Domingo, 31 de Outubro de 2010

DOIS ANOS!



"Sem a verve demencial de Ezra nem a claustrofóbica garatuja de Kafka, um novo escriba assomou à janela da cidade branca e anestesiada. Entre a crítica Queirosiana e a caricatura do Gervásio, medrou uma ervinha cáustica e teimosa no eucaliptal da Aurea Mediocritas lisboeta. Entre "Les Beaux Lettres de L'Academie" e os subsídios da Gulbenkian, não regressou o Sebastião nem estamos em Brideshead , por isso, revivamos o presente neste espaço e aproveitemos os Bentos da nova Literatura..."

Foi assim que começou a aventura... Dois anos, muitos textos, um livro publicado e um número cada vez maior de amigos e leitores depois, estamos de pedra e cal trabalhando num cada vez maior rigor estético e literário de acordo com o grau de exigência, também ele maior, do público. Assim sendo, aguardemos pelos novos textos na forja, pelas novas entrevistas a escritores e outros homens de cultura e por mais algumas novidades...

Sábado, 30 de Outubro de 2010

AFINAL... TEMOS TANGO!





Afinal... Temos tango... Um folhetim mexicano, dois figurantes, uma fatia de bolo-rei e um nado-morto... Orçamento...

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

ENTREVISTA A CATARINA FONSECA


Um espaço que se pretende vivo não se limita a ser juíz (com mais ou menos polémica salarial) em causa própria. De vez em quando mete a foice em seara alheia. Voltamos, por isso, ao ciclo de entrevistas a alguns escritores da nossa praça.

Nasceu em Lisboa em 1969. Licenciada pela Faculdade de Letras de Lisboa e mestre em Literatura Inglesa mantém a imagem fresca e jovem, levemente rebelde, que lhe conheci nos tempos de estudo. Ainda muito jovem publicou A Malta do 2º C que lhe valeu o Prémio Inasset Inéditos de Literatura Infantil 1988. Mais tarde publicou A Herança, obra merecedora do Prémio Revelação APE 1987 e Adeus, Al Capone. Tendo iniciado, posteriormente a sua escrita para adultos com Boi Vermelho a que se seguiram muitos outros títulos e colaborações com diversos autores, mantendo, actualmente, colaboração regular com a revista Activa. Passemos pois às cinco questões da praxe onde a dscontracção e o bom humor são a tónica dominante.

 
1 – Entre “A Malta do 2º C” e “Boi Vermelho” ou “A Guardiã” experimentou uma série de registos e de abordagens ou temas. Sendo o primeiro dedicado ao leitor jovem e, salvaguardadas as diferentes faixas etárias, de que forma sentiu o grau de exigência dos dois tipos de leitores? Algum foi mais fácil que outro? Ou por outra: Há algum leitor” fácil?”

- Esta pergunta é muito fácil: o meu leitor sou sempre eu, portanto em teoria ele nunca muda, o que dá imenso jeito. Como eu sou uma leitora incrivelmente chata, não dá jeito nenhum porque passo o tempo a levar na cabeça de mim própria. E aborreço-me com muita facilidade, daí estar sempre a mudar de registo. Numa revista, temos sempre a preocupação de chegar aos leitores, e sabemos mais ou menos quem eles são e de que é que gostam. Um livro é essencialmente egoísta: nunca tenho a sensação de que há alguém a quem eu tenho de agradar ou que não vai perceber isto ou aquilo. Claro que, como sou otimista, confio que haverá do outro lado muitas almas gémeas que me vão perceber e acompanhar. E há.

2 – “Talvez, pensou ele, aconteça como nos espelhos partidos. Talvez agora a imagem e a realidade se tornem a unir por um momento, antes de se voltarem a separar” (Boi Vermelho) Afinal, É isso? Imagem e realidade da vida separam-se para se voltarem a unir? Ou a literatura é o elo de união entre ambas?~

- Hehehe. Não. É só uma frase bonita que não vale a pena explicar. As frases bonitas são como as anedotas, se as explicamos deixam de ter graça.

3 – Relativamente ao trabalho literário… Acha que o trabalho literário é reparar no que está escondido no quotidiano ou, por outro lado, as coisas estiveram “lá” sempre visíveis e é a intervenção do autor que nos ilumina o caminho?

- hmmm. Não sei se percebi a pergunta. Acho que as coisas não são ‘visíveis’, as coisas existem para cada um segundo aquilo que queremos ou podemos ver, por isso o estar visível depende de quem vê. Cada um tem um código de descodificação do mundo diferente e a literatura é a celebração dessa diferença. Eu gosto de tentar fazer com que as coisas sejam vistas de uma maneira diferente da habitual, para quem as quiser ver comigo. O que me fascina nos livros é precisamente essa elasticidade da alma. Ver o que é visível a outra pessoa, entrar dentro dos seus olhos e do seu código e aprender a ver de outra maneira.

4 - “Herdeiros da história da família, Pedro e Gloriana vão ter de encontrar uma forma de resistir àquilo que os afasta.” ( A Guardiã) Considera ser esse o papel da literatura? Dar-nos o instrumento para ver o mundo diferente de cada vez que olhamos e, assim, encontrarmos forma de resistir àquilo que nos afasta dele?

- Sim, nunca tinha pensado na literatura como uma espécie de treino da atenção, mas é isso mesmo. Não necessariamente atenção ao mundo que está fora de nós (eu sou a pessoa mais distraída do universo, tenho sempre imensa vontade de rir quando me falam em atenção ao mundo, penso sempre ‘ó coitados, se eles soubessem…’), mas atenção à forma como o tornamos nosso e o recriamos. Um escritor não presta atenção ao mundo, presta atenção à forma como ele existe em nós. A teoria da caverna não é necessariamente uma coisa má… Acho mesmo que é uma das coisas que todas as artes têm em comum: tornam-nos mais atentos (seja ao que for…), e mais subversivos, quando nos mostram outros caminhos para lá daquele que a nossa tão pouca atenção nos mostra…

5 – A questão mais fácil… Afinal, já sabe” para que é que ainda serve um homem?”

- Hehhehe. Eu sei, eles é que, coitados, parece que ainda não perceberam…


Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

A TEMPESTADE

(Museu Berardo)

Não é bem uma tempestade, antes um segundo aniversário de existência que se aproxima a passos largos, novo ciclo de entrevistas a escritores, novos textos em preparação e uma regularidade que se impõe pelas quase  trinta mil visitas, motivo mais que suficiente para a consolidação do processo criativo, agora, mais firme que o remendado buraco orçamental.

Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

O CHEIRO DA CHUVA



Fábrica de letras - Outubro
Na sua pressa, o mundo virara-lhe costas e não lhe dera tempo de agarrar o sonho. Ao certo não sabia em que ponto se perdera na angústia e descambara na resignação. Por isso, vivia a vida imaginando-a, gastando horas em recordações e leituras. Alheia à mulher sentada a seu lado que, de sorriso escancarado até ao esófago debitava decibéis de desinteria verbal, entre a pedra mármore da cozinha e a prima, tontinha, internada no Júlio de Matos que ficara bem nas fotografias por causa dos oito megapixels da fabulosa máquina, oscilava entre a observação do espécimen a quem a vida reservara metade de coisa nenhuma, o caderno aberto diante de si e o legítimo saborear do café anestesiado com duas grossas colheradas de açúcar.

Algures entre o cheiro da chuva a cair na terra húmida e a menina desenhando corações com o indicador direito sobre o bafo colado na vidraça, as recordações e as linhas tomavam forma nas histórias do António Roscas que torneara a alcunha na fábrica de porcas e parafusos falida até à medula, no Manel que andava lá fora a lutar pela vida ou na mãe que, de ouvido sintonizado na rádio em frequência modelada de dor , enviava a proverbial notinha de vinte escudos no cabograma acabando por arrastar os joelhos rasgados, em Fátima, pelo regresso do irmão de África que perdera uma perna e deixara lá a alma inteira. O que mais guardava de precioso era a imagem do outono a bater à porta, as camisolas de gola alta a picar no pescoço, a avó com as mãos ásperas numa carícia dengosa, o peixe frito a pingar óleo na toalha em noite de sexta- feira santa para não cometer pecado, os reis e rios de Portugal decorados na ponta da língua e o cheiro da chuva. A memória era um fio condutor despojado de vontades, em corrente contínua, onde, pelo meio, sobrevinham as mágoas. Tinha muitas, mais que pedras no caminho e nem castelo ou muralha ou verso do Pessoa lhe apagava o sorriso, para além de que gostava de linhas escorreitas, palavras doces e chocolate amargo. Escrever não era mais que ler parágrafos alinhavados pelo tempo e, se este não era mais que uma sucessão vertiginosa de coisas por fazer que lhe desarrumava a vida, formatada para aceitar o infortúnio com naturalidade, às vezes era na doçura da palavra e no travo amargo do chocolate, arrastados pela memória, que fazia um intervalo, percebendo então que assim, o mundo andava bem mais devagar…


Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

BENTO SEM TABUS

(Excelente trabalho fotográfico de Nuno Pires)

O Bento sem tabus e sem IVA! O Lusitânia Online assume o compromisso de não aumentar a taxa do IVA, não aumentar o preço por exemplar e manter os portes de correio grátis! Descontos a partir do segundo exemplar e uma leitura fresca e corrosiva que o ajudará a esquecer o Orçamento... ou a falta dele...

Sábado, 2 de Outubro de 2010