sexta-feira, 29 de junho de 2012

A REVOLUÇÃO


Ao certo não sabia qual fora a deixa para entrar em cena. Se o sorriso precário marcado a amarelo torrado, difuso e cinza do tabaco, se pela singeleza da herança genética. Não que fossem más pessoas, antes pelo contrário, o pai  cansara-se da progressão geométrica e linear em semi-círculos sempre às arrecuas  para uma existência chã e sem brilho, e demandara por Lisboa para emendar a vida estragada pela necessidade  acabando por gretar as mãos na dureza do martelo e escopro no andaime. A mãe a servir em casa de uns senhores, embevecida com as histórias que ouvia em serões de tertúlia sobre os feitos e bravatas de Gonçalo Mendes da Maia -  O Lidador, achara-lhe graça e juntara os trapos. Ela por ser séria e apresentável, ele por ser asseado e trabalhador acabando por baptizar o rebento com o nome de Gonçalo, que rapidamente desaguara num castrador Gongas  longe dos augúrios de  grandes sucessos, desígnios e grandeza,  sem direito ou recurso a contestação...
 O filme começara lá atrás onde a memória se perdia entre o sorriso da infância e a ingenuidade da existência sobre um cenário, tosco, parco de adereços, de traço irregular desenhando, de forma infantil, o azul do céu, umas quantas árvores, uma casa com chaminé,  Deus a brincar com as pessoas e o destino a passar rasteiras.
Fosse como fosse, apesar da singeleza da herança genética tinha neurónios, uns quantos, por sinal  funcionais e com terreno fértil ao redor, embora, raramente,   os pusesse  a fazer ginástica. Para além da falta de pensamento lúcido ou iluminado, ou de jeito assim paneleirinho de escrever ( o conceito mais aproximado que encontrava para descrever literatura), Gongas vivia num país politicamente correcto e entretido, alinhado em termos de importância, algures, entre a variação bolsista do Arrentela Futebol Clube e a taxa de câmbio da libra do Burkina Fasso. Assim, seguia-lhe as pisadas decalcadas da modorra empedernida e  da inveja, acabando na  ausência de iniciativa individual.
O pai a insistir para estudar e ele que, teimosamente, fintara letras e algarismos na escola tirando, a ferros, distinta formação em sessões contínuas de matraquilhos. Dali até à idade legal fora menos que um fósforo  e aí arranjara trabalho na fábrica de cablagens. Na idade madura perdera-o e derretera, no imediato, todas as esperanças. Vivia na ignorância, a manifestar-se, bastas vezes, pelo escárnio e pela agressividade a cujo binómio complacente juntara o ócio e assim, acrescido de um grão na asa ocasinal, diluía a vida em carambolas às três tabelas. Farto de ruminar apetites e vontades ao ritmo afiado do infortúnio, com duas prestações da casa em mora e o gás por pagar, mais uma série de pintelhices dessas com paradeiro incerto, decidira-se pela revolução naquela noite de borga escudando-se, para isso , no sólido argumento de duas grades de “mines” com o qual convencera dois vizinhos , matarruanos e convictos benfiquistas sempre prontos para a pancada. Fiat uno de mil novecentos e noventa e quatro, uma granada de recordação da Guiné, uma faca de mato de ir às lapas nos pontões da Cova do Vapor e a  “flóber” que o padrinho lhe oferecera à entrada da adolescência. De olho nos preparativos do exército,  a mulher assomara à janela do primeiro andar, ainda a limpar um pratinho da extinta cerâmica de Sacavém com o desenho de um cavaleiro empinado brandindo uma espada, que o tio coxo encontrara numa obra em que mandou umas paredes abaixo, movida pela curiosidade daquela saída  extemporânea ficando a saber que  eles iam a Lisboa fazer uma revolução que já era tempo
- Pois sim -  Respondeu ela, encolhendo os ombros entre o enfado e a saturação – Pois então, de caminho, passa pela Damaia lá por casa do teu pai e pede para ele abonar vinte éros se não , amanhã, cortam-nos o gás…
De vez em quando, apesar do esforço,  não se furtava à visita de médico que o passe social lhe permitia. Lá ia ele, com o saquinho da Zara com o tupperware dos restos do almoço,  suportar, no olhar, o peso da reprovação pelo plasma, a wii, o telemóvel , o aparelho dos dentes do puto, mais o gajo do banco  a ligar por causa do buraco na conta, agora cratera sem fundo, à sombra de juros, mora e comissões que lhe reduzira o orçamento à condição de destroço. Achava que chegara a hora de contrariar o destino, os anos de ócio e imprevidência.
O carro  transpirava fadiga dos metais em chiadeira incrível na rampa dos cabos de ávila num esforço, digno de registo no manual de mecânica, rangendo fissuras e desiquilíbrios quase a chegar aos oitenta com o vento pelas costas. O plano fora delineado pelo caminho abrindo garrafas a eito sem dó nem piedade: tomar de assalto a RTP anunciando aos microfones a revolução e tomada de reféns se fosse preciso. Armados até aos dentes, com os benfas a gritar pelas jolas com que abasteceram a bagageira delapidando , assim, o engodo para os homens da Securitas, a revolução estava em marcha…ainda que lenta e titubeante.
Roncavam, a sono solto à entrada dos emissores quando, ao amanhecer,   sentiram umas pancadas secas e vigorosas no vidro do condutor e um olhar farejador e inquisitorial ornado com uma farda da Securitas:
- Então que se passa aqui???
Nhec... nhec... nhec… a manivela a baixar o vidro que só desceu pela metade e o Gongas, ainda estremunhado, a esticar o pescocinho fino e esguio e a inclinar, com sacrifício,  a cabeça pondo a testa de fora e, de olhos semi-cerrados, a articular aos bochechos  que vinham fazer uma revolução...
- Pois vão lá revolucionar para outro lado!! Andor que isto aqui não é a Santa Casa!!
O Gongas olhou para os companheiros esbugalhados, as grades de mines vazias e a vontade aflitiva de mudar a água às azeitonas e aceitou, e agradeceu, com um aceno reverencial, o empurrãozinho para ajudar o Fiat a pegar  decidindo, naquele momento, abortar o golpe de estado. Na descida do Monsanto deu uma olhadela de soslaio ao ponteiro da gasolina a cavalgar a reserva e viu que ainda ia muito a tempo de meter  para a IC19… O sol já despontava e o trânsito começava a engrossar. Se se despachasse, ainda o apanhava… era só suportar o tal olhar… um saltinho à Damaia e… sacar vinte euros ao velho para não lhe cortarem o gás…