Imagem de Nick Vesey

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

NAUFRÁGIO



Sentia o vazio absoluto nas escolhas, no riso e na falência das palavras. O corpo em silêncio guardando apenas a lembrança doce, a repetir-se com inquieta resignação, do tempo em que ela lhe pedira para voar e ele se esquecera onde deixara as asas. Envelhecer era ver as coisas crescer por dentro, metáfora lenta do amor, terrível subordinação à linguagem. Gostar de ti era, então, uma gramática sem excepções a perder-se no olhar, contorno definido, rasgado de azul, a acotovelar-se na existência. Viver era morrer um pouco todos os dias em paz com o mundo e a paisagem. O destino tornou-se, assim, uma espécie de folha rasurada, várias vezes,  onde perdia o teu corpo, fragmentado em memórias, e o achava inteiro,  suspenso na métrica e no perfume das palavras a dar voz à beleza em redondilha maior, cliché mais-que-perfeito estafado de realidade. Sem lirismos para reconhecer os teus sentidos, neles, sou marinheiro decidido no mar, que entre nós, não deixa minguar a vontade de sorrir contigo...