Imagem de Nick Vesey

Imagem de Nick Vesey

COLABORAÇÕES

ESTE É O ESPAÇO PARA PROSAS ANTIGAS E PARA QUEM QUISER APARECER E COLABORAR. ESPAÇO DE CULTURA E DIVULGAÇÃO DE QUEM POR AQUI ANDA A TENTAR A SORTE. NELE PARTILHAMOS TEXTOS, FOTOS, PENSAMENTOS, BRIC-À-BRAC E BOA VONTADE.

A enviar para o mail  luis.bento.3133@facebook.com 





RENATA MARIA CHAVES LIMA












Minha biografia e mais ou menos assim:


Nasci no Rio de Janeiro em 1988.

Já morei no sudeste, no sul, no norte e atualmente resido no nordeste do Brasil

na cidade de São Luis do Maranhão.

Comecei a escrever aos 18 anos

retomando ideias que haviam ficado perdidas na adolescência.

Escrevi Ares (a Moderna Poesia da Poesia Moderna) dos 18 aos 20 anos

não tinha a pretensão de começar com um livro,

mas apenas uma poesia e outra e outra

e de repente, escrever foi me tomando

a tal ponto que me tornei escritora de mim mesma, e nas horas livres era qualquer outra coisa

escrever meio que se tornou o meu oficio

enquanto a realidade para mim era desconhecida

conforme as experiências foram chegando

o encantamento para com a realidade foi diminuindo

e então a escrita

cessando

hoje tenho 26 anos

e

posso dizer que

dificilmente escrevo

Ares é o que de mais encantado saiu de mim

digamos assim

Sou graduada em direito

estou concluindo pós-graduacao lato sensu em direito tributario das empresas

pela UNISEB

sou advogada desde o ano de 2012

aprovada em quatro concursos públicos de provas e títulos para o provimento de cargos públicos diversos

solteira

Foi a criadora da coluna jurídica no Jornal maranhense A Tarde

no ano de 2010,

desde o ano de 2010 é académica correspondente de letras da Academia de Letras do Alto Turi

no Jornal A Tarde também foram publicadas poesias do livro Ares

nasci no dia dos namorados

12/06 (data em que aqui no Brasil se comemora o dia dos namorados)

perdi meu pai faz quase 5 meses...


AMOR DE PASSAGEM




Amor de passagem

Amo o amor em si mesmo e por si

Mesmo sem possuir alguém para amar

Mas não desisto

Insisto

E decidi

Quero mesmo seu amor me tornar

//

Tanto tempo sem dengo

Digo

Ela sou só eu

Eu só sou ela

Só há ela

Na sua tela

//

Passo

Posso

Pinto

O amor acompanha...

//

Lamento estar ele

Só de passagem







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FILIPE MARINHEIRO








Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Portugal Cidade de Aveiro. Poeta.

Chegou em Dezembro de 2013 às livrarias o novo livro de Filipe Marinheiro intitulado “Silêncios” pela Chiado Editora. A obra reúne cerca de 270 poemas inéditos em 378 páginas.

Em desdobramentos melancólicos entre poesia em prosa e verso, a realidade poética é uma densa complexificação que devora o universo e é, ao mesmo tempo, devorada por ele.

A escrita desta segunda obra do jovem poeta é pautada pela construção e desconstrução da linguagem, resultando numa poesia de transfiguração e transmutação, caracterizando o sujeito poético como plural, obscuro e enigmático. Léxicos múltiplos, caminhos diversos para dar a conhecer os diferentes acontecimentos da sensibilização, a fim de exprimir o que mais puro existe na existência. Em “Silêncios”, a rebeldia e fragmentação da linguagem quase que hipnotiza a atmosfera envolvente, desenvolvendo uma sobre-realidade alquímica e mística, purificando a própria palavra e o vazio absoluto.

A força motriz da sua obra concentra-se nesse excesso do sensível, duplamente graça e maldição. Se por um lado, confere acesso a mundos mágicos e ao encanto dos sentidos pela sensibilidade e imaginação, por outro lado, exponencia o sofrimento, a angústia, a dor, a revolta causada pela violência da opacidade e agressividade do mundo, realidade insuportável que estremece o seu universo poético. Poesia de deambulação, vigília inquieta, procura ofegante de espaço vital, grito infinito da fragilidade extrema do ser humano nesta subtil inércia das forças.

O leitor é arrastado por um turbilhão de sentidos, em desvios múltiplos, num excesso imagético — despido e desamparado encontrará a verdade do ser. Apesar de uma poesia marcadamente desassossegada e melancólica, a tónica da mensagem de Filipe Marinheiro é esperança de resolução do mundo pela suavidade, beleza e pelo amor.

Para que se possa melhor conhecer este autor, o único caminho é lê-lo, atravessar a obra para encontrar os seus próprios “Silêncios”.

É possível encontrar uma forte influência dos poetas: Al Berto, Herberto Helder, Artur Rimbaud, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, Lautréamont, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Paul Bowles, Antonio Gamoneda, entre outros...

 


 

Chiado Editora:




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Myriam FEUILLOLEY; Oil, Painting "REFLEXION"



Um texto de Isabel Pinho


O teclado já não é Hcesar e o corretor automático assegura uma escrita imaculada, em folha limpa, com margens e tabulações escrupulosamente cumpridas. Às vezes faltam acentos mas sobram predicados...

Como seria se as palavras, essas amantes caprichosas, se antecipassem à noite fria?








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"Lunch at The Bell Tower" by Jonathan Ahn
oil panel, 11"x14", 2013

O amigo

Um texto de Nuno Pires


- Boa tarde!
- Boa tarde! Diga faz favor.
- Olhe eu queria comprar um amigo.
- Sim Sr. que tipo de amigo?
- Eu queria um amigo de verdade.
- Isso é caro, mas arranja-se.
- O preço não importa!
- Mas diga-me, para que quer um amigo de verdade?
- Olhe, não sei… nunca tive nenhum…



Sobre o autor:

Veio do campo para a cidade quando já tinha largado fraldas e agarrado a vontade de fazer novas amizades. Do vilarejo transmontano onde fora baptizado e criado deixou as recordações da infância e ainda em pequeno veio conquistar novos laços para a capital. A periferia suburbana pejada de retornados e crescimento urbano desenfreado abria novos horizontes e palcos culturais. Ainda menino e moço escapara à recruta obrigatória e envergara pelos caminhos da História numa universidade pública, almejando descobrir qualquer coisa de importante para o país, mas essa é outra história...


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Graça Peralta nasceu a 28 de Janeiro de 1963 e é natural do Porto. Foi docente, durante 10 anos, no Método DeROSE do Porto, ocupando cargos de fundadora, gestora de equipas, directora comercial e relações públicas de três destas escolas. Dirigiu e foi relações públicas do Sintonias – Espaço Multicultural, em Leça da Palmeira. Trabalhou na Associação ABRAÇO, como responsável na zona Norte pelo Marketing Social/Produção, angariação de fundos e produção de eventos. Neste percurso, o seu foco sempre consistiu em proporcionar à vida das pessoas qualidade, saúde e prazer, sendo que a cozinha e a arte de bem receber cedo se transformaram em duas das suas ferramentas. Dirigiu um projecto de turismo rural na Quinta do Amador, em

Castelo Branco, no ano de 2012. Actualmente, desenvolve o espaço Allegro Gourmet, na Escola do Campo Alegre.







«Bétulas & Brócolos – Um livro feito de afectos» é um invulgar livro de culinária, se assim se pode chamá-lo. Apresenta doze poemas para doze menus, cada um deles primorosamente ilustrado. Um para cada mês do ano. Todos, menus sem carne. Inclui ainda um CD, com duas composições musicais. A encadernação assume uma forma especial, que permite um manuseio extremamente agradável. Um livro para acompanhar os leitores na vontade de viver bem e em plenitude, fazendo da refeição um encontro consigo mesmo e os outros e da alimentação o supremo cuidado de si.

Com CD de Peter Lopes



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Eme Viegas


A SECO

Um conto de Miguel Barreto

O Gajo está preso frente ao ecrã. Imóvel. Nada. Um espaço branco. Está há mais de uma hora assim. Não é falta de histórias. Nem a inércia. É apenas a indecisão sobre o que vai escrever. Fruto dos esquinas ouve “Wolf like me” dos TV on Radio. Que histórias de Natal? Todas elas encaixam-se no Natal. É apenas mudar o referencial temporal, pensa. Mas esta não.
Conheci-o quando um dia vendeu-me o jornal no pequeno quiosque em frente da esplanada onde diariamente bebia o meu café matinal. O único sítio capaz naquela zona perdida nos limites da capital, apesar das cadeiras mancas. De segunda a sexta vendia-me o jornal. De sorriso largo decorado com um orgulhoso e viçoso bigode lusitano, brindava com “Bom Dia Senhor Engenheiro! É o costume!”. Sorria. Pagava e sentava-me a tomar café. Um dia tive a coragem de dizer-lhe. “Senhor António. Eu não sou engenheiro”. Olhou para mim muito sério. Cerrou as pálpebras e disse entre dentes “Mas também não tem ar de doutor”. No dia seguinte, o mesmo sorriso e disparou “Bom dia Senhor Arquitecto! É o costume!”. Aceitei de bom grado a nova função. Sorrimos. Cúmplices da mentira inocente dita dia após dia.
Explicou-me mais tarde, a meio de uma manhã fria e solarenga de Inverno, sentado na minha mesa, o porque do título: “O Arquitecto dá estilo e é raro. Tenho uma freguesia muito fina. Doutores, Juízes, Engenheiros, Majores…” – Como está Dr. Miranda? A sua filha está melhor? – cumprimentou um dos passantes – “.., Presidente da Junta, Deputados. Só não tinha um Arquitecto. Ficou o Doutor”. Rimos. A filha adolescente e obesa, nas férias escolares, ajudava-o no quiosque. Olhava para ela desvanecido:
“A melhor coisa que fiz na vida. Miúda e pêras. Nunca chumbou. E digo-lhe mais… se não fosse ela não estava aqui hoje. O que ela aturou, coitadinha, o que ela sofreu”, enquanto olhava para o céu azul e benzia-se – Como está Dona Maria!.. não se esqueça das filhoses. Eu passo lá amanhã – “.. O que ela aturou”. Fez-se silêncio. Cruzou os dedos e pouso-os em cima da sua gigantesca barriga. Olhou para o quiosque à sua frente continuou: “… Sabe… isto que está aqui”, apontou e apalpou a sua descomunal barriga, “foi o resultado daquele estupor. Do álcool. Coitadinha dela. O que ela sofreu. Chegava a casa e era discussão todos os dias. Ela pequenina. A ouvir. Todos dos dias. Chegava. Berrava com a minha Senhora. Outra Santa. Gritava. Batia com a porta e ia para os copos. Muitos dias iam-me buscar ao hospital. Envergonhadas passavam pela vizinhança de cabeça baixa. Sempre a meu lado. Só agora percebi isso. Isto é levado da breca…” – Ó Santos… e o nosso Benfica. Ganda resultado. E no próximo domingo o Sporting que se cuide – ria e voltava “… esta barriga. Fui ao médico. Disse-me que tinha barriga de água. Da cirrose. O Doutor Américo olhou para mim e disse-me se continuasse a beber tinha seis meses de vida. O Arquitecto quer saber o que fiz quando sai da Caixa? … Embuchei 3 penáltis. Dizia eu que eram as três chagas de Cristo. Mais nada. Quis lá saber dos 6 meses de vida. Olhe, cheguei a casa e a minha filha em vez de fugir para o quarto como fazia, olhou para mim de frente e nos seus sete anitos perguntou porque é que ela gostava do pai que era mau. Foi essa frase. Caí em mim. Aqueles olhos abertos a fitarem. Sai mas não bati com a porta. Deambulei por aí. Meti-me no carro e fui ver o mar. Chorei que nem uma madalena. Homem como eu. Feito. A chorar. Voltei. Nem queira saber…” – Ó Silva não te esqueças que vou aí amanhã cortar o cabelo – “.. foi uma luta. Oito anos sem beber. Sem tocar numa única gota. Por causa dela. A seco. Os médicos até se passaram. Sim a seco. Desde esse dia nunca mais toquei numa gota. Nos primeiros dias até via aranhas do meu tamanho a subirem pelas paredes. Transpirava. Tinha suores frios. Uma merda. A seco. A minha filha limpava-me a testa. Eu recusava ir ao médico. A minha Maria da Glória levou-me aos Alcoólicos Anónimos. Foi remédio santo. Mas ainda andei uns meses a bater mal. Quando apareci ao Doutor Américo, ele pensou que eu era um fantasma.

Tinha passado dois anos. Ficou passado por ter feito o desmame a seco, mas feliz por ter deixado de beber. A seco. A minha vida estava num caco. Não tinha emprego. Cheio de dívidas da empresa de segurança a espectáculos que tinha. Tive sucesso. Dava emprego a mais de 30 homens. Fazíamos segurança aos concertos rock naquela altura. Dinheiro ganho. Dinheiro gasto no álcool. Sabia lá que ia dar para o torto. Todas as noites era jantaradas e putedo. Graças a Deus que não peguei nada à minha Senora. Fiquei sem nada a não ser com água na barriga, dívidas, a minha rica Senhora e a pequenita. Mais nada. Até a casa o tribunal me levou. Fiquei a viver, onde vivo agora, nas casas da Câmara. Mas com muita dignidade. Foi tudo a seco. Mas não troco aquilo que tenho hoje. Nem por nada. Ainda estou a pagar dívidas. Oiça… fecho o quiosque às duas da tarde que depois já não se faz nada. Durmo aí umas três horas e depois vou para a Escola ali em baixo. Sou vigilante nocturno. Entro às seis e saio à meia-noite. Sozinho. Eu e os meus botões. Chego a casa e durmo umas quatro horas que às cinco tenho de estar a apanhar os jornais na distribuidora senão os gajos ainda me levam mais dinheiro. Sabe.. o meu sonho é arranjar uma furgoneta e fazer a distribuição do pão. Trabalhar das quatro às dez da manhã e depois ficar com os meus Anjos. Sim os meus Anjos.. “ – olha para a filha e grita – Ó Cátia… põe a merda do peso em cima das Marias senão ainda voam! – “… a minha pequenita a olhar para mim com aqueles olhos. Ainda hoje todos os dias quando acordo vejo a imagem dela. Foi por ela. A seco. Bem tenho de ir senão ela revira-me aquilo tudo. Coitadinha. O que sofreu. Tudo a seco. Obrigado por me ter ouvido. Raras vezes falo disto. E obrigadinho pela bica. Até amanhã!” Levantou-se a custo sem antes gritar: - Olha a merda das TV Guias… Cátia… estão soltas – acenou uma vez mais para mim.


Nos dias depois do Natal não o vi mais. Perguntei por ele. O dono do café disse-me que o tinham encontrado morto no dia 25 de Dezembro de manhã, em frente à TV.









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O CRIME NA ESTRADA NACIONAL 103





Foi numa noite de céu estrelado e lua cheia, generosa, a iluminar o sentido do pavimento tosco e esburacado diante do tremeluzir fosco dos mínimos. Seguíamos por estrada nacional numa 4L de cavalagem estafada por duas décadas de uso intensivo e já me ia a chatear o remoque e os gestos da gaja com que cheguei a dormir mais do que uma noite na altura. Os remoques e os resmungos e o  nha, nha, nha, nha, nha, nha. Ela não entendia porque não remendara uma desculpa, por mais esfarrapada que fosse, na enorme manta de retalhos em que se tornara a sua vida amarfanhada de dívidas e preocupações nos exíguos metros quadradados hipotecados ao banco, numa obscura praceta  atafulhada de carros num quarteirão de má morte na Rinchoa.  Quem quer que fosse que chamasse os bombeiros ou gritasse “Ó da guarda” que a ela  nem a santa da ladeira derramava sangue, lágrima ou piscadela de olho para ajudar. Eu, apesar do  adiantado da hora, cismara também na urgência do telefonema lá da terra e, só o facto de conhecer os velhotes que me trataram bem na infância me levou a aceitar dar boleia à gaja que andava a comer. Lá nos aventurámos numa carcaça velha com fortes indícios de  fadiga dos metais, pela estrada nacional. Não fosse a viagem dura e sinuosa a desoras e o encanto ímpar do percurso faria par com o estampado de estrelas só retratado com mestria igual em postais e guias turísticos, mas já não a podia ouvir falar. Vais depressa demais, matamo-nos antes de lá chegar. Matar-me era coisa que não me passava pela cabeça, nem antes nem depois daquela prova de resistência à paciência de santo de que me munira à custa de dois brandys na estação de serviço. Sem dúvida que nem os santinhos de altar alinhadinhos em disposição milimétrica, ficariam quietos pelo constante matraquear de avisos, ais, uis, sustos e resmungadelas ao longo da jornada. Olhava-a de soslaio e dava-me na veneta de pegar no calibre 9 mm entalado entre o tapete e as molas partidas do assento do condutor e  desferir-lhe à má fila, a canhonaça bem no meio da testa. Não fosse a imagem da massa encefálica a escorrer pelos vidros e salpicar  os estofos lavados e aspirados na oficina do Carriço e não teria pejo dos patacos gastos na mordomia higiénica. Só a tinha trazido para não me deixar adormecer ao volante, na frugalidade de conforto da máquina carregada com uma vintena de anos, esquecida de  aquecimento e leitor de CD’s. Aquele  constante matraquear, contudo, era garantia suficiente de visita  inadiável ao centro de saúde para medir a tensão.
No meio da serpentina de asfalto divisava, a custo,  as sombras de pinheiros e carvalhos plantados em curvas sibilinas. Já faltava pouco, o único receio era que aparecesse a brigada de trânsito. O médio traseiro fundido  e o atraso na inspecção eram motivos de receio mais que fundados para coima da grossa. Que quereria a velha àquela hora? Uma chamada a meio da noite… Teria algum dos primos acordado nas partilhas do pedaço de terra junto ao Rabaçal? Mas àquela hora? Sentira-se mal? Teria o velho morrido? A vozinha dela estava estranha… A lua preenchia o asfalto na palidez, quase fundida, dos mínimos alimentados a bateria a dar toque a finados. Dos cento e quarenta kilómetros percorridos na companhia de caracóis vermes e outras lesmas, faltava-nos palmilhar a derradeira légua… Era questão de aguentar com estocismo a ligeira subida ladeada pelo barranco e na ponta iniciar-se-ia  a descida até à  casa rural que ainda não tinha ido a sortes pelos irmãos.
Olhei então para a rampa de estevas e arbustos que se apresentava do meu lado direito. Alguns torrões e pedregulhos rebolavam em direcção à estrada. Um gande volume de forma rectangular rebolava com maior velocidade desamparadamente estacando no meio da via. Travei bruscamente. A chiadeira dos pneus recauchutados  desde a última folha perdida no calendário  em que tinha recebido o décimo terceiro mês silenciara  grilos, espantara  morcegos e tornara ainda mais lúgubre o silêncio que invadira a zona. Só a tosse rouca dos cilindros se fazia ouvir naquele cenário fantasmagórico. A gaja começou então aos guinchos com avisos e alertas. Mandei que se calasse. Era estranha a forma daquele volume.
- Dir-se-ia… hum…nah… - Peguei na pistola entalada entre o tapete e as molas partidas debaixo do meu assento e abri a porta.
- O que vais fazer homem? Contorna isso… o que quer que seja…
- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo  e chegava-te o lume para alumiar a estrada…
De pistola em punho saí  do carro e avancei  um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tabelier com a fronha colada no vidro ela só guinchava:  - Que é homem? Diz lá! O que é?
- É um corpo!... É um homem…  E parece morto! -  Disse enquanto espreitava para o barranco. De repente…  arregalei o olhar… Ao fundo, a alta velocidade…


Só me faltava mais esta, disse para com os meus botões, quando vi o carro da brigada de trânsito da GNR de cujo interior acabavam de sair dois agentes.
Os homens vinham para me autuar pela falta da luz de presença traseira, mas ao sair do carro, deram-me logo voz de prisão. No meio da confusão esqueci-me que tinha a pistola na mão. Coincidência dum raio… Que caraças! O certo é que não me aceitaram desculpas ou justificações. Dentro do carro, a tipa não resistiu a tanta emoção mais forte que a novela das oito e desmaiou. De repente, quando os guardas se preparavam para me algemar, vindo dos arbustos junto à valeta, do lado esquerdo da estrada, surgiu um tipo exausto cheio de sede, arranhado e ensanguentado das silvas, a dizer que se entregava...

O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:

- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui? E o maltrapilho voluntariara-se para explicar...

Sabe, lá na terra o tempo é uma  marcha lenta para lugar nenhum,  na pacatez da aldeia onde os velhotes levam uma vida de privações e fintas ao estômago, na frugalidade diária de um cardápio constante de pão com azeitonas , sopa e carne assada em domingo de festa, mais por vício do que necessidade. Saúde de ferro sem indícios de ferrugem e uma casa a gritar por  electrodomésticos  e outros “luxos”, ajudam, normalmente,  a amealhar  um bom pecúlio ao longo do  rotineiro quotidiano  de sol a sol. Eles não confiam em bancos. O dinheiro é enroladinho em sacos de plástico do Pingo Doce e guardado no fundo da arca das cebolas, batatas e marmelos. O velho conhecido da minha amásia, e meu conhecido também, dera à língua na taberna do Aires. Uns marmanjos perseguiram-no, bateram-lhe à porta. Ele pensava que era o filho mais velho que tinha ido à caça com o amigo e nem tivera tempo para uma Avé-Maria... Uma mão grossa a fincar-se-lhe nos gorgomilos, um soco potente na cara do velho que  caiu  inanimado no chão. Indiferentes à gritaria e frouxa resistência da mulher sairam a correr rés-vés com o regresso dos homens da caça que, de imediato, se tinham lançado no seu encalço. A mulher pressentindo desgraça no horizonte apressou-se a ligar para a minha amásia. Os caçadores com a ajuda dos cães pisteiros,  em menos de nada, muito menos que um advérbio, alcançaram-nos  no meio do mato junto ao declive sobranceiro à estrada. O maltrapilho ia descrevendo a cena… Só a respiração pesada e ofegante dos dois homens em corrida desenfreada cortava o silêncio de morte naquela mata densa e traiçoeira. Experimentavam o terror puro e absoluto lapidado no pânico de que a sua corrida vertiginosa não lhes evitasse a morte. Perto, cada vez mais perto, sentiam os latidos dos cães e dos outros dois homens que os perseguiam, longe, cada vez mais longe, esfumava-se o declive junto à estrada nacional, sua única hipótese de escapar com vida naquela terra ensopada e cheia de ratoeiras.
Do bafo gélido e esparso do homem que seguia na frente sairam-lhe as últimas frases que conseguira articular:

- Só mais um esforço…arf, arf… Acolá, onde estão aqueles dois carvalhos, há um declive e depois a estrada nacional… arf, arf… Se chegarmos à estrada estamos safos… a seguir é uma ribanceira lisa, lisinha é so escorregar até ao rio… Corre… se nos apanham matam-nos… Corre caraças!


O outro ainda balbuciara qualquer coisa entaramelada no meio da espuminha a escorrer pelo canto da boca e deixara-se cair exausto. Preparava-se para voltar à corrida, mas num ápice foram alcançados pelos dois perseguidores de camuflado, caçadeira em punho e muita raiva nas palavras, acompanhados dos cães.
Um indivíduo alto e entroncado estacou e, apontando-lhe a caçadeira, perguntou-lhe de chofre:
- O dinheiro? Onde está o dinheiro? Dá-mo já!


O homem só pensava na ribanceira lisa, lisinha que os levaria até ao rio, mas estendendo a mão direita atirou-lhe aos pés um volumoso saco de plástico cheio de notas. É então que o atirador repara no outro caído no chão. Reconhecera-lhe as feições, o seu amigo Armindo duma infancia feliz e longínqua e do dia em que, sem saber nadar, caíra no poço e quase morrera afogado não fosse a pronta intervenção do amigo estendendo-lhe um pequeno tronco para o ajudar a sair.
- Eu não tenho nada a ver com isto, não fiz nada! Juro! Foi ele – Apontando o companheiro com a mão a tremer.
- Raspa-ta! Ordenou-lhe o atirador – Raspa-te! E Oxalá eu não me arrependa…
O indivíduo levantara-se a custo, embora receoso de ser abatido pelas costas não se fizera rogado e ante tal benesse nem olhou para trás… Já mais recomposto, estugou o passo e embrenhou-se no emaranhado de arbustos e ramos rasteiros.
O atirador virou-se então para o indivíduo que levava o dinheiro:
- Quanto a ti… Vais arrepender-te aqui e explicar-te lá em cima - Disse apontando com o queixo para o céu.
Aterrorizado, o homem começou a cambalear às arrecuas implorando que o deixasse ir também… Que nunca mais o veria… A chumbada fora certeiramente fatal no peito. Com o embate, o homem rodopiou e, estando já à beira do declive, rebolou pela encosta abaixo só estacando no meio da estrada.


- Merda! - Pragejou o companheiro - Isto vai dar raia!
- Agora já está… - Ripostou o atirador - avistando lá do alto a 4L que se aproximava…
- Vamos, vem lá um carro…
- E se o outro dá com a língua nos dentes?
- Agora já não há nada a fazer… Vá, vamos…
- Deixaste-o ir embora pá!
- Pois… Logo quem havia de dizer… Coicidências dum raio, o gajo salvou-me
a vida em miúdo…
- Tá bem, tá bem… Só espero que ele desapareça e não dê com a língua nos
dentes… Tens o dinheiro?
- Sim… - Disse-lhe exibindo o saco na sua mão - De caçadeira ao ombro e afastaram-se dali.


O maltrapilho desbobinara a cassette sobre a conversa na tasca do Aires e o ataque à casa dos velhos garantindo que não lhes tocara tendo aquele, provavelmente, quinado com o susto. Susto apanhara ele com a perseguição dos caçadores valendo-lhe contas antigas ajustadas por via da misericórdia divina.  O resto  da história era por demais conhecida. Os guardas limitaram-se a ouvi-lo,  preencher os autos e mandar aguardar em liberdade. Quanto ao atirador  o mais provável, se se entregasse, ficaria obrigado apenas  a apresentações periódicas no posto, dado  não ter antecedentes criminais e por não se encontrar na “posse momentânea das suas faculdades”.  Quanto a mim, dado que tinha licença de porte de arma em dia, um excelente trabalho tipográfico que encomendara em tempos, deram-me uma admoestação e mandaram-nos em paz gozar a paisagem, sem percalços,   até à malfadada praceta na Rinchoa, mas com a multazita da falta de inspecção. E lá voltámos  com o carro, tossindo por todos os lados, a cada curva a simular   último estertor de um moribundo. Mais do que uma suite de luxo num clínica privada necessitava de uma campa condigna num cemitério automóvel. Na sinuosidade esburacada do alcatrão e gravilha, a ronceirisse da velocidade máxima do chaço potenciava o constante matraquear da tipa.  
Agora com o dinheiro da divisão materna, era hora de trocar o frigorífico, o microondas, a televisão e demais quinquilharia electrodoméstica. Renovar o guarda roupa, arranjar os dentes e inscrever-se num ginásio. Cabeleireiro, massagens, unhas de gel, patati patatá... Não aguentei mais... Encostei à berma, dei mais uma olhadela  ao monte de notas, trinta mil euros bem redondinhos , maços ainda cintados e carimbados  pelo banco. Ela continuava a pregar em causa própria.  Aquele jarrão muito bonito do tempo dos chineses na loja do Victor e um telemóvel novo daqueles que faz tudo…

Olhei para ela, mas já não a ouvia. Divisava-lhe apenas a forma turva,  o maquinal  abrir e fechar da boca. Sem pensar muito levei a mão direita, sorrateiramente,  para debaixo do banco entre o tapete puído e as molas partidas saquei, com uma calma de morte,  da nove milímetros e inspirei fundo…
- Então paraste porquê? Que é que estás à espera?

- Não chegaria a conhecer a resposta, a  canhonaça bem no meio da testa abriu-lhe, com estrondo, uma brecha enorme.  Massa  encefálica e restos a escorrer pelo vidro, manchas de sangue a cobrir os estofos... E mais uns trocos que teria que ir gastar na oficina do Carriço para limpar aquela merda toda...

Incursão policial By Luís Bento








ERA UM DELES


Partira ainda pequeno, pouco mais de dez réis de gente, de mão dada com o pai, com o infortúnio por traz e a fome pela frente.Para trás das costas deixara os xistos, as couves e o abecedário soletrado pela metade. França, pródiga em liberdades e oportunidade, cravada numa Europa distante o suficiente e esquecida deste rectângulo quedo e amordaçado, trouxera-lhe a paz e o desafogo financeiro.  Uma vintena de anos depois, seduzido pela saudade servida em doses duplas  de nostalgia regressara ao cheiro, ao húmus e ao caldo de infância. Regressara pois,  e conhecera mulher e fora pai e trocara a enxada e a talocha pelo fato/gravata da política. Mais por justiça e sede de construir do que por ambição, farto das quezílias em torno de marcos, fontes e estradas para nenhures, desenvolvera um trabalho de esmero e dedicação à causa pública que ofuscava pelo brilho e irritava pela inveja. Sempre se orgulhara de ser diferente “deles”, dos outros, daqueles que floresciam à sombra da causa pública alicerçando a ostentação parola na ignomínia e no desvario. Sempre se furtara aos favores, às fugas e às pressões presidindo aos destinos da Câmara Municipal com denodo e honradez. Até que um dia, ao filho, único rebento do casal, fora-lhe diagnosticada enfermidade rara para a qual tinham canalizado e esgotado todas as economias. Cego de amor, não resistira e organizara, metodicamente,  contabilidade paralela e desviara a quantia suficiente para a operação urgente em Londres. Descoberta a tramóia, tornara-se presa fácil dos abutres que há muito pressionavam e exigiam a construção do aterro sanitário a troco de múltiplas e obscuras vantagens para causa própria. Cedera, mais uma vez…  A exposição púlica de mácula no cadastro moral seriam dor maior maior que a perda do mandato eleitoral. Perto das oito, minutos antes do anúncio dos resultados, em plena praça pública, os magotes de gente aproximavam-se regozijando e antecipando a vitória.
De fatiota cara e vistosa, dois dos investidores aproximaram-se com sonoros cumprimentos:
- Dê cá um abraço homem,  que você é cá dos nossos!!
Não contendo um nó seco na garganta , de olhar preso no horizonte marejado de lágrimas enquanto os militantes esfuziavam de alegria com os resultados pela retumbante vitória, não conseguia deixar de pensar:
- Sim, agora era um deles…

Um texto dos primórdios do blog By L.Bento

É A VIDA



Desenho da Margarida Ginguerra retirado daqui e da forma como vê o mundo



Às dez da manhã a agência bancária já se encontrava cheia. Nervosa por ir "pedir batatinhas", ainda mais ficou ao ver tanta gente. A seu lado, a filha, com pouco mais de sete anos, insistia que lhe doía a barriga e queria comer bolachas. A mulher, visivelmente nervosa, revirou pela centésima vez a sua carteira em busca de moedas perdidas. Nada. Nada de nada. Niente. Zero! Nem umas moedas para o raio das bolachas nem para o que quer que fosse. Chegada a sua vez, expôs o seu caso, em surdina envergonhada, a um dos caixas. Sabia que tinha esgotado e ultrapassado o plafond da conta ordenado e que tinha ficado com o cartão de crédito retido e o empréstimo da casa em atraso... "sim! SIM! eu sei disso tudo.... as prestações o cheque do pediatra devolvido etc.etc. etc. muitos etecéteras na minha vida!" A mulher, típico recorte de classe média, à beira da bancarrota, com um divórcio de permeio, tentava levantar cinquenta euros que, garantia, viria depositar na manhã seguinte, acrescida das prestações em atraso, logo que o patrão lhe adiantasse o vale. Recostando-se na cadeira, o caixa, com ar triunfalmente idiota, levantou a voz para mostrar a toda a gente ser detentor da razão. " Não podia... não podia, estava a cumprir ordens... a senhora já esgotou todos os limites e, para além disso, encontra-se inibida do uso de cheques!" - Olhando ainda em redor para aferir do impacto das suas palavras.

A filha insistia de modo irritante que tinha fome e queria comer uma bolacha. A chapada, seca de raiva, se a calara com a história das bolachas fizera-lhe soltar os soluços e as lágrimas numa torrente de choro convulsivo. À minha frente, a fila, impaciente pela demora no atendimento, insistia no fim da conversa e apelava à mulher para que se desviasse. Indiferente ao drama, enquanto o outro caixa convidava o colega para o pequeneo almoço logo que se despachasse, o sujeito que me antecedia virou-se para trás e encolhendo os ombros, abriu a boca com um sorriso matreiro e despejou: É a vida!...
Com Ilustração da Margarida Ginguerra