Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

DORMIR




A estrada estendia-se à sua frente, lenta, vazia, a deixar-se tomar de curvas com o verão a esgueirar-se de fininho em final de tarde, breve, como breves eram as palavras e o tempo a amaciar a melancolia suspensa da certeza  milimétrica de que o céu era sempre azul e que à noite se enchia de estrelas. Os dias são o que fazemos deles, e ele, sem jeito para domador, alinhando na inércia com que os deixava tomar o freio no vazio da consciência, em exílio absoluto, escondendo-se na desconcertante imutabilidade do mundo.

Adivinhava-lhe o cheiro gravado na pele,  os gestos, as mãos finas de dedos esguios a enrolar-lhe o cabelo  com carinho, insistência e outras coisas que o coração sussurrava  e o corpo não esquecia...

Sempre desprezara os caprichos do tempo, marcas, dores ou achaques da idade. Quase não dormia, dormir era morrer um pouco no travesseiro, sobrando-lhe, assim,tempo para recordar. Por isso naquele final de tarde pegara no carro para uma viagem sem sentido ou à procura dele. Prego a fundo, uma dose de amnésia e duas de desapego , cavaleiro do asfalto em demanda da rainha  sem saber onde desenbocava aquela harmonia, as luzes e os murmúrios que ouvia agora.

Afivelara um sorriso amarelo mal a vira. – És bela! Imaginava-te de capuz e segadeira… Não terás vindo cedo demais para me levar?
- Sou capaz!... Se calhar distraí-me, mas já que cá estou…
- Deixem passar! Afastem-se por favor! – Maqueiros e paramédicos furavam pela multidão para chegar com rapidez ao local do acidente.

 Sentia-lhe ainda o cheiro, as carícias e o beijo a escorregar até ao seu gosto… Entreabriu os olhos e apercebeu-se dos pontinhos brilhantes entretidos a acender o céu, estirou-se com dificudade entre o lençol apertado  e afundou a cabeça no travesseiro… 

10 comentários:

Anónimo disse...

Nem seria preciso acenderes o céu. De aprendido que está o teu deslizar. Nesse galope de estrelas, a escorregar, até a "tanto gosto".
Parabéns Luís!

Anónimo disse...

Que bela é a vida quando alguém escreve assim...
Mesmo na melancolia do sonho ou na frieza da vida, são estas palavras que dão calor ao sentido do bem escrever.
Gostei muito. É belo, como sempre.
Um beijo. Nosso.
M

Luís Coelho disse...

Muitas vezes o sono acontece assim.
Iniciamos a viagem e aceleramos os reactores.
Depois viajamos até à manhã seguinte.

Outras vezes, por falta de combustível, andamos aos solavancos perdidos na escuridão da estrada.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Bentamigo

Que maravilha de texto! Traças com elegância e sentimento a linha fluída que está plantada entre a vida e a morte, entre a realidade e a fantasia.

Depois disto, quando voltar para os meus lençóis vou tapar-me muito bem, não vá apanhar uma broncopneumonia, que o tempo não está para essas coisas...

Abç

Para os devidos efeitos, sou a informar Vossa Insolência que a nossa Travessa não mudou - ou seja, está exactamente no seu lugar

Luis Bento disse...

Confesso que não é dos melhores textos. Um pouco de melancolia, passado e presente mastigado com palavras doces e saiu a mancha gráfica. Bom tê-los por aqui! E agora uma visita aos amigos...

Artes e escritas disse...

Respeitar o sono é uma obrigação praticada com devoção. Um abraço, Yayá.

lis disse...

Enquanto lia ,lembrava de ultimamente sonhar, acordar, ter certeza que acordei e continuar o mesmo sonho... rs e os lugares sempre estranhos nunca vistos ... rs será preparação? rs
quando acordo de verdade, encho-me de preces rs e por mais limpos que estejam meus olhos e por mais sem pecados que esteja o coraçao rs que nao seja ainda agora Luis rs
e aí o certo mesmo é " puxar o lençol devagarinho e afundar a cabeça no travesseiro"...
Gostei muito Luis
fica por ora o abraço

Yasmine Lemos disse...

Oi Bento! vim agradecer a visita e dizer que já sou sua seguidora,parabéns pela qualidade dos textos.
já está na minha leitura diária
bjs e um belo dia!

Filoxera disse...

Pois eu gostei deste conto, Luis.
E a melancolia pode ser um bom ponto de partida.
Beijos.

xacal disse...

ô, meu caro Bento. Passo por cá para retribuir o carinho e a visita...

também andava com saudades e sede, pois que voltei aqui, nesses oásis de bom gosto e perspicácia a serviço da literatura...

acho que esses laços são assim, ora afrouxamos, ora apertamos a corda e puxamos para perto gente com quem nos identificamos...

um grande abraço...


PS: se me permite a sugestão, dê uma olhada nesse blog: www.planicielamacenta.blogspot.com

depois, se gostar(ou não) e quiser deixe lá suas impressões.