Terça-feira, 26 de Julho de 2011

EDUARDO PITTA - A ENTREVISTA


Preenchemos o post de hoje com mais uma entrevista a gente ligada ao mundo das letras. Eduardo Pitta, cuja presença marcante e multifacetada no panorama literário reflecte , de modo directo e sem hesitações, um homem sem papas na língua, frontal, justo, de personalidade forte e grande capacidade de análise do quotidiano e que, por isso mesmo, veio enriquecer o nosso espaço.
Resta-nos agradecer a generosidade e disponibilidade do autor e ficar a conhecê-lo um pouco melhor através da nota biográfica da sua página oficial e das nossas cinco perguntas da praxe.

EDUARDO PITTA é um poeta, escritor e ensaísta português. Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2010 publicou oito livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, cinco volumes de ensaio e crítica e um diário veneziano. Os títulos mais recentes são o romance Cidade Proibida (2007), a colectânea de ensaios Aula de Poesia (2010) e o volume de poesia Desobediência (2011). Fractura (2003), breve ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, foi considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Actualmente escreve crítica literária no jornal PÚBLICO e é colunista da revista LER. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura.

1 - “(…) Brunetière apresentou o género literário como um organismo que perfaz todo o ciclo vital: nasce, desenvolve-se, envelhece, morre ou transforma-se” in Teoria da Literatura – Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Tendo em conta todas as variáveis dos nossos dias, o ritmo de vida, as crises, as tendências e as mudanças dos leitores, a poética em que estádio estará hoje? Viva, morta ou em transformação?

Eduardo Pitta – No estádio em que sempre esteve, cumprindo o ciclo da criação. Tendemos a sobrevalorizar o nosso tempo, que no essencial (amor, amizade, guerra, fome, violência) não difere do passado.

2 – A nossa cultura está tingida e fortemente marcada pelo cristianismo, não pela fé ou pelo dogma, mas pela escala de valores, pela atitude de espírito e pelo condicionamento do pensamento (Jean Dubuffet). Sente, de alguma forma, essa pressão? Essa “consanguinidade"?

Eduardo Pitta – Não. Os princípios (cristãos ou outros) são anteriores a essa tradição.

3 – “A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.” In Helena Vasconcelos, Ípsilon, 2007. É aqui que reside o fim último da escrita? Isto é, para além da técnica e mestria literária é na transgressão e subversão de códigos e normas que se agitam as consciências e se transforma o mundo para além dos valores estéticos?

Eduardo Pitta – A mestria literária (como lhe chama) não serve para nada se o autor não tiver nada para dizer. O mesmo se diga da subversão de códigos e normas.

4 – Em “Cidade Proibida” retrata uma Lisboa tradicional, conservadora, preconceituosa onde Rupert e Martim levam uma vida em comum lutando contra certas zonas de sombra, muitas vezes obrigados a agir de forma diferente pelo jogo de aparências. A par do que se passa na sociedade, sente que exista preconceito na escrita? Nas tendências literárias? Ou, pelo contrário, a sua escrita, solta e crua na transgressão e no interdito é, por si só, um desafio ao preconceito?

Eduardo Pitta – Em si mesma, a escrita pode ser preconceituosa ou transgressora. No caso do livro que refere, limito-me a ser objectivo. Dito de outro modo: não podemos relatar situações cruas como se estivessemos a descrever uma missa.

5 – Levando em linha de conta os seus múltiplos pontos de vista na escrita (Poesia, ensaio, crítica) e olhando para a nossa literatura e, em última análise, para a nossa sociedade, acha que há espaço e, sobretudo, necessidade para uma… Fractura?...

Eduardo Pitta – Para ser franco, não percebo o sentido da pergunta. O meu ensaio «Fractura» foi uma encomenda da editora Angelus Novus, na sequência de debates sobre o tema (homossexualidade na literatura portuguesa) organizados por Coimbra Capital da Cultura 2003. Pelos vistos havia necessidade. Em Portugal continua a ser o único título sobre o assunto. E o livro foi adoptado por departamentos de estudos gay e quer de universidades estrangeiras.

Terça-feira, 19 de Julho de 2011

A EUROPA EXPLICADA EM GREGO




É uma necessidade em estado bruto! Esta busca incessante e febril de palavras para lhes moldar o volume, amaciar arestas e contornos e alinhá-las, direitinhas, em frases cheinhas de sentido, ironia, pontos, vírgulas e concordância gramatical. Entre o silêncio prolongado e a verborreia esticada até aos limites da hipérbole não há lugar para concessões ou  botão de  "turn off" para desligar os nervos, a irritação ou a falta de paciência com o estado das coisas.   "Se o mundo fosse bom o dono morava nele"... A afirmação surgiu assim, seca, fria e cúmplice no conformismo envergonhado com o derrotismo longo e obsceno do "estado a que isto chegou" no mural de uma amiga... O mundo tem dono, o senhorio apenas nos deixa viver nele sem pagar renda e nós, ainda assim,  não fazemos obras. Deixamos ruir as fundações suportando, a custo, a pintura de fachada explicando a  gregos e portugueses que ratings, taxas e resgates são apenas acordes de uma única melodia segundo o modelo alemão: Certinhos, direitinhos e a toque de caixa...

... Revivalismos...

* É um vício... esta minha mania dos segundos sentidos e leitura de entrelinhas...

Sábado, 16 de Julho de 2011

SILENCE


O silêncio em inglês, numa excelente tradução, enquanto não chegam novas palavrinhas...


SILENCE I

In a flutter, the breeze waved him by the window where he spent blank pages, nights, unwrapping silence within words, looking at the stars. Cryptic, death whispered him that to fall into her arms was to live like a star, shining, good rather than bad. There being no sins to atone neither great nor small, he took his soul, ascended to the roof, climbed the railing and let himself go in a breath, in the brightness of silence ...

SILENCE!

Yellowing of worthlessness, jealous of the crude trace of the nurse’s ready finger over the mouth, the board on the wall survived with difficulty, in a precarious balance between gravity and dried glue, slowly slipping imperceptible down the wall, against the installed din of anarchy in the waiting room of the health centre. New, old and so-so, exhibiting silly and noisy pride, wounds, fistulas, infected wounds and other ailments listed as clinical, like war honours of an exhausted life, with effort, in a masochistic Olympiad distributed in patches and deprivation among a Swedish card game in the garden and the endless standing rows on inflamed bunions in search of the first prize of lottery queries. On one hand, a conformal rheumatic brigade where the crest surname or weight man on the edge of the baptismal font with annoying insistence on digging up bags full of empty vials of painkillers and begging the doctor’ signature and sticker in the prescription. The other, a battered middle class mob employed on behalf of others, restless, imprisoned in a nervous and niggling crochet, of soap gossip and a daily existence seeded in a public divorce and inequities of the evil beast, a teacher of the fifth left lane floor, who had taken Nini off the edge, insisting on giving her bad grades and preparing to offer her a year’s disapproval. Some kids stood down on the floor in a relaxed screaming spur the tedium of hours of involuntary incarceration in the room. The doctor, in jangling nerves, hands in the hair amidst reports and credentials, badly slept under the weight of the ornament of the girlfriend’s gift despite wearing an evil face was evident in endless games of waist which were ultimately and generously distributed. He, in a sudden fit of rage caused way more by the weight of the noise than by force of jealousy, burst openly the office door and vomited screams into the silence thus demanding:

- If I hear a fly, a worm or a snail crawling on the tile, I’ll leave, I won’t give further consultations today and there will be no recipes for anyone!

He thrust himself closing the door with a bored bang.

The card on the wall did not resist the appealing laws of physics and crashed into the ground disaggregating in plots of molecular composition.

And then there was silence...


SILENCE II
In the beginning, only the verb, slow, slightly conjugating the verb to love, insinuating itself into pieces, and immediately after, passion taking a written form, the waiting turning into desired naked bodies, standing against the wall, consuming themselves in silence ...

Domingo, 10 de Julho de 2011

KASSFINOL


A internet é um imenso espaço de partilha e colaboração. Uma vez mais voltamos à divulgação de autores do outro lado do oceano. Desta feita uma jovem autora. Vinte e quatro anos, economista, diplomada em tributação, venezuelana e um interesse pela escrita manifestado desde muito cedo. Trata-se de um novo registo abordado neste espaço: novelas que oscilam entre o romântico, o fantástico, humor negro, onde as protagonistas são fortes e deciddidas e vêm com um defeito : Uma vez enamoradas não podem deixar a relação sem sofrimento… Com quatro livros publicados e três por publicar deixamos aqui as respectivas ligações para o blogue, para os livros a publicar e a sinopse da trilogia da invocação.


http://novelasromanticas-kasu.blogspot.com/

1.- ENTRE EL INFIERNO Y LA TIERRA


Sinopsis:
Una misteriosa y alocada historia donde una bruja llamada Alondra, desata el mayor de los desastres amorosos sobre la vida de Angineé, la misma creerá tomar una decisión sobre su futuro, pero ya todo está  previsto, nadie puede cambiar lo que le depara, y menos cuando has hecho un pacto de vida con Alondra sin saberlo.

LINK DE DESCARGA http://www.megaupload.com/?d=QNDG5GWH

2.- ENTRE EL CIELO Y LA TIERRA



sinopsis:
A vida le ha demostrado a Sofía que todo no es lo que parece, ella se vera envuelta en el lugar que menos esperaba, el lugar en que nunca pensó llegar, y se dará cuenta que el destino que le preparo su adorada tía Alondra no será el mas indicado, pues esta la emparejo con los seres que mas detesta y a los que mas recelo les tiene... UN ÁNGEL 

LINK DE DESCARGA http://www.megaupload.com/?d=BGBXZ0A8 Y

http://www.megaupload.com/?d=YBT8Q7K0


2.5.- Relato corto: ENTRE HUMANOS QUE NO LO SON


Sinopsis:
UNA HISTORIA CORTA.... VARIOS CABOS SUELTOS.... DEMASIADAS VIDAS COM PLICADAS.... INUNDADAS DE ALAS Y CUERNOS... ¡Y YO!... SIENDO HUMANA DE NUEVO.

LINK DE DESCARGA http://www.megaupload.com/?d=QEJ7FUOK

3.- ENTRE DOS MUNDOS



Sinopsis:
Mientras Amelia intenta vivir en su mundo normal. Aun no esta enterada de que su amado "Ya elegido" la asecha para sumergirla en un lugar que ella solo a leído en sus libros de ficción. El problema es que Amelia no es amante de los animales... Y pronto tendrá que aceptar que será Reina de ellos.

PUBLICACIÓN AGOSTO 2011

LINK VER EL 1ER CAPITULO

http://novelasromanticas-kasu.blogspot.com/2011/06/capitulo-1-libro-3-entre-dos-mundos.html

ESTOS SON LOS LIBROS COMPLETOS DE LA TRILOGIA. A PARTE, UNA HISTORIA CORTA, ROMANTICA, LLAMADA: DECIDISTE TARDE

Sinopsis:

No siempre las cosas terminan con un final feliz. Cuando una mujer ama realmente y no es correspondida las cosas pueden tomar un giro inesperado. A veces para amar hay que ser paciente... Y ser fuerte. Pero... ¿Tu podrías ser fuerte?..... ¿ Podrías ser paciente? Y si ...
Deciden Tarde Amarte.

LINK DE DESCARGA http://www.megaupload.com/?d=H6I224AL

Quarta-feira, 6 de Julho de 2011

VERDE, CÓDIGO VERDE



Um "cheirinho" daquele que não há meio de ver a luz do dia...


(...) Pousara as mãos sobre os seus ombros por breves instantes e deixara-se escorregar envolvendo-a com os braços. Um beijo no cabelo indisciplinado e um sussurro: O amor navegava à bolina sem capitão, estrelas ou carta de marear  numa entrega sem hesitações, sempre por escolha, nunca por renúncia...

Terça-feira, 5 de Julho de 2011

ENTREVISTA A PEDRO ALMEIDA VIEIRA


Regressámos a nova série de entrevistas com gente ligada ao mundo das letras. Desta vez, o escritor e jornalista Pedro Almeida Vieira a quem colocámos as habituais cinco questões. Aos leitores, aconselhamos a visita ao seu site onde, para além da exposição da obra, se podem deliciar com uma original e desconcertante autobiografia. Resta-nos agradecer a disponibilidade e generosidade do escritor bem patente nesta excelente entrevista.

Pedro Almeida Vieira, escritor e jornalista nasceu em Coimbra, em 17 de Novembro de 1969, licenciou-se em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora em 1993. Dois anos mais tarde tornar-se-ia jornalista "free-lancer", com colaborações nos jornais Expresso e Diário de Notícias, bem como nas revistas Forum Ambiente e Grande Reportagem. Em 2003 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Ambiente «Fernando Pereira», pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, pela sua contribuição, como jornalista, para as causas ambientais.

Em 2003 publicou um livro de ensaio de temática ambiental intitulado «O Estrago da Nação». Tendo, no ano seguinte, editado o seu primeiro romance histórico, «Nove Mil Passos», sobre a construção do Aqueduto das Águas Livres. Seguiram-se em 2005, «O Profeta do Castigo Divino», que aborda a vida do jesuíta Gabriel Malagrida e a ascensão política do Marquês de Pombal, em 2006 “ O Vermelho e o Negro, um livro de investigação sobre a floresta e os incêndios em Portugal e em 2009 o regresso ao romance histórico, com «A Mão Esquerda de Deus» - obra finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa. Em 2010 debruçou-se sobre a saída dos jesuítas de Portugal, França e Espanha com o romance Corja Maldita». Em 2011 publicou o primeiro volume de «Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes», um conjunto de 30 narrativas sobre crimes em Portugal até à abolição da pena de morte. Encontra-se também a preparar uma edição actualizada da obra «O Estudante de Coimbra», publicada em 1840 e 1841 por Guilherme Centazzi, o pioneiro do romance português. Tem ainda em preparação um ensaio sobre censura e crítica literário no período do barroco.


1 - O que leva um jornalista a transpor a fronteira da escrita literária? Que fascínio exerce esse tipo de escrita sobre a factualidade e objectividade? É fácil manter a separação das águas?

Talvez a mesma coisa que também levou um licenciado em Educação Física, como o Gonçalo M. Tavares, a escrever ficção. Ou outro qualquer escritor com uma qualquer profissão. Respondo assim para destacar que não são as profissões que determinam se alguém «transpõe» ou se «transpõe» para a escrita literária. Sobre o facto de ser – ou ter sido – jornalista, talvez possa ter ajudado a encontrar um ritmo, a pensar na forma de pesquisar e arrumar as ideias antes do acto da escrita. Mas tudo o resto sai da imaginação, da criatividade e do trabalho. Posto assim, claro que é fácil separar as águas; difícil é escrever, ou tentar escrever, um bom romance.

2 - A escrita criativa ou literária tende a ser mais livre que a joranalística. Contudo, no romance com afinidades históricas há pesquisa, fontes, cânones e princípios a que não se pode escapar. Quando escreve sente-se, de alguma forma, preso nesse espartilho?

Não é um espartilho, são as «regras do jogo». Num romance, mesmo de factos contemporâneos, o escritor desafia o leitor, «dizendo-lhe»: faz de conta que isto é verdade, sabendo ambos que é ficção. A partir daqui, o único e hercúleo compromisso do escritor é não abusar dessa combinação, que só na aparência lhe dá liberdade. Num romance do género histórico aparentemente até poderia haver mais liberdade, porque só uma pequena parte dos leitores tem conhecimentos para encontrar anacronismos ou erros históricos. Mas sou apologista de que o romancista não deve subverter a História – a menos que o assuma desde o início. Ou melhor dizendo, pode ficcionar em torno da História – até porque há muitas partes obscuras –, mas sem violentar os factos históricos comprovados nem tão-pouco cometer anacronismos ou relatar situações completamente descontextualizadas da época retratada. Diga-se que nem todos os romancistas do género histórico fazem isso, porque dá muito trabalho.

3 - O que o fascina mais no romance histórico? A elaboração da trama, o desenvolvimento e densidade de personagens e ambientes? Ou , acima de tudo, o aturado trabalho de pesquisa e investigação, estudos e consulta de fontes para a realização da obra?


Não me sinto fascinado pelo romance histórico. Sinto-me fascinado por boas histórias, pelo passado – porque o passado ajuda a compreender o presente e a perspectivar o futuro –, por me permitir «viajar» no tempo e por outras vivências. Se até agora escrevi romances do género histórico – mas o último, «Corja Maldita» até subverte o género –, não é por ser mais fácil; é exactamente por ser mais difícil, até porque vou sempre para além da História. Em todos os meus romances há muita pesquisa, sem dúvida: e isso é uma parte que me agrada. Mas a parte da criação é a mais interessante, bem como a escolha do narrador e da estrutura do romance. De resto, é preciso vincar que não há grandes diferenças entre escrever um romance de factos contemporâneos e um romance do género históricos. Em ambos os casos é preciso sobretudo imaginação e criatividade.

4 - “Crime e castigo no país de brandos costumes” ...lendo o seu livro, uma selecção de narrativas sobre crimes passionais, banditismo e associações criminosas, homícios diversos e crimes contra a fé , à luz dos acontecimetos e sentenças judiciais da actualidade, mantém-se o problema ou estamos hoje mais tolerantes e impotentes face ao crime?


O mal está na natureza humana, não propriamente na época em que se vive. Aquilo que pode eventualmente mudar é a consciência colectiva, que é uma coisa muito ambígua e talvez corporizada pelo Estado. Nesse aspecto, o Estado tem evoluído para uma postura mais tolerante: agora já não temos a pena de morte em Portugal, não há prisão perpétuas, nem degredo nem trabalhos forçados, nem tortura para apurar a «verdade», como sucedeu até ao século XIX. Sobretudo até meados do século XIX, o Estado era sobretudo justiceiro, o que implicava a utilização de castigos e formas de chegar ao culpado que hoje nos escandalizam. E, claro, havia também o fundamentalismo religioso. Mas os crimes mais hediondos são tão graves agora como eram há séculos. E só não são mais, talvez porque o Estado é mais omnipresente na salvaguarda e protecção dos cidadãos.

5 - Uma última questão, mais ligeira e armadilhada. “A Mão Esquerda de Deus é um romance que questiona princípios e valores da natureza humana, cenários de intolerância, hipocrisia e maldade”. Deus escreve direito por linhas tortas, mas é canhoto? A alma humana é perversa e Deus assiste impávido e sereno? Ou é apenas bode expiatório e não devia ser chamado para estas contas?

Não lhe sei responder a essa questão. Pensei muito nessas questões enquanto escrevia esse romance. E isso transparece no próprio protagonista, Juan (ou Alonso) Perez de Saavedra, cuja biografia e formas de pensar são exclusivamente uma completa criação minha, pois nem se sabe ao certo se ele existiu (são as tais partes obscuras da História que referi atrás). E assim, quem ler esse romance compreenderá que, se Perez de Saavedra «viveu» tudo aquilo que relata e não conseguiu compreender Deus, então eu também não consigo.

Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

PRENDA DA MADRUGADA - REVISITADA


Enquanto finalizamos as próximas entrevistas e divulgações de gente ligada às letras, tempo para revisitar o amor, um texto já com um ano de idade.

Por vezes, o escriba perde o pio.  Longas e penosas temporadas sem ouvir o trinado das palavras. Fosse ele siciliano e há muito que estariam a fazer parte da composição molecular do betão armado, mas não… anos de carga cultural judaico-cristã, amparada no encosto terno e sábio da experiência do avô materno a vergar-lhe o dorso , não lho permitiriam. “Isto é como as ovelhas… é deixá-las ir que quando tiverem fomeca regressam! Até se encavalitam umas nas outras!” E voltaram… um emaranhado de hieróglifos confuso na sintaxe, mas prenhe na sensibilidade e no sentido. E assim, nas entrelinhas da noite cerrada, deu-se um click.  Uma prenda da madrugada…

Por mais que ele puxasse as baínhas à memória não encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsmo para a alma, mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual com o dicionário dos afectos…

Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que ,ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela assoalhada vaga no coração.

Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda. Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados numa forma única, consumiam-se num movimento lânguido e lento , através dos cabelos dela escorregando teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo com que ela lhe acariciara os lábios . A lua a estender-se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, experimentando num último estertor de prazer, um sorriso amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.

Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta:

- E tu? Em que pensas?

Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou-lhe por sua vez:

- E tu? Sabes o que é amar?

Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos porquês, aninhou-se-lhe no peito , atirando-lhe num sussurro:

- Amar? Amar…É gostar de ti com muita força…

Domingo, 3 de Julho de 2011

EDITORAS


Para além dos textos de produção literária e humorística, da crónica social, das entrevistas, pitta shoarma e batatas fritas, há também lugar, neste espaço, para o debate. Foi o que sucedeu hoje, à tarde, via twitter. Tudo começou com uma notícia da jornalista Fernanda Freitas:

FernandaFreitas @antena1rtp: Há uma nova editora portuguesa, a Gato na Lua

Ao que o escriba respondeu:

LuisBento Luis Bento @FernandaFreitas @antena1rtp Mais uma que não vai ler manuscritos ou levar meses a dizer não...

FernandaFreitas @LuisBento é essa a perceção q tem das editoras?

A meio do caminho meteu a colherada o blogger João Moreira de Sá:

arcebispo joao moreira de sa
@LuisBento @FernandaFreitas desculpem meter a colher mas eu já ouvi argumentos como "para vender menos de 10 mil não vale a pena"

E assim se estabeleceu um aceso debate, do qual transcrevemos um pequeno excerto em que, no final, apagada a chama, não sobraram  vencidos nem vencedores, mas apenas intervenientes mais ricos recolhendo a sua parcela de razão. Entre os argumentos esgrimidos, não passou despercebida a excelente análise do João Moreira de Sá publicada aqui. A crise tem as costas largas para a inércia e falta de iniciativa. Só assim se entende a atitude da maioria das editoras limitando-se a traduzir best sllers além fronteiras, editando valores seguros ou uma qualquer vedeta de pacotilha feita à pressão num obscuro “Peso Pesado” ou “Big Brother” para, à semelhança do vício criado e entranhado desde os Descobrimentos, limitar-se a revender matéria prima para obter a margenzinha ou desconto qual Oliveira da Figueira perdido nos álbuns do Tintin. Não sendo versado em pontapés, cenas de faca e alguidar ou abertura ruidosa de Telejornal resta ao escriba e a tantos outros escribas, continuar a semear letras pelo caminho e dar o benefício da dúvida à recém chegada editora. Chega de zurzir... Está aberto o espaço ao debate…