sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM CATARINA FONSECA




Um espaço que se pretende vivo não se limita a ser juíz (com mais ou menos polémica salarial) em causa própria. De vez em quando mete a foice em seara alheia. Voltamos, por isso, ao ciclo de entrevistas a algun escritores da nossa praça.
Nasceu em Lisboa em 1969. Licenciada pela Faculdade de Letras de Lisboa e mestre em Literatura Inglesa mantém a imagem fresca e jovem, levemente rebelde, que lhe conheci nos tempos de estudo. Ainda muito jovem publicou A Malta do 2º C que lhe valeu o Prémio Inasset Inéditos de Literatura Infantil 1988. Mais tarde publicou A Herança, obra merecedora do Prémio Revelação APE 1987 e Adeus, Al Capone.Tendo iniciado, posteriormente  a sua escrita para adultos com Boi Vermelho a que se seguiram muitos outros títulos e colaborações com diversos autores, mantendo, actualmente, colaboração regular com a revista Activa. Passemos pois às cinco questões da praxe onde a dscontracção e o bom humor são a tónica dominante.

1 – Entre “A Malta do 2º C” e “Boi Vermelho” ou “A Guardiã” experimentou uma série de registos e de abordagens ou temas. Sendo o primeiro dedicado ao leitor jovem e, salvaguardadas as diferentes faixas etárias, de que forma sentiu o grau de exigência dos dois tipos de leitores? Algum foi mais fácil que outro? Ou por outra: Há algum leitor” fácil?”

- Esta pergunta é muito fácil: o meu leitor sou sempre eu, portanto em teoria ele nunca muda, o que dá imenso jeito. Como eu sou uma leitora incrivelmente chata, não dá jeito nenhum porque passo o tempo a levar na cabeça de mim própria. E aborreço-me com muita facilidade, daí estar sempre a mudar de registo. Numa revista, temos sempre a preocupação de chegar aos leitores, e sabemos mais ou menos quem eles são e de que é que gostam. Um livro é essencialmente egoísta: nunca tenho a sensação de que há alguém a quem eu tenho de agradar ou que não vai perceber isto ou aquilo. Claro que, como sou otimista, confio que haverá do outro lado muitas almas gémeas que me vão perceber e acompanhar. E há.

2 – “Talvez, pensou ele, aconteça como nos espelhos partidos. Talvez agora a imagem e a realidade se tornem a unir por um momento, antes de se voltarem a separar” (Boi Vermelho) Afinal, É isso? Imagem e realidade da vida separam-se para se voltarem a unir? Ou a literatura é o elo de união entre ambas?

 - Hehehe. Não. É só uma frase bonita que não vale a pena explicar. As frases bonitas são como as anedotas, se as explicamos deixam de ter graça.

3 – Relativamente ao trabalho literário… Acha que o trabalho literário é reparar no que está escondido no quotidiano ou, por outro lado, as coisas estiveram “lá” sempre visíveis e é a intervenção do autor que nos ilumina o caminho?

- hmmm. Não sei se percebi a pergunta. Acho que as coisas não são ‘visíveis’, as coisas existem para cada um segundo aquilo que queremos ou podemos ver, por isso o estar visível depende de quem vê. Cada um tem um código de descodificação do mundo diferente e a literatura é a celebração dessa diferença. Eu gosto de tentar fazer com que as coisas sejam vistas de uma maneira diferente da habitual, para quem as quiser ver comigo. O que me fascina nos livros é precisamente essa elasticidade da alma. Ver o que é visível a outra pessoa, entrar dentro dos seus olhos e do seu código e aprender a ver de outra maneira.

4 - “Herdeiros da história da família, Pedro e Gloriana vão ter de encontrar uma forma de resistir àquilo que os afasta.” ( A Guardiã) Considera ser esse o papel da literatura? Dar-nos o instrumento para ver o mundo diferente de cada vez que olhamos e, assim, encontrarmos forma de resistir àquilo que nos afasta dele?

- Sim, nunca tinha pensado na literatura como uma espécie de treino da atenção, mas é isso mesmo. Não necessariamente atenção ao mundo que está fora de nós (eu sou a pessoa mais distraída do universo, tenho sempre imensa vontade de rir quando me falam em atenção ao mundo, penso sempre ‘ó coitados, se eles soubessem…’), mas atenção à forma como o tornamos nosso e o recriamos. Um escritor não presta atenção ao mundo, presta atenção à forma como ele existe em nós. A teoria da caverna não é necessariamente uma coisa má… Acho mesmo que é uma das coisas que todas as artes têm em comum: tornam-nos mais atentos (seja ao que for…), e mais subversivos, quando nos mostram outros caminhos para lá daquele que a nossa tão pouca atenção nos mostra…

5 – A questão mais fácil… Afinal, já sabe” para que é que ainda serve um homem?”

- Hehhehe. Eu sei, eles é que, coitados, parece que ainda não perceberam…