Imagem de Nick Vesey

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terça-feira, 26 de junho de 2012

ENTREVISTA COM MARGARIDA REBELO PINTO

Neste espaço, para além dos textos do escriba, sempre se deu lugar à divulgação e discussão de ideias, acontecimentos e autores. Margarida Rebelo Pinto dispensa apresentações. Amavelmente aceitou o convite deste blog para uma pequena entrevista respondendo a cinco singelas questões que, cremos, será mais um caminho para desfrutar da escrita de uma autora que pôs os portugueses a ler. Conhecia-a na Faculdade de Letras de Lisboa no tempo em que mantinha estreita colaboração com o jornal Se7e. Cedo se lhe adivinhava o reflexo da sua personalidade na sua escrita ágil, firme, determinada e irrequieta. O seu primeiro livro, Sei lá, publicado em 1999, foi um dos maiores sucessos de vendas em Portugal, atingindo números de vendas pouco usuais para o país. O seu último livro atingiu, até ao momento, a marca de sessenta e cinco mil livros vendidos, num inequívoco sinal de adesão do público que se revê na escrita contemporânea e ágil e no retrato de um quotidiano urbano, nem sempre, em sossego. Reiterando os nossos agradecimentos, passemos à entrevista...                                
                                                                       Como surge Margarida Rebelo Pinto no mundo literário?

Sempre quis ser escritora. Tive a sorte de crescer entre livros, os meus pais sempre me deram várias opções para escolher desde muito cedo. A partir dos 10 anos já lia todos os dias, é uma paixão que nasceu comigo. Nem me lembro quando comecei a escrever, deve ter sido mais ou menos nessa idade. O Sei Lá, publicado em 1999, (1º Prémio Literário Fnac em 2000) foi o primeiro romance a singrar por entre alguns manuscritos que andava a trabalhar há alguns anos. Os outros ficaram na gaveta, nunca mais lhes peguei.

Tom intimista,agilidade narrativa e personagens que se passeiam no espelho de uma realidade quotidiana. É esse o segredo do seu sucesso?

Não sei. Às vezes penso que ainda é mais simples do que isso, é uma questão de empatia. As pessoas lêem os meus livros com o coração porque se identificam com o que escrevo, é como se elas fossem os meus personagens, há uma identificação profunda e natural e esse fenómeno, enquanto escritora, nunca imaginei possível a tão larga escala

Como encara a "ameaça" de blogues e redes sociais ao livro em papel?

São coisas muito diferentes! Nunca fui fã da blogosfera, há muito pouca coisa boa e muitos delírios de autoreferência, não é nada a minha onda. As redes sociais têm um papel muito importante, elas aproximam as pessoas e são uma meio de divulgação especialmente eficaz e interessante.
Em "Não há coincidências" assistimos a uma resistência ao machismo não se deixando cair, contudo, no folclore feminista. É um equilíbrio real ou uma estratégia narrativa?

As duas coisas. Portugal ainda é um país de misóginos, essa é uma das minhas batalhas enquanto mulher e enquanto escritora, denunciar e combater a misoginia. O foclore feminista irrita-me imenso, acho uma coisa foleira, démodé. O que me interessa é perceber porque é que os homens têm medo das mulheres, por exemplo. Ou perceber porque é que as mulheres se deixam maltratar e não se conseguem libertar de relações doentias. As intrigas familiares e as relações amorosas são a base dos meus livros. A ficção serve para eu arrumar o caos interior. Mas nunca está arrumado, nunca, é uma tarefa perpétua.

Rui Veloso cantou: "Não há estrelas no céu", Margarida Rebelo Pinto escreveu: "Não há coincidências". Afinal em que ficamos?

Claro que há estrelas no céu, claro que há coincidências. Acredito que nada acontece por acaso, e o que semeamos é o que colhemos, mas para isso é preciso semear
 Luis Bento
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