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Na espuma dos dias
Nenhuma distância é longa para o nosso passado.
Nos alicerces do dia, as várias mortes em que durmo, a vida transformou-me numa pessoa quebradiça, sem vontade, anestesiou-me até ficar prisioneiro da memória de coisas desaparecidas, cinema, mentiras, paralelos na estrada, barricadas, algibeira vazia, corpo frágil entre os dedos, o espanto da infância, dores, sonhos e sorrisos. Para além das memórias continuo a sonhar contigo a preto e branco, por preguiça, nas madrugadas, com o teu sorriso torto, meio dissolvido, que faz as horas mais largas e mais bonitas tal como as minhas personagens que vivem desamparadas numa espécie de redenção nessa narrativa a que chamamos romance, um ofício de depuração contínuo em que se resgatam frases, sem saber quase nada do surrealismo do mundo.
Amarrotados pelo cansaço, ficamos a contemplar o mar, numa paciência sem queixas, um coração estranho que bate como o teu, de militância obstinada, tu defines a distância, retomas a conversa onde a deixámos, no canto de outra voz, eleva-se a lua e a demora da sua presença ilumina os contornos do teu rosto num silêncio de margem a margem.
