou bruscamente. A chiadeira dos pneus, recauchutados desde a última folha perdida no calendário em que tinha recebido o décimo terceiro mês silenciara grilos, espantara morcegos e tornara ainda mais lúgubre o silêncio que invadira a zona. Só a tosse rouca dos cilindros se fazia ouvir naquele cenário fantasmagórico. A mulher começou então aos guinchos com avisos e alertas. Ele gritou-lhe meia dúzia de impropérios. Era estranha a forma daquele volume.
- Dir-se-ia… hum…nah… - Pegou na pistola entalada entre o tapete e as molas partidas debaixo do seu assento e abriu a porta.
- O que vais fazer homem? Contorna isso… o que quer que seja…
- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo e chegava-te o lume para alumiar a estrada… tá calada e…cala-te!
De pistola em punho saiu do carro e avançou, receoso, um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tablier com a fronha colada no vidro a mulher guinchava: -Que é homem? Diz lá! O que é?

- É um corpo!... É um homem… E parece morto! - Disse enquanto espreitava para o barranco.

De repente… arregalou o olhar… ao fundo, a alta velocidade…

(CONTINUA...)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

SIM... FICO! - A TERCEIRA PARTE


Eis a terceira parte da saga. Iniciada com o conto erótico "Se tivesse um título chamava-se letra M" e desenvolvido posteriormente pela Maristela, conclui-se hoje a trilogia num registo pretensamente literário.

…”Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.Apenas esperando.”
(Maristela)

… Apenas esperando que o último gemido rouco, solto a custo do fundo da garganta, lhes escorresse, como as vidas, em parágrafos desgarrados de prazeres suados e vontades assumidas. De mãos dadas num nó cego de cumplicidade, contemplando o tecto vagamente iluminado pelo fosco do candeeiro, mais do que personagens com densidade psicológica pretendiam ser protagonistas dum romance sem fim voando, agora, lado a lado, no meio de asas de primavera, flutuando num céu devassado de azul, recheado de metáforas.




- Ficas?




- Sim! Fico!... Gosto de ti! - Sussurrara-lhe ao ouvido numa brisa fresca de superlativos.





Ele corria num sonho alado, nas memórias da infância mágica e feliz na doçura alienada da mãe de ouvido colado na rádio onde rolava, invariavelmente, no “Quando o telefone toca”, dedilhado num piano de métrica romântica e afinada: “Vem… viver a vida amor…que o tempo que passou…não volta não”...




Ela sonhava com o castelo e o príncipe que, mesmo que imperfeito, apareceria limpo e barbeado para a salvar do dragão de fogo ou do sapo inchado de inveja e enfado. Os dois, sonhavam, em comunhão perfeita de corpos numa harmonia sem falsetes, notas soltas ou maestro, com a melodia que, em uníssono, os ajudasse a trocar as voltas da vida e do seu xadrez impreciso de jogadas dúbias.




Perto do Porto, já por estrada nacional, rasgava o asfalto no calor do pé febril e pesado da aceleração máxima contra o tempo, esse obscuro cavalheiro eternamente contraditório e escasso, para lhe susurrar ao ouvido, apesar da lomba traiçoeira que acoitava o camião monstruoso e grotesco em sentido contrário.




Ela acordou, de sorriso rasgado e dolência preguiçosa estendendo os braços.




Ele vinha a caminho do Porto e chegaria num qualquer momento parco e desejado, era só o tempo de um duche rápido e uma corrida pronta para a imobiliária.




Ele insitia em querer sussurrar-lhe… apesar da curva fatalmente apertada…




Ela soergueu-se na cama e estendeu os braços fazendo cair, desastradamente, o candeeiro que se transformou em cacos…




Ele carregava no acelerador, exangue e inútil, até ao limite duma mecânica possível e frouxa derrotada por K.O, simples e directo, pelas leis da física…




Ela juntou os cacos do candeeiro numa pressa ansiosa…




Ele, que viera para ficar, conseguira, numa volta sem retorno, mesmo nos últimos metros antes da derrapagem anunciada, exausto, feliz, de olhos brilhantes fitos nos seus, sussurrar-lhe com paixão numa brisa fresca de superlativos:


- Sim! Fico!... Gosto de ti!...

MAIS LOGO... CONCLUSÃO DO TEXTO DA MARISTELA...




Não é o big brother nem o "profundo olhar" é o escriba a anunciar o final da saga da Letra M... O texto começou como erótico, teve desenvolvimento com a Maristela e vai acabar num novo registo. Um risco sem cálculo, um passeio no arame sem rede. A ler mais logo...

sábado, 24 de Outubro de 2009

LUSITÂNIA ONLINE - DENTRO DA LIVRARIA OBRAS COMPLETAS



O Lusitânia Online, editado pela Novitas, chegou à Livraria Obras Completas no Centro Comercial Dolce Vita Miraflores. Para os não residentes na área de Lisboa/Oeiras poderão continuar a receber, no recato do lar, a obra devidamente acondicionada e almofadada nas fronhas do envelope de correio verde.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

POR RESPEITO PARA COM O PÚBLICO LEITOR

Após tantas manifestações de apoio e carinho, decididamente, não pode o escriba abandonar com esta leveza, este espaço pelo enorme respeito que o público leitor merece. Fazê-lo, por contrapartida das dificuldades no término da história da Maristela ou pelos desaires face à ditadura dos critérios insondáveis das editoras nacionais, seria facilitismo e fuga pela esquerda baixa do palco. Não foram os números pesados das visitas nem dos seguidores argumento suficiente para convencer as ditas. Ao escriba restaria provocar um escândalo público ou uma presença na televisão. Não sendo adepto de uma nem partidário da outra... Paciência! Agora, livre do fardo pressionante das tentativas de publicar umas míseras linhas nas sacrossantas editoras nacionais, vai o escriba dar continuiade ao blogue voltando à pureza original: Tertúlias virtuais, blogagens colectivas, gincanas, desafios, sempre na expectativa de produzir os melhores textos para o público leitor na linha humanista e de humor cáustico que vinha seguindo. O bichinho da escrita é mais forte que o apelo fácil da desistência. Assim sendo, não se furtará o escriba a acabar a história da Maristela, sem saber bem como, amanhã... Vai agora o escriba à cata dumas palavrinhas para alinhavar, depois de ter ouvido "poucas e das boas", inclusivé por mail, de um público que merece ser brindado com o melhor do melhor.
Obrigado!

SEXTA-FEIRA É O FINAL...



Faz agora uma ano que este blogue abriu... entre a dificuldade em alterar o rumo da história da Maristela, manter a história sem rumo ou, sequer, dar um rumo aos escritos, é hora de fazer um balanço. Se o fácil não tem apelo e o difícil não tem solução... Sexta-feira é o ponto final...

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

ENTREVISTA DE SARAMAGO AO BLOGUE DO BENTO



JORNALISTA: Acredita em Deus?
SARAMAGO: Eu? Deus me livre!
JORNALISTA: Em que acredita?
SARAMAGO: Em Jeová!... Porque há Testemunhas...
JORNALISTA: Tropeçou num argumento estafado...
SARAMAGO: Não...Caim...

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

A CONTINUAÇÃO - DE MARISTELA BAIRROS

Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:- E tu…Voltas?Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:- Não… Fico!!

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Este foi o parágrafo final do conto erótico que a Maristela Bairros da Clínica da Palavra se propôs desenvolver. Aventurando-se por novos registos e trazendo uma nova dinâmica à narrativa.. aí está o texto da Maristela...

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Dissera “fico” com tamanha determinação que o coração ficou aos pulos. E agora? Como faria para levar esta loucura toda em frente? Uma transa é, afinal, uma transa. Puro prazer. Nada a ver com problemas, conseqüências, culpas. Ainda sentia o gosto de toda ela em sua boca, as mordiscadas no lóbulo, o dedo atrevido que o deixara até meio incomodado mas que, depois, o fizera repensar conceitos.

O corpo inteiro sofria uma espécie de espasmo interior, ao ritmo da veia jugular. Medo? Com certeza, sim. Junto com a tesão que não passava.


Ela ouvira “fico” entre o satisfeita e o incomodada. Satisfeita por confirmar o poder de comando que tanto amava. Incomodada porque não tinha interesse em ir adiante com aquela coisa que não era nem mesmo uma relação. Só uma transa. Lembrou, então, da banheira cheia de champanhe que havia exigido de Leon, capricho caro que ele havia bancado. A sensação de ser possuída e de possuir envolvida pelo cheiro do álcool, pelo sabor da bebida misturada com o sabor de fluidos. Esse cara não parecia ser do tipo. Ao contrário.


Quando sentiu que ela o pegava pelas costas, puxando-o pela cintura tramando a perna em volta de seu quadril, esqueceu do medo. Deixou que ela o guiasse, rindo baixinho, estendendo as mãos para trás, buscando-lhe a cabeça, as orelhas, os cabelos, por sobre o ombro, o hálito quente e com cheiro acre, mas estimulante. Fechou os olhos, por um instante se imaginou a caça e não o caçador. Pensamento que por tanto tempo expulsara mas, com ela, admitia. O movimento ritmado dela, úmida, como se estivesse implorando, num jogo de masoquismo, as unhas cravadas em seu peito, parecendo mais um animal que brigava para não cair dali, a vontade crescendo, duro, duro, duro como um adolescente de 18 anos.


Não queria estar com ele, não queria pensar que queria estar com ele, mas precisava dele mais uma vez, ou duas, ou três. Ele a obedecia, todo o corpo dele a obedecia, ao menor toque dos mamilos em suas costas, ele reagia todo alerta, ela sentia aquele tremor quase imperceptível, ela sabia que ele ficaria pronto sempre que ela quisesse. Montada nele, como um bicho, sem qualquer elegância, sugando seu pescoço, seu ombro, parecendo em desespero, queria espantar qualquer outra vontade que não fosse a de gozar fundo e sem intervalos. Nem Leon nem os outros, nem aquele velho nojento que a alimentava e para quem ela dava de olhos sempre fechados, nada era melhor, naquela hora, que aquele cara que nem conhecia. Rápida, sem falar nada, mordeu-lhe forte a nádega. Ele gemeu. E se virou.


O que aconteceria agora, quando voltasse? Poderia ficar ali semana inteira. Um dia, iria voltar. E enfrentar o olhar morno de Agnes. Abafou o pensamento segurando os dois pés daquela louca, erguendo-os no ar, acima de sua cabeça, olhando-a com o interesse de um predador. Ela queria. De qualquer maneira, ela queria. Ela empinava a barriga para cima, tentando se impor à sua boca, ele recuava, a abaixava, submetia sua vontade, seu poder, não falava, apenas respirava, a cabeça latejando, o sexo doendo, ele castigando, até desabar dentro dela, sem piedade, sem carinho, sem sentimento. Até ouvir ela soltar como que um rangido longo. Não era um som de gozo. Era diferente. Ele gostou ainda mais.

Assim, presa pelos pés, sugando as mãos, desgrenhada, se debatendo, o ventre subindo e descendo inutilmente diante dele, provocação, submissão, revolta, ela pensava em quanto estava no comando, em quanto era boa nisso. E só pensar já lhe bastava para o prazer vir como um jorro quente. Sem ligar para a dor em cada pedaço da pele, a madeira, as felpas, corpo esfolado. Marcas. Queria, mas não aceitava. Tentou arrastar a cabeça dele, para sentir de novo a língua áspera. Ele recuou. Ela gostou. Uma surra às avessas, pensou. Mas ele vem, eu consigo. Eu mando. Eu quero. De repente, o solavanco, o rosto dele tão perto agora, num esgar, deformado, assustador, mau. E tão bom , tão bom, tão bom.


Tentavam em vão parar, encerrar, se permitir. Mas agora era tarde. Não eram eles que mandavam. Eram seus corpos. Como desligados deles mesmos. Se governavam, comandavam, não aceitavam ordens. Simplesmente ondulavam, e tremiam, e se agitavam com fúria. Davam um tempo, amansavam-se, docilmente, até recomeçar, olhos buscando um o outro, bocas sem tempo para um beijo que fosse, garras em vez de mãos, sons assustadores, ardência doída, ausência de vida, quase morte. Rostos vazios, se abraçaram automaticamente. Se aninharam um no outro. Ele teve vontade de beijar os olhos dela. Ela teve vontade de acarinhar os cabelos dele. Como se fosse um amor de outros tempos. Mas só conseguiram ficar ali, exauridos, sem se falar, sem se olhar mais.
Apenas esperando.

(Maristela Bairros)
Há alguns dias, nestes papos de twitter e facebook, fiz um convite ao Luis Bento, do Bento Vai Pra Dentro. Ele havia escrito, na maior farra e provocação, um texto erótico, incentivado por alguns amigos, em especial da web. Tudo por causa da insensibilidade das editoras: ou vende porque é sacanagem ou não vende. Enfim.Pois eu propus ao Luis Bento que desse continuidade ao texto. Ele disse que tinha de pensar. Eu então, na farra, propus uma brincadeira: eu escreveria o seguimento e ele o seguimento da minha continuação. Ele topou.
Topei sim! Mais daqui a pouco..o conto da Maristela...

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

MARISTELA - A PROPOSTA...BREVEMENTE



Pois em conversa no twitter surgiu uma ideia excelente... Depois do desafio da Ana Martins surgiu a proposta da Maristela. A Maristela Bairros (jornalista, dois filhos, humor variável, atenta, dois cachorros) do blog Clínica da palavra vai dar sequência ao texto erótico: "Letra M de...Mais..." Diz a Maristela que já sabe o que vai fazer com os personagens e, posteriormente, o escriba dará sequência à sequência da Maristela... Isto promete! Até final da semana aguardemos pois pelo texto... quente... da Maristela...

domingo, 18 de Outubro de 2009

BLOG DO CONCISO - BLOGGINCANA DE OUTUBRO






1 - Escolhi porque era o blog anterior ao meu.

2 - Se é do meu agrado? Sim! Porque é desconcertante e vanguardista.

3 - Nunca frequentei, mas vou frequentar. Blog moderno, joga com as imagens e obriga a leitura atenta para percceber as mensagens subliminares.

4 - É um blogue inteligente.



domingo, 11 de Outubro de 2009

AÍ ESTÁ: O DESAFIO DA ANA MARTINS


Escrito à pressão, resposta ao desafio da escritora Ana Martins lançado no facebook: "Olha Luís, desafio-te a colocares uma personagem fictícia no Blog logo a seguir às 20h de amanhã, a saber o resultado das eleições, sendo esta pessoa candidata a uma qualquer Edilidade fictícia, porém nacional. Aceitas?" Aceitei!... e de imediato lhe lancei um repto: "Em contrapartida lancei-te outro desafio... Um texto sobre as redes sociais e o preconceito. Pela tua abordagem, já antecipo surpresas!"
Pois... aqui está a resposta...quanto ao desafio feito à Ana podem lê-lo AQUI:
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Publicado em simultâneo às 20 horas com o site http://anamartins.com/

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Partira ainda pequeno, pouco mais de dez réis de gente, de mão dada com o pai, com o infortúnio por traz e a fome pela frente.Para trás das costas deixara os xistos, as couves e o abecedário soletrado pela metade. França, pródiga em liberdades e oportunidade, cravada numa europa distante o suficiente e esquecida deste rectângulo quedo e amordaçado, trouxera-lhe a paz e o desafogo financeiro. Uma vintena de anos depois, seduzido pela saudade servida em doses duplas de nostalgia regressara ao cheiro, ao húmus e ao caldo de infância. Regressara pois, e conhecera mulher e fora pai e trocara a enxada e a talocha pelo fato/gravata da política. Mais por justiça e sede de construir do que por ambição, farto das quezílias em torno de marcos, fontes e estradas para nenhures, desenvolvera um trabalho de esmero e dedicação à causa pública que ofuscava pelo brilho e irritava pela inveja. Sempre se orgulhara de ser diferente “deles”, dos outros, daqueles que floresciam à sombra da causa pública alicercando a ostentação parola na ignomínia e no desvario. Sempre se furtara aos favores, às fugas e às pressões presidindo aos destinos da Câmara Municipal com denodo e honradez. Até que um dia, ao filho, único rebento do casal, fora-lhe diagnostica enfermidade rara para a qual tinham canalizado e esgotado todas as economias. Cego de amor, não resistira e organizara, metodicamente, contabilidade paralela e desviara a quantia suficiente para a operação urgente em Londres. Descoberta a tramóia, tornara-se presa fácil dos abutres que há muito pressionavam e exigiam a construção do aterro sanitário a troco de múltiplas e obscuras vantagens para causa própria. Cedera, mais uma vez… A exposição pública de mácula no cadastro moral seriam dor maior maior que a perda do mandato eleitoral. Perto das oito, minutos antes do anúncio dos resultados, em plena praça pública, os magotes de gente aproximavam-se regozijando e antecipando a vitória.
De fatiota cara e vistosa, dois dos investidores acercaram-se com sonoros cumprimentos:
- Dê cá um abraço homem, que você é cá dos nossos!!
Não contendo um nó seco na garganta , de olhar preso no horizonte marejado de lágrimas enquanto os militantes esfuziavam de alegria com os resultados pela retumbante vitória, não conseguia deixar de pensar:
- Sim, agora era um deles…

O DESAFIO DA ANA MARTINS




A Ana Martins lançou um desafio ao escriba: "Arrisca a ficção factual, o drama... Olha Luís, desafio-te a colocares uma personagem fictícia no Blog logo a seguir às 20h de amanhã, a saber o resultado das eleições, sendo esta pessoa candidata a uma qualquer Edilidade fictícia, porém nacional. Aceitas?" ... .... ...- Aceito! Atordoado pela surpresa do repto e orgulhoso pela escolha, o escriba balbuciou um sim antes de pensar nas condições ou consequências pelo facto de arriscar mais uma jogada em novos registos de escrita. Mesmo antes do intervalo, ainda teve tempo para, num passe de mágica, colocar, por sua vez, a bola no lado de lá: "
Bom dia! Aceitei o desafio e lanço-te também um repto...E que tal lançares um personagem fictício onde abordes dois temas? Redes sociais e preconceito? Por exemplo, o número crescente de amizades nas redes sociais que o personagem tem , mas que se evapora quando o conhcem... ao aparecer em cadeira de rodas... acho que é um bom ponto de partida... Eu sei que o tempo é curto, mas vais fazer-nos uma boa surpresa!" E pronto! Eis-nos a brincar à cabra cega com as palavrinhas que teimam em aparecer... Prognósticos... só mais logo, nos blogues de ambos, lá pelas 20 horas...

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

SE TIVESSE UM TÍTULO CHAMAVA-SE: LETRA M... COMO M DE... MAIS!!...





O prometido é de vidro. O escriba, aventurando-se num registo que não é o seu, não se furtou ao desafio. Mais que o hipotético interesse das editoras, foi o frenesim de entrar por um terreno excitante e sensível. Sendo a “primeira vez”, espera o escriba levar a bom porto o navio, pois que se naufragar no meio dos escolhos deixará as palavrinhas a pão e água…





Metera-se a caminho do Porto rolando em velocidade excessiva no atapetado do asfalto. Mais do que a compra da casa foram os traços finos e elegantes, que lhe divisara nos bytes da net percorrida a fio e insistência, que o levavam em busca daquele olhar forte e perturbador que, aos quarenta o mantinha em suspenso, preso daqueles quarenta debruados a quilates prenhes duma sensualidade acanhada..
Chegara cinco minutos antes da hora marcada aos escritórios da imobiliária. Dera com ela sentada na secretária de saia e casaco pretos, camisa adivinhando formas na sua transparência, uns sapatos de salto agulha, lábios rasgados e finos, nariz direito, cabelos longos, soltos num volume selvagem e aquele olhar felino onde, de imediato desejara perder-se no verde das suas sete vidas. Aproximou-se com um cumprimento de mão leve sentindo-lhe o aveludado e o tremor expontâneo. Olhos nos olhos, balbuciaram cumprimentos a rodos e sorrisos a destempero. Finalmente, ela retirara a mão, compondo o casaco deixando a descoberto parte da alvura redonda e firme de um seio desamparado e atractivo. Sentira-lhe o suspiro inflando de impaciencia e excitação. A química não se confinava aos tubos de ensaio das aulas de liceu. A reacção em cadeia dera-se ali mesmo, em catadupas de odor, olhares e respiração em códigos trocados no esboçar de sílabas alinhavadas a silêncio.







De mãos dadas, voaram numa vertigem estancada à porta da moradia com a placa “VENDE-SE”. Mal entraram no hall, ele não se conteve e, pegando-lhe no pulso, fê-la rodopiar até ficar de frente para si, acto contínuo, empurrou-a contra a parede nua, prendendo-lhe os pulsos. Por entre pastas, papeis e documentos espalhados nas lajes, esmagou os seus lábios finos e rasgados com um beijo longo e quente, ao mesmo tempo que comprimia o seu corpo , meneando-se de forma a sentir-lhe o sexo. Generoso e faminto, o corpo dela oferceu-se ao movimento libidinoso deixando-se prender, desta feita, pela face, nas suas mãos nodosas e másculas. Ávidos, os lábios não encontravam o fim num beijo cada vez mais longo, quente e húmido que abriam, agora, passagem a uma língua exploradora que encontrara companhia e se deixara enlaçar num turbilhão de fluidos e desejo. Ela mordiscava-lhe agora os lábios repuxando-os de olhos fitos nos dele. Matreira, a mão masculina desceu com um vagar anunciado , de forma possessiva e penetrante, em direcção ao sexo dela comprimindo-o e acariciando-o. Ela retirou-lhe a mão e obrigou-o a enlaçá-la pela cintura. Teimoso, por entre beijos afoitos e distraídos acariciou-lhe o ventre passeando com mão até aos seios roçando, ao de leve, um dos mamilos. A um tempo subiram as escadas em direcção ao quarto num compasso de ânsia. Abraçou-a pelas costas tirando-lhe o casaco à força de beijos e caricias no pescoço. A mão direita dele, teimosamente acariciava, de novo, o sexo dela e de novo rechassada com suavidade. Foi a vez dela. Virou-se cobrindo o seu peito de lábios excessivos por centímetro quadrado de pele. Ele, rendido e perdido nas vagas daquela maré de olhar verde e felino, empurrou-a para cima da cama e deixando cair todo o peso do seu corpo num desfalecimento embevecido, puxou-lhe as abas da camisa fazendo saltar os botões, passando a mão direita, num gesto de destreza, pelo fecho do soutien. Os seios, agora desnudados e com a pele arrepiada surgiam, alvos e puros, oferecendo-se generosamente aos seus lábios. Não se fizera rogado.Iniciara uma doce tortura com a sua língua deixando um rasto húmido de desejo ante o seu tórax que se arqueava e arrepiava, a língua dançava sobre os mamilos túrgidos, duros e ansiosos, do beijo e da sucção. Começou por mordiscá-los rodando os maxilares o que provocou um frémito pelo seu corpo. Sugou-os, sentia-lhe o arfar, a respiração pesada e as suas unhas cravadas no cabelo. Desceu então, lentamente, em direcção ao ventre, novamente deixando um sulco brilhante e quente. Puxou-lhe a saia,alçou-lhe as pernas apoiando-as nos seus ombros. Puxou-lhe, com uma lentifdão lasciva e calculda, os slips enquanto lhe beijava a face visível das pernas junto aos seus lábios. Iniciou então um percurso exploratório em sentido ascendente. Sem lhe retirar os sapatos de salto alto, beijou-lhe os dedos dos pés demorando-se um pouco, depois o peito do pé onde a sua língua fez novas acrobacias. Ajoelhou-se diante dela e egeu-lhe as pernas ao nivel dos joelhos. A língua subiu arrastadamente pela zona interior das pernas em direcção às sua coxas. Ela fincava-lha as unhas no cabelo puxando-lhe a cabeça em direcção ao sexo. Em menos de nada os seus dedos afastavam as pregas do sexo que se oferecia generoso e húmido ao seu olhar faminto e ao seu desejo. Penetrou- com a língua, demoradamente, sentiu-lhe o estertor as coxas que o apertaram repentinamente e o gemido rouco que vinha lá de longe do mais fundo do seu prazer. Ela puxou-o pelos ombros exigiu-lhe o beijo sentindo o odor e o travo agridoce do seu sexo. Demoraram-se num beijo apaixonado, e então ela girou o corpo e ficou sobre ele. Prendeu-lhe os pulsos e deixou-se inclinar de modo a facilitar a entrada do seu sexo. Iniciando um vaivém ritmado, sincopado cada vez mais ávido e célere. Atingiram o clímax em uníssono, conjugado de forma activa a duas vozes. Ela deixou-se cair sobre o seu corpo, aninhando-se sobre o seu peito de respiração ofegante enquanto ele brincava com os seus cabelos longos…






Ela saía do banho e ele, docemente estático, apareceu-lhe à frente, de toalha estendida, abraçando-a com carinho. Ficaram assim uns minutos alheados do mundo que lá fora girava nos compêndios de geografia. Afastou-se dele, antecipando despedidas ou dificuldades numa autoestrada que se lhes atravessava no caminho. Sabendo que morava em Lisboa, quis saber as linhas com que se iria coser aquele fato novo, mantendo a esperança num amor sem interrupções. Num tom grave e inquisidor perguntou-lhe:
- E tu…Voltas?
Deixando-se cair exausto e feliz sobre a cama e de olhos brilhantes fitos nos seus, respondeu-lhe com paixão:
- Não… Fico!!


terça-feira, 6 de Outubro de 2009

MAIS LOGO...

(Tirada da net)
A pedido de várias famílias e porque eu não sou de deixar cair desafios em saco roto, logo mais à noitinha, o escriba vai aventurar-se num registo de forte carga erótica que, por si só, já é empresa de monta. Seja pelo apelo do público seja pela dimensão do saco, o desafio terá resposta, forte, quente e determinada. O escriba não vai formular a resposta sacramental: " Depois não digam que eu não avisei"... Eu... Avisei! A excitação do desafio e a possibilidade de, assim, ter alguma visibilidade nos critérios míopes dos editores nacionais... aguçaram-me o apetite... Aguentem-se...

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

ESCREVER SOBRE A VIRGINDADE? OU REVISITAR O DILEMA DE HAMLET?





Não sendo a Queda de um Anjo na companhia do Camilo Castelo Branco foi, pelo menos, um tombo de santinho com pés de barro... Excitaram-se os neurónios perante a "alembradura" dos tempos de catequese após uma conversa com um blogger brasileiro: " Se escrever sobre coisas sérias... ninguém publica, mas se contar como perdi a virgindade... vem editora até de Plutão"... e agora? Escrevo ou não escrevo?... Hum ?...

ALGUÉM ESCUTA O BOLO-REI?

Triplicaram os ataques ao sistema informático do governo após declarações de Cavaco Silva...afinal ... parece que toda a gente ESCUTA o que o presidente diz...

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

QUEBRAR O TABU!



É HOJE!! É HOJE!! QUE VÃO QUEBRAR O TABU!!

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

ESCUTAS DO SIS? - OU A NOVA TESE DO MITO SEBASTIÂNICO

( A fotografia é minha!)


Cruzaram-se num passeio estreitamente vesgo, entalado entre paredes decoradas a graffitis e carros ordeiramente semeados em segunda fila. Iluminou-se-lhes o semblante num sorriso rasgado a lâmpadas de cem velas quando se reconheceram de abraço estendido, comum e imediato. Refastelados numa esplanada de má morte (que a boa andava na companhia de santos de pagela) estenderam o rol de recordações desde os tempos de faculdade.
Esfomeada, a curiosidade, disparou perguntas a eito de parte a parte, o tempo era escasso e curto, mas com tecido suficiente para dois, três ou quatro dedos de conversa. Conversaram uma mão inteira! Madame esferovite, a quem o cognome assentava que nem uma luva pela tamanha frieza, palidez , arrepios e desfalque sucessivo e constante nos mais elementares padrões estéticos, dissecava até à exaustão o mito sebastiânico espraiando-se por kilómetros de aulas áridas e recheadas de absentismo, na cadeira de Cultura Portuguesa. Filha única, marrona por natureza e inteligente por benção divina, devotava a sua vida a extirpar a ferrugem mental aos néscios que lhe caíam no regaço. Desta feita, os três estarolas que subtilmente lhe boicotavam as aulas, embora não se catalogassem na referida categoria passeavam, amiúde, pelos limites da desfaçatez e despreocupação. Intelectuais de algibeira traziam nos fundilhos das calças, uma amálgama de conhecimentos assente em manuais de alfarrabista , novidades do quotidiano e dicas do Reader’s Digest. A piada surgia a despropósito e com uma celeridade estonteante. Ficara célebre a intervenção do escriba após uma (mais uma) extensa dissertação da Madame esferovite sobre o mito de D.sebastão. Enumerara ela numa ode triunfal e numa complicada equação matemática assente no logaritmo “por A+B”, que o mito se baseava no regresso do Desejado numa madugada de nevoeiro trazendo, a tiracolo, a salvação e que, por si só, a crença no seu regresso era o leit motiv para muita temática literária e para que o Povo não perdesse a esperança no regresso de uma liderança forte, una e que fomentasse a coesão e o desenvolvimento da identidade nacional. Assente nesses pressupostos, o escriba , num misto de sarcasmo e ironia despejara com um sorriso infantil:

- Então estamos safos! - Por entre a risota geral e o enfado furibundo da professora, choveu nova prelecção alertando para o facto de se tratar de um mito e que o povo português deveria canalizar as suas energias, as sua crenças e a sua vontade de mudar o rumo do país para as qualidades e capacidade de trabalho, honestidade e liderança da classe política portuguesa. Face à derrocada dos seus argumentos e desiludido com o peso da prelecção, a resposta não se fez esperar, desta vez mais contundente:

- Então… Estamos fodidos!
As semanas seguintes seriam passadas num mutismo total e numa clausura forçada no canto da sala. Lá mais para o final do ano lectivo, um dos estarolas, que embora tivesse cérebro, a massa encefálica, muitas vezes ausentava-se para parte incerta, era filho-de-uma-doméstica-que-tinha-um-primo-que-era-amigo-do-cunhado-dum-doutor-vizinho-dum-professor-universitário-ligado-ao-centro-de-estudos-judiciários-que-tinha-sabido-que-ia-abrir-um-concurso-para-agentes-do-SIS, tinha avisado o grupo para a oportunidade de arranjar um tacho no estado. Lá foram os três estarolas a concurso, provas, testes psicotécnicos e outros exercícios de perícia dignos de cromos da bola. Mal chegaram à velhinha sede do SIS na Alexandre Herculano, quando subiram ao primeiro andar, acompanhados por um esbirro, onde se iria fazer uma prova escrita, o escriba empalideceu… Estava envelhecido, levemente corcunda e sem cabelo, mas os seus passos não deixavam margem nem rio para dúvidas: aquele som que vinte anos depois lhe recordara o terror da mãe sempre que ele entrava no prédio… Era o “Botas”!! Sim! Esse mesmo daquela história de agentes da pide contada há uns meses atrás!! Perdera a tesão toda! Foda-se! Triste democracia que vai buscar os seus algozes para lhe ensinar a defesa do traseiro. Declinou o convite, rasurou a prova e desceu em direcção à porta de saída acompanhado pelo esbirro. Formado em letras por opção e algarismos por necessidade, aceitara um lugar discreto, limpo e bem remunerado numa instituição bancária.
Os outros dois estarolas acabaram por ficar. Um como perito de logística de segunda classe, dedicando-se alegremente à montagem de aparelhos de escuta nas redondezas das zonas-alvo, o outro como operacional, entretendo-se na recolha e tratamento de informação de rua. Submetera-se a concurso interno para técnico de análise de informação, mas uma-estagiária-que-era-prima-de-um-assssor-de-um-secretário-de-estado-que-era-boa-todos-os-dias-e-com-umas-mamas-descomunais-e-fazia-repetidamente-serões-com-o-inspector-cordenador, acabara por ficar com o lugar…
Estava saturado, entre as vigílias aos professores e as escutas aos sindicalistas, pouco sobrava de resquício terrorista para investigar. A menos que Bin Laden se acoitasse na C+S de Sobral de Monte Agraço ou no seu célebre parque infantil, de atentado nem cheiro, só o demente e quotidiano rol de fugas de informação para a imprensa fomentado pelos serviços secretos militares.
A conversa é como as cerejas … E os caroços, muitos, já se espalhavam pela calçada. Das recordações e desabafos regressavam agora, sem vontade, à realidade do presente do indicativo pensando em tempos pretéritos e temendo pelos futuros. Sem certezas clínicas de futuros reencontros, despediram-se com uma tese comungada por ambos: Entre o Pai Natal e o D.Sebastião, não restavam grandes esperanças aos portugueses… Um era apenas figura decorativa de calendário de Coca-Cola, o outro...nunca regressaria na tal ansiada madrugada, antes pelo contrário, foram os portugueses que se tinham enfiado, de borco, no lodaçal pantanoso, num entardecer de nevoeiro, na companhia dos cavaleiros do apocalipse embrulhados em fatinhos Armani...

P.S. Dado que “Eles” até andam a ler blogues… antes que venha o D. Sebastião travestido de processo… é melhor dizer que isto é ficção,… Não é?

domingo, 27 de Setembro de 2009

REBENTAR... COM OS VOTOS...

Ao rebentar da aurora começa mais um acto eleitoral para escolhermos aqueles que vão rebentar connosco... O Bento não re...Benta...com ninguém! Antes pelo contrário, rebenta com os cânones estabelecidos para as boas práticas literárias e com a própria imagem. O texto que vai sair mais daqui a pouco é mais uma crítica de língua afiada para ler nas entrelinhas. O texto veio rebentar com a linha editorial de histórias com humor. Antes que os leitores rebentem com o escriba, exerçam o vosso dever cívico e "votem" os vossos comentários na caixinha aqui de baixo.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

BLOGGINCANA - SETEMBRO



O Varal de Ideias pela generosidade, pela divulgação e por manter vivo o espírito da blogosfera
Parece que o conheço desde sempre...

O REGRESSO DO ESCRIBA!!


Ora aí está, de regresso, o escriba! Enterrado em faraónica busca, não da arca perdida, mas dos cento e cinquenta mil postos de trabalho prometidos pelo Sócrates logrou, finalmente, sacudir a areia fina do esquecimento e voltar à verve incial deste espaço de crítica e tertúlia. Perdido, dias a fio, por entre domésticas com-rendimentos-mensais-de-quinhentos-euros-a-comprar-casas-em-offshore-de-meio-milhão-de-euros-com-desconto-de-cento-e-setenta-e-quatro-mil-euros- para-pagar-menos-IMT, não almejou o escriba encontrar os postos de trabalho e, dado que, nos dias de hoje, falar do Freeport é guia de marcha com carimbo e selo branco para fazer companhia à Manuela Moura Guedes…vamos antes falar do mito Sebastiânico… brevemente…

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

RECEBI UM LIVRO...


Recebi este livro pelo correio, uma gentil oferta da amável autora Ana Martins. Já o li. Li num ápice, numa vertigem. Normalmente, expansivo em palavras, esgotaram-se-me hoje os vocábulos. Evitando o lugar comum e a simples exposição de factos e situações, Ana Martins brinda-nos com um exemplo de luta, com orgulho (muito) e um sorriso (sempre). Numa narrativa bem construida e apaixonante revela-nos “entre lágrimas e sorrisos, o mundo desconcertante do autismo” ou, mais propriamente, os tiques do desconserto do mundo…
O autismo não é uma diferença, é uma forma diferente de ver o mundo que, às vezes, bem precisaria de ser diferente…

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

A ECOCASA - PROJECTO ARQ. MANOELA SCHMIDT

Foi dos primeiros blogs que conheci: Clínica da palavra . Rapidamente se estabeleceu uma empatia e uma necessidade de acompanhar as suas novidades. Pessoa generosa, em constante divulgação do trabalho alheio, surpreendeu-me com um post sobre o Lusitânia Online. Surpresa pelo carinho e conhecimento manifestado, surpresa por se ter antecipado à divulgação do projecto ecocasa para o Jardim Botânico da autoria da sua filha Arquitecta Manoela Schmidt. Já consultei o link e vi as fotos dos interiores. Aqui fica a divulgação, acima de tudo porque é um projecto de grande qualidade e porque, num futuro muito próximo, é nestas casas que viveremos.


Amigos.No ano passado, minha filha, Manoela Schmidt, obteve o primeiro lugar concurso cujo objetivo foi criar uma ecocasa para o Jardim Botânico. Agora, como arquiteta que obteve sua graduação em agosto, ela já pode tocar o projeto adiante e tentar patrocínio para a sua construção, o que também pode e deve ser buscado pela instituição beneficiada, no caso a Fundação Zoobotânica.Para divulgar mais o projeto, Manu criou um blog cujo link envio a vocês e peço que divulguem como puderem.Um abraço da mãe-corujamaris
http://ecocasajardimbotanico.wordpress.com/-- Maristela BairrosJornalista




O Projeto
Arq. Manoela Bairros SchmidtProposta para Eco-Casa no Jardim Botânico de Porto Alegre.Projeto classificado em 1º lugar no concurso de ideias.A diferença da eco_casa em relação às casas comuns é o fato de buscar uma correta integração com a paisagem, utilizar materiais naturais ou de reuso, tratar e reaproveitar a água, associar à edificação o plantio de espécies para consumo próprio, buscar uma adequada orientação solar (a fim de minimizar o calor no verão e maximizar no inverno), valer-se da energia solar para aquecer a água da casa, buscar uma ventilação natural dos ambientes (melhorando a qualidade do ar), etc.
No caso do protótipo no Jardim Botânico, o que diferencia a eco_casa das demais é o fato de buscar um contato com a terra.
A exemplo dos índios, que enterravam suas habitações, a eco_casa no jardim botânico é semi-enterrrada (fica a um metro abaixo do nível do terreno, correspondendo à altura dos peitoris), promovendo, assim, um contato com a terra.
A variação da temperatura do solo é menor que a do ar durante o dia e o ano, por isso ocorre uma transferência de calor entre a casa e a terra: no inverno, ocorre o aquecimento por irradiação, quando a casa ganha calor pela terra; já no verão, ocorre o oposto, quando a casa é resfriada por irradiação, ao perder calor para a terra). Buscou-se solucionar de forma natural o problema do frio e do calor intensos em Porto Alegre.
Outro diferencial é o fato de buscar uma manutenção da paisagem existente: por ser semi-enterrada, fica camuflada no terreno, não agredindo a paisagem e mantendo, em parte, o seu aspecto natural.
contato:
manoela.schmidt@gmail.com

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

NOVO CAMPO DE TREINO DA SELECÇÃO NACIONAL




Novo campo de treino da selecção Nacional... pelo menos nesta baliza eles conseguem acertar! Acho eu...

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

MAIS UM BLOG CENSURADO NO BRASIL...SE A MODA PEGA...

Denúncia Caros e caras, recebi na tarde de ontem um curto comunicado do WordPress via e-mail solicitando, em prazo de 24 horas, a remoção de todo e qualquer logotipo ou imagem da Petrobras e a mudança da minha URL “petrobrasdadosefatos”, pois, segundo o comunicado, estaria essa causando confusão com o “petrobrasfatosedados” (Mas essa era a intenção oras! Uma companhia bilionária quer ter exclusividade com um domínio gerado em serviço gratuito?!).
Nesse momento percebi que meu blog estava totalmente bloqueado, e que não era mais possível postar nem alterar conteúdos, nada. Por isso coloquei um comentário avisando da censura que estava sofrendo, pois a ferramenta de moderação de comentários continuou ativa.
Estranhei tal comunicado curto, sem maiores explicações e solicitei um detalhamento do por quê dessas imposições, e se havia pressão ou alguma ação formal por parte da Petrobras. Recebi como resposta apenas alguns detalhamentos técnicos que também indaguei, nada sobre o motivo. Muito estranho.
Hoje, novamente, enviei os mesmos questionamentos, incluindo se haverá a possibilidade de um “linkamento” direto entre a minha atual URL e uma nova, caso essa seja realmente congelada. Ainda não obtive resposta. O blog, porém, voltou ao normal, por isso estou postando esse texto.
Não quero criar problemas para o WordPress, que presta um ótimo serviço gratuíto, e aceito qualquer solicitação caso seja necessário. Gostaria apenas de saber exatamente o que está ocorrendo. Claro que pelo teor do comunicado inicial, existe pressão da Petrobras para que esse blog se cale, mude, perca-se.
Enfim, hoje estou cobrindo todas as imagens da empresa, conforme solicitado. Estou colocando tarja preta de censura. Já criei um novo URL cujo endereço deixo aqui como segurança caso
deletem o atual, anotem aí:
http://petrobrasilfatosedados.wordpress.com/
Vamos aguardar novas comunicações ou ações. Aproveito para agradecer todas as mensagens de apoio que esse blog vem recebendo. É um estímulo diante de um fato tão deprimente. Valeu pessoal!
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quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

VOU DE COLECTIVO - ADORMECER AQUI E AMANHECER NOUTRO LUGAR

(Marienbrücke)

Acabada a preguiça autorizada por decreto, lá vem o escriba amealhar mais umas palavrinhas num texto com sentido obrigatório em direcção à blogagem colectiva.

A frequência com que, em noites de insónia aguda e agitada lhe assaltava o desejo de adormecer aqui e amanhecer noutro lugar, mesmo encostadinho aos imberbes raios de sol da manhã, era unidade de medida costumeira que o acompanhava desde tenra idade, isenta de rugas e nervuras. Fosse por manifesta impaciência de Deus, perdido em páginas de bíblias da Europa-América ou a vistoriar milagres, fosse por enfado ou incapacidade do maldito narrador, as noites sucediam-se ao ritmo febril de vigílias improdutivas e constantes sem vislumbrar a meta do seu objectivo. Entre cigarros apagados a preceito nas espessas manchas de alcatrão, a inundar sucessivos raios-x vomitados de taxas moderadoras, ia dando emprego a sapateiros e tecelões pelas longas marchas solitárias no interior do seu quarto, a abarrotar de livros cheios de mofo e bibelots regados de vulgaridade, em desalinhos estudados, numa órbita caótica impregnada de delírios vocabulares. Esmagava-se-lhe o peito entre a ansiedade impulsiva e a cobardia repressiva alimentada a resignação. Entre o querer, o dever e o fazer geravam-se conflitos intermináveis que desaguavam em suores febris, de ira prolongada, em noites longas que abocanhavam grossas fatias de madrugada.

Uma noite, daquelas com iníco a meio do texto, cumprimentou Darwin cedendo ao impulso. Pegou no carro, agarrou-se ao volante e fundiu-se no macadame atrevendo-se, numa alegria pueril, até ao infinito numa voragem de quilómetros em excesso de rotações.

Amanheceu num lugar distante e desconhecido a meio de uma ponte entalada entre penhascos, mesmo encostadinhos aos imberbes raios de sol da manhã. Envolto numa neblina cúmplice de divino mistério, divisou, ainda agarrado ao volante do carro, uma figura caminhando lentamente na sua direcção.

- Que aconteceu? - Perguntou-lhe.

- Adormeceste! - Respondeu-lhe a figura com enfado e algum desprendimento.

- Adormeci?... Como?

- Adormeceste ao volante!

- Ah... Morri?...

- Não! Atingiste a meta!

- Estou ... no Céu!!

- Não! Amanheceste noutro lugar...

- Hum... És Deus?...

- Não pá!!! - Retorquiu-lhe a figura no limite da impaciência - Sou o maldito do narrador que te encaixou entre um sujeito e um predicado para pôr um ponto final nesta história!!!

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

CARTA DE AMOR ÀS AVESSAS - PARTE II

(imagem cedida pela Cat)

A imagem é de choque, mas tem tudo a ver com o texto pois retrata uma deliciosa resposta ao energúmeno do xuxuzinho. O escriba vai para fora de Lisboa descansar cinco dias, mas vai continuar a acompanhar este espaço apesar da dificuldade. O tempo quente de Agosto convida a um texto mais ligeiro. Fiquemos pois, com esta carta de amor às avessas, desta feita, no feminino.
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Meu xuxuzinho,
Acredito que o teu amor se incendeie nas imagens de Camões ou nas labaredas psiquiátricas do Lobo Antunes, mas para mim, que me banhei no amor puro e pueril do Júlio Dinis, dilataram-se-me as pupilas ante tal pedaço de prosa.
Paguei a multa dos correios e anexo-a nesta factura da 5-à-sec, nas costas da qual, te respondo com todo o fervor do estado de estupefacção em que me deixaste. O amor não tem preço, mas desta vez são quinze euros da limpeza do teu casaco.
P.S. Meu xuxuzinho, sugiro que alimentes o roliço do teu sonho com o pneu Dunlop que apresentas em redor da barriga, a qual, podes ir entretendo com flexões de jejum...
P.S.2 Quanto ao licor de medronheiro, tal não é possível, mas vinho do Porto ou caipirinha sempre podes encontrar na segunda prateleira do meio no supermercado da tua rua, logo que arranjes um trabalho...
A tua ex.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

BLOG DO ROBERTO MORAIS - ALVO DE CENSURA.


Para além dos textos humorísticos e de crítica de costumes, sempre nos pautámos pelo apoio a causas justas. o blog do nosso colega brasileiro Roberto Morais http://robertomoraes.blogspot.com/ foi alvo de um processo por parte do Jornal "Folha da Manhã". Caso inédito: Um jornal que se deveria pautar pela liberdade de expressão tenta amordaçar o livro pensamento da blogosfera... Aqui deixamos transcritas algumas palavras de apoio ao Roberto Moraes e de repúdio pela atitude da Folha de S. Paulo, por parte do nosso amigo XACAL..

...Eis que nossa rede de blogs, que você já conhece, e que se constituiu em um fenômeno local-universal(como tudo que nos cerca, e que mereça alguma legitimidade), onde proferimos nossos lamentos, nossas esperanças, nossas idiossincrasias, enfim, onde, nós, campistas-brasileiros-mmoradores-de-todos-os-mundos, nos expressamos...

Toda essa liberdade de expressão tem inimigos certos, como uma gênese gravada em DNA de antítese eterna...os que têm poder, e o entendem com fim em si, e nós, todos os outros, que achamos que poder é meio, ferramenta, e o homem(e nosso bem estar) é o fim(ou o início)...de tudo...Para além das limitações ideologizantes, segregadas em convenções partidárias, ainda que estes elementos tenham seu valor e utilidade, reconhecemos em nossos laços de solidariedade a possibilidade de pensar, de falar, ouvir, formular, assuntar, rir e chorar, sem a mediação ou o crivo daqueles que se imaginam os "rotuladores do mundo e das mentes"....

Um jornal local, o mais poderoso dele, a Folha da Manhã, antigo capacho de todos os poderosos nos últimos 30 anos, desde que os cofres estejam abertos, processou um de nossos mais ilustres blogueiros, o roberto moraes(robertomoraes.blogspot.com)...Não houve dúvidas, partimos para luta...Te convido a repercutir em falas ultra-atlânticas nosso grito: CENSURA, NUNCA MAIS...!Passe por lá, no blog do roberto e no nosso, se intere da coisa, e veja a quantas andam os gendarmes do autoritarismo e seus estratagemas...

Conto contigo...Um abraço...
14 de Agosto de 2009 15:08

SUSSURRO...


ELE: Gosto do cromatismo, da forma e do rigor conceptual...
<
ELA: Gostas?...
<
ELE: Da classe, do bom gosto e do "EU" translúcido...
<
ELA: (voz arrastada) Hum... Sim...
<
ELE: E da ausência de traços na face. Dá-lhe uma força e uma frieza que, na
realidade, só existem para disfarçar a sua inexistência...
<
ELA: Luís!!... pára de me despir... a alma...
<
MY LOVELY DOLLS
By Ana Vasconcelos

terça-feira, 11 de Agosto de 2009

A CAT...


O escriba está de férias, mas a escrita anda à solta e, por vezes, apetece-lhe escrever sobre gente bonita...

A noite ia longa e o tempo… era vê-lo a correr numa prova contra-relógio em direcção à madrugada que já ia alta, sem escala ou fita-métrica. Rebuscando no meio de alfarrábios, o escriba tentava alinhar, com esmero, umas doces palavrinhas perante a fuga desordenada das ideias rumo às estrelas na companhia do Carl Sagan. Conhecera-a na Net, uma bela surpresa, perante o receio da fuga, decidira apanhar-lhe alguns traços e fazer evoluir a história num esboço tosco, mas sincero, sob a forma de tributo a léguas do capricho: A Cat… Felina ou não, não o saberia pelo olhar vivo, esbatido no difuso granulado da fotografia a “ preto e branco”, tão pouco pelo que tinha, em excesso, de beleza e, em falta, de informação autobiográfica. Pouco sabia a seu respeito, apenas o essencial para, farto de crítica de costumes e não querendo repetir contos de fadas, expôr-lhe o perfil sui generis e bem humorado em meia dúzia de vocábulos… As pálpebras, essas, teimosamente, piscavam numa intermitencia feita de chumbo. O ecrã bocejava ao longo das duas linhas solitárias a armar aos parágrafos convidando à desistência, apoiado na cabeça bamboleante e no cérebro a hibernar, fazia horas... Prometera, não por peregrinação tradicional a Fátima, mas porque queria, simplesmente, fazê-lo...

Pouco faltou, segundos depois o cansaço abraçara-o numa dormência amiga. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz Entrara em Mod off…

Dava ainda uns passos hesitantes nos corredores do primeiro sono quando a vira…
Catarina abria as janelas de madeira de par em par, não se ouvia, mas estava a cantar baixinho. Cruzara os braços e apoiara os cotovelos no parapeito e deixara-se beijar, ao de leve, pela brisa. O jardim convidava a descansar a vista depois de uma noite de insónia percorrida a dedilhar, freneticamente, bites e bytes. Julieta, a cadela já entradota na idade, abanava a cauda com ar de felicidade. Num jogo de vida com mais amigos que adversários, a alegria contagiante era um caminho percorrido, com leveza e sem bluff , em sentido obrigatório de ajuda ao próximo. Não sendo fútil ou ligeira, por entre petições de legalização da birra, ironizava com o mercado fracote de meninos sub-31 e, se as lagartixas lá de casa gostavam do sol, ela gostava de cães e homens (por esta ordem) não trocando sequer um cão rafeiro por um homem com pedigree. Não era fã de viagens nem gaija de gostos caros. Entre restaurantes chic e… so on, Macdonalds e bitoque com alho eram serventia do estômago. Cada passo que dava quedava-se guardado na memória da humanidade e, por entre sorrisos francos, forçados e assim-assim, sempre arranjava espaço para ficar lixada com a pequenez da sorte que teimava em ser madrasta nos males do mundo, num coração a abarrotar de humanismo e num espirito declinado a generosidade.

"Que bom que era voltar para casa pela Marginal, depois de uma noite de morangos a saber mesmo a morango… "

Ti ti ti tit it…

O telemóvel despertara. Olhara para as horas…

- Raios! Deixei-me adormecer ao computador! Oito da manhã…E ainda não escrevi o texto para a Catarina!


O ESCRIBA E A TV...

Pois parece que, além de mais de uma centena de reservas de livros ansiosamente aguardados pelos nossos leitores, o escriba teve a benesse de ver dois textos seus escolhidos para um programa de televisão e a forte possibilidade de falar sobre eles em directo... mas, em virtude de um atraso de cerca de trinta dias no envio dos exemplares do Brasil para Portugal, tal acabou por não acontecer. Por forma a dar resposta cabal aos nossos leitores vamos averiguar a razão da demora e "apertar" com a editora... pô-la no tronco e fustigá-la até vomitar páginas a rodos...
Mais logo, assim à noitinha, vamos ter a história da CATARINA... não a de Médicis, mas uma bem mais real dentro deste mundo virtual. E por falar em realismo, podem arrumar o Eça e outros que tais porque a seguir à Catarina... e mais não conto... É assim mesmo! Genuíno, misterioso e sedutor...até aos próximos episódios...

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

E VIVA...O 31 DA ARMADA!!


Mesmo antes de publicar o post para hoje, não podemos deixar passar em claro a acção do 31 da Armada..." Aqui D'el Rei" que trocaram a bandeira da Câmara Municipal de Lisboa pela bandeira monárquica... Zeloso, António Costa vai elaborar um "rigoroso inquérito" para aferir e apontar responsabilidades. Fosse esse zelo aplicado na luta contra os Graffitis e a criminalidade e os Lisboetas seriam, mais ou menos, pessoas felizes... Vá lá, se fossem bandeiras da UNIÃO IBÉRICA... era pior...

domingo, 2 de Agosto de 2009

VOU DE COLECTIVO - CARTA DE AMOR ÀS AVESSAS


Enquanto aprimoramos o texto sobre o Vitor Constâncio e um post dedicado a uma amiga, façamos mais um exercício de estilo numa blogagem colectiva. O "Vou de colectivo!" começou este mês, uma viagem pelo universo da net com o tema: cartas de Amor. Para não variar, a condução literária do escriba tinha que avariar e perder-se na inspiração dum néscio e forreta!

Meu amor,




Amor é um fogo que arde sem se ver... e tu trazes-me num estado incendiário permanente... Lá nessa terra para onde foste trabalhar, longe como o Cu de Judas e perto do sítio onde o Camões perdeu os calções, a distância exacerba esta paixão sem quartel de bombeiros à vista...


Desculpa estar a escrever-te num guardanapo e utilizar um selo usado e carimbado, mas o fim do mês chegou mais cedo... Espero que não seja uma multa dos correios ou a qualidade do pedaço de papel que te faça gostar menos de mim...




P.S. Meu amor... No fim de semana, quando vieres, traz aqueles bolinhos que a tua mãe faz com primor e de que o teu xuxuzinho tanto gosta! Mas se não puderes vir, manda-os pela camioneta da Rodoviária. É que assim, ao trincar, sonho com o roliço dos teus seios e sempre vou entretendo o estômago...

Mil beijinhos do teu xuxuzinho


P.S. 2 - Se puderes...traz também aqule licor de medronheiro...

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

AGRADECIMENTO - SELOS






Agradeço ao Olavo e às Crónicas do Rochedo a atribuição dos respectivos selos. Não nomeio ninguém,antes cedo a todos companheiros da timeline do lado esquerdo... Agradeço também ao Trono do Horus , o excelente trabalho fotográfico, ao Café e um bate papo e ao Xacal que na sua Trolha ,juntamente com muitos outros, fizeram a divulgação dos textos do escriba. Vamos então preparar-nos para o próximo exercício de estilo. Um pequeno conto de fadas antes da fábula sobre o "Bítor Tostâncio"...

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

ANGELINA JOLIE E O LUSITÂNIA ONLINE


Angelina Jolie deixou Brad Pitt


O casal mais mediático de Hollywood teve uma discussão no domingo enquanto comemoravam o aniversário dos gémeos e a actriz saiu de casa

(Diário de Notícias online)



Pois é... Ao que consta, Brad Pitt queria ler o Lusitânia Online, mas... Angelina fez finca pé e, munida de alguns argumentos válidos, foi para uma suite de hotel na companhia desse livrinho que faz rir... Se quiser ter o prazer celestial de rir com as "boutades" do bento tem duas hipóteses: Ou me manda um mail... ou pede-lho emprestado...


quarta-feira, 15 de Julho de 2009

TERTÚLIA DE JULHO - TEMA LIVRE


À hora marcada os presos recolheram à rudeza fria e esfíngica das celas. Todos, excepto Manuel da Cruz de Sousa Tobias Lettermann. A kilometragem do nome não o impedira de tirar guia de marcha para a penitenciária com carimbo de dolo e burla agravada. Tomara todos os cuidados e precauções: unira-se ostensivamente aos indivíduos de maior índice de massa muscular por centímetro quadrado, untara as mãos aos guardas, habituara-se a olhar de soslaio por cima dos ombros, evitara deixar cair o sabonete no duche e passara uma estadia agradável e isenta de preocupações. As diversas contas em off-shore ali para os lados entre o cruzamento de Gibraltar com New Jersey almofadavam-lhe, comodamente, o sono na tarimba despida de lençóis e preconceitos. Contudo, a permanência no cárcere ao longo daqueles três anos, exacerbara-lhe o desejo e a ansiedade. A privação da liberdade, o carinho da mulher e da filha, os passeios de domingo, as viagens e as mordomias inerentes à qualidade de homem livre, eram chagas num crucifixo ferrugento arrastado, penosamente, num calvário de olho posto naquele dia gizado na parede. Foram sem conta, as cartas manuscritas numa caligrafia ávida de notícias, trémula de nervosismo e faminta de liberdade. Escrevia de rajada, sem pontuação porque não era concurso e sem acentos porque as relia de pé... Piada fácil de escritor, que acentuava a dor e a tormenta duma personagem farta dos exíguos metros quadrados do recreio, calcorreados numa "Ronda dos Prisioneiros" para a qual ele não tinha estofo. Mago de finança fraudulenta, sim! Mago da paleta, não! O daltonismo não lhe deixava margem para sentidos estéticos e pictóricos dignos de Rembrandt.

À hora marcada, vestido e perfumado, olhou uma vez mais para o relógio. Os portões começaram a rodar ruidosamente nos gonzos. Ouvia o bater compassado do coração atingir a velocidade da luz num nervisismo sem fim. O bater era cada vez mais forte, mais intenso, ensurdecedor, quase lhe cortando a respiração. Os portões giravam numa lentidão exasperante. Limpava o suor da testa com o suor das mãos. O esgar incial tornou-se numa torrente de riso. Não aguentou mais! Com os portões escancarados num convite libidinoso, deitou a correr mal divisou a mulher e a filha no outro lado da estrada.

- GRRINCCHHHHH!!! - Tarde demais... na ânsia, não reparara no camião basculante que se apresentava pela direita a alta velocidade... E ali mesmo, transformado em Ketchup, vendera a alma ao criador em papel de vinte e cinco linhas, livrança e estampilha fiscal...

MORAL DA HISTÓRIA:

Podes querer ser livre, mas... convém olhar para a estrada!

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

DISSIDÊNCIAS...

Porque este blog não vive só de textos humorísticos, mas também apoia causas justas... aqui transcrevemos o texto da petição.


O sociólogo Daniel Luís é, além de cronista e professor universitário, um membro cooperante e activo da imensa comunidade virtual a que se convencionou chamar "Internet".Enquanto blogger, facebooker e twitterer, Daniel Luís construiu uma reputação inatacável e reuniu um capital de prestígio que lhe conferem hoje, sem qualquer favor, o estatuto de referência.Como docente universitário e, portanto, enquanto funcionário do Estado, Daniel Luís viu-se recentemente confrontado com problemas que advêm não da sua actividade docente - também ela irrepreensível - mas dos seus escritos, tanto em blogs como na imprensa convencional.Este grupo pretende congregar todos aqueles que, de alguma forma, o admiram, o estimam e, principalmente, o apoiam na luta que empreendeu pela manutenção do seu direito à liberdade de expressão.Destina-se àqueles que, sendo amigos, conhecidos ou simples leitores anónimos de Daniel Luís, não apenas lhe reconhecem o direito de se exprimir livremente, sem por via disso sofrer qualquer consequência a nível profissional ou outro, como reivindicam para si mesmos esse direito, a liberdade de expressão que a todos é tão cara e da qual nenhum de nós jamais prescindirá.No dia 9 de Julho de 2009, foi criada uma petição, dirigida à Assembleia da República, em que cidadãos livres denunciam o despedimento de Daniel Luís dos quadros da Universidade do Minho por simples delito de opinião. Esta petição está disponível no endereço
http://www.peticao.com.pt/daniel-luis. Assine e divulgue!
Contacto
E-mail:
Site:
http://sol.sapo.pt/blogs/dissidencias/de...
Localização:
Braga, Portugal

terça-feira, 7 de Julho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO - PARTE IV


LISBOA 1974

(CONTINUAÇÃO)







- Polícia Internacional de defesa do estado! Faz favor de abrir…
A mãe, perdida no fio da ladaínha Mariana, não vislumbrou encontrar nem milagre nem Ariane que a ajudasse a articular meia frase com complemento directo, limitando-se a um longo balbuceio em torno das preces, de olhos postos no tecto, em busca do milagre por entre as manchas de humidade e o fio descarnado do candeeiro.
O escriba abriu a porta – O pai não está! Está numa obra. Abalou bem cedo… só vem à noite. Quer deixar recado?
O pai tinha três homens a cargo fazia “todos os trabalhos de construção civil, rebocos, pinturas, canalizações e algerojes”. Aos fins de semana fazia uns biscates para arredondar dias de calendário encavalitado no aperto.
- Vou deixar recado sim, meu petiz… - E de imediato estendeu um cartão de visita. – o seu paizinho que me telefone. Tenho uma obra para fazer no quintal da minha casa e preciso dos seus serviços… ouvi dizer que é um “artista” e peciso que me faça uma obra de arte…
A porta fechou-se atrás do ranger das botas descendo a escada. A mãe, com a cara lavada em suor, iniciava nova cantilena, desta feita, em agradecimento e preparando o responsório para o marido mal chegasse. Nada de dizer mal do Caetano, nada de se dar com o Portela que era vermelho, nada de ouvir a rádio Moscovo, nada… era interminável a lista.
O episódio passou-se, mas do Botas ainda teria a desgradável surpresa dum encontro imediato de terceiro grau bastantes anos mais tarde...

O tempo correra inexoravelmente como cliché estafado. As bravatas sexuais desenvolviam-se ao ritmo das cartas da Dona Judite. A chinchada, a piscina do areeiro e outras tropelias iam coexistindo pacificamenete com os deveres escolares e a revolução de abril. A chegada do Francisco, o chico, viera alterar o idílio campestre que ainda se respirava em pleno bairro de campolide. Sempre vivera em vilas operárias e casas abarracadas, o facto de agora morar num prédio, não lhe tinha apaziguado a revolta nem melhorado a sua visão do mundo. Agressivo e revoltado por natureza, instinto natural para o roubo, mestre em gamanço, cartilha em mentira natural, viera espicaçar os rapazes e apoquentar a paz maternal que se vivia então. Mal chegara, o rol de cabeças rachadas, visitas ao posto de enfermagem, venda de tintura de iodo e pensos na farmácia aumentara como marcas no passeio da fama em hollyood, todos os dias havia novidades. Embora a rapaziada o temesse admirava-o pelas aventuras que proporcionava. Entre andar à pendura no eléctrico ou entrar sem pagar no cinema piolho do bairro sempre sobrava algum tempo para esfumaçar perdidamente umas beatas, contudo, o grupo começara a dividir-se acabando por se desagregar mais tarde...




VERÃO QUENTE DE 75




Eram novos tempos grávidos de entusiasmo e novidades. Assistir ao assalto à embaixada de Espanha, à escola da Pide e fazer número a chamar fascista ao merceeiro, mais uma vez inciado por um boato do Chico que se espalhara de tal ordem que o "seboso" se vira obrigado a colocar anúncio em letras garrafais no diário popular por entre anúncios de máquinas de tricotar e datsuns 1300: “ eu abaixo assinado…” O seboso acabava sempre por lhes dar o que eles queriam. Bastava o Chico colocar as mãos em forma de concha sobre os lábios aflorar ao de leve páginas de dicionário com a menção fascista ou bufo e...
“- Schiu!... Toma lá vinte e cinco tostões… Cala-te!
- Isso não chega… Quero dez escudos!
- Dez escudos?... Isso é um roubo! É exploração! E o fascista sou eu?”
Não esperava pela resposta. Dava os dez escudos, pastilhas pirata a granel, Laranjina C “e mais umas botas” e na ausência de idade legal para conduzir um camião TIR… o resto da colecta era recolhido ao longo da semana. Era engraçado, um aconchego para o estômago, uma mina para as cáries e um martírio para os pulmões. Com o dinheiro sobrante o pessoal ia comprar "kentucki mata-ratos". Com uma alegria infantil teciam loas ao vinte e cinco de Abril em argolas de fumo, tosse e muita cuspidela de tabaco. Mas a cereja no topo do bolo ficou registada pelas desventuras do desgraçado Fernando António, vulgo Fanan, regressado da guerra e estropiado por uma mina. Durante uma picada seguia no Unimog da frente quando se depararam com um tronco de árvore atravessado na estrada...
Aos gritos de emboscada Fanan respondeu com um heroísmo bacoco:
- Qual quê! Não há vivalma… ou caíu ou o puseram para nos atrasar... -retorquiu Fanan – confiante no silêncio em redor apenas entre-cortado pelo cantar de alguns pássaros e cigarras…
- Usa o gancho! - Insistiram.
- Deixa-te de lérias pá! Tu aí - Disse apontando para colega à sua frente - anda comigo. Vamos afastar o tronco que nem é muito grande…
- CLIK!… O resto do estrondo já não o ouviu…


A mãe andava de porta, em porta em tom choroso e falando baixinho, com a fotografia do filho a pedir dinheiro para recompor a sua vida,”por mor dos nossos pecados, “Deus lhe dê muita saudinha… bem haja… temos que ser uns para os outros…já tenho a minha cruz…e bem pesada…” invariavelmente nunca alterava os agradecimentos…
Num bairro velho, em plena explosão de alegria provocada pelo fogo fátuo da revolução, desocupado e visto como um pequeno herói pelo facto de ter regressado vivo, de início ainda se aguentara, mas depois arrastava a sua presença pela taberna, ou pela Associação de Deficientes das Forças Armadas em busca de alguma boa samaritana que lhe aliviasse a ansiedade sexual, mas sem êxito. Certa vez, depois de mais uma mesa redonda bem regada na tasca do seboso, estalara um aceso debate entre os bêbados. Palavra puxa palavra, provocação pede marretada e, às duas por três, gerara-se uma zaragata digna de Asterix, entre a peleja e o encontrão faltou tempo para dar um olhinho ao Fanan… alertados pelos seus gritos assistiram, com horror alimentado a centilitros de onze volumes, à fuga para a vitória do mal fadado deficiente deixando escapar a cadeira de rodaspela General Taborda a baixo. A rua, com um declive apreciável, fez-lhe ganhar velocidade, os seus berros impotentes, o suor a escorrer em bagas grossas misturando-se com a saliva, a tontura inebriante que lhe toldou o cérebro e lhe embaciou os olhos foram argumentos suficientes para impedir o esboço de qualquer tentativa para que as mãos se fincassem nas rodas, só travada com um forte impacto debaixo dum fiat 124 estacionado a meio do passeio...


- E tá com muita sorte!... - Ouviu do médico à saída de São José após um lindo enfeite de gesso compacto no braço esquerdo. – Podia ter sido pior - Agora, estropiado e com um braço partido nem força tinha para fazer andar a cadeira, mais o dinheiro que a mãe amealhara na pedinchisse já quase integralmente fumado e bebido no meio de matraquilhos e snookers… não faltou muito para descer o manto pesado da depressão e da choradeira… - Ò homem… Deixa lá isso... - Disse o seu primo do alto do conhecimento de experiência feito - O que tu precisas é de afogar as mágoas nas meninas da Buraca ou na Buraca das meninas! Não foram à buraca, mas foram até à praça da alegria…depois de um streap tease mal enjorcado no ambiente decrépito do Maxime, toca de escalar um everest de escadas ocas e inseguras na pensão manhosa em frente, levaram o desgraçado ao colo e deixaram-no em cima da cama... ao lado de um cão aninhado.

- Sai daí farrusco - disse a puta no meio de uma tosse cavernosa. O cão revirou um olho aborrecido, rosnou sonolento e aninhou-se com dificuldade e muito má vontade na ponta da cama. Pagaram-lhe de avanço...
Quinze minutos mais tarde veio à janela com uma mama saindo pelo robe mal apertado e em altos berros despejou:
- Venham buscar o coxo que ele já tá servido!!! - E lá foi a tropa fandanga
carregar com aquele peso inerte, saciado e engessado escada a baixo e escada acima…

-Estás bem? Hem? - Perguntou-lhe o Chico piscando um olho matreiro.

- Bem...agora ia uns bolinhos quentes da Praça do Chile...

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E a quarta parte desta saga fica por aqui. Lá mais para a frente retomaremos as desventuras deste animado grupo. A partir de amanhã cá vos espera um textinho daqueles a brincar com as palavras...




quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO - PARTE III


Hoje, para além da terceira parte da história do Bento, temos uma novidade: para aqueles que residem na área de Lisboa estamos em condições de anunciar que o livro Lusitânia Online estará à venda na livraria Trama, um espaço alternativo e de vanguarda, muito bonito, local de tertúlias e debates.
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite.
Para os não residentes na área de Lisboa poderão continuar a receber, no recato do lar, a obra devidamente acondicionada e almofadada nas fronhas do envelope de correio verde.

E agora vamos à terceira parte da saga que já se faz tarde...

(CONTINUAÇÃO)
LISBOA, BAIRRO DE CAMPOLIDE 1974
A dona Antónia, para além de reivindicar a propriedade da única televisão no prédio, era uma senhora afável, baixinha, com um irritante tique nervoso de usurário judeu no olho esquerdo. Fosse pela precisão matemática e pesada do cíclico tabefe marital fosse pelo levantar de mão num gesto mais brusco, já os olhos lhe piscavam numa intermitência ora à esquerda ora à direita, escorada nos parcos conhecimentos de leis da física, estranhamente empírica e receosa, por forma a avaliar e medir o lado de onde tombava a mão pesada do férreo e firme amor marital. O Bornal, aliás, José Bandeiras, era alto e entroncado, rosto com fortes traços de cavalgadura que se conjugava com a sua forma ruidosa, intensa e contínua de sorver a comida directamente da malga. Guarda prisional e bufo da PIDE, sem grandes escrúpulos ou ambições, pronto a obedecer e a executar, herdara uma carvoaria e mercearia onde mantinha um empregado ronceiro, vindo da Guarda, de aspecto seboso, gordinho de careca luzidia e óculos com fortes dioptrias garrafais, sujos e riscados, com o eterno perfume de lixívia entranhado no corpo. Com inusitada frequência, o espécime suíno palitava os dentes ora com a lasca de madeira, ora com os dedos, arrancando os pedacinhos de presunto dos intervalos enquanto, alegremente sentado num banco, meneava a cabeça e grunhia umas ordens para a mulher vender, atender, arrumar, descarregar, limpar e demais conjugações verbais a terminar em er e em ar.
A mercearia era um pequeno espaço com cheiro nauseabundo proveniente dos odores misturados de comestíveis com produtos de higiene; pacotes rançosos de amendoins, arroz, pevides e chás que já para ali se encontravam perdidos desde o tempo da dinastia Ming, eram companhia assídua de prateleiras cheias de pó, sabão azul e branco em barra e cera Búfalo. A loja tinha um arco que dava passagem para uma pequena tasca com três mesitas e uma bancada de pedra. Na parede, por trás da bancada, erguiam-se duas pipas enormes na vertical com dois
pratinhos de madeira para aparar as sobras. Ao longo do dia, depois dos mergulhos em voo picado de sucessivas e constantes esquadrilhas de moscas e moscardos, o suíno voltava a reaproveitar o vinho. As sandes de ovo expostas na vitrina, amarelas ao raiar da aurora, esverdeavam com a rotação terrestre, devidamente acompanhas de um desconto cerimonial e ruidoso: as verdes eram cinco tostões mais baratas que as amarelas...
Muito meticulosamente, enquanto o eterno palito escarafunchava e prosseguia a higiene oral na profundidade fedorenta de interstícios e crateras de dentes e gengivas, procedia à limpeza do chão com o mesmo pedaço de trapo com que limpava a bancada. Enquanto vendia carvão e petróleo a granel e a sinusite e o catarro apertavam, não raras vezes se baixava, enfiando “o focinho “ no caixote do lixo e com um suíno grunhido de “Abominável Homem das Neves” repuxava uma valente escarradela. A surdez e a distracção não esmoreciam o apetite dos clientes enquanto deglutiam as sandes e as caras de bacalhau.
Era lá que a vizinhança ia comprar o que precisava, porque era a loja do Bornal, porque era mais barato, porque de vez em quando dava para surripiar alguma coisa, mas, acima de tudo, porque fazia fiado...
A brigada da PiDE que recolhia informações do Bornal era constituída por dois agentes. O fininho, chupado de carnes e de sensibilidade, com a inteligência a rondar a robustez de um tronco de árvore e o Botas... O Botas ia nos seus vinte e cinco anos de inteligência mal medida e maldade bem aviada. Alto, forte, burro e bruto exibia orgulhosamente os seus atributos num curriculum de torturas e atropelos galhardamente anunciado. Na rua, todos o temiam. Era sobejamente conhecido o facto de que ouvir o ranger das suas botas calcando os degraus das escadas era sinónimo de detenção certa e intemporal. No prédio, ouvíamos amiúde os seus passos que se detinham no primeiro andar onde residia o Bornal. Ouvidos colados às portas, os vizinhos suspendiam a respiração até ao alívio do sonoro trinco do primeiro esquerdo engolir aquela sinistra figura. Com os nervos em franja e o coração apertado entre as mãos enrodilhadas sob o avental, a mãe do escriba, por força das linhas milimetricamente manuscritas e arquivadas na cartolina cadastral do seu pai (José Gonçalves) e das invectivas contra o Marcelo Caetano do seu marido, temia que, algum dia seria dia de Santa Maria e o Botas viria buscá-lo. Não tardou muito... um dia, os passos do Botas não se detiveram no primeiro andar esquerdo do Bornal. Lenta e pesadamente prosseguiram a sua marcha até ao nosso andar. Eu começara a ver a vida a andar para trás num flashback imberbe e receoso, a mãe, com as mãos enrodilhadas e nervosas sob o avental, já ia a meio da terceira Avé-Maria quando nos bateram à porta...
-Truz! truz! truz! - Três pancadas nodosas e firmes acompanhadas de uma frase lapidar:
- Polícia Internacional de defesa do estado! Faz favor de abrir!!!
(CONTINUA)


domingo, 28 de Junho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO - PARTE II



(CONTINUAÇÃO)



... Na parte norte, na zona de confluência entre a Marquês de Fronteira e a rua de Campolide até à Conde das Antas, moravam os que tratavam o dinheiro por tu e com quem ele se portava à laia de fêmea em desvario reproduzindo-se às três pancadas. Na parte sul, junto ao Tarujo, paredes meias com a Praça de Espanha, aqueles cujos vínculos familiares com o vil metal há muito tinham entrado em ruptura. Entre uns e outros, viviam os remediados em prédios que apresentavam enorme saldo devedor na contabilidade dos anos, mas onde o ramo de salsa e a miga de sal eram sinónimo de solidariedade e pretexto para amena cavaqueira.



LISBOA, BAIRRO DE CAMPOLIDE 1974



Atarracada e redonda, na sua figurinha de letra minúscula dum alfabeto esquecido, a Dona Antónia exultava com a sua recente condição de única proprietária de um aparelho de televisão no prédio, o que lhe conferia um grau de inaudita importância junto da vizinhança.

O aparelho, um "Pilips", ufanamente pronunciado com a sua boca de onde, em tempos, os dentes tinham encetado uma fuga prisional em larga escala, era daqueles enormes, pesados, com naperonzinho no topo para resguardar do pó e um pequeno castiçal para dar graça. Fora colocado no quarto de dormir sobre a cómoda onde, todas as noites de quarta-feira decorria a sessão de cinema. Pequenos bancos de cozinha, todos em fila indiana devidamente encostados ao guarda-fatos, filtro azul preso por chumbadas de pesca sobre o écran para não ferir a “vista”, pratinho com palitos de la Reine e lá ia a procissão de judeus reconverter-se à sacrossanta fé das imagens, comer os palitos e ver filmes do Dany kaye enquanto o velho Bornal, marido da dona Antónia, assim alcunhado pela forma alarve como normalmente digeria as refeições, enrolado em posição fetal dentro da cama, arremessava poderosas bombas da segunda guerra mundial empestando a atmosfera com os seus eflúvios. O escriba ria-se a bandeiras despregadas; o estrondo flatulento dos alívios do Bornal no ranking da “Ars comica” estava ao nível das melhores cenas do Danny Keye, mas de imediato era sacudido por um valente safanão da sua mãe, fosse pelo que fosse, ele não estava ali para achar graça, a sua diminuta presença naquele campo de batalha gazeado servia apenas para ler as legendas e resumir a história do filme. Era o único que sabia ler...

Se às quartas-feiras havia sessão de cinema, às segundas à tarde havia sessão de escrita. Era em casa da Dona Judite, uma viúva muito bonita de porte fino e elegante, mas analfabeta. Descendente de uma família rica da zona de Guimarães que se enredara nas teias do jogo e perdera, assim, todo o património, viera para Lisboa casara com um senhor muito bem posto e enviuvara logo de seguida após uma apoplexia fulminante que dera muito falatório na rua. Em cima da mesa da sala pousava os bolinhos, as moedas, o bloco, a caneta, a sua mão esquerda entre as coxas e a direita em intermináveis carícias às glândulas mamárias... Ditava as cartas para as irmãs com um entusiasmo ofegante com vários níveis de intensidade; entre apalpadelas, esfregadelas e suspiros a roçar o uivo, lá ia debitando queixumes, enumerando desejos de muita saúde e outras banalidades que o escriba se encarregava de parafrasear. No final, fazia questão de as “ler” antes de meter nos envelopes, passando os seus olhos de espanto bovino sobre aquelas linhas de caligrafia irregularmente orgásmica e cheias de parágrafos para aumentar o número de páginas...
O círculo de amigos circunscrevia-se aos filhos e netos de dois ou três prédios contíguos, já que da parte norte não havia misturas. A fina-flor era frequência constante e assídua nos Maristas e nas Doroteias e a erva daninha medrava, timidamente, à sombra dos pinheiros da escola pública do Tarujo. A única vez em que as distintas categorias da flora se encontravam na mesma página do manual de biologia era na missa dominical, sorrateiramente folheadas, pelo vento benevolente e cristão entoando salmos ordeiros e afinados. Nas parcas conversas de salvação e de circunstância traçavam-se destinos e previam-se futuros: as filhas do Mateus da empresa de construção iam para professoras e médicas os demais tinham um autocarro de oportunidades à espera com bons cursos de serralheiro, carpinteiro e afins realçando ainda, dando graças a Deus, a sua bem aventurança em terem acesso à leitura e escrita na escola. O grupo era constituído pelos netos da D. Antónia, e seus primos, os sobrinhos da dona Judite e a mais dois ou três miúdos da rua. Entre eles a Madalena e o Filipe do dono da loja de pronto-a-vestir. Das duas filhas da D. Antónia uma tinha ido viver para a Reboleira. “O Jota Pimenta tinha lá construído umas casas muito boas”... A outra filha tinha ido para Santo António dos Cavaleiros onde “as rendas mensais já iam nos três mil e quinhentos escudos”, dito com uma expressão de orgulho infantil pelos sinais exteriores de progresso que tal facto representava, pelo que os filhos ficavam na avó durante o dia. O grupo levava uma vida pacata entre as traquinices da idade e o pouco espaço de manobra dado pelos pais. Entre a xinxada e a ida à piscina do areeiro à pendura no eléctrico vinte e quatro até à praça do Chile, calcorreando depois, no regresso, o monte Sinai numa via sacra, penosa e longa, a pé até Campolide, o grupo, constituído por cerca de uma dezena de amigos, estava prestes a terminar a quarta classe e a entrar num mundo inatingível pelos seus pais: o do ciclo preparatório, unidos e coesos, pelo menos até à chegada do Francisco e a tudo o que aconteceu umas semanas depois...


(CONTINUA)

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO



Aí está! A Angelina Jolie veio à procura do Lusitânia Online e ouvir a história do Bento… para os mais incautos deixamos o aviso à navegação: Com mais ou menos brejeirice, iniciamos hoje, um ciclo de histórias da vida do escriba, aqui e ali, salpicada de humor, crítica de costumes e pinceladas de análise social duma era, da qual, não foram tiradas fotocópias…

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LISBOA, 1964


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Com mais de dois dedos de testa e outros tantos de dilatação dera entrada na maternidade, às nove horas da noite, aflita de dores e rebentada de águas. Numa consoada abençoada por Deus e apadrinhada pelo Natal dos Hospitais, fora obrigada a suportar as dores com paninhos quentes, supositórios bem-uron e muito “schiu” de enfermeira para não acordar as “outras”.
Às nove da manhã de vinte seis de dezembro de mil novecentos e sessenta e quatro dera à luz um macho raquítico, lingrinhas, roxo de berraria e excesso de permanência uterina no meio de dúzia e meia de médicos mal encarados, bêbados de sono e a arrotar bolo rei temperado a vinho do Porto.

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Numa época em que o inglês ainda não era obrigatório por força duma reles redacção de vinte e cinco linhas cheias de erros ortográficos do engenheiro Sócrates, o moço, ganhara o nome em homenagem ao mexicano que aquecia os corações das donas de casa, no constante circular das setenta e oito rotações de Luis Alberto del Paraná, aos microfones da Emissora Nacional mesmo antes do folhetim diário da “coxinha do Tide”. Abençoado pela casualidade divina do apelido paterno e da coragem e intrepidez do avô José Gonçalves, dava à estampa, no meio de outros cromos ilustres, Luís Alberto Gonçalves Bento.

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À semelhança das toneladas de gente oriunda da “terra”, os seus pais tinham vindo para Lisboa em demanda, não do Santo Graal, mas sim em busca do milagre da multiplicação dos pães. Mesmo ao virar da esquina do engrossar das fileiras na luta contra “os turras”,junto ao cruzamento dos ventos de liberdade e abundância da França onde, os mais novos começariam a ter marcação constante no livro de faltas, o futuro escriba idolatrado por Angelina Jolie, passaria a infância num bairro de gente envelhecida, com a quarta classe mal alinhavada, completada, já na idade adulta, levando atrasos de comboio regional para juntar três ou quatro letras, num espaço urbano delineado à boa maneira do Estado Novo, numa arquitectura e tipologia que estruturava as pessoas com maiores e menores recursos. Na parte Norte…


(CONTINUA)



NOVO POST...



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Após o post de divulgação da luta dos professores em Campos e enquanto não aprendemos a conduzir ou não revelamos o verdadeiro motivo da vinda da Angelina Jolie a Portugal, vamos lá a esgotar a primeira edição do Lusitânia Online... até lá... preparem-se para o próximo post para a noite de hoje...uma história começada a 26 de Dezembro de 1964... Isso mesmo! A verdadeira história do Bento...