Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

RUA DE CEUTA - LINDA A VELHA


Perdoem-me aqueles que hoje esperavam um texto literário...à falta dele, deixo-vos o sarcasmo da crítica contundente e bem afiada, de um mail, por mim enviado, à Junta de freguesia de Linda-a-velha...

Rua de Ceuta    Caixa de entradaX

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luis bento para .geral

mostrar detalhes 23:09 (há 29 minutos)

Exmo. Senhor Presidente da junta de freguesia de Linda a velha Carlos Jorge Santos de Sales Moreira

Há quarenta e seis anos que me reconheço como frontal e directo e pugnando por uma réstia de justiça que há muito se tresmalhou neste sítio mal frequentado que, em termos de honradez, já pouco tem a ver com o condado Portucalense e com os seus heróis, não posso, por isso, deixar passar em claro a situação deplorável em que se encontra a freguesia de Linda-a Velha nomeadamente, no que à manutenção e protecção do património urbanístico e de arruamentos diz respeito. Se achar que estou a escrever depressa de mais ou usando termos , porventura portadores de alguma dificuldade de compreensão, faça V. Exa. uso da sua voz alertando-me para o facto, pois não é do meu timbre ou carácter ser insultuoso ou arrogante impedindo os demais do uso da palavra ou da compreensão dos argumentos.

Pois bem, com criminalidade à solta na nossa freguesia reflectindo-se nos assaltos a viaturas, nos grafitis expostos sem freio ou controlo, nos pequenos furtos por esticão , sabendo nós que a polícia da freguesia tem apenas (operacionais) tantos carros como os dois dedos com que carrego furiosamente as teclas desta missiva e que, dos escassos agentes da autoridade, dois se encontram a fazer gratificados no Pingo Doce e no Minipreço, a acrescer a tudo isto, deparamo-nos agora com um atentado e uma enorme falta de respeito para com os residentes da freguesia. Perto das eleições autárquicas foi a Rua de Ceuta repavimentada quando, um sem número de artérias se encontrava sem manutenção e em pior estado de conservação. Passados trinta dias, a rua apareceu esburacada, esventrada e outros advérbios terminados em Ada, tendo, novamente, a freguesia mandado atapetar o que já tinha sido atapetado. Pasme-se! O zelo e o rigor do trabalho, mais uma vez, não constava do manual de ética e qualidade , pelo que, a estrada ficou ainda pior, conforme documenta a foto ou o imenso album fotográfico que terei o maior prazer em enviar a v. Exa.

Venho por isso, na qualidade de representante do povo, questionar o senhor Presidente da junta, na qualidade de mandatário e servidor dos interesses desse mesmo povo…

1º A obra foi paga das duas vezes em que foi realizada? Se foi…porque não foi exigida a imediata reparação e regularização de um trabalho mal executado “Ab initio” (caso Vexa. Não saiba…isto é Latim…) Se foi paga e exigida a reparação, que pressupostos ou argumentos apresentou a empresa para não a fazer? Sem querer ser insultuoso ou insinuante, gostaria de saber se, porventura, existirá algum grau de parentesco (tios, cunhados, primos ou enteados) entre as várias partes contratantes. Pois só assim eu entenderia que V.Exa. não quisesse molestar a empresa que tão mal executou a obra e que ainda se encontra por finalizar.

2º Faltou dinheiro para a tranche final do pagamento da obra? Pois sendo esse o caso também teria o maior prazer em enumerar a V.Exa. uma série de actividades onde poderia poupar e escusar-se ao vexame de assistir ao espectáculo de uma rua saída da Guerra da Líbia…

3º Porque diabo continua ainda a Parques Tejo a cobrar estacionamento? Estacionamento de quê? De carros em pavimentos esventrados com as linhas sumidas e onde, diariamente, os mesmos ficam danificados pelo levantamento da gravilha?

4º Gostaria de saber de que forma vai V.Exa. proceder ao pagamento dos prejuízos na minha viatura?? Fá-lo-á por cheque? Crédito em conta? Diga-me rapidamente porque , infelizmente, à semelhança da Parques Tejo, não tenho a mesma paciência para esperar o pagamento, nem tenho alma de Madre Teresa de Calcutá…

5º No mínimo, peça à rapaziada dos camiões do lixo para não andar a alta velocidade , às duas da manhã, pela rua de Ceuta abaixo…é que com isso, levanta, poeiras, pedras, gravilhas, etc. provocando danos nas viaturas estacionadas.

6º e último… Numa época em que, em Portugal, tudo funciona à base das caixas de robalos e das licenciaturas datadas aos domingos via fax, seria bom que nos entendêssemos como cavalheiros e que entendêssemos uma coisa: Eu sou um residente na sua freguesia e um representante do povo, o senhor é um servidor dos interesses dos seus…”fregueses”. Assim sendo, ficarei a aguardar resposta comunicando-lhe, desde já, que o teor deste mail foi, neste momento, publicado no meu blog: http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com que, por acaso, até tem bastante visibilidade em Portugal e no Brasil. Não pretendo, com esta atitude, exercer qualquer tipo de pressão sobre V.Exa.  mas, dado que até ao momento ainda não se lhe ofereceu conveniente dar resposta a outras missivas sobre o mesmo teor de outros residentes, achei que este seria o modo perfeito para que V.Exa. acordasse da profunda letargia em que se encontra adormecido. Que fique também claro que, a ausência de resposta por parte de V.Exa. quer por mail, quer através de comentários no blog, elevará o fervor e o empenho com que, reiteradamente, tornarei a escrever a V.Exa. e constituirá, sem a menor sombra de dúvida, um silêncio revelador e constrangedor por parte de V. Exa.
Atentamente
Luís Bento
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM RITA FERRO


Estávamos em 1991, quase, quase… a terminar a faculdade quando veio parar, às  minhas mãos,  uma edição  do Círculo de Leitores de O Vento e a Lua… Tinha um teste de Latim na manhã seguinte, cadeira que trazia em atraso desde o segundo ano. Para bem dos meus pecados não resisti a folheá-lo . Duzentas e cinquenta e três páginas, das quais, li sôfregamente cento e oitenta e quatro. Deitei-me às quatro da manhã, fui fazer o teste às nove e, mal saí da sala, devorei as restantes até ao fim. A partir daí fui sempre acompanhando a sua escrita, rendido, a meio caminho entre o fascínio e a devoção. A sua escrita, solta, mordaz e irreverente não deixa margem de manobra à indiferença. Recentemente encontrei-a no seu blog Acto Falhado onde mantém uma tertúlia permanente sobre o nosso quotidiano. Uma razão a acrescer a tantas outras para não lhe perder o rasto. À pequena biografia retirada da net, resta-nos apenas deixar as perguntas a que Rita Ferro amavelmente acedeu a responder e dizer que, naquela manhã, acabei por conseguir passar a Latim…
Rita Ferro nasceu em Lisboa em 1955.
Estudou Design e Marketing, exercendo funções de direcção e consultoria em diversas empresas, na área da publicidade. Foi professora no IADE e colabora regularmente na imprensa, rádio e televisão.
Iniciou-se na escrita em 1990 com o romance O Nó na Garganta, arriscando um novo tipo de escrita feminina – sensível, intimista e geracional – que, tendo obtido um estrondoso sucesso e revolucionando o mercado literário português, conheceu inúmeros seguidores. Hoje, tendo já transcendido as questões femininas, ou não se esgotando nelas, distingue-se por uma técnica de narração mordaz e cativante, de grande versatilidade, tanto no épico urbano de Os Filhos da Mãe como no realismo fantástico de O Vento na Lua.

Entrevista Luís Bento
Bento-vai-para-dentro
14/2/2010 


1- “(…) movida por uma curiosidade insaciável, Pompeia encetava então um fantástico percurso de nómada, cruzando o seu destino com múltiplas personagens (…) o velho irlandês (…) que procurava saciar com bolos a sua fome de afecto”

Extrapolando, poderemos afirmar com segurança ser esta a função do autor? Encetar um percurso nómada por entre palavras e personagens saciando afectos à medida dos parágrafos?

(risos) A pergunta é difícil, sabe? É como pedir à centopeia para explicar como se move – preocupada, troca os movimentos e cai. Não sei, Luís. Não sei mesmo desmontar o processo. Sei que há dois tipos de escritores: os que fazem esqueleto prévio, desenhando minuciosamente as personagens e a história, e outros, como eu, que se sentam, pousam os dedos no teclado e se limitam a seguir o som da flauta. Mas o termo nómada ajusta-se a mim: sou um ser errático, na vida e nos livros, e aventuro-me sempre por caminhos que não conheço, ou seja, não me afeiçoo a nada no livro, estou sempre disposta a abandonar um caminho e a tomar um atalho para agarrar uma ideia que me chegou à cabeça e me empurrou violentamente noutra direcção, como num ciclone. Por vezes, chego ao fim do livro sem saber como terminá-lo, mas a resposta vem sempre: acordada ou a dormir. Quanto a saciar-me não é exactamente o termo. Vou puxando um cordel que puxa as memórias, as quais, por sua vez, puxam as emoções. Mas é um processo frio, desapiedado, cruel: olho as palavras que escrevo sem o menor derriço. Quase como um aluno com um atraso mental que quer passar de exame e eu estou ali, pronta a chumbá-lo, sem coração. De resto, é como quem toca de ouvido.

2 – Em, “O vento e a lua” a descrição brutal do ambiente de miséria em que Pompeia é gerada contrasta largamente, com a mestria de uma narrativa que nos conduz ora com amargura, ora com doçura e suavidade permitindo-nos levar para uma multiplicidade de escritas, gestos e sons, muito para além das imagens e cânones convencionais. Seguiu alguma das “receitas” sobre a arte da narrativa ou, pelo contrário, pretendeu fazer uma ruptura e seguir um novo caminho na descoberta e exposição do corpus literário?

Não, Luís, lembro-me de ter fixado apenas dois conselhos dos meus: a minha avó poetisa disse-me «a simplicidade resulta» e o meu pai escritor «escreve o livro até ao fim e depois deita fora metade». Não sei se os segui, porque sou rebelde a seguir conselhos, ou melhor, não é rebeldia é não poder ser se não eu. Nem na vida peço conselhos, quase nunca peço conselhos. Aproveito os meus recursos naturais, sigo o instinto. Não sei se é mau se bom, mas é como lhe digo.

3 – “ O vocabulário, grande recurso da cultura, é o inimigo do pensamento. Quanto mais aumenta mais ele se vê embaraçado – embaraçado por móveis pesados e fixos, por corpos mortos – e privado do seu espaço” (Jean Dubuffet) Concorda com esta afirmação? O Excesso verborreico conduz à atrofia do pensamento cabendo ao autor a domesticação das palavras?

Hoje em dia, sim. No livro que escrevo neste momento, e é biográfico, o preciosismo lexical deixou de me preocupar e a despedida fez-se sem lágrimas (risos) E penso que sim, que foi uma evolução. Um pouco como os escritores que têm de saber desenhar um corpo humano para se permitirem a fazer um risco numa tela em branco. Já superei essa prova, sinto isso. Repare, só agora me apercebi desta mudança, evolui-se sem se dar por isso e sem sequer apascentarmos esse sonho, sem sequer ser um sonho – é um estado a que se chega, um novo nível. O vocabulário não me interessa tanto, procuro agora formas mais enxutas de falar para que a narrativa sobressaia mais do que o estilo. Quanto ao excesso, penso que não conduz à atrofia do pensamento, mas distrai o leitor do recado que se quer passar. Tornei-me muito mais económica no estilo, muito mais, e espero que isso obedeça a uma maior maturidade e que essa maturidade se transcreva no livro. A ver vamos, é cedo para falar.

4 – “ Sexo na Desportiva “é uma recolha das suas criações de maior êxito em A Bola e no Correio da Manhã, escritas entre 2005 e 2006, juntamente com alguns inéditos.São textos sobre encontros e desencontros amorosos, onde não escapa o sexo. E o seu leitor? Não escapa a quê?

O meu leitor, o leitor daquele livro, não escapa a rir-se se tiver o mínimo de sentido de humor. São micro-histórias com piada, cada uma sobre um desporto diferente, parte delas ousadas. Não me censurei nos temas, mas tive cuidado em preservar o bom gosto. Escrever sobre sexo estabelece esse desafio e permite esse exercício.

5- Uma questão assassina: Será o famoso bloqueio de escritor o tal… “Grau zero da escrita” ?

Não, e ainda bem que pergunta. O bloqueio sucede tanto aos que estão no grau máximo como no mínimo, indiferenciadamente. A mim, esse tipo de apagão de ideias nunca ocorreu. Mas tenho outro tipo de bloqueio que é igualmente exasperante: a falta de vontade. Nunca ninguém fala disto e acontece muito aos artistas. Há livros que não querem ser escritos, o meu pai vivia a contrariar os dele. Anunciou uma trilogia cujo nome não interessa agora, mas só conseguiu entregar os dois primeiros volumes. Lutou com aquele bloqueio anos e morreu sem conseguir terminá-lo. Às vezes há uma recusa interior muito funda que não se compadece com nada, nem com a necessidade económica nem com as exigências contratuais. Uma musa caprichosa e malcriada que o artista tem de aturar. Os outros chamam-lhe preguiça, mas não é. Funciona como um travão: «poderia escrever, mas não sinto vontade.» É tramado. (risos)




Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

UMA NOITE...



Surgia assim, de mansinho, o amor apenas escorado na grandeza da palavra.

“Amo-te”…

...Assim gráfico, poderoso, desnudado, oferecendo-se generosamente sob a forma de letra sem direito a reforma ou protesto, a lembrar-lhes a simplicidade das coisas e eles, esmagados, contemplando-as assim, alinhadinhas, desafiando-os a medir a geografia do desejo onde ambos se consumiam, não tão longe quanto parecia nem tão perto quanto desejavam, adivinhando-se as formas, os olhares, os cheiros a compulsão dos corpos  e o travo agridoce do sexo...

Ao diabo com o mundo, as convenções e o tempo a fugir à sua passagem! Amar era assim, uma longa história de paciência a folhear nos próximos capítulos, com assiduidade. Ele, em ebulição, a pretender-se simples, a dar-se por inteiro, sem remorso, numa dádiva, numa troca sem factura ou recibo em alegre convívio e atropelo e ela a apanhar-lhe o traço em breves pinceladas num curto esboço onde, por breves instantes, o corpo passara a noite, mas o coração hospedara a vida inteira…

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

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Nem de propósito... com o tempo contadinho à migalha... olha o que me saíu, hoje, num biscoito da sorte...

Pois...