Imagem de Nick Vesey

Imagem de Nick Vesey

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O VIDEO DA FNAC







Faço minhas as palavras da Maria de Fátima: um gosto imenso e um orgulho ouvir as nossas  palavras nas palavras do grande Valter Hugo Mãe....

Obrigado








quarta-feira, 28 de novembro de 2012

CONVERSAS

Elementi pictorici

O mito do eterno retorno ou, simplesmente, um braço de ferro com as palavras. “A história das velhas”, conversas cruzadas num café em final de tarde, arrastava-se penosamente desde o verão passado por circunstâncias várias. Momentos houve em que o autor, proto-assassino confesso, esteve para matar o texto. Afinal, venceram as palavras… et voilá!

- Ela não gosta de peixe espada, nem de cabidela, nem de polvo, nem assim… É esquisita! Tenho que perguntar: O que é que queres? Ela nem olha para mim…

E a conversa a estender-se, mole e azeda, a destilar fel, culpas e barbaridades entre as duas amigas já entradas na idade, fustigando nora, primos, vizinhos, azares da vida, o Papa, o Obama, e o buraco do ozono  numa escala ascendente  e secular enraizada na genealogia  do D. Afonso Henriques. Na montra do café  erguiam-se, alinhados,  quatro melões brancos empinados dentro de taças de mousse de chocolate, garrafas de Porto, latas de Guaraná, uma águia do Benfica em loiça, uma fina camada de pó e duas moscas tombadas junto ao caixilho.   Encostado ao balcão, um brasileiro de sotaque cerrado do sertão descompondo os  moleque do Glorioso, um mecânico a insistir nas qualidades nutritivas das  iscas com batatas, um pequeno rádio de antena espetada a apanhar frequências no Éter, debitando casos de polícia, escândalos e  musiquinha de elevador.

- Quer mais uma torrada? Coma! Se não, dá-lhe a fraqueza! E cházinho? Quer mais chá? Beba para não empanturrar. – E eu é que sei como vou andando. Um mal-estar. Pior do que quando estive doente. Logo vou comer arroz de grelos - mas pouquinho - com bogas fritas. Vou tomar o medicamento. Como um doce e é assim… ver novela, mas pouco que a luz está cara. Nem o molho posso comer. Vou tomar as carteirinhas de sais meia hora antes de deitar, mas não adianta! Fico enfartada na mesma!

E a mulher zunia sem interrupção ou obstáculos atropelando na acidez das palavras, ora o governo, ora os lençóis de quinze euros que a nora  comprara, tão bons que nem engelham, numa  luta desigual entre as mandíbulas e a torrada triturada ruidosamente. A amiga meneava a  cabeça, à sua frente, com interesse distraído de beiços afogados no chá a diluir-se na memória do marido, manobrador de máquinas da construção civil que a convidara numa noite aziaga para uma casa de petiscos,  caracóis, mines e sandes de torresmos. E ela, que não partilhava de particular simpatia pelos  gastrópodes, passara a noite a tricotar uma camisola para o neto, ingrato e mal-educado que nem a quisera provar. O marido a engasgar-se com um osso de cabeça de porco do torresmo mal prensado e ela a tricotar o mundo na tasca, na ambulância, nos corredores do hospital a aguardar o resultado do exame que acabara por metamorfosear-se em  autópsia.

A outra, em velocidade de cruzeiro, invectivava, ainda, a nora. - Sempre toda arranjada, sempre no cabeleireiro, sempre no cabeleireiro. São ricos! Mas eu já vi, uma vez que fomos ao Braz & Braz, que o cartão não deu…. Está avariado! Tenho que falar com o banco para trocá-lo… Avaria… Avaria tem ela na conta arrombada no banco. Tem memória curta que nunca me pagou!.. A cínica! Não têm noção dos dias que aí vêm.

Às vezes balançava na dúvida entre a existência de Deus e o seu grau de miopia, pois que se Ele estava em toda a parte por onde andaria que não o via fazer nada por si, conformando-se envergonhadamente com a desgraça alheia, da vizinha de baixo por exemplo, que se separara do marido, um burgesso relapso que  punha as meias em cima da mesa de cabeceira, não ajudava em casa, não ia às compras e ainda lhe ia ao porta-moedas, descaradamente instalado no acto de se furtar ao   sustento da casa e a viver, airosamente,  à sombra dela. E a prima, a prima que Deus tinha, coitada, que fora operada primeiro a um peito, depois a outro e uns meses mais tarde, quando insistia para tomar o remédio e as carteirinhas de sais para ficar melhor ela lhe murmurara, numas sílabas inaudíveis, qualquer coisa sobre uma náusea e um quisto escondido por trás do cólon, sem indícios de plaquetas baixas nem nada, acabando por finar-se a meio de um serão televisivo.

Ao seu lado, um homem novo, ouvinte acidental da conversa, viu as horas, deixou umas moedas para pagar o café e lançou um olhar lá para fora, através da montra por onde, àquela hora, se divisava ainda, sem favor, uma nesga de céu. Levantou-se com a vontade expressa de conquistar Lisboa aos Mouros, com a certeza  firme de que a vida era algo mais que um lugar comum a esgueirar-se, de fininho, entre um intervalo da novela e um anúncio do Fairy e que a realidade era, “Tão somente”, um olhar sereno a entornar azul sobre as coisas…

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

EDUARDO P. LUNARDELLI - O ÚLTIMO BLOG E OUTRAS BLOGAGENS



O livro " O ÚLTIMO BLOG e outras blogagens"esta disponível


Finalmente depois seis meses de intensa gestação, o livro esta na praça.
No formato de 14 x 21, com 320 páginas, Prefácio de Jorge Pinheiro, texto de orelha de Luis Bento, caricatura da capa de Roque Sponholz,  começa a ser comercializado. Inicialmente os pedidos poderão ser feitos por e-mail (cimitan@terra.com.br ), ou pelo telefone 5511 30794433 ( falar com Cida ). Oportunamente estará em algumas livrarias na Cidade de São Paulo, e talvez algum site de vendas pela Internet. Estamos trabalhando nesse sentido

Eduardo P. Lunardelli.. Foi há cerca de três anos que o conheci, na chamada época áurea dos blogs, que tropecei no Varal de Ideias. Qualidade gráfica e textual,  assertividade, humor, inovação, intenso fervilhar de  temas e conceitos, sem barreiras geográficas , foram motivo suficiente para me deixar prender na sua rede. Dono e senhor de um dinamismo e energia invejáveis, de uma criatividade e generosidade sem limites, conseguiu colocar  dezenas de leitores em permanente contacto e partilha apesar da barreira do imenso oceano que nos separa.  Depois a blogosfera entrou em decadência. Fruto da efemeridade dos tempos modernos e  de uma terrível característica destes nossos novos tempos: A sociedade tornou-se e tornou-nos descartáveis. Daí que tenha recebido com muita alegria a boa nova  de o Eduardo  Penteado Lunardeli  passar os seus blogs a livro e, ainda mais, o enorme prazer de poder  elaborar estas  singelas linhas. O tempo passa a correr, o mundo está em crise, as más notícias sucedem-se a um ritmo avassalador, mas a palavra impressa perdurará para além da “Nuvem” ou das redes sociais…
                                                   
E eu, feliz e honrado por fazer parte do seu círculo, subscrevo inteiramente e permito-me acrescentar uma frase lida nos seus blogs:  A culpa é do Cabral, que os descobriu....

E ainda bem!!




domingo, 11 de novembro de 2012

OLHAR O PASSADO

Desenho de Lou Camille
 Hoje não se trocam cartas, trocam-se mails que é a mesma coisa: Palavras que vão e vêm, mas sem selo. Neste caso, com a Lou Camille do blog Neurologia do Parasita


"E eu  que só hoje li os teus mails, a debitar figuras de estilo e trocadilhos a esmo na escrita. Afinal, basta simplicidade sem acabamentos ou rodapés, assentar as palavras direitinhas como tijolos...
Não te importas se eu publicar o mail pois não? Exemplos de arte escrita não podem ficar escondidos na caixa de correio... "

(Luís Bento)

"Menino, vê lá... eu não quero escrever nem ser escritora. escrevo para mim e para alguns que gostam de me ler através de palavras escritas em português. não faças de mim o que não sou. (eu gosto de bastidores. gosto de maçã reineta e pêra rocha. eu gosto da palavra como gosto de pincéis. gosto da superfície das telas e da trementina. gosto ainda de Beethoven e de Satie mas também de Mozart e de Cosi Fan Tutte. Eu gosto de abrir e ver o que tem dentro e, por vezes, fechar a seguir. Gosto do amargo e do chá sem açúcar. eu gosto do silêncio e não gosto do gosto dos outros.) interessa-me a humanidade e um copo de vinho. porque a humanidade pode estar dentro de um copo de vinho sem ciência nem artifício."


"e eu..........que nem encantadora, que nem menina, falo uma linguagem de lá longe, do outro tempo que não eu a minha avó e o meu pai menino, os tempos da casa na Graça que não eu a minha mãe garota, as hortas de Benfica que não eu o meu avô e a tribo dele…. Histórias que sempre me contaram ao borralho, nos jantares alongados nas mesas fartas do pão de milho e da chouriça…. o cheiro da couve galega na panela de ferro e o crepitar dos sonhos nas brasas de oliveira. Era um tempo diferente mas bom, eternamente bom. A minha irmã menina, o meu irmão não morto, vivo, os três a fazer teatro atrás do reposteiro no vão da porta onde as paredes eram de granito, frias e húmidas. E todos a bater palmas no final!…. serões de província…. serões de conversas, de histórias que eu ouvia….. e ainda hoje se fazem lá por casa, mesmo sem teatro….. e por vezes com gotas de saudade….. ….. é bom saber como isso nos fez o que somos.
Um dos resultados é não ter televisão em casa. "

(Lou Camille)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

FNAC


E pronto! Aconteceu! 
O lançamento dos Novos Talentos FNAC Literatura 2012 foi no Chiado às 17h30. Uma sala concorrida num ambiente muito bom e bonito a escapar demasiado rápido pelo final de tarde. O júri a debruçar-se sobre a obra, a dificuldade da escolha e análise e o escritor Valter Hugo Mãe a tecer considerações e a rematar com a leitura de excertos dos vários contos e a pele arrepiada  a fazer borboletas na barriga... Um prazer enorme conhecer os outros autores e ver, finalmente, as "caras " de quem, connosco, partilha textos e ideias na Net. Revimos amigos e colegas, trocámos mails, contactos, sorrisos, abraços e palavras. Muitas palavras... a elevar o prazer da escrita e a consolidar o valor da amizade.

Um cumprimento muito especial ao José Guerra e Paz e à Mafalda Azevedo  da FNAC pelo excelente trabalho organizativo e promocional do evento.