Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

ENTREVISTA COM JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


De volta às entrevistas com uma personalidade marcante na literatura lusófona, dono de um curriculum invejável e, ao qual, estamos gratos pela generosidade das suas palavras.

José Eduardo Agualusa [Alves da Cunha] nasceu no Huambo, Angola, em 1960. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa. Os seus livros estão traduzidos para mais de vinte idiomas. Também escreveu várias peças de teatro: "Geração W", "Aquela Mulher", "Chovem amores na Rua do Matador" e "A Caixa Preta", estas duas últimas juntamente com Mia Couto.

Beneficiou de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997 para escrever «Nação Crioula », a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, que lhe permitiu visitar Goa durante três meses e na sequência da qual escreveu « Um estranho em Goa » e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã Deutscher Akademischer Austauschdienst. Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu « O Ano em que Zumbi Tomou o Rio». No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amsterdão na Residência para Escritores, onde acabou de escrever o romance, « Barroco Tropical ».

Escreve crónicas para a revista LER. Realiza para a RDP África "A hora das Cigarras", um programa de música e textos africanos. É membro da União dos Escritores Angolanos.

Distinguido com vários prémios realçamos aqui o prémio de "Ficção Estrangeira", promovido pelo diário britânico The Independent em colaboração com o Conselho das Artes do Reino Unido pelo livro O vendedor de passados tornando-se o primeiro escritor africano a receber tal distinção

1- Em Fronteiras Perdidas, no conto Mistérios do Mundo, Sebastião afirma: “Não queria que me julgassem seu amigo – Santo Deus, uma cobra, e com asas! Ninguém imagina os mistérios do mundo!” Considera ser este o “leit motiv” da literatura? Imaginar os mistérios do mundo?

Imaginar e reflectir sobre eles. Escrevo para melhor compreender o mundo. Leio muito pela mesma razão.

2- A literatura e, em última análise, a cultura, identifica-se com um certo conceito de institucionalização. Sendo o ofício de escritor um acto solitário e de explanação de ideias próprias e de uma visão particular do mundo, de que forma se poderá o escritor defender dessa institucionalização? Dessa força que se opõe ao pensamento individual?

Escrever exige uma certa irresponsabilidade. Já disse isto noutras ocasiões. Acredito na literatura enquanto paixão, e, nesse sentido, enquanto atividade cuja própria natureza pressupõe uma feroz independência de espírito.

3- “(…) tendo deixado de ver as estrelas – tendo deixado de se confrontar, todas as noites, com o ilimitado, o infinito,(…) os homens perderam a humildade e com a humildade perderam a razão. Fortunato, nu,(…)achou que aquilo fazia sentido: - compreendi de repente a tremenda desimportância da minha nudez.” Será a escrita um dos caminhos para nos despirmos e vermos as estrelas?

Sim, como disse antes, a escrita ajuda a ver.

4- Durante alguns séculos foi à literatura que se confiou, quase exclusivamente, a expressão do pensamento, dos valores e da estética, tornando-se o escritor um juiz face às outras artes acessórias. Hoje, com a globalização e opoder da imagem e do espectáculo, a literatura, e emúltima análise o escritor, não corremo risco de obter um papel subalterno? De não ser ouvido? Ou, pelo contrário, o seu papel é agora mais importante e mais necessário?

Todas as formas de arte constituem vias de diálogo, portanto de debate e pensamento. A literatura é apenas uma delas. Continua tão urgente como sempre. Nada a substitui.

5- Uma última pergunta bem mais suave: Serão os portugueses uns Estranhões e Bizarrocos ?

Nesse meu conto para crianças estranhões e bizarrocos eram seres de fantasia, impossíveis na natureza, e saídos da imaginação de um criador de inutensílios. Há estranhões e bizarrocos em todos os países. Chamam-se poetas.



2 comentários:

Malena disse...

Agualusa não precisava dizer que escrever é paixão porque isso nota-se na sua escrita.
Obrigada pela partilha! :)

Márcia Luz disse...

Bem objetivo e conciso! Gostei muito da resposta à pergunta 2. E, devo concordar, acho que sou mesmo uma estranhona e bizarroca (rs).

Um abraço.