sábado, 4 de março de 2017

PRAÇA DE ESPANHA



Vincent Mahé - Pinterest



Aproximo-me dos semáforos da Praça de Espanha para dar a volta em direcção ao IPO.(1) Um homem, na casa dos quarenta, com um fundo de garrafa de plástico pendurado numa das muletas, que manobra com destreza pelo meio do trânsito parado, exibe a sua perna direita amputada pelo tornozelo enquanto pede umas moedas. Já não via estropiados desde que, em miúdo, o Fanan, diminutivo de Fernando António, que pusera um pé numa mina em Angola durante a guerra colonial, andava pelos prédios da rua D. Carlos de Mascarenhas, amparado pela mãe, com uma fotografia ao peito a pedir por mor dos nossos pecados. A minha mãe dava sempre vinte e cinco tostões porque não podia dar mais e uma fatia de bolo de iogurte que acabara de fazer e que eu nem nunca lhe punha os beiços em cima, porque era para quando aparecessem visitas inesperadas ou aparecesse alguém mais necessitado que nós, e eu, ingenuamente, a desejar ser mais necessitado que eles para não precisarem do nosso bolo. O estropiado continua a cirandar pelo meio dos carros a pedir moedas. Vou ficar quietinho e fingir que não o vejo. Se não o vejo, não existe. A doença ou o desemprego ou ambos, tornam-nos egoístas ou indiferentes, mais indiferentes que egoístas, amputados, talvez, pois perdemos parte da nossa sensibilidade. Por isso deixamos de sentir.
O sinal abre, os carros arrancam, contorno o relvado do meu lado esquerdo e sigo, finalmente, na direcção do IPO. As motas têm acesso a estacionamento livre debaixo de um telheiro.
Tudo começara de forma simples e bruta no momento da entrega da biópsia ao médico.
- Oiça lá! O seu seguro de saúde cobre internamento?
Naquele momento só conseguimos pensar que Deus, se existe, é um cabrão que está a gozar connosco. Depois do desemprego, a doença, só pode ser praga bíblica e o médico a afiançar que isso da responsabilidade partilhada entre Deuses e Demónios era coisa da literatura e que as incertezas da medicina se resolviam com experiência e terapêutica.
Ficamos sem fala, achamos que é uma piada apesar da rudeza do clínico.
- Não ouviu? O seguro cobre internamento? Deixe estar. Vou escrever-lhe uma carta para entregar. Piso zero, gabinete oito, urologia, amanhã, sem falta!
O IPO é um espaço antigo, grande, esmagador, uma série de edifícios com história e histórias, vegetação circundante e colorida onde passeiam galos, galinhas, pavões e outros animais a que deixamos de prestar atenção. As ambulâncias açambarcam todos os bocadinhos de estacionamento; cantos, rectângulos, nichos, reentrâncias, restos de alcatrão e raízes de árvores à superfície. Depois do processo burocrático, a primeira consulta num gabinete acanhado, com a funcionária a desdobrar-se no apoio a três médicos ao mesmo tempo. Entre a detecção, avaliação e análise, a entrada no automático e a junta médica para avaliar o grau de incapacidade, o tratamento decorre em menos de um fósforo. O choque seguinte é perceber que a doença exige vigilância constante, sem compromissos, a que se seguem exames, análises, densidades, fluxometrias, injecções, cateteres e repetição de exames, análises, densidades, fluxometrias e injecções… Ouve-se o movimento das macas a deslizarem nas calhas dentro das ambulâncias, as portas a fechar, as visitas que chegam, o peito amputado que era só um e que acabaram por tirar os dois, o Estado que não financia a cirurgia de reconstrução estética, nem a cirurgia para recolocar os dentes que pareciam gesso e se desfizeram com a quimioterapia.
Finjo que não oiço. Se não ouvir não aconteceu. Hoje, foi tempo de marcar os pré-operatórios e explicar sumariamente a intervenção, as marcações, a dieta, e depois é entrar numa quarta-feira, levar a radiação na quinta-feira e sair na sexta-feira. Muita água, pensamento positivo, nada de bicicleta ou outros disparates.
Saio e dou de caras com a minha vizinha do quinto andar que nem sabia que andava aqui e está com um lenço na cabeça. Não me viu. Eu não a vi. Não aconteceu, certamente. Dirijo-me para o parque das motas, abro o fecho do bolso, e tiro as chaves que coloco na ignição. Dou uma olhadela ao telemóvel à procura de chamadas perdidas, gesto maquinal e inútil, um desempregado é um lugar vago na agenda.
Saio do IPO e contorno a Praça de Espanha em direcção ao Monsanto, mas a meio, acabo por encostar-me à faixa mais à esquerda para dar a volta em sentido contrário. Torno a passar pelos semáforos que, entretanto, ficaram verdes e desta vez, olho, e vejo que o estropiado continua lá, e existe, ainda que num pedaço de memória da infância a fazer companhia ao Fanan que pôs um pé numa mina em Angola...
(1)    Instituto Português de Oncologia


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

CENAS DA VIDA CONJUGAL



Manuel Archain

Cenas da vida conjugal.

O tempo real, o instantâneo, o imaginário e a falta de palavras.

LEITURAS DE HAMLET



Saatchi ArtSaatchi Art: Heads - Language pathways wired in the mind ...
Saatchi Art: Heads - Language pathways wired in the mind Installation by Pam Winbolt



Tememos, sempre, dar de caras com a data em que o universo dispensa a nossa existência. E tudo se resume, afinal, à relatividade das coisas, sendo o amor a mais relativa de todas que nos toca, por vezes, com um desdém melancólico, um corpo que nos faz sentir umas coisas com forma de outras.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

UNDER THE VOLCANO



Hugo Canoilas

Numa visita ao Museu Nacional de Arte Contemporânea para ver o Amadeo, ainda houve tempo para andar dentro do vulcão do Hugo Canoilas. Instalação e filme.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

UMA HISTÓRIA SÓ COM VÍRGULAS



Giordano Poloni



A minha crónica na Revista Caliban

Antónia, casada, quarenta e dois anos, desempregada, aos trinta e cinco, a mãe, às portas da morte, chamou-a e disse-lhe:

- Não és minha filha, és adoptada, eu fui buscar-te, estavas sujinha, tinhas uma marca na testa e estavas a fazer beicinho. És filha do meu irmão, o teu tio.

- Mas os tios nunca me falaram, nem quiseram saber de mim, nem quando tive sarampo e papeira…

A mãe adoptiva morreu. O resto da família sabia da história, o “tio”, agora “pai”, só lhe disse olá como estás pelo telefone e… Já sabes! E a “tia”, agora “mãe”, disse-lhe que tinha que tratar do pai adoptivo que estava com alzheimer. E ela, Antónia de seu nome, sem filhos, um marido informático que mudou de emprego meia dúzia de vezes bem contadas, com o pai adoptivo no lar, desempregada de longa duração, sem se dar com o sogro, com um carro com quinhentos mil kilómetros comprado a um ajudante de mecânico para usar e deitar fora,  já enervada com outras coisas da vida, a ter vontade de fazer qualquer coisa que fizesse jorrar muito sangue com honras de abertura de telejornal, apesar da sua entrega e generosidade, apesar do voluntariado na associação recreativa do bairro, apesar do curso de formação, partilhado com a Elvira, molestada em pequena, com dois filhos, um de cada pai, psicóloga desempregada, que faz limpezas de vez em quando e quando a ciática lho permite, mais o Francisco, designer, pintor, escultor, artista, fiel de armazém nos últimos tempos antes do chapadão ao chefe, que vive no Sobral, desenha, pinta, bebe uns copos e diz palermices que só o Alberto, ex-tipógrafo, ex-bancário, ex-professor, escritor de vida adiada, acha graça. As horas passam, os devaneios também, só o vazio sobra e a falta de paciência para acabar de preencher o questionário do Centro de Emprego…