Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

TRANSPARÊNCIAS II


http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/
Depois da polémica, a saga do "Transparências", desta feita, com um texto doce...

Era refugiado na transparência do olhar, debelando uma timidez à distância a que não resistia ao vivo, concordando às escondidas como se fazê-lo de outra forma fosse uma afronta, que percebera ser a sua vida feita de pretéritos e memórias. Ácidas umas, doces as outras, por vezes era na noite fresca com míngua de chuva e um quarto de lua que, lenta e suavemente, regressava às palavras. Amavam-se por palavras. Mais que perseguidos eram empurrados por elas . Ganhavam contornos de fino recorte literário que apelavam aos sentidos de uma forma tão física quanto o permitia a metáfora colada à alma com a pontuação dedilhando borboletas no estômago... Um ganho constante e diário de troca de afectos em jeito de expressões indicando um caminho.

E assim, trazidas pela brisa suave ou em caixas de letras, as palavras respiravam por perto, lembrando-lhe que era na generosidade e na entrega sem pausas, elos únicos, francos e irretocáveis que a vida se tornava tão fácil, no momento em que elas os levavam para lá do céu com o arco-iris e o mundo inteiro lá dentro…





Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

TRANSPARÊNCIAS

Tema de novembro http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/


            (...) 
Nua, encostada à parede, de pernas abertas, ligeiramente flectidas, dedilhando as pregas do sexo com a perícia sincopada de um pianista, afundava  o dedo médio e o indicador e transportava-os até à superfície humedecendo a entrada enquanto a sua mão esquerda comprimia,  ao de leve, os seios. Ansiava tê-lo ali, já, em permanência, desfrutando do seu prazer. O ritmo do toque acelerou-se mal sentiu a chave na porta. Lá fora chovia com uma intensidade digna de filme e ele, encharcado e a tiritar de frio, olhou-a e, de imediato, se desembaraçou do casaco, do qual, segurava ainda com uma lassidão morna, as abas e um destroço de guarda-chuva. Tirou a camisa e deixou-se tombar de joelhos diante do seu sexo. Apoiou-se lhe nas pernas, ligeiramente acima do joelho estendeu a língua e começou um lento percurso de carícias  pelas coxas, titilando, ao de leve o clíoris. Ela cravou-lhe as mãos na nuca empurrando-o, com firmeza, para o sexo que  entreabria  em flor
saudando a chegada das manhãs de Abril.
- És meu! – Sussurrou-lhe ela.
- Seeempree… -  Anuiu ele..
Puxou-lhe o cabelo para trás despegando-o de si. Introduziu o dedo médio e o indicador,  alguns segundos, dentro do aveludado húmido do sexo  não se coibindo de lhe enterrar os dedos na boca para que ele se inbriasse com o seu perfume adocicado. Empurrou-o de novo, com ligeireza. Ele, dexou-se cair  e deitou-se no chão em câmera lenta, ela ajoelhou-se  e puxou-lhe as calças molhadas e as boxers. A língua dela descobria, agora, um carreiro  até ao interior das suas pernas sentindo  na face a carícia do sexo entumescido. Não resistiu: provou-o … Uma e outra vez... E estendeu-lhe os lábios para um beijo de partilha e volúpia.Deixou descair as ancas e num espasmo arregalou os olhos mal o sentiu entrar. Começou então um lento vai-vem entrelaçando os dedos nos dele com os nós apoiados no chão. O movimento tornara-se mais rápido e insistente. Consumiam-se na transparência fluida do olhar onde cabia o arco-íris e o mundo inteiro lá dentro  (...). A fricção tomara uma cadência frenética só parando no estremeção e no murmúrio imperceptível dos sons guturais até se sentir inundada de prazer. Ela oferecera-se com generosidade, ele entregara-se sem obstáculo.  (...) ele estranhava-lhe o silêncio. Ela, para quem as palavras eram supérfluas quando a certeza era firme e esta se manifestava no movimento  do corpo em tradução livre do desejo, sorria-lhe encontrando, finalmente, não aquilo que procurava, mas aquilo que os fazia felizes…

Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

CHICKEN CHOP SUEY




Aqui D'El Rei! Por onde andas? Vinde depressa que a nação engasga-se em soluços acanhados de chicken chop suey...

Sábado, 6 de Novembro de 2010

ENTREVISTA A CARLOS PINTO COELHO



Carlos Nuno de Abreu Pinto Coelho, jornalista, escritor, fotógrafo e brilhante comunicador e homem de cultura,  dispensa apresentações. Nasceu em Lisboa em 1944, frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa até ao 5º ano e ingressou no Jornalismo como repórter do jornal Diário de Notícias em Janeiro de 1968. Foi um dos fundadores do diário Jornal novo  dirigido por Artur Portela Filho. Até 1977 foi redactor da Agência de Notícias A.N.I., correspondente em Portugal da Rádio Deutsche Welle e redactor da revista Vida Mundial dirigida por Natália Correia. Na Radiotelevisão Portuguesa  foi director-adjunto de Informação (1977), chefe de redacção do telejornal - Informação/2 do Canal 2 (1978), director de Programas (1986/1989) e director de Cooperação e Relações Internacionais (1989/1991). Repartiu o seu talento pela rádio, pela televisão e pelo ensino onde foi conferencista no Instituto de Altos Estudos Militares, professor de jornalismo na E.T.I.C.e no Instituto Politécnico de Tomar. Ao longo de uma vida dedicada ao jornalismo, à cultura e à comunicação desempenhou muitos outros cargos e recebeu diversos prémios e distinções salientando-se o grau de Comendador  da Ordem do Infante D.Henrique atribuído em 2000. Dono de uma simpatia e afabilidade extremas, de mãos dadas com uma vasta cultura, teve a generosidade de aceitar o nosso desafio e deixar-nos aqui um belo momento de cultura e comunicação.

Entrevista de Luís Bento

A Carlos Pinto Coelho

31 Outubro 2010


1-Jean Dubuffet na sua “Cultura asfixiante” defendia que “(…) Um pouco de informação, o encontro fortuito de uma produção artística, alimentam sem dúvida o espírito de criação. Mas uma excessiva informação, um demasiado arreigamento pelas produções de arte, podem esterilizá-lo”. De certo modo, é o que está a acontecer hoje? O excesso de informação, o facilitismo da internet e de outros meios audiovisuais veio esterilizar o espírito criativo?


A resposta é, obviamente, não. Obviamente porque os factos estão aí, abundantes, a demonstrar que nunca o espírito criativo se manifestou com tamanha profusão e exuberância como nos nossos dias. A imensa parafernália de instrumentos da modernidade não é mais do que uma oferta de materiais ao serviço da criação, não é a criação ela mesma. Seria o mesmo que perguntar a um excelente chefe de cozinha se uma grande variedade de alimentos e uma boa quantidade de máquinas disponíveis para os confeccionar lhe roubam criatividade para inventar receitas novas. Claro que não acontece nada disso.

O ruído provocado pelo exagero de informação trepidante que caracteriza o nosso tempo é um sobressalto comparável ao bulício que o Iluminismo provocou na sociedade dogmática em que nasceu. Com mais liberdade de ideias e de comunicação, o espírito dos homens desdobra-se em sucessivos e inesperados patamares de inovação. E o espírito criativo dos homens do Iluminismo não se “esterilizou” por isso, como sabemos.


2-“A cultura revela tendência para ocupar o lugar até há muito pouco tempo ocupado pela religião. Tal como esta, possui agora, os seus profetas, os seus santos, (…) O conquistador apresenta-se ao povo não com as roupagens do bispo, mas do Prémio Nobel”. (Jean Dubuffet) Concorda com esta afirmação?


Todas as evidências estão aí para provar que o confronto entre o conhecimento e a religião é coisa do passado e que ambos podem coexistir em boa paz. Salvo em questões de comportamentos - onde subsistem ainda fronteiras muito difíceis de ultrapassar para os crentes militantes - já não há disputas de prioridades. Tanto a religião como o conhecimento aprenderam a instalar-se nos lugares que a tolerância lhes impôs e, se alguma vez esse equilíbrio se rompe, a sociedade civil insurge-se contra o prevaricador. Não vejo, portanto, que os heróis de um lado ou do outro tenham de se transverter para melhor sobreviver.


3-O programa “Acontece”, na televisão foi um hino à palavra e à cultura. O seu término e com a justificação pública de” ser muito caro”, que comentário lhe merece? Será o poder político, de tal forma obtuso ou receoso da cultura? Ou o povo insensível à sua importância? Quem é que anda a desafinar?


Não quero voltar a uma questão velha de anos, sobre que já me pronunciei exaustivamente. Nada aconteceu de novo que me mereça repetir que o orçamento do programa era modestíssimo e que a afirmação do ministro Morais Sarmento foi uma leviandade. O homem ficou carimbado por isso, na memória dos milhares de portugueses que perderam o “Acontece”. Continua viva, na Internet ( http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?acontece ) a petição de protesto assinada por mais de 16 mil pessoas e aonde ainda hoje alguns vão deixar umas palavras, em romagem de saudade...


4-Em relação aos livros e face às novas tecnologias e novos registos audiovisuais qual será, em seu entender, o futuro da literatura e, em última análise, da cultura em geral?


A Literatura existiu antes do Livro e seguramente existirá depois dele. Os conteúdos do espírito sempre fizeram caminho aproveitando-se dos novos suportes mas nunca morreram quando eles se tornaram obsoletos. A “Aparição” de Vergílio Ferreira há-de sempre ser luminosa, seja em que suporte “aparecer”. O mesmo para a Arte na imagem ou na música, cuja vitalidade só dependerá dos criadores, não dos materiais em que for produzida. A modernidade é coisa tão antiga e tão constante como o próprio género humano, não há que temê-la ou tentar refreá-la. O futuro começou ontem e já hoje o estamos a viver, não é verdade?


5-Para terminar, uma questão mais leve…Tendo em conta o seu percurso profissional , o que falta ainda “acontecer “ na sua vida?


Definitivamente, o livro que estou a escrever.


Muito cordialmente

Carlos Pinto Coelho

Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

O LUGAR DA MULHER



Agora que estávamos em bom ritmo, uma arreliadora avaria no portátil veio trazer alguma perturbação à nossa escrita e à sequência de textos e entrevistas. Nada que não possa ser ultrapassado com alguma dose de paciência. Sendo este espaço um local eclético e de partilha, à falta de verve própria, de vez em quando, recorremos à verve alheia, por isso, não podíamos deixar passar em claro esta “pérola” decoberta no “Mestre Cozinheiro”, uma décima edição datada, algures, dos anos noventa e que, anacronicamente, manteve em edição esta “pérola”. Da esposa linda, limpa e asseada, à pega fora do lugar ou ao cuidado para não verter gotinhas da tampa da panela nos ladrilhos, o texto é uma preciosidade de clichés e anacronismos sobre uma certa imagem da mulher pronta para servir o marido e convenientemente vestida para receber os amigos com galanteria... Aqui fica o desafio para rirem a bandeiras despregadas e lançar o mote para a discussão e debate... Força!

OS SEGREDOS DA COZINHEIRA
 
Nenhuma senhora, ciosa da sua própria aparência física, e, também zelosa da boa harmonia conjugal sob os seus múltiplos aspectos deve descurar o seu vestuário dentro de casa, e principalmente na cozinha, onde a sua acção é preciosa.

O marido, quando chega a casa, aprecia ver a esposa limpa e arranjada. É bem conhecida a gota de água que faz transbordar o vaso. Uma pega que não está como deve ser, uma nódoa, um aspecto desmazelado, ofendem, não só os olhos mas, o que é mais grave, o coração. Todas as mulheres devem meditar nesses problemas caseiros, que por vezes assumem carácter desagradável. O marido entrando em casa, gosta de ver a esposa radiosa, fresca, com um vestido impecável e um gracioso avental posto como resguardo e emprestando ao conjunto certa graça, particularmente atraente.

Conta-se até, a propósito, uma queixa de certo marido. Dizia ele: “Encontrei uma linda rapariga, limpa, asseada, cuidadosamente penteada, e discretamente vestida. Gostei e casei com ela. Um ano mais tarde, quando entrava em casa, comecei a encontrar uma mulher descuidada que durante o dia, tratou das suas ocupações de dona de casa, permanecendo enfarpelada com um vestido enxovalhado e com um avental mal posto, sem feitio e sem forma. Experimentei com doçura fazer-lhe sentir a minha desaprovação”, ao que ela replicou num tom de ofendida: “ O que queres: não se pode ao mesmo tempo tratar do governo da casa e conservar a aparência de uma senhora”.

Não há dúvida, que este marido é quem tinha inteira razão. Há que sermos não só senhoras, mas também muito femininas, dentro da nossa casa. Isso predispõe bem aqueles que nos rodeiam. Na cozinha, manter uma aparência de frescura é um segredo notável.

O problema do vestuário da mulher em casa, tem até sido estudado por pessoas especializadas no género. Os vestidos de trazer por casa devem ser tecidos sólidos, resistentes e duráveis. Coloridos, frescos e agradáveis à vista. Os aventais poderão ser em tecidos claros, luminosos, às riscas, em escocês, com flores, com pintinhas ou às barras. E assim, convenientemente vestida, a mulher poderá estar na cozinha e receber os seus íntimos com extrema galanteria. (…) Quando se destapa uma panela, ter o cuidado de não espalhar nos ladrilhos as gotinhas que recobrem o interior da tampa….

10ª edição
Editorial Lavores
Agência peninsular
Avenida da igreja, 68, 1º dtº



Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

ENTREVISTA A CARLOS ADEMAR

E depois de mais uma folgazinha nas nossas palavras, fiquemos com as do convidado desta semana.

Carlos Ademar, nascido em Vinhais em 1960, desenvolveu a sua actividade profissional no âmbito da investigação criminal, tendo a escrita sido companhia permanente desde muito cedo. A veia literária manifestou-se sob a forma de livro em 2005 com o título Crime na rua direita, seguindo-se O homem da carbonária, entre outros. Primavera adiada, o seu último romance, é uma viagem à memória, à Primavera Marcelista e ao final dos anos sessenta dominados pelo medo e pelo desejo reprimido de liberdade. Tive o privilégio de conhecê-lo num curso de escrita criativa. Aliada a uma excelente colocação de voz, a clareza das ideias e a simpatia distribuida a rodos deixou a plateia rendida e àvida de questões como se de uma aula se tratasse. Algumas tive ocasião de lhas colocar na altura, as outras espraiam-se aqui, hoje, numa entrevista generosamente concedida a este espaço.


1 – Conhecendo o seu percurso profissional, a questão é incontornável: o facto de muitos profissionais da polícia se dedicarem à escrita é uma necessidade? Uma catarse? Ou, simplesmente, porque há matéria em bruto para ser trabalhada?

 Nada sei sobre as motivações dos outros colegas que publicam, quanto a mim, das hipóteses que deu, excluindo a catarse, as restantes têm pleno cabimento. Na verdade, o que me impele à ficção é, desde logo, o gosto pela construção de histórias e passá-las à escrita, procurando, o mais possível, que o formato seja agradável a quem vai ler. Depois, é como diz, vivemos profissionalmente tantos episódios humanos incríveis, convivemos com personagens que ultrapassam em muito tudo quanto o mais fantasioso ficcionista pode aspirar alcançar, que considero um desperdício deixá-los esfumar-se num qualquer apeadeiro do tempo para todo o sempre. Com a consciência de que fico aquém do que desejava, ao escrever procuro deixar um testemunho deste tempo que me foi oferecido para viver, com as suas grandezas e com as suas misérias, nunca esquecendo a componente emoção, essencial a qualquer forma de criação.

2- Começou com o romance policial e enveredou pelo romance histórico. É uma viragem definitiva? Um abandono do policial?

Definitivamente, não. Só se pode escrever sobre aquilo que de alguma forma se domina. Tenho a veleidade de pensar que conheço a investigação criminal suficientemente para dela tirar partido em termos ficcionais. Gosto de História o suficiente para conhecer ou estudar os temas que vou abordando nos meus livros. Gosto de política o suficiente para me interessar e ter opinião sobre o que me rodeia e que interfere com o colectivo e, dentro da minha leitura, conseguir perspectivar o que pode vir a passar-se tendo em conta as premissas que valorizo. Estes são os três grandes temas que têm servido de tronco essencial a todos os meus livros. E não me parece que venha a ter grandes dificuldades em duplicar ou triplicar o número de livros que tenho, usando esta tríplice, dando mais ênfase a um ou a outro tema numa ou noutra obra.

3 – Entre os dois registos, policial e histórico, sente que há maior rigor e preocupação estética no romance histórico?

Não! De forma alguma. Em cada livro, tenha ele maior ou menor peso de uma ou de outra temática, as preocupações estéticas estão sempre em primeiro lugar ou, se quiser, no mesmo patamar que a trama e a envolvente emocional. Nenhum livro sai da minha mão para a editora sem que eu esteja convencido de que melhorá-lo mais é impossível naquele momento, isto independentemente da temática que aborda.

4 – Tendo em conta a evolução tecnológica e os novos suportes digitais da escrita que caminho antevê para a literatura?

A literatura em si não se ressentirá desde que sejam encontradas as fórmulas certas para manter o mercado: produção, distribuição, compensação – assuma esta a forma que assumir. Agora, tenho em conta a rapidez com que a tecnologia tem evoluído, estou convencido de que o formato tradicional do livro está posto em causa. Não sei, talvez ninguém saiba, qual o tempo necessário para levar ao seu desaparecimento, mas calculo que não seja muito tendo em conta os últimos desenvolvimentos tecnológicos e o enorme desequilíbrio do preço de produção entre o livro em papel e o e-book. Há duas semanas recebi uma carta da editora a pedir autorização para que os meus livros sejam passados a este novo formato a fim de serem comercializados. Ainda me soa estranho ler um livro sem o folhear, tomar o seu peso, sentir a textura do papel, da capa, cheirá-lo, mas é inevitável, sendo apenas uma questão de tempo. Dei autorização, claro.

5- Uma última questão glosando o título do seu último livro e levando em linha de conta a situação do país… A primavera foi, definitivamente, adiada?

O título do meu último livro, Primavera Adiada, ao ser criado tinha um duplo objectivo: remeter para o consulado de Marcelo Caetano, altura histórica em que decorre a trama, e logo, para as expectativas goradas de muitos portugueses pela postura do presidente do Conselho, designadamente no que respeita à não abertura do regime e à guerra colonial que Portugal travava em África; num segundo plano, o título pretendia referir-se à vida amorosa de Marta, a protagonista, que foi adiando a sua primavera até ao desengano final. Penso, contudo, que a pergunta faz todo o sentido se associamos o título do livro ao tempo presente. O 25 de Abril abriu-nos ao mundo. Portugal pôs fim à guerra e resolveu a questão colonial. Mais tarde aderiu à então CEE e, paulatinamente, os portugueses conheceram dias de grande progresso económico, ao ponto de, com toda a propriedade se poder dizer que, em termos médios, nunca os portugueses viveram com tanta qualidade de vida. A verdade é que as expectativas têm de ser sempre positivas; temos o dever de olhar para cima, tentando igualar os que vivem melhor do que nós. Era esse o objectivo, mas nos últimos tempos as contas têm-nos saído furadas. A crise mundial que estalou em 2008 revelou as nossas fragilidades para vivermos numa sociedade tão aberta, competitiva e global como aquela em que estamos inseridos. Conhecemos o povo a que pertencemos, conhecemos os seus defeitos - a inveja, a mesquinhez, o facilitismo -, e as suas virtudes – a crença em causas justas, o voluntarismo e a capacidade de trabalho. Um dos dramas históricos deste país foi sempre o mesmo: falta de elites competentes. As poucas que emergem, e por isso nos governam, têm os defeitos mais condenáveis do povo, sem possuir as suas virtudes. Foi isso que nos puxou sempre para trás ou nos impediu de seguir em frente. Um pecado quase genético do nosso ser colectivo: falta de visão estratégica. Poucas vezes a conseguimos e quando isso sucedeu, nas Descobertas, fomos grandes no mundo, e atingimos uma projecção muito superior àquela que seria a espectável face à nossa dimensão territorial e populacional.

Luís, obrigado pela atenção e felicidades.

Um abraço

Carlos Ademar

Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

AINDA O ORÇAMENTO...


Não é preciso ir à Lua para saber isto: Orçamento, um pequeno passo para Bruxelas um grande passo para a calamidade...

AS PAREDES...


Na ausência da palavra, a aperaltar-se para os novos textos e entrevistas que se seguem, aqui fica o testemunho fotográfico. Para quem duvidava, afinal, as paredes têm ouvidos...