sábado, 15 de setembro de 2012

ENTREVISTA COM CRISTINA CARVALHO




1 – Esta pergunta é incontornável: O seu livro Nocturno, o romance de Chopin foi incluído nas listas do Plano Nacional de Leitura de 2011 como leitura autónoma recomendada para o ensino secundário. Que mudanças se operaram na sua obra com essa inclusão? E que balanço faz das actividades do PNL no incremento e criação de hábtos de leitura em Portugal.

Cristina Carvalho  - É o meu segundo livro no Plano Nacional de Leitura. O ano passado, 2010, entrou "O Gato de Uppsala".  Na minha cabeça, sim, algumas mudanças se verificaram. Com dois livros já no PNL penso que, realmente, posso ter alguma "utilidade" para os jovens leitores. Penso que posso contribuir de alguma forma para o despertar da leitura, penso que pode ser um caminho a seguir, penso que essa aceitação me deu um imenso prazer e uma imensa vontade de continuar nesta linha embora continue também a escrever outro tipo de romance mais para adultos, digamos assim.
O Plano Nacional de Leitura é um programa de extrema e elevadíssima importância ao nível escolar desde as primeiras aprendizagens, de um primeiro contacto com o livro até ao final da escolaridade. Há livros recomendados para todas as idades e para todos os níveis de conhecimento. É um grupo de trabalho conhecedor, moderno e dinâmico, com uma extraordinária responsabilidade e que, a meu ver, tem obtido resultados verdadeiramente excepcionais. Tenho visitado dezenas de escolas com alunos de várias idades e de vários graus de ensino, tenho conversado com eles, respondo às suas questões sobre os meus livros e é sempre um prazer renovado ter esse contacto com pessoas tão novas e algumas tão interessadas. As bibliotecas escolares, regra geral, são espaços muito bons, amplos, confortáveis, bem organizados - o acesso à informação hoje totalmente informatizada - cheios de livros portugueses e estrangeiros.
Não estou a querer dizer que tudo é "um mar de rosas" e que tudo funciona "às mil maravilhas"! Estou a querer dizer que longe vão os tempos mais escurecidos; longe vão os tempos duma remota divisão com um armário e meia dúzia de livros a aguardar que algum "cocabichinhos" os lesse;  longe vão os tempos dum desinteresse continuado e triste quer pela leitura quer pelos espaços de vida que a leitura proporciona.
Para toda esta claridade e eficácia, sem dúvida alguma e para além do esforço dos professores, está o Plano Nacional de Leitura que queremos cada vez mais atual e permanente.

2 – Em ,O Gato de Uppsala,  Um gato sem nome, uma história de amor e o naufrágio de um navio sueco (Vasa) constituem os elementos chave para, segundo palavras suas, construir “um romancezinho a partir do qual se pode explicar o mundo”. É esse o papel da literatura? Explicar o mundo? Deixar pistas para aquilo que não vemos no dia-a-dia?

Cristina Carvalho - Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. A vida pode ser experimentada a cada linha que se lê e sempre diferente, vista por diversos olhares.
"O Gato de Uppsala", quem o leu, sabe que reuniu metaforicamente, as três principais fases da vida, quer humana, quer animal: o nascimento, simbolizado pela caminhada de Kiruna até Uppsala; a juventude e o encontro com a morte; a idade adulta depois de várias e inesquecíveis experiências pelas quais toda a gente devia passar antes de se aventurar em águas mais profundas. O navio Vasa simboliza, na minha história, a idade adulta, a conquista, o ganho e a perda, a alegria e o desgoverno, a paz e a guerra. 
Se o escritor consegue deixar pistas para o que não se vê dia a dia, isso depende. Claramente que o "dia a dia" é subjetivo. O que eu vejo, "tu" não vês! O que eu quero ver, não quero que "tu" vejas, senão como vou conseguir explicar-te?
Conheço e toda a gente conhece, literatura cheia de preconceitos, clichés e lugares comuns. Conheço também literatura absolutamente impenetrável para o leitor comum, quase impossível de descodificar. Nada deste tipo de livros me interessa. Uns porque são "eu e tu e tu e eu" e não passam daí e outros porque não se consegue chegar "lá!"
Para chegarmos a conceitos complexos como todos os que a vida oferece, temos sempre de partir da aparente simplicidade. 

3 – No seu último livro Lusco-fusco  brinda-nos com uma bela história, com Gnomos, fadas, sereias e uma extraordinária capacidade de efabulação. À luz dos acontecimetos actuais considera que o ser humano perdeu essa capacidade de efabulação e de acreditar, principalmente, naquilo que não vemos?

Cristina Carvalho -  Não pretendo retrocessos, regressos ao passado, às histórias de fadas, aos anõezinhos da floresta, às bruxas e temas deste género, embora estas histórias sejam interessantíssimas e, se quisermos, sempre atuais. Há uma idade nova, uma época nova, conceitos totalmente diferentes. Por exemplo, aqui há uns anos, surgiram no mercado uns bonecos horrendos e temíveis Os Master do Universo. Eram rijos, de cores atrativas e com eles arquitetava-se as mais inconcebíveis aventuras. Isso também é muito interessante mas é preciso, antes de mais, explicar um certo número de coisas às crianças sempre com linguagem simplificada. Também as histórias de fadas boas e fadas más e bruxas e gigantes eram assustadoras, contudo, maravilhosas. Uma pessoa ficava ali presa aqueles enredos dias e dias e dias.
Não! Não acredito que os homens tenham perdido essa capacidade de imaginar! Hoje sonham coisas diferentes, talvez. Isto quem sonha, claro! Porque todos nós sabemos o deserto que existe, atualmente, entre muitos pais e filhos: vá, vai ver um filme ou vai lá jogar um bocadinho que é para ires para a cama ou agora jantas, lavas os dentes e cama que amanhã tens de te levantar muito cedo. Isto não é exagero. É assim mesmo. Não há tempo para histórias. Quase que não há tempo para olhares nem que sejam de soslaio.
Era muito bom que "Lusco-Fusco" pudesse transformar alguma coisa. Nem que fosse por um período. É uma história que pode ser lida por qualquer pessoa em qualquer idade. Está lá escrita a vida toda.

4 – Lusco-fusco fala do mundo dos espíritos da Natureza acabando, também ela, por se tornar uma personagem. Natureza essa que já detinha, também, um papel forte em O gato deUppsala. É esse o verdadeiro amor? O amor pela Natureza?

Cristina Carvalho - Não faço a mínima ideia o que é o verdadeiro amor. Ninguém sabe o que é o verdadeiro amor. Ninguém. Essa força de sentimentos são clarões, são relâmpagos fugazes, hoje é assim, amanhã pode não ser. Enfim, não é esta a resposta que o Luís pretende, penso eu. O Luís quer que eu fale do amor pela Natureza e é isso que lhe vou dizer como já disse anteriormente e parafraseando o meu pai : A Natureza sou eu. Somos nós, humanidade, os únicos capazes de a compreender e de a amar a ela, Natureza. Sento-me numa pedra ao fim do dia, cruzo os braços no colo e olho para a fina fita do horizonte tentando compreendê-la no seu todo incompreensível. Nunca chegaremos lá, mas somos os únicos que tentamos alcançá-la porque todos os outros, já lá estão.


5 – Uma última questão, mais leve e em pleno desconcerto com o título de um dos seus livros: Considera que "escrever é um prazer, uma alegria, e não é nada trágico ou doloroso” assim sendo, poderemos afirmar que o processo criativo é leve e que o tempo que medeia entre cada livro ´´e um…  Até já não é Adeus ?

Cristina Carvalho - O que eu quis dizer com essa frase é que, para mim, escrever histórias é, realmente, um prazer. Não quero dizer com isto que seja fácil ou rápido. Não. Não é fácil nem é rápido. E não é trágico nem doloroso, claro que não! Aliás, não conheço nenhum escritor que sofra horrores para escrever o livro. E conheço bastantes escritores. Pode ser um processo mais pensado, mais lento, pode dar muito "trabalho" e se quiser, alguma "dor" mas uma pessoa escreve, pinta, desenha, fotografa, come, bebe porque sente essa necessidade, não é? É uma condição da vida como outra qualquer. Eu tenho de escrever histórias. Essa é uma certeza da minha vida. E sei onde quero ir e também sei que tenho uma nave espacial à minha espera em cada esquina que dobro.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

FOSSEM OS LÁBIOS DE CETIM...

Kenne Gregoire

Fossem os lábios de cetim e o beijo deslizaria, mudo, pelo corpo inteiro, teimoso e inquieto, em busca de entregas e segredos devorando o caminho com malícia, ganhando o mundo e arredores em fragmentos de memória. O tempo, errático,  a esgueirar-se com a leveza da borboleta e ela, mostrando-se mais forte do que supunha, oferecendo o sorriso a quem lhe provara as lágrimas. Os braços, generosamente abertos, cuja solidez derretia na existência adormecida , apontando as fragilidades do amor: na alma, a liberdade, no coração a propriedade. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NOVOS TALENTOS FNAC LITERATURA




Fashion heroine entre os cinco contos mais votados. A todos e a tantos que se empenharam e mobilizaram para que tal fosse possível os meus sinceros agradecimentos. Este é um conto vosso!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM ALICE VIEIRA



A entrevista com uma grande senhora das letras que muito nos honra com o seu brilho. Dona de um humor e energia invejáveis, sucinta, prática e concisa. "Amigo respostas curtas, que já não estamos em tempo de discursos".

Alice Vieira nasceu em Lisboa, em 1943. Nos anos 60 deixou-se levar pelo jornalismo – e nunca mais de lá saiu.
A partir de 1979, acumulou com a escrita de livros. Mais de 70, até hoje. Para crianças, para adolescentes, para adultos.
Muitas traduções por esse mundo fora,  alguns prémios.
Mas continua a não saber nada, como não sabia ao princípio.

1 - O mundo, tal como o conhecemos, está em rápida desagregação, crise de valores, falta de solidariedade e com acentuado e excessivo incremento do poder financeiro. De que forma pode a literatura modificar ou alterar este estado de coisas ou qual o seu papel neste nosso novo mundo?

A literatura não muda coisa nenhuma. A literatura pode fazer de nós pessoas melhores – e isso é que é importante.
   
2 - A literatura e os seus suportes estão, também eles, em mudança assistindo à expansão dos suportes digitais em detrimento do velho papel. E o leitor actual? Mudou? Evoluiu? É mais exigente? Continua com sede de aprender ? Ou busca apenas entretenimento?

O mundo mudou, os leitores mudaram, todos nós mudámos. Mas os clássicos – em suporte papel ou digital – continuam a ser as nossa referências. Não sei, nem me importa saber, se o público evoluiu, se é mais exigente, se continua com sede de aprender ou só quer entretenimento (e porquê separar o “aprender” do “entretenimento”???). Sei que eu sou, como sempre fui, muito exigente e, ao mesmo tempo, muito egoísta: escrevo para mim, como eu acho que devo escrever. Se depois as pessoas me leem… ótimo. Mas nunca penso nelas à partida. (Não estou a falar dos livros para crianças muito pequenas, porque isso é outro departamento… Estou a falar de literatura.)

3 - Na sua actividade literária já percorreu todos os tipos de público. Juvenil, adulto, etc. Há muitas diferenças entre esses tipos de público? Qual o grau de exigência ou pontos de contacto?

Penso que já ficou respondido. O grau de exigência é o mesmo.

4 - Passando a sua obra em revista, qual a importância da memória e do quotidiano na sua escrita?

A memória e o quotidiano são o meu alimento. Sempre foram. Como jornalista, acho que nunca poderia ser de outra maneira

5 - Em Bica Escaldada reúne uma série de textos onde se vai impondo uma crónica de costumes da sociedade portuguesa das últimas décadas. À luz dessas histórias e dos tempos que vivemos sente que se perdeu a inocência, o humor, o interesse e preocupação pelo outro  em detrimento de uma certa desilusão?

Essa de “estarmos desiludidos”, coitadinhos de nós, é uma ótima desculpa para não fazermos nada… E é evidente que não podemos cair em generalizações. As  minhas crónicas da “Bica Escaldada” foram publicadas nos anos 80. Não há telemóveis, nem iPads, nem outras maravilhas fatais da nossa idade. Mas continuam a ser lidas hoje. Como  acontece, por exemplo, com o “Chocolate à Chuva”, um romance que escrevi há 30 anos, e que continua, ainda hoje, a ser lido nas escolas…
O mal de muitos autores é quererem escrever para a posteridade... A gente sabe lá o que vai ser a posteridade… Escrever para nós, no nosso tempo, com grande rigor e com grande exigência é a única solução.



ALFABETO

Foto retirada de Painters amateurs

Queria saber que alfabeto era aquele com que escrevia amor a gemer baixinho, que caminho levava  a  curva suave do perfil, a respiração melosa e o rosto a transpirar ternura em maiúsculas.
Só o tempo, avaro nas horas, a impedia de ver de que tamanho era aquele gostar. Ele acabou por se vestir à pressa,  de olhos postos no seu corpo à espera de um sinal, distendido  de forma lânguida, sobre a cama. 

Um beijo, um sorriso e um silêncio…

A vida era mais bonita assim… sem explicações…

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FANTASIAS TEXTUAIS




Estava exausta. Exausta de palavras e de espera. Apesar disso, sabia que ele viria e, assim, esperava. Esperava só mais uma vírgula, mais um  parágrafo, para sorrir com o desvelo e o carinho das suas palavras doces e seguras.  Ele acabava por chegar. Chegava sempre. Um sono tardio e incompleto num bocejo quase sorriso que lhe escancarava  a porta para o encontro físico, na matemática de dois corpos que se enrolavam num algarismo mágico  pleno de química e afecto, numa equação infinita onde o tempo era apenas um espaço entre linhas. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM CATARINA FONSECA




Um espaço que se pretende vivo não se limita a ser juíz (com mais ou menos polémica salarial) em causa própria. De vez em quando mete a foice em seara alheia. Voltamos, por isso, ao ciclo de entrevistas a algun escritores da nossa praça.
Nasceu em Lisboa em 1969. Licenciada pela Faculdade de Letras de Lisboa e mestre em Literatura Inglesa mantém a imagem fresca e jovem, levemente rebelde, que lhe conheci nos tempos de estudo. Ainda muito jovem publicou A Malta do 2º C que lhe valeu o Prémio Inasset Inéditos de Literatura Infantil 1988. Mais tarde publicou A Herança, obra merecedora do Prémio Revelação APE 1987 e Adeus, Al Capone.Tendo iniciado, posteriormente  a sua escrita para adultos com Boi Vermelho a que se seguiram muitos outros títulos e colaborações com diversos autores, mantendo, actualmente, colaboração regular com a revista Activa. Passemos pois às cinco questões da praxe onde a dscontracção e o bom humor são a tónica dominante.

1 – Entre “A Malta do 2º C” e “Boi Vermelho” ou “A Guardiã” experimentou uma série de registos e de abordagens ou temas. Sendo o primeiro dedicado ao leitor jovem e, salvaguardadas as diferentes faixas etárias, de que forma sentiu o grau de exigência dos dois tipos de leitores? Algum foi mais fácil que outro? Ou por outra: Há algum leitor” fácil?”

- Esta pergunta é muito fácil: o meu leitor sou sempre eu, portanto em teoria ele nunca muda, o que dá imenso jeito. Como eu sou uma leitora incrivelmente chata, não dá jeito nenhum porque passo o tempo a levar na cabeça de mim própria. E aborreço-me com muita facilidade, daí estar sempre a mudar de registo. Numa revista, temos sempre a preocupação de chegar aos leitores, e sabemos mais ou menos quem eles são e de que é que gostam. Um livro é essencialmente egoísta: nunca tenho a sensação de que há alguém a quem eu tenho de agradar ou que não vai perceber isto ou aquilo. Claro que, como sou otimista, confio que haverá do outro lado muitas almas gémeas que me vão perceber e acompanhar. E há.

2 – “Talvez, pensou ele, aconteça como nos espelhos partidos. Talvez agora a imagem e a realidade se tornem a unir por um momento, antes de se voltarem a separar” (Boi Vermelho) Afinal, É isso? Imagem e realidade da vida separam-se para se voltarem a unir? Ou a literatura é o elo de união entre ambas?

 - Hehehe. Não. É só uma frase bonita que não vale a pena explicar. As frases bonitas são como as anedotas, se as explicamos deixam de ter graça.

3 – Relativamente ao trabalho literário… Acha que o trabalho literário é reparar no que está escondido no quotidiano ou, por outro lado, as coisas estiveram “lá” sempre visíveis e é a intervenção do autor que nos ilumina o caminho?

- hmmm. Não sei se percebi a pergunta. Acho que as coisas não são ‘visíveis’, as coisas existem para cada um segundo aquilo que queremos ou podemos ver, por isso o estar visível depende de quem vê. Cada um tem um código de descodificação do mundo diferente e a literatura é a celebração dessa diferença. Eu gosto de tentar fazer com que as coisas sejam vistas de uma maneira diferente da habitual, para quem as quiser ver comigo. O que me fascina nos livros é precisamente essa elasticidade da alma. Ver o que é visível a outra pessoa, entrar dentro dos seus olhos e do seu código e aprender a ver de outra maneira.

4 - “Herdeiros da história da família, Pedro e Gloriana vão ter de encontrar uma forma de resistir àquilo que os afasta.” ( A Guardiã) Considera ser esse o papel da literatura? Dar-nos o instrumento para ver o mundo diferente de cada vez que olhamos e, assim, encontrarmos forma de resistir àquilo que nos afasta dele?

- Sim, nunca tinha pensado na literatura como uma espécie de treino da atenção, mas é isso mesmo. Não necessariamente atenção ao mundo que está fora de nós (eu sou a pessoa mais distraída do universo, tenho sempre imensa vontade de rir quando me falam em atenção ao mundo, penso sempre ‘ó coitados, se eles soubessem…’), mas atenção à forma como o tornamos nosso e o recriamos. Um escritor não presta atenção ao mundo, presta atenção à forma como ele existe em nós. A teoria da caverna não é necessariamente uma coisa má… Acho mesmo que é uma das coisas que todas as artes têm em comum: tornam-nos mais atentos (seja ao que for…), e mais subversivos, quando nos mostram outros caminhos para lá daquele que a nossa tão pouca atenção nos mostra…

5 – A questão mais fácil… Afinal, já sabe” para que é que ainda serve um homem?”

- Hehhehe. Eu sei, eles é que, coitados, parece que ainda não perceberam…

sexta-feira, 27 de julho de 2012

ONE NIGHT



One night
Softly, anchored in the greatness of the word, love came.
"I love you" ...
Graphic, powerful, stripped, giving itself generously like a promissory note without retirement or protest, to remind them of the simplicity of things and they rolled, contemplating them so lined up, challenging them to measure the geography of desire where both were consumed, not as far as he seemed not as close as they desired by guessing the manners, the looks, the scents of bodies and the bittersweet compulsion of sex ...
To hell with the world, the conventions and the time to flee in their awake! Love was thus a long history of patience to leaf through the next chapters, with attendance. He, seething, pretending to be simple, to give himself completely without remorse, a gift, an exchange without receipt or invoice in joyful living and the hustle and her trying to catch him in the brief dash strokes in a short sketch where briefly, the body had spent the night, but the heart stayed a lifetime ...

IDENTITY



From her world he only knew of the weight carried on her shoulders, framed in the plasticity of the word from which she seized the days. Destiny was turning itself in an accomplice and the inner will to draw her body, loosing himself in the sweet curve of her eyes, a in short pause, realizing in a flash of childhood memories of explicit arithmetic where Mrs. Ruth often divided baskets of oranges, collected kings of Portugal in the history and geography book or in the manifest fear of heights which prevented him from crossing bridges, and the best of all happened in between moments, life squinting and sliding while death was distracted, and time was so old and scattered like the sailboats to India and to win the world was to look upwards, measuring the distance in dreams and smiles, feeling her skin scenting broom and heather in the late hours of the day,  surrendering himself to that look, baring her soul and desiring to find out if love lived far beyond that bridge torn on the margins of Neruda. 

In a moment, as intense as time, just long enough to read the invitation to cross the bridge into the depth look of her eyes, and him, with an eager and innocent smile, indicating even without realizing, that more than a halfway was already crossed ...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

AS PALAVRAS


Sentia falta das palavras, dos gestos, do mimo e do sorriso com que pintava o dobrar dos dias, do olhar terno e profundo, convite explícito e aberto a devassar-lhe a alma, em  final de tarde, remendo de primavera colado à pressa sobre aquele Dezembro irreconhecível e confuso no jardim de relva bem tratada, com um castanheiro secular, um banco pintado de fresco  e uns arcos de pedra do tempo dos romanos obscenamente grafitado sem acento: “Antonio ama Maria Inês” com o peso do apelido a reforçar a sinceridade da declaração.
Doía-lhe a inconstância da presença. O sobressalto, o tempo, os silêncios. Caprichos do destino a brincar sem cerimónia. Doía-lhe a falta dos seus braços envolvendo-a no reflexo do espelho, pela manhã. E de tanto doer achava, por vezes  que o coração era uma dor do tamanho do mundo, percebendo, afinal  de contas,  que o amor, era coisa maior que ele…

segunda-feira, 23 de julho de 2012

HISTÓRIAS DA TERRA - OS PANFLETOS


Fermín Garcia Sevilla

Foi logo a seguir ao último cruzamento entre a História e a Civilização, já os dinossauros tinham recolhido aos compêndios de ciências naturais, que José Gonçalves, à força de muitas flexões do estômago à hora da refeição, abraçara as teorias Marxistas. Levando atrasos de comboio regional para juntar duas letras da dimensão duma junta de bois, achava, contudo, que a justiça só punha palas na manta verde e retalhada de aridez endémica no terreno sinuoso de Castelo Branco e, apesar das intermitências com que dedilhava o alfabeto, a ideia de justiça, igualdade, pão e trabalho para todos, fora cultura que germinara, sem esforço, no terreno ávido e fértil do seu cérebro. Após o despedimento pelo capataz depois do episódio do almoço condimentado a pedradas, não arranjara outro sustento melhor que uns vagos e dispersos biscates pastoreando umas cabras e limpando mato. Nas suas longas passeatas pelos pinhais fora recrutado por um finalista universitário para lhe guardar e distribuir panfletos subversivos de apelo à luta armada contra a ditadura. A princípio, atraído pelos símbolos do trabalho, a foice e o martelo e, mais tarde, pela conversa do estudante, acabara por se empenhar na guarda e distribuição dos panfletos. Ao certo, não sabia o que continham, mas sabia aferir da sua importância…

Três dedos, assim alcunhado desde que, na festa em honra de Santo André das Tojeiras apanhara um foguete perdido e o mesmo lhe rebentara entre os joelhos, acabando com a serventia das partes pudibundas e destroçando-lhe dois dedos da mão direita, aliara a frustração ao desempenho activo e alarvemente zeloso da função de agente da P.I.D.E. Perseguia sem dó, ré, piedade ou outra inscrição de pauta, os “inimigos” do estado. Célebres tinham sido as suas investidas, com ajuda dos militares da GNR, na caça a perigosos subversivos vermelhos que tinham posto em cheque a segurança da Pátria. Certa ocasião, Sebastião Béu Béu, onomatopaico por baptismo e borracho pelas vicissitudes da vida, alegara ter visto o Armando do Lagar a caminhar sobre as águas do rio Ocresa…” Milagre”!! A notícia rastilhara célere e chegara aos ouvidos enfarinhados em serume do agente. “Que não! Não podia ser… Milagres só em Fátima com a bênção de sua excelência o Presidente do Conselho” (fazendo uma vénia reverencial), “se o povo começa a ver milagres fora da órbita do regime, ao invés de termos todos a ver para o mesmo lado, temos uma zarolhice subsversiva que põe em causa a argamassa sustentadora do regime: Deus Pátria e Família… Se não respeitam a família é como o outro... Estes burros só sabem pedir forragem na manjedoura, mas confrontar o milagre oficial sancionado pela Pátria... Isso é que não!” Sebastião andava sempre borracho e a visão fôra atribuída ao seu estado de embriaguês permanente, mas perante a insistência nas visões, Três dedos, num dia em que ele andava a regar umas leiras de terra num povoado distante, empurrara-o para dentro do poço… A explicação oficial dita em tom irónico era que “Deus escrevera por linhas tortas: o homem que andava sempre borracho acabara por morrer afogado… em água… “Deus estendera-lhe a mão e ajudara-o a lavar os pecados nas mesmas águas puras que batizaram São João Baptista…” Abriam-se-lhe as portas do céu para uma vida imaculada que não soubera levar em terra”… A explicação não convencera ninguém, muito menos o José Gonçalves... Três dedos, apenas por curiosidade mórbida, ainda se deslocara ao local indicado tendo, com a ajuda de uma vara, detectado um caminho de pedras bem no meio do rio… Milagre não era, decididamente! Quanto muito, algum comunista que ali plantara os seixos para escapulir à polícia ou para mangar com a fé cristã…

José Gonçalves tinha alguns animais de criação e uma cavalo tingido comprado nos ciganos chamado Russo, o bicho era má rês, arisco, agitado, não tolerava arreios ou cangote. Escouceava tudo e todos, bastas eram as vezes em que tinha que consertar o estábulo, não servia para trabalhar mas afeiçoara-se ao bicho e, entre eles, estabelecera-se uma cumplicidade de estado de espírito, ambos queriam ser livres. Limitava-se a dar-lhe comida, guarida no palheiro e a passeá-lo pelos matos. Tinham grandes diálogos, o cavalo já ouvira os postulados de Marx, Trotsky e outros teóricos, José Gonçalves discorrera sobre o paraíso na terra lá para as bandas de leste numa sociedade onde os homens não eram explorados pelos homens ou qualquer outro tipo de besta.

Três dedos, pressionado pelo chefe de brigada, queria encontrar, a todo o custo, os panfletos do partido comunista, não pela mensagem, pois aquela gente não sabia ler, mas porque lhe custava andarem a mangar com o estado e porque contava passar, ele próprio, a chefe de brigada se apanhasem o tipógrafo. Não fôra preciso muito para desembocar no encalço do José Gonçalves. Numa noite, acompanhado de dois cabos da guarda, batera-lhe à porta. À força de bastonadas vasculharam tudo em busca dos panfletos e de um tal Marx…”Que não o acobertassem porque era pior!” Perante o choro e a resposta atabalhoada da mulher de José Gonçalves, a ignorância, que aliada à maldade e ao poder constituem uma trilogia perigosa e violenta, só se saciou com a senhora prostrada no chão jurando por Deus e todos os cromos da santíssima trindade que o tal Marx pernoitara ali mas abalara há meia hora atrás…Não querendo aparecer de mãos a abanar, até porque não tinha dedos suficientes para contar até dez, levou-o para o posto da guarda onde deu continuidade à sessão de sevícias e tortura. O chefe de brigada, homem arguto e enfadado com ridicularias menores, decidira mandar soltar josé Gonçalves: “solto ele indica mais facilmente onde estão os panfletos, quiçá a tipografia, quiçá o tipógrafo...”

José Gonçalves regressara a pé levando uma eternidade de via sacra, lenta e dolorosa, a chegar a casa, mas o tempo suficiente para arquitectar a resposta à altura da baixeza do infame três dedos…

Alguns dias depois andava a guarda, esbaforida, revolvendo céus e terra em busca do Três dedos. O agente não mais fora visto desde a noite do interrogatório ao José Gonçalves, ninguém lhe pusera a vista ou outro órgão em cima…decidiram ir a casa do José...
Nada… Ninguém… Silêncio absoluto, apenas o escoucear e relinchar do Russo… Arrombaram a porta, nem vivalma, nem sinais, verrugas ou cheiro do josé Gonçalves e da mulher... “Ai o madraço que preparou alguma! Vai ter muito que contar no Torel! Vasculharam tudo deixando para o fim o palheiro, ninguém se atrevia a chegar perto do Russo. O cabo decidu ir buscar a carabina ao carro...
À mesma hora, José Gonçalves, ainda combalido, seguia com a mulher no carocha preto e discreto do tipógrafo rumo a Espanha, com um sorriso nos lábios...

Bang! Bang! - Dois tiros para o ar e o Russo, assustado, rebentou com o que restava da porta e deitou a correr em direcção à liberdade do pinhal… De lanterna na mão, os polícias entraram, a medo, dentro do palheiro… A uma canto, completamente ensaguentado e marcado pelas ferraduras do Russo, jazia inanimado, o agente da P.I.D.E. junto a uma prensa artesanal, no meio de centenas de panfletos subversivos esvoaçando pela força da corrente de ar…

quinta-feira, 19 de julho de 2012

VOAR

Eric Fischl. Bad Boy


- Apeteces-me! – A desenhar-se-lhe nos lábios, sussurro solto e certeiro agitando a melancolia das memórias, dúvidas e hesitações com que se mirava, a medo, ao espelho, fugindo do reflexo baço da existência, qual pássaro de asa curta a ensaiar o vôo.

- Apeteces-me! – A tocar-lhe a pele, onde, numa obediência cega e gramatical, as palavras se diziam e deixavam dizer, impregnadas de cheiro e  entrega, em território livre com o amor à redea solta a baixar a guarda e sem saber que nome dar a tanta intensidade.

- Apeteces-me! – E ele a regressar à doçura com que a acarinhava com palavras firmes... estou…tenho…devo… quero... tão sequencialmente doce, a terminar num baraço irremediavelmente fiel à singeleza do encanto próprio da inocência da criança e que lhe fizera, lenta e paulatinamente, perceber que era no perfume e  leveza das mesmas que poderia voar ou, simplesmente, encontrar forma de existir...

terça-feira, 17 de julho de 2012

A PONTE



Do mundo conhecia-lhe apenas o peso carregado em ombros, moldado na plasticidade da palavra com que brindava os dias. O destino a fazer-se cúmplice e a vontade a desenhar-se no corpo e a perder-se na curva doce do seu olhar,numa breve pausa, percebendo , então, num flash de memória da infância medida na explícita aritmética da Dona Rute onde dividia amiúde cestos por laranjas com resto zero, coleccionava reis e rios de Portugal no caderno de história e geografia ou no manifesto pavor de alturas que o impedia de atravessar pontes , que o melhor de tudo acontecia nos intervalos,  com a vida a olhar de soslaio e a deslizar enquanto  a morte se distraía, que o tempo era tão antigo e disperso como as naus para a Índia, que ganhar o mundo era levantar os olhos do chão, medir a distância em sonhos e sorrisos, sentir-lhe a pele com cheiro de giesta e urze no final da tarde e render-se àquele olhar a desnudar-lhe alma e uma vontade imensa de descobrir se o amor morava para lá daquela ponte rasgada sobre as margens de Neruda.
Momento tão intenso quanto breve, o tempo suficiente de lhe ler na profundidade do olhar o convite para a travessia da ponte e ele,esboçando um sorriso  sôfrego e inocente, indicando que, sem se dar conta, já levava mais de meio caminho feito

A FOME



Acordo num salto impulsionado por mola invisível. O despertador há muito que estrebuchara em alarmes perdidos na twilight zone. Sete e um quarto!!! A dor de cabeça aumentou proporcionalmente à consciência do atraso. Nem tempo tinha para pequeno almoço.O banho ! Rápido.! Um duche forreta com água morna, uma passagem de máquina ao de leve pela pele,  metade dos pelos teimosamente semeados na face. Não há tempo a perder...tou atrasadíssimo!!!... Detesto isto! e esta dor de cabeça... e de estômago... que seca! Os patamares descem-me sob os pés ao ritmo de records olímpicos, deito rua abaixo até à esquina onde está estacionado o meu amado Golf de 1989. Mochila arremessada , cinto,  sapatada no acelerador... sapatada no acelerador...chave...Não! hoje não! não me vais dar nega...que nervos!...vá lá!!...vá lá... pegou!!... Rápido!... autoestrada e ainda chego a tempo... o pior é esta dor de estômago... porra! Nem café, nem pequeno almoço, todo desalinhado... o Golf rola em aceleração máxima para os seus cavalos cansados da fadiga acumulada ao longo de 19 anos...Filipe Massa faz uma prova impressionante, destreza máxima na descida do Monsanto... e esta dor de cabeça potenciada pela fome... que dor de estômago... Amoreiras... lá tá... a tal ruazinha com parquímetros avariados... A sorte brilha na forma dum lugar vago... mesmo à maneira... 8h15... vamos...corre... corre Carlos Lopes... do Rato à Castilho, frente ao Heron, é um tirinho... atravesso o largo em corrida desenfreada. Chego à esquina da Herculano... cinco minutos... se não chego em cinco minutos os telefones já devem estar todos a tocar... detenho-me diante do velho que, à falta de rendimento mínimo garantido, arredonda a pensão de sobrevivência distribuindo o Destak... e é então que reparo na velha... olhar vago, aflito, desesperado, tom lamentoso, roupas puídas e as mãos retorcendo-se em movimentos infinitos:
- Hoje não estão a dar nada?
- Não... - respondeu o velho - hoje nem os da Danone, nem os da Matinal...nada!
Olhei para o relógio...já está...vou chegar atrasado...A curiosidade matou o gato e eu, que de felino e belo apenas guardo as seis vidas que me restam, perguntei:
- Estão a dar o quê?
- Ah...Normalmente estão aí as carrinhas a fazer publicidade e dão iogurtes, leite, sumos...mas hoje não vieram...a velha vem cá todos os dias para comer qualquer coisa...
Olhei para ela. O seu olhar, vago, perdido, olhando em redor na esperança de que ainda aparecessem...
O Velho deu-me o Destak. Levei as mãos ao estômago... 
- Foda-se! Perdi a fome...

CONTAR ESTRELAS



Aprendera que a vida corria a várias velocidades, especialmente na idade adulta, em quarta a fundo, quando regressava à marcha lenta e engasgada da infância, lá na terra, com o pai a perguntar-lhe  o que fazia ele, tão hirto e sério a olhar para o céu.

- Conto as estrelas! - Assim, obscenamente seguro e despido de vaidade. Deves contar deves…nem pró ano sais daí…anda! Mexe-te! Vai lavar os dentes e cama, que elas não fogem. Tens a vida toda para as contar…

- Dois milhões quatrocentas e trinta e duas mil cento e vinte e uma…- Com rigor de contabilista encartado em minudências. O pai cofiou a barba e alternou o olhar desconfiado e prescrutador entre o miúdo e o céu, escuro como breu, pejado de pontos brilhantes que ele iria jurar, ter visto, naquele momento, estarem a sorrir…

domingo, 15 de julho de 2012

SILÊNCIO


Alfredo Araújo Santoyo

Três pequenas histórias, três perspectivas sobre o silêncio com leituras nas entrelinhas. A morte, o quotidiano e o amor.

O SILÊNCIO - I


Num frémito, a brisa acenara-lhe à janela onde passava páginas em branco, noites a fio, a desenrolar o silêncio das palavras de olho nas estrelas. Sibilina, a morte segredara-lhe que cair nos seus braços era viver como estrela, brilhando, as boas, mais que as más. Não havendo pecados a expiar, nem grandes nem pequenos, pegou na alma, subiu ao terraço, galgou o parapeito e deixou-se levar, de um sopro, no brilho do silêncio…


SILÊNCIO! - II


Amarelecida de inutilidade, ciosa do traço tosco da enfermeira de dedinho em riste sobre a boca, a placa sobrevivia, a custo, num equilíbrio precário entre a força de gravidade e a cola ressequida, escorregando numa lentidão imperceptível pela parede abaixo, ante a algazarra anárquica instalada na sala de espera do centro de saúde. Novos, velhos e assim-assim, exibiam com orgulho bacoco e ruidoso, chagas, fístulas, feridas infectadas e outras enfermidades constantes dos alfarrábios clínicos, como condecorações de guerra de uma vida esgotada, com esforço, numa olimpíada masoquista repartida em retalhos e privações entre a Sueca no jardim e as filas intermináveis, em pé, sobre joanetes inflamados, à cata do primeiro prémio da lotaria de consultas. De um lado, uma conformada brigada do reumático onde soldados sem brazão no apelido ou homem de peso à beira da pia baptismal remexiam, com irritante insistência, na sacaria repleta de embalagens vazias de analgésicos e ampolas esmolando assinatura e vinheta do sotôr na receita. Do outro, uma exaurida plebe de classe média empregada por conta de outrém, irrequieta, prisioneira do crochet nervoso e miudinho, da fofoca de novela e do quotidianozinho semeado de injustiças, esgravatando no divórcio frequente das vedetas ou na maldade da besta da professora da Nini do quinto esquerdo da travessa que a tomara de ponta, embirrara com ela e insistia em dar-lhe más notas preparando-se para lhe oferecer uma raposa mais que certa. Alguns miúdos espojavam-se no chão numa descontraída gritaria para desjejuar do fastio das horas de cárcere involuntário na sala. O Sotôr, de nervos em franja, arrepanhava a melena por entre relatórios e credenciais, mal dormido pelo peso do enfeite com que o presenteara a namorada que, apesar de vestir mal de cara se evidenciava em intermináveis jogos de cintura que, afinal andava distribuindo de forma generosa, por seara alheia. Mais pelo peso do ruído do que pela força do ciúme, num assomo de ira, abriu a porta do gabinete de rompante e, rubicundo, vomitou-se em berros e imprecações exigindo silêncio:

- Se torno a ouvir uma mosca, um verme ou uma lesma rastejando no mosaico vou-me embora, não dou mais consultas hoje e não há receitas pra ninguém!
Enfiou-se para dentro fechando a porta com enfadado estrondo.
A placa não resistiu ao apelo das leis da física e estatelou-se no chão desagregando-se , com o impacto, em parcelas de composição molecular.
E então fez-se silêncio…


O SILÊNCIO - III


No princípio, apenas o verbo, lento, sorrateiro, conjugado no verbo amar insinuando-se aos pedaços. Logo a seguir a paixão, tomando forma escrita na espera transformada em desejo dos corpos nus, em pé, contra a parede, consumindo-se em silêncio…



OS SEGREDOS DA COZINHEIRA



Não podíamos deixar passar em claro esta “pérola” decoberta no “Mestre Cozinheiro”, uma décima edição datada, algures, dos anos noventa e que, anacronicamente, manteve em edição o texto que se segue. Da esposa linda, limpa e asseada, à pega fora do lugar ou ao cuidado para não verter gotinhas da tampa da panela nos ladrilhos, o texto é uma preciosidade de clichés e anacronismos sobre uma certa imagem da mulher pronta para servir o marido e convenientemente vestida para receber os amigos com galanteria... Aqui fica o desafio para rirem a bandeiras despregadas ou, pelo contrário, acharem que, realmente, é este o seu lugar...Está lançado o mote para a discussão e debate... Força!

OS SEGREDOS DA COZINHEIRA

Nenhuma senhora, ciosa da sua própria aparência física, e, também zelosa da boa harmonia conjugal sob os seus múltiplos aspectos deve descurar o seu vestuário dentro de casa, e principalmente na cozinha, onde a sua acção é preciosa.
      O marido, quando chega a casa, aprecia ver a esposa limpa e arranjada. É bem conhecida a gota de água que faz transbordar o vaso. Uma pega que não está como deve ser, uma nódoa, um aspecto desmazelado, ofendem, não só os olhos mas, o que é mais grave, o coração. Todas as mulheres devem meditar nesses problemas caseiros, que por vezes assumem carácter desagradável. O marido entrando em casa, gosta de ver a esposa radiosa, fresca, com um vestido impecável e um gracioso avental posto como resguardo e emprestando ao conjunto certa graça, particularmente atraente.
      Conta-se até, a propósito, uma queixa de certo marido. Dizia ele: “Encontrei uma linda rapariga, limpa, asseada, cuidadosamente penteada, e discretamente vestida. Gostei e casei com ela. Um ano mais tarde, quando entrava em casa, comecei a encontrar uma mulher descuidada que durante o dia, tratou das suas ocupações de dona de casa, permanecendo enfarpelada com um vestido enxovalhado e com um avental mal posto, sem feitio e sem forma. Experimentei com doçura fazer-lhe sentir a minha desaprovação”, ao que ela replicou num tom de ofendida: “ O que queres: não se pode ao mesmo tempo tratar do governo da casa e conservar a aparência de uma senhora”.
        Não há dúvida, que este marido é quem tinha inteira razão. Há que sermos não só senhoras, mas também muito femininas, dentro da nossa casa. Isso predispõe bem aqueles que nos rodeiam. Na cozinha, manter uma aparência de frescura é um segredo notável.
        O problema do vestuário da mulher em casa, tem até sido estudado por pessoas especializadas no género. Os vestidos de trazer por casa devem ser tecidos sólidos, resistentes e duráveis. Coloridos, frescos e agradáveis à vista. Os aventais poderão ser em tecidos claros, luminosos, às riscas, em escocês, com flores, com pintinhas ou às barras. E assim, convenientemente vestida, a mulher poderá estar na cozinha e receber os seus íntimos com extrema galanteria. (…) Quando se destapa uma panela, ter o cuidado de não espalhar nos ladrilhos as gotinhas que recobrem o interior da tampa….

10ª edição
Editorial Lavores
Agência peninsular
Avenida da igreja, 68, 1º dtº

DORMIR




A estrada estendia-se à sua frente, lenta, vazia, a deixar-se tomar de curvas com o verão a esgueirar-se de fininho em final de tarde, breve, como breves eram as palavras e o tempo a amaciar a melancolia suspensa da certeza  milimétrica de que o céu era sempre azul e que à noite se enchia de estrelas. Os dias são o que fazemos deles, e ele sem jeito para domador, alinhando na inércia com que os deixava tomar o freio no vazio da consciência em exílio absoluto escondendo-se na desconcertante imutabilidade do mundo.
Adivinhava-lhe o cheiro gravado na pele,  os gestos, as mãos finas de dedos esguios a enrolar-lhe o cabelo  com carinho, insistência e outras coisas que o coração sussurrava  e o corpo não esquecia...
Sempre desprezara os caprichos do tempo, marcas, dores ou achaques da idade. Quase não dormia, dormir era morrer um pouco no travesseiro, sobrando-lhe, assim,tempo para recordar. Por isso naquele final de tarde pegara no carro para uma viagem sem sentido ou à procura dele. Prego a fundo, uma dose de amnésia e duas de desapego , cavaleiro do asfalto em demanda da rainha  sem saber onde desenbocava aquela harmonia, as luzes e os murmúrios que ouvia agora.
Afivelara um sorriso amarelo mal a vira. – És bela! Imaginava-te de capuz e segadeira… Não terás vindo cedo demais para me levar?
- Sou capaz!... Se calhar distraí-me, mas já que cá estou…
- Deixem passar! Afastem-se por favor! – Maqueiros e paramédicos furavam pela multidão para chegar com rapidez ao local do acidente.
 Sentia-lhe ainda o cheiro, as carícias e o beijo a escorregar até ao seu gosto… Entreabriu os olhos e apercebeu-se dos pontinhos brilhantes entretidos a acender o céu, estirou-se com dificudade entre o lençol apertado  e afundou a cabeça no travesseiro…