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terça-feira, 3 de setembro de 2013

ENTREVISTA COM TEOLINDA GERSÃO



Um privilégio imenso publicar a entrevista que Teolinda Gersão teve a amabilidade e disponibilidade de conceder ao nosso blog poupando, ainda o anfitrião, à dificuldade em sintetizar a sua  nota biográfica... Um grande momento de uma grande senhora das letras. 

NOTA BIOGRÁFICA:

Teolinda Gersão estudou nas Universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim e Professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa. É autora de doze livros (romances e contos), traduzidos em onze línguas. Foram-lhe atribuídos por duas vezes o Prémio de Ficção do Pen Club (O Silêncio 1981, O Cavalo de Sol,1989)o Grande Prémio de Romance e Novela da APE (A Casa da Cabeça de Cavalo,1997), o  Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários (Os Teclados 1999), o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco (Histórias de Ver e Andar,2002), o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio da Fundação Inês de Castro (A Mulher que Prendeu a Chuva), e foi shortlisted para o Prémio Europeu de Romance Aristeion.
Foi escritora-residente na Universidade de Berkeley em 2004.
Alguns dos seus livros foram adaptados ao teatro e encenados em Portugal, Alemanha e Roménia.
Os seus livros mais recentes são A Cidade de Ulisses,romance, 2011,e As Águas Livres,Cadernos II,2013.

Mais informação em www.teolindagersão.wordpress.com

ENTREVISTA:


1- Fez uma declaração de amor à língua portuguesa em Junho de 2012 onde, num texto primoroso, aliou mordacidade,  humor e reflexão.

“Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta.”

A esta distância  acha que há, agora, mais amor à língua portuguesa, ou que, pelo contrário,  com a polémica do acordo ortográfico à ilharga ,“ a turma vai acabar por chumbar”?...

A “redacção” que escrevi em 2012, ”Declaração de amor à língua portuguesa,” era um texto  muito irónico, mas realista. O ensino que se faz da língua consiste basicamente na aprendizagem de uma terminologia e, por muito bons que sejam os professores, os alunos resistem a aprender o que acham tão absurdo como inútil. O que só prova que são inteligentes. O MEC tem os chumbos e as péssimas notas que merece.

Quanto ao desastrado “Acordo” Ortográfico, há um número crescente de vozes de protesto que o recusam liminarmente, em Portugal e fora dele. O que é um bom sinal de que estamos vivos.”Estou vivo e escrevo sol”, escreveu António Ramos Rosa. Nós estamos vivos e escrevemos/dizemos: Não.

2 - Em,  A casa da cabeça de cavalo,  o personagem Januário interroga-se sobre se primeiro se deveria ter um estilo e só então escolher as palavras...Estas são também interrogações suas? Construir uma história, um texto em que se consiga atingir o equilíbrio  entre a beleza da palavra, o estilo e a necessidade de reflexão? E esse equilíbrio surge-lhe de forma natural ou tem, por trás, um aturado trabalho?

Esse passo (como aliás todo o romance) é também muito irónico. Ninguém é escritor porque construiu a priori um estilo, só quem nada percebe de literatura pode julgar que se aprende a escrever através da teoria da literatura,da retórica literária,da linguística ou de qualquer outra disciplina. 

3 – Em  A cidade de Ulisses  a relação amorosa de um casal é o pretexto para abordar o amor, a liberdade, a identidade, a opressão e revisitar Lisboa, a antiga e a moderna, traçando paralelismos entre episódios de ruptura no passado e a situação actual. Acredita que é na  criatividade, na arte e na cultura que reside a chave para  vencer este fado de crise que ciclicamente atravessa a nossa sociedade?

Nada nas nossas crises é “fado”, mas sim corrupção e incompetência – por vezes incompetência voluntária, recusa de mudar o status quo por conveniência, o que é também uma forma de corrupção. Escrevi um romance sobre Lisboa, mas vejo-a da perspectiva de personagens que estudaram e viveram anos fora dela, e têm  por isso um olhar diferente. O fado não é uma canção melancólica, digo por exemplo no livro: é uma canção altiva. Porque é assim que penso, somos um povo corajoso e altivo, e não brando e resignado. E somos imensamente criativos, o que é uma enorme mais valia, não tenho a menor dúvida sobre isso.
 Amo muito Lisboa, sim. Estou satisfeita com o que, década após década, antes e depois de 74, o poder autárquico e político têm feito dela? A resposta é não. E em relação ao país, à mesma pergunta daria a mesma resposta: Não.

4 - No livro A mulher que prendeu a chuva assistimos a um quotidiano onírico, fantástico, reflexivo. Num dos contos, As tardes de  um viúvo aposentado, assistimos ao personagem a tentar preencher o seu dia, a inventar situações e saídas para poder ocupar o seu tempo. Acha que esse é o tormento do homem moderno? Num mundo evoluído tecnologicamente o homem acabar por ficar só num mar de gente...?

É verdade que a solidão é um problema actual. Existiu sempre, mas a modernidade agravou-o. No entanto isso não é uma fatalidade, e é possível encontrar saídas.O problema não está nas coisas a que acedemos, que, em si próprias, são neutras, está no bom ou mau uso que fazemos delas. A tecnologia por exemplo  pode afastar ou  aproximar as pessoas. No fundo, tudo depende sempre de nós. Escolher é possível.

5 - Nos seus livros sentimos que a vida pode ser experimentada a cada linha que se lê... É esse o papel da literatura? Experimentar o mundo? Deixar pistas para aquilo que não vemos no dia-a-dia?

Acredito que a literatura alarga o horizonte e a experiência do mundo. Os analfabetos (em sentido real e em sentido lato, de analfabetismo cultural) são incomparavelmente mais limitados e mais intolerantes do que aqueles que lêem (que sabem ler, também no sentido mais vasto do termo). O próprio gesto de abrir um livro (sem o qual na minha perspectiva a vida não seria vida) é um gesto de liberdade: um novo espaço se abre, e nos convida a percorrê-lo.E é, ao mesmo tempo, um gesto de humildade: algo que ainda não sabemos, não conhecemos, não temos, vai ser-nos oferecido e acrescentado, porque estamos sempre num processo de crescimento e de aprendizagem,que só chega ao fim quando morremos.

 6 - A última questão, normalmente, mais “leve”... A Teolinda Gersão já... prendeu a chuva?...

(Risos) Oh,não, eu amo a liberdade e o espaço, e, mesmo que pudesse, nunca prenderia nada! Nem o sol nem a chuva! 


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

LIVROS & LEITURAS



Livros & Leituras ė uma revista literária de grande qualidade, pretígio e com muito dinamismo. Um espaço vivo, de partilha e divulgação de novos e velhos autores. Depois da referência ao Lusitânia Online na semana anterior foi publicada, hoje,  a entrevista a este autor que reconhecidamente se congratula com a oportunidade. Uma entrevista com uma ponta de ironia e humor  como não podia deixar de ser. Aos administradores da Livros & Leituras o meu sincero agradecimento.


Quem é?
Quem sou? Há 48 anos que procuro responder a essa questão. Nem o Freud explica… (risos) Mas na parte que me conheço , para além do humor afiado e da resposta pronta, licenciei-me   em Línguas e Literaturas, fui professor e tornei-me bancário. Alinhavei algumas letras e parágrafos em suplementos literários de jornais durante a década de 80 e administro, actualmente, o blog bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com, onde publico textos de prosa sobre diversos temas, ligados à crítica de costumes, onde se reflecte sobre a sociedade portuguesa contemporânea. Participei na Coletânea Balaio de ideias e publiquei em edição de autor no Brasil, o livro Lusitânia Online.Continuo a alinhavar letras e parágrafos em colaboração dispersa em revistas nomeadamente na versão portuguesa da The Printed Blog. Em 2012 tive um conto premiado e publicado nos Novos Talentos FNAC da literatura, tenho 
um romance pronto para editar ( Verde, código verde – Um português a fazer de Deus) e continuo, teimosamente, a escrever na antiga ortografia.v
Como e quando começou a interessar-se por literatura? 
A necessidade e o interesse pela leitura e pela escrita manifestaram-se desde muito cedo. Depois de devorar, em pequeno, uma infinidade de livros sem descriminar géneros ou estilos, para além das leituras “normais” para a idade comecei também a despertar para as histórias que a minha avó contava baseadas nas novelas do Camilo. A leitura e a escrita acompanharam a minha adolescência onde o interesse pelo Português marcava já uma predominância sobre todas as outras disciplinas. A dificuldade na geometria e na aritmética e um excelente professor de Português no Liceu Pedro Nunes fez o resto…
Por que motivo resolveu escrever livros?
Pelo mesmo motivo que me leva a beber água ou a dormir… Uma necesidade! De início, talvez para esconder uma certa timidez que me levava a ser avesso a falar em público ou expressar-me oralmente e a ter maior facilidade em comunicar por escrito, mas rapidamente me afeiçoei à palavra escrita, à sua durabilidade e plasticidade. A escrita é a forma que encontrei para agitar as consciências, para despertar os outros, através dos pequenos episódios  do nosso quotidiano formatado para o consumo.
Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?
Para além do conto publicado nos Novos talentos da literatura FNAC 2012 (Fashion Heroine)  e  alguns contos do Lusitânia Online (edição de autor publicada no Brasil) o Manucrito Verde código verde. O primeiro retrata a submissão de um casal ao seu fado e de uma mulher que, em ditadura, consegue  (literalmente) estilhaçar essa submissão e obviamente, também pelas palavras elogiosas de Valter Hugo Mãe sobre o mesmo. Quanto ao manuscrito... Agrada-me por ser uma história de resistência. Uma crónica que decorre em dois planos distintos: período revolucionário de 74 e no verão de 2012. O encontro entre antigos companheiros num jantar de evocação de memórias. Um percurso em busca dos amigos por parte do protagonista, por vezes amargo, por vezes irónico que o faz descobrir-se e descobrir que é um inadaptado à efemeridade dos tempos modernos. Uma existência vertiginosa a esgotar-se em gadgets, créditos e prestações. A imbecilidade progride na proporção do crédito concedido. Deixaram de ser genuínos e absorveram carácter massivo e imparável da cultura de globalização. No final, resta o desencanto com o rumo da revolução numa geração a atravessar a crise da meia idade. E resistente também por insistir na sua publicação...
Em que é que se inspira para escrever um livro?
No ser humano! No seu grau de exposição e fragilidade. Na imagem de pessoas frágeis à superfície que desconhecem a sua força. Gente que vive ao nosso lado e tem problemas grandes, pequenos, sérios, caricatos. Na ironia do quotidiano, acima de tudo na nossa capacidade de nos rirmos da nossa história recente fértil em disparates...
Se não fosse escritor, o que gostava de ser? 
Bancário não faria parte das opções, seguramente.  Não vejo outra opção para além da escrita, actividade a que gostaria de imprimir um cunho profissionalizante...
Quais são seus autores preferidos? 
Tantos e tão díspares. Lobo Antunes e Valter Hugo Mãe, pela densidade psicológica das personagens, pela teia de enredos ora espessos, ora de uma simplicidade brutal. O artifício do trabalho literário. A escrita sai num jorro encadeada e enredada em pensamentos crus, irónicos, pequenas histórias, delírios em ritmo intenso e contínuo. No final, a revelação do conflito interior do personagem ou do narrador. Luís Sepúlveda pela capacidade de efabulação, Miguel Torga pela ligação telúrica, pela palavra pesada e trabalhada no sentido de descrever as condições das gentes da terra, reminiscências da juventude na aldeia.Os neo-realistas pela forma de resistência ao regime, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Proust, Margerite Yourcenar...
Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor? 
Aqueles que continuo a repetir-me... Ler muito, escrever mais ainda, persistir com entusiasmo, acreditar sempre! Fazer uso das ferramentas informáticas, das redes sociais, participar, intervir, ter uma causa para escrever, encontrar o modo, o tom e contrariar o desinteresse dos agentes literários. Havendo público, o escritor de causas, mais tarde ou mais cedo, terá o seu lugar na literatura.
Para quando um novo projecto editorial?
Terminei a revisão e reescrita do Verde código verde, continuo a acreditar que é um projecto viável a nível literário e comercial, rompe com alguns canônes e é um projecto  bem humorado e com sensibilidade. De qualquer forma comecei a trabalhar noutro projecto  que já vai com algum vanço. Um romance sobre uma escritora que reside na ilha de Chipre, a maior parte do tempo, numa antiga casa de pedra no sopé das montanhas  e que terá, de uma vez por todas, que acertar contas com o seu passado... Não tinha a intenção de visitar a Sicília naquele verão, mas o convite para participar num filme parecia muito excitante, uma oportunidade a não perder. A vida tinha corrido tranquilamente no último ano e ela pensou renovar velhas amizades e conhecer um punhado de estrelas de cinema de renome. Havia um pequeno senão... Anos antes, tinha sofrido uma experiência traumatizante naquele mesmo local - um encontro que pensou estar ultrapassado. Mal sabia ela que a morte acidental de uma bela e jovem atriz durante as filmagens a arrastaria, uma vez mais, para uma espiral de acontecimentos fora de controle. Acidente ? Assassinato? Disposta a resolver o mistério, mas em fuga de um passado que queria esquecer, acaba por se cruzar com um administrador bancário, também ele em fuga, com um segredo perigoso e muito dinheiro para pôr a salvo. Uma viagem pelo mediterrâneo que os trará ao sul de Portugal onde pensam resolver o mistério, mas onde a pacatez e o bucolismo da paisagem apenas esconde uma provação ainda maior...  Um projecto com um enredo atractivo, uma narrativa onde predomina o equilíbrio entre o sarcasmo, o suspense e a sensibilidade e com personagens das quais  vamos querer ficar a saber o final da história...