Imagem de Nick Vesey

Imagem de Nick Vesey

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O MEU CONTO DE NATAL



A imagem é de Jean Paul Bourdier






Quando deu por si era o último vestígio de uma noite longa…

Não sabia o que seria o seu futuro, talvez cicatrizes do acidente de ontem, resto zero de uma equação indefinida, ele que nunca tinha tido jeito para as matemáticas. Não sabia como curar a ausência agora que o endereço da voz dela mudara de corpo. Desde aí adormecera por fora, o calendário passara a ter só noites e o seu espírito fechara-se, permanecendo incógnito, impermeável, livre de devassas. Só o amor podia subverter o desequilíbrio do seu quotidiano quando todos se tinham esquecido de resistir. Ele tinha muitos sonhos, estudou para engenheiro, ela para enfermeira e eles acabaram o namoro, ele detestava o cheiro a éter. Perdeu-a quando foi comprar umas asas.

Só não tinha medo do precipício quem tinha aprendido a voar.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

NOVOS LIVROS





http://www.novoslivros.online.pt/


Grato ao Dr. José Nunes Carneiro pela entrevista ao Novos livros a revista de leitores para leitores.

1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Avessos”?
R-Avessos é, sem dúvida, um marco importante na minha escrita. Mais que o tijolo de uma obra é a trave mestra que, espero, venha a suportar um edifício de maior envergadura, o incentivo que me faltava para não parar e continuar a evoluir na escrita. Avessos, para além de ter sido o mais importante prémio literário que tive o privilégio de receber, representa a vontade de uma comunidade em trazer coisas novas ao panorama cultural, dar liberdade às palavras, aos autores e com isso, dar a conhecer a própria comunidade. Essa é, em ultima análise, a grande mais-valia de ser parte integrante deste projecto de escrita.

2-Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R-Como tive oportunidade de comentar noutro espaço estava demasiado parado em termos de produção literária. Publicava pequenos textos e crónicas no blog e faltava-me o combustível para seguir viagem. Concorrer ao Prémio literário da União de Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova foi a ideia base deste livro. Reuni alguns textos que reconstruí, construí outros de raiz e reuni-os com uma ideia comum: tirar a trela às palavras e ver que caminho seguiam, que rumo tomavam e se, porventura, nos levavam a descobrir o avesso da vida, que esta, vista pelo lado de fora, tem andado muito confusa…
3-Pensando no futuro, o que está a escrever neste momento?
R-Neste momento estou a escrever ainda que às prestações, um romance. Uma viagem pela memória, um passado que aparece sorrateiramente para nos desarrumar a ordem natural das coisas. Uma história que se desenrola em forma de roteiro, uma espécie de guião onde cada um, munido da razão e do conhecimento procura descobrir um caminho que, embora idêntico para todos, corre a diferentes velocidades. Uma mulher morre num campo de centeio, um homem aparece enterrado na praia apenas com a cabeça e o pescoço de fora à mercê da maré, outro homem acorda em sobressalto, de madrugada, quando um homem de negro lhe bate à porta, com um jogo de xadrez debaixo do braço para disputar uma partida. Traz consigo a oportunidade de lhe limpar a memória e oferecer-lhe uma nova vida, mas sem termo de comparação com a anterior. A história é o pano de fundo para se comentar a revolução, a oportunidade e o desejo, a fragilidade das relações, a vontade e a inércia face à necessidade de se sobreviver à insignificância e a força necessária para se aceitar uma liberdade que nunca vem de borla. Enfim, um projecto ambicioso que pretendo terminar o quanto antes.
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Luís Bento
Avessos
Lugar da Palavra
(Prémio de Poesia da União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova/2015)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

PREGUIÇA MAGAZINE






Ilustração de João Pedro Coutinho


Este texto já por aqui passou, mas vê-lo na Preguiça Magazine tem outro encanto. Muito grato ao Paulo Kellerman pelo apoio e divulgação e ao excelente trabalho de ilustração do João Pedro Coutinho que apanhou, na íntegra, a essência das palavras, dos pássaros e de tudo...


Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.


RAME-RAME


LUÍS BENTO


“Espero uma espécie de alma gémea do outro lado do texto”
Mário de Carvalho

Olho para trás com vontade de corrigir o passado e percebo que nos habituamos a não ter sido. Se fechar os olhos, por instantes, fico a uma distância segura da memória e do medo num universo que achava infinito e renovável, espécie de física quântica ou de tijolos sobrepostos a emparedar a nossa ingenuidade e pergunto-me se alguma vez estivemos completos ou se passámos a vida a apanhar cacos desde a infância.
Pego no papel e lápis e procuro, nas palavras, encurtar o abismo que nos separa, nesse cansaço de fim de tarde, sem conseguir explicar porque ficou o coração apertado assim tão de repente e tão difícil de decifrar. Sonho somar rugas, cicatrizes, marcas, lastro que o tempo larga em dias mansos, perder os meus limites à espera do milagre, do fim da novela, ou da Ressurreição no teu corpo. Estou sempre de partida e sem destino, homem brando a levar a vida em banho-maria, a sentir o corpo ausente, a desejar que o remorso fosse pedra para poder lançá-la e aliviar a carga. Em sonhos, viajo para muitos lugares, para longe e durante muito tempo e fico o mesmo, sem certezas geográficas, nomes ou aritméticas. Assim eram os pássaros.
Toda a realidade se dissolve numa abstracção de Schiller ou Kant… E depois fico assim, parado a meio do texto, sem ideias ou vontade, à espera que ele se escreva sozinho. Fumo um cigarro e penso que o universo é uma dialéctica entretida a subtrair coisas boas do teu sorriso e a fazer-nos viver com a diferença. O dia não ajuda. Está frio e cinzento, vai chover e não trouxe guarda-chuva. Oiço baixinho uma música do Einaudi. Deixa-me assim no rame-rame de uma melancolia doce, politicamente correcta, aceitável, se assim se poderá dizer. Certo é que continuo sem produzir.
Olho para a frente e vejo que o céu está cheio de pássaros e percebo, então, que ganho asas quando escrevo, que a moral da história está naquele livro que nunca lemos, e que decifrar estas palavras é repeti-las no tempo e no espaço, em que o amor é a nossa única liberdade… E então procuro seguir a vida pelo lado de dentro fazendo as curvas com cuidado. O desejo tem sempre muita pressa e eu gosto de abrandar, de ver pelo avesso, de contar pelos dedos as vezes em que o passado nos marcou a vontade ou a falta dela, a perda, o desleixo. Fui-te remendo, pedaço, cola, nota de rodapé, derivação regressiva do verbo amar… E isso já não me basta. Incomoda-me não ser eterno, não ter certezas, não conhecer Marte, não acabar a nossa história com um substantivo concreto. No movimento entre o barco e o cais, não somos nós que partimos, é o mar que chega. Dispo, então, o meu melhor poema que foste tu a sorrir a meu lado com cheiro de manhã. O silêncio é a nossa deixa para seguir viagem. Do corpo não se guarda nada, apenas a memória que sobra do momento em que o suor foi magia.