Preenchemos o post de hoje com mais uma entrevista a gente ligada ao mundo das letras. Eduardo Pitta, cuja presença marcante e multifacetada no panorama literário reflecte , de modo directo e sem hesitações, um homem sem papas na língua, frontal, justo, de personalidade forte e grande capacidade de análise do quotidiano e que, por isso mesmo, veio enriquecer o nosso espaço.
Resta-nos agradecer a generosidade e disponibilidade do autor e ficar a conhecê-lo um pouco melhor através da nota biográfica da sua página oficial e das nossas cinco perguntas da praxe.
EDUARDO PITTA é um poeta, escritor e ensaísta português. Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2010 publicou oito livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, cinco volumes de ensaio e crítica e um diário veneziano. Os títulos mais recentes são o romance Cidade Proibida (2007), a colectânea de ensaios Aula de Poesia (2010) e o volume de poesia Desobediência (2011). Fractura (2003), breve ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, foi considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Actualmente escreve crítica literária no jornal PÚBLICO e é colunista da revista LER. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura.
1 - “(…) Brunetière apresentou o género literário como um organismo que perfaz todo o ciclo vital: nasce, desenvolve-se, envelhece, morre ou transforma-se” in Teoria da Literatura – Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Tendo em conta todas as variáveis dos nossos dias, o ritmo de vida, as crises, as tendências e as mudanças dos leitores, a poética em que estádio estará hoje? Viva, morta ou em transformação?
Eduardo Pitta – No estádio em que sempre esteve, cumprindo o ciclo da criação. Tendemos a sobrevalorizar o nosso tempo, que no essencial (amor, amizade, guerra, fome, violência) não difere do passado.
2 – A nossa cultura está tingida e fortemente marcada pelo cristianismo, não pela fé ou pelo dogma, mas pela escala de valores, pela atitude de espírito e pelo condicionamento do pensamento (Jean Dubuffet). Sente, de alguma forma, essa pressão? Essa “consanguinidade"?
Eduardo Pitta – Não. Os princípios (cristãos ou outros) são anteriores a essa tradição.
3 – “A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.” In Helena Vasconcelos, Ípsilon, 2007. É aqui que reside o fim último da escrita? Isto é, para além da técnica e mestria literária é na transgressão e subversão de códigos e normas que se agitam as consciências e se transforma o mundo para além dos valores estéticos?
Eduardo Pitta – A mestria literária (como lhe chama) não serve para nada se o autor não tiver nada para dizer. O mesmo se diga da subversão de códigos e normas.
4 – Em “Cidade Proibida” retrata uma Lisboa tradicional, conservadora, preconceituosa onde Rupert e Martim levam uma vida em comum lutando contra certas zonas de sombra, muitas vezes obrigados a agir de forma diferente pelo jogo de aparências. A par do que se passa na sociedade, sente que exista preconceito na escrita? Nas tendências literárias? Ou, pelo contrário, a sua escrita, solta e crua na transgressão e no interdito é, por si só, um desafio ao preconceito?
Eduardo Pitta – Em si mesma, a escrita pode ser preconceituosa ou transgressora. No caso do livro que refere, limito-me a ser objectivo. Dito de outro modo: não podemos relatar situações cruas como se estivessemos a descrever uma missa.
5 – Levando em linha de conta os seus múltiplos pontos de vista na escrita (Poesia, ensaio, crítica) e olhando para a nossa literatura e, em última análise, para a nossa sociedade, acha que há espaço e, sobretudo, necessidade para uma… Fractura?...
Eduardo Pitta – Para ser franco, não percebo o sentido da pergunta. O meu ensaio «Fractura» foi uma encomenda da editora Angelus Novus, na sequência de debates sobre o tema (homossexualidade na literatura portuguesa) organizados por Coimbra Capital da Cultura 2003. Pelos vistos havia necessidade. Em Portugal continua a ser o único título sobre o assunto. E o livro foi adoptado por departamentos de estudos gay e quer de universidades estrangeiras.










