Domingo, 30 de Outubro de 2011

HALLOWEEN



Às vezes vale a pena escorregar pelo “nonsense” e levar o país a brincar. Sem traumas, sem densidades literárias, sem pretensiosismos... para bom entendedor...



Era uma vez… Um país de faz de conta, sem cheta, rumo ou moral. Sombra dúbia do passado, refém da Nossa Senhora, de milagres e nevoeiro. No leme, um bolo-rei. À retranca, a dar passos , um coelho pouco seguro numa casa em ruínas sem se ver portas janelas ou nesga de futuro.

- “ Lá vai a nau Catrineta que tem muito que contar”…

E assim, perdidos no fingimento entre uma mine, o dedinho em riste e o golo do Benfica, lá ia o povo cantando e rindo , seguindo pelo desvio… colossal!

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

VOAR



- Apeteces-me! – A desenhar-se-lhe nos lábios, sussurro solto e certeiro agitando a melancolia das memórias, dúvidas e hesitações com que se mirava, a medo, ao espelho, fugindo do reflexo baço da existência, qual pássaro de asa curta a ensaiar o vôo.

- Apeteces-me! – A tocar-lhe a pele, onde, numa obediência cega e gramatical, as palavras se diziam e deixavam dizer, impregnadas de cheiro e entrega, em território livre com o amor à redea solta a baixar a guarda e sem saber que nome dar a tanta intensidade.

- Apeteces-me! – E ele a regressar à doçura com que a acarinhava com palavras firmes... estoutenho…devo… quero... tão sequencialmente doce, a terminar num baraço irremediavelmente fiel à singeleza do encanto próprio da inocência da criança e que lhe fizera, lenta e paulatinamente, perceber que era no perfume e leveza das mesmas que poderia voar ou, simplesmente, encontrar forma de existir...

Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

A PONTE


E cá estamos de novo após prolongada ausência. Não o fazemos propositadamente ou por uma qualquer obscura técnica de marketing, mas, tão só, pelo respeito que nos merecem os leitores a quem queremos sempre, com denodo, surpreender ou brindar com o melhor. Seja pela variedade de registos, pelo humor amargo ou, simplesmente, para falar de amor, a ideia fundamental é sempre a mesma: semear algumas palavras com intensidade.

Do mundo conhecia-lhe apenas o peso carregado em ombros, moldado na plasticidade da palavra com que brindava os dias. O destino a fazer-se cúmplice e a vontade a desenhar-se no corpo e a perder-se na curva doce do seu olhar, numa breve pausa, percebendo , então, num flash de memória da infância medida na explícita aritmética da Dona Rute onde dividia amiúde cestos por laranjas com resto zero, coleccionava reis e rios de Portugal no caderno de história e geografia ou no manifesto pavor de alturas que o impedia de atravessar pontes , que o melhor de tudo acontecia nos intervalos, com a vida a olhar de soslaio e a deslizar enquanto a morte se distraía, que o tempo era tão antigo e disperso como as naus para a Índia, que ganhar o mundo era levantar os olhos do chão, medir a distância em sonhos e sorrisos, sentir-lhe a pele com cheiro de giesta e urze no final da tarde e render-se àquele olhar a desnudar-lhe alma e uma vontade imensa de descobrir se o amor morava para lá daquela ponte rasgada sobre as margens de Neruda.

Momento tão intenso quanto breve, o tempo suficiente de lhe ler na profundidade do olhar o convite para a travessia da ponte e ele, esboçando um sorriso sôfrego e inocente, indicando que, sem se dar conta, já levava mais de meio caminho feito…