sábado, 7 de março de 2026

LISBON BY NIGHT

 

Imagem IA


No camarim estreito do bar — uma divisão improvisada com um espelho rodeado de lâmpadas baças — ele terminava de se maquilhar. As plumas estavam penduradas numa cadeira, as lantejoulas do vestido cintilavam numa luz cansada, um brilho um pouco triste, como as decorações de Natal que ficam esquecidas depois de Janeiro. Já tinha vestido o cinto de ligas e puxado as meias pretas de malha larga, rede de pescador, que lhe apertavam as coxas com uma disciplina quase elegante. Passava o pó de arroz com a ponta de uma esponja e olhava-se no espelho como quem examina um estranho.


Faltava um quarto de hora para entrar em palco.

Foi então que se lembrou da transferência. A escola de música. O filho. O piano.

A lembrança veio-lhe assim, de repente, como um pequeno sobressalto no meio da maquilhagem.

Suspirou.

Deixou o camarim, atirou para cima dos ombros uma gabardina curta, cor creme, da Loja das Meias — comprada em saldo dois invernos antes — e saiu para a rua. A gabardina ficava-lhe aberta, talvez por descuido, talvez por indiferença. As meias negras apareciam por baixo, e o cinto de ligas, e o peito exagerado que o soutien empurrava para fora, duas curvas impossíveis naquela noite fria.


No multibanco da esquina não havia ninguém.

A luz branca da máquina tornava tudo mais nítido e mais absurdo. Ele ali, de gabardina aberta, pernas compridas nas meias de rede, o rosto maquilhado com o cuidado de quem prepara uma máscara. Introduziu o cartão, digitou o código. Transferência para a escola de música. Mensalidade de piano.

Enquanto esperava o recibo, pensou que o filho não sabia exactamente o que ele fazia à noite. Ou talvez soubesse e fingisse não saber. Às vezes os filhos são assim: aprendem cedo a organizar o silêncio.


Voltou para o bar.


No interior, o ar tinha aquele cheiro persistente a cerveja, detergente barato e fumo antigo entranhado nas paredes. O anão estava a esfregar o chão atrás do balcão, com uma vassoura quase do tamanho dele. Movia-se com uma eficiência silenciosa, como quem já desistiu de explicar aos outros que tinha vindo para Lisboa com ideias de teatro, de palco, de luz.


Chamava-se Alberto.


No início tentara trabalhar em companhias pequenas, projectos experimentais, qualquer coisa onde a sua estatura pudesse ser interpretada como personagem. Mas o melhor que conseguiu foi aquilo: limpar mesas pegajosas e recolher copos partidos depois das duas da manhã.


Mesmo assim, às vezes ficava a ver o espectáculo. Encostado à porta da cozinha, com os braços cruzados, como quem ainda ensaia um papel que nunca lhe deram.


À porta do bar estava o segurança. Um ucraniano alto, ombros largos, que parecia demasiado sério para aquele lugar. Chamava-se Mykola e tinha estudado física e matemática em Kharkiv antes de a vida se partir em direcções difíceis de explicar.


Os clientes viam apenas o corpo: um homem capaz de separar uma briga em segundos. Mas Mykola não tinha prazer nenhum nisso. Quando dois bêbados começavam a empurrar-se, ele limitava-se a colocá-los na rua com um gesto calmo, quase pedagógico.


Na semana anterior tinha enviado uma candidatura para uma bolsa de investigação no LNEC. Um antigo professor ajudara-o a reunir os papéis. Preencheu o formulário numa madrugada silenciosa, depois do turno.


Ninguém no bar sabia disso.


Nem o travesti, que entretanto subira ao palco entre aplausos dispersos, nem Alberto, que passava o pano nas mesas, nem os clientes que riam alto demais.

Entrou então um casal.

Dois homens que, vistos de longe, tinham qualquer coisa de semelhante — talvez o corte de cabelo, talvez o modo de inclinar a cabeça quando falavam. Um deles trazia uma camisola de lã dobrada nos punhos, o outro segurava-lhe o braço enquanto caminhavam até à mesa.

Sentaram-se perto da parede.

Pediam vinho, conversavam em voz baixa. Discutiam sobre coisas pequenas: quem tinha deixado a cozinha por arrumar, quem se tinha esquecido de comprar detergente, quem devia convidar os amigos para jantar no domingo.

Uma vida normal, pensou Alberto enquanto limpava a mesa ao lado.

Tão normal que até parecia extraordinária naquele lugar.

No palco, o travesti rodopiava lentamente. As lantejoulas devolviam a luz em pequenos fragmentos que saltavam pelas paredes. Cantava em playback uma canção antiga, gestos amplos, exagerados, quase cómicos.

Mas havia qualquer coisa no olhar — um peso silencioso que não cabia na música.

Talvez a mesma coisa que estava nos olhos de Alberto quando recolhia copos vazios.

Ou no rosto de Mykola quando observava a rua através do vidro.

Uma dor discreta, quase uniforme, que atravessava todos eles.

Alguns conformavam-se. Outros alheavam-se. Outros ainda, muito poucos, lutavam contra um destino que parecia já escrito.


A maior parte tinha sido apenas apanhada desprevenida pela vida.

Horas depois, quando o bar começava a esvaziar, Mykola verificou o telemóvel. Havia um e-mail novo. Leu-o duas vezes, como se as palavras pudessem desaparecer.

A bolsa tinha sido aprovada.

Ficou alguns segundos parado, encostado à porta, ouvindo o barulho distante do espectáculo que terminava. Depois guardou o telemóvel no bolso.

Talvez houvesse, afinal, uma saída.

Lá dentro, o travesti retirava lentamente as plumas diante do espelho. A maquilhagem começava a rachar nas margens do rosto, como tinta velha numa parede húmida.

Olhou-se.

No seu conjunto — nas atitudes, nos gestos, nas mudanças súbitas de humor — ele próprio percebia que não passava muitas vezes de uma soma de aparências sobrepostas.

Como todos os outros.

Camadas frágeis, improvisadas, que cada um vestia para atravessar o dia seguinte.


quarta-feira, 4 de março de 2026

NICK VEASEY

 

‘Smartphone?’

C-Type print, mounted to dibond, plexi face (DIASEC)

420 x 594mm (approx. 16.5 x 23”) 6/25



Nick Veasey foi referência temática e bibliográfica nos meus estudos de mestrado e doutoramento e continua a surpreender pelo seu olhar único, para dentro das estruturas escondidas dos objetos presentes no nosso dia a dia, encorajando-nos a olhar para além da superfície.




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

REVISTA MEER - ARTIGO DE FEVEREIRO 2026

 


Um excerto do meu artigo de Fevereiro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.



O Desacontecimento


Lembrares: uma forma de encontrar o passado


Um dia, uma pequena coisa escureceu o paraíso dele. Um estorvo a que não dera importância, uma sombra que lhe passou por dentro, sem aviso. Ainda assim, o corpo dela desmoronou-se sob o seu num êxtase obsceno a que não puderam fugir, apesar de viverem uma espécie de neutralidade espacial. Um lugar contaminado pela forma mais severa de aniquilamento do ser humano: a perda da memória.

Toda a vida dele fora um desacontecimento. Um vazio constante, sem morada fixa para cartão de visita, pautado pela inércia, pelos azares, pela falta de vontade e de sorte. E, ainda assim, conseguia enchê-lo de fantasmas e histórias. Talvez porque sempre quisera estar noutro lugar, noutra função, noutro tempo. Percurso errático a que precisava de deitar mão a outros lembrares para tentar percebê-lo.

Lembrares — dizia ele…



domingo, 4 de janeiro de 2026

REVISTA MEER - ARTIGO DE JANEIRO 2026

 



Um excerto do meu artigo de janeiro na revista MEER, que podem ler e comentar selecionando o link.



A mania de existir

A dificuldade do escritor em coabitar com as personagens


Idealizava o paraíso como um espaço pessoal de resistência às coisas do mundo, ao mal, à guerra, à estupidez geral. Silêncio, luto, luta, rendição — palavras que o acompanhavam sempre na escrita, como rosário íntimo. Como escritor, tinha dificuldade em coabitar com as personagens: oferecia-lhes corpo e respiração, mas elas invadiam-no como hóspedes ruidosos, nunca devolvendo o sossego inicial.