quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

UMA HISTÓRIA SÓ COM VÍRGULAS



Giordano Poloni



A minha crónica na Revista Caliban

Antónia, casada, quarenta e dois anos, desempregada, aos trinta e cinco, a mãe, às portas da morte, chamou-a e disse-lhe:

- Não és minha filha, és adoptada, eu fui buscar-te, estavas sujinha, tinhas uma marca na testa e estavas a fazer beicinho. És filha do meu irmão, o teu tio.

- Mas os tios nunca me falaram, nem quiseram saber de mim, nem quando tive sarampo e papeira…

A mãe adoptiva morreu. O resto da família sabia da história, o “tio”, agora “pai”, só lhe disse olá como estás pelo telefone e… Já sabes! E a “tia”, agora “mãe”, disse-lhe que tinha que tratar do pai adoptivo que estava com alzheimer. E ela, Antónia de seu nome, sem filhos, um marido informático que mudou de emprego meia dúzia de vezes bem contadas, com o pai adoptivo no lar, desempregada de longa duração, sem se dar com o sogro, com um carro com quinhentos mil kilómetros comprado a um ajudante de mecânico para usar e deitar fora,  já enervada com outras coisas da vida, a ter vontade de fazer qualquer coisa que fizesse jorrar muito sangue com honras de abertura de telejornal, apesar da sua entrega e generosidade, apesar do voluntariado na associação recreativa do bairro, apesar do curso de formação, partilhado com a Elvira, molestada em pequena, com dois filhos, um de cada pai, psicóloga desempregada, que faz limpezas de vez em quando e quando a ciática lho permite, mais o Francisco, designer, pintor, escultor, artista, fiel de armazém nos últimos tempos antes do chapadão ao chefe, que vive no Sobral, desenha, pinta, bebe uns copos e diz palermices que só o Alberto, ex-tipógrafo, ex-bancário, ex-professor, escritor de vida adiada, acha graça. As horas passam, os devaneios também, só o vazio sobra e a falta de paciência para acabar de preencher o questionário do Centro de Emprego…