Imagem de Nick Vesey

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sábado, 15 de setembro de 2012

ENTREVISTA COM CRISTINA CARVALHO




1 – Esta pergunta é incontornável: O seu livro Nocturno, o romance de Chopin foi incluído nas listas do Plano Nacional de Leitura de 2011 como leitura autónoma recomendada para o ensino secundário. Que mudanças se operaram na sua obra com essa inclusão? E que balanço faz das actividades do PNL no incremento e criação de hábtos de leitura em Portugal.

Cristina Carvalho  - É o meu segundo livro no Plano Nacional de Leitura. O ano passado, 2010, entrou "O Gato de Uppsala".  Na minha cabeça, sim, algumas mudanças se verificaram. Com dois livros já no PNL penso que, realmente, posso ter alguma "utilidade" para os jovens leitores. Penso que posso contribuir de alguma forma para o despertar da leitura, penso que pode ser um caminho a seguir, penso que essa aceitação me deu um imenso prazer e uma imensa vontade de continuar nesta linha embora continue também a escrever outro tipo de romance mais para adultos, digamos assim.
O Plano Nacional de Leitura é um programa de extrema e elevadíssima importância ao nível escolar desde as primeiras aprendizagens, de um primeiro contacto com o livro até ao final da escolaridade. Há livros recomendados para todas as idades e para todos os níveis de conhecimento. É um grupo de trabalho conhecedor, moderno e dinâmico, com uma extraordinária responsabilidade e que, a meu ver, tem obtido resultados verdadeiramente excepcionais. Tenho visitado dezenas de escolas com alunos de várias idades e de vários graus de ensino, tenho conversado com eles, respondo às suas questões sobre os meus livros e é sempre um prazer renovado ter esse contacto com pessoas tão novas e algumas tão interessadas. As bibliotecas escolares, regra geral, são espaços muito bons, amplos, confortáveis, bem organizados - o acesso à informação hoje totalmente informatizada - cheios de livros portugueses e estrangeiros.
Não estou a querer dizer que tudo é "um mar de rosas" e que tudo funciona "às mil maravilhas"! Estou a querer dizer que longe vão os tempos mais escurecidos; longe vão os tempos duma remota divisão com um armário e meia dúzia de livros a aguardar que algum "cocabichinhos" os lesse;  longe vão os tempos dum desinteresse continuado e triste quer pela leitura quer pelos espaços de vida que a leitura proporciona.
Para toda esta claridade e eficácia, sem dúvida alguma e para além do esforço dos professores, está o Plano Nacional de Leitura que queremos cada vez mais atual e permanente.

2 – Em ,O Gato de Uppsala,  Um gato sem nome, uma história de amor e o naufrágio de um navio sueco (Vasa) constituem os elementos chave para, segundo palavras suas, construir “um romancezinho a partir do qual se pode explicar o mundo”. É esse o papel da literatura? Explicar o mundo? Deixar pistas para aquilo que não vemos no dia-a-dia?

Cristina Carvalho - Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. A vida pode ser experimentada a cada linha que se lê e sempre diferente, vista por diversos olhares.
"O Gato de Uppsala", quem o leu, sabe que reuniu metaforicamente, as três principais fases da vida, quer humana, quer animal: o nascimento, simbolizado pela caminhada de Kiruna até Uppsala; a juventude e o encontro com a morte; a idade adulta depois de várias e inesquecíveis experiências pelas quais toda a gente devia passar antes de se aventurar em águas mais profundas. O navio Vasa simboliza, na minha história, a idade adulta, a conquista, o ganho e a perda, a alegria e o desgoverno, a paz e a guerra. 
Se o escritor consegue deixar pistas para o que não se vê dia a dia, isso depende. Claramente que o "dia a dia" é subjetivo. O que eu vejo, "tu" não vês! O que eu quero ver, não quero que "tu" vejas, senão como vou conseguir explicar-te?
Conheço e toda a gente conhece, literatura cheia de preconceitos, clichés e lugares comuns. Conheço também literatura absolutamente impenetrável para o leitor comum, quase impossível de descodificar. Nada deste tipo de livros me interessa. Uns porque são "eu e tu e tu e eu" e não passam daí e outros porque não se consegue chegar "lá!"
Para chegarmos a conceitos complexos como todos os que a vida oferece, temos sempre de partir da aparente simplicidade. 

3 – No seu último livro Lusco-fusco  brinda-nos com uma bela história, com Gnomos, fadas, sereias e uma extraordinária capacidade de efabulação. À luz dos acontecimetos actuais considera que o ser humano perdeu essa capacidade de efabulação e de acreditar, principalmente, naquilo que não vemos?

Cristina Carvalho -  Não pretendo retrocessos, regressos ao passado, às histórias de fadas, aos anõezinhos da floresta, às bruxas e temas deste género, embora estas histórias sejam interessantíssimas e, se quisermos, sempre atuais. Há uma idade nova, uma época nova, conceitos totalmente diferentes. Por exemplo, aqui há uns anos, surgiram no mercado uns bonecos horrendos e temíveis Os Master do Universo. Eram rijos, de cores atrativas e com eles arquitetava-se as mais inconcebíveis aventuras. Isso também é muito interessante mas é preciso, antes de mais, explicar um certo número de coisas às crianças sempre com linguagem simplificada. Também as histórias de fadas boas e fadas más e bruxas e gigantes eram assustadoras, contudo, maravilhosas. Uma pessoa ficava ali presa aqueles enredos dias e dias e dias.
Não! Não acredito que os homens tenham perdido essa capacidade de imaginar! Hoje sonham coisas diferentes, talvez. Isto quem sonha, claro! Porque todos nós sabemos o deserto que existe, atualmente, entre muitos pais e filhos: vá, vai ver um filme ou vai lá jogar um bocadinho que é para ires para a cama ou agora jantas, lavas os dentes e cama que amanhã tens de te levantar muito cedo. Isto não é exagero. É assim mesmo. Não há tempo para histórias. Quase que não há tempo para olhares nem que sejam de soslaio.
Era muito bom que "Lusco-Fusco" pudesse transformar alguma coisa. Nem que fosse por um período. É uma história que pode ser lida por qualquer pessoa em qualquer idade. Está lá escrita a vida toda.

4 – Lusco-fusco fala do mundo dos espíritos da Natureza acabando, também ela, por se tornar uma personagem. Natureza essa que já detinha, também, um papel forte em O gato deUppsala. É esse o verdadeiro amor? O amor pela Natureza?

Cristina Carvalho - Não faço a mínima ideia o que é o verdadeiro amor. Ninguém sabe o que é o verdadeiro amor. Ninguém. Essa força de sentimentos são clarões, são relâmpagos fugazes, hoje é assim, amanhã pode não ser. Enfim, não é esta a resposta que o Luís pretende, penso eu. O Luís quer que eu fale do amor pela Natureza e é isso que lhe vou dizer como já disse anteriormente e parafraseando o meu pai : A Natureza sou eu. Somos nós, humanidade, os únicos capazes de a compreender e de a amar a ela, Natureza. Sento-me numa pedra ao fim do dia, cruzo os braços no colo e olho para a fina fita do horizonte tentando compreendê-la no seu todo incompreensível. Nunca chegaremos lá, mas somos os únicos que tentamos alcançá-la porque todos os outros, já lá estão.


5 – Uma última questão, mais leve e em pleno desconcerto com o título de um dos seus livros: Considera que "escrever é um prazer, uma alegria, e não é nada trágico ou doloroso” assim sendo, poderemos afirmar que o processo criativo é leve e que o tempo que medeia entre cada livro ´´e um…  Até já não é Adeus ?

Cristina Carvalho - O que eu quis dizer com essa frase é que, para mim, escrever histórias é, realmente, um prazer. Não quero dizer com isto que seja fácil ou rápido. Não. Não é fácil nem é rápido. E não é trágico nem doloroso, claro que não! Aliás, não conheço nenhum escritor que sofra horrores para escrever o livro. E conheço bastantes escritores. Pode ser um processo mais pensado, mais lento, pode dar muito "trabalho" e se quiser, alguma "dor" mas uma pessoa escreve, pinta, desenha, fotografa, come, bebe porque sente essa necessidade, não é? É uma condição da vida como outra qualquer. Eu tenho de escrever histórias. Essa é uma certeza da minha vida. E sei onde quero ir e também sei que tenho uma nave espacial à minha espera em cada esquina que dobro.