Enquanto não sai o novo texto e a explicação para tão prolongada ausência, revisitemos um texto, infelizmente, actual...
- Há fogo! Há fogo! – Lapidar, a frase acompanhada dos sinos a rebate, acordara a vila estremunhada. Começara no cimo do cabeço, durante a noite, as labaredas cavalgaram a galope em direcção ao casario encontrando-se a duas braçadas de distância da casa de Manuel Pereira que, em pijama, se dirigiu para o quintal pegando no primeiro objecto que encontrou. O fogo já lambia o muro e ele, no auge do desespero, tentava apagá-lo à paulada. Impotente, ficara hipnotizado contemplando aquela magia oscilante entre o laranja e o vermelho. Num ápice. Vieram-lhe à memória a sucessão de imagens da sua vida como se fosse morrer agora… Ali…
Se os animais precisavam de forragem, a fome também dava nó cego no estômago dos homens. Farto de brincar aos pastores, trocara as cabras pela colher de pedreiro. Viera para Lisboa com dezasseis anos no bolso mais cento e cinquenta escudos. Entre a serventia de pedreiro e os biscates diários, Lisboa era terra de horizontes negros e vistas curtas. Com a guerra colonial a bater à porta, e, dado a sua vida não ser tatuada com amor de mãe e Guiné 64, entre a argamassa e o gesso, jogara ao monopólio geográfico e, sem passar pela casa partida, saltara directamente para França onde se tratava a liberdade por tu e se virava a esquina para encontrar emprego. Correra a eito várias páginas do dicionário de profissões, comera o pão que o diabo amassou, bem duro por sinal, acompanhado de azeitonas ressequidas e latas de conservas fora de prazo. Dado que o saber não ocupa lugar, o seu cérebro alugou quatro assoalhadas amplas com vista para o conhecimento, encaixotado nas entrelinhas das escassas horas vagas. Metera-se a estudar… Os negócios floresceram, assistira ao golpe de estado travestido de revolução. Marcado pela saudade, regressara na esperança de encontrar um país diferente e investira tudo na terra.
A sua querela com João Godinho, o “doutor João Godinho”, vinha de longe, do tempo do José Mário Branco. À discussão sobre marcos e palmos de terra somara-se um outro episódio numa equação de difícil resolução. O pai de Manuel Pereira, após uma jornada nas terras, deparara-se com um burro morto à entrada da vila. Dirigira-se ao posto da Guarda Nacional Republicana onde o pai de João Godinho exercia a autoridade de sub-chefe, de forma displicente e autoritária, a fim de dar conta da ocorrência. Lerdo das ideias mas pronto a zombar do homem, o guarda, acompanhado da mais fina grosseria e mau humor perguntara-lhe secamente:
- Um burro morto à entrada da vila? Que tenho eu a ver com isso?
- O pai de Manuel Pereira , homem inteligente, dono de um humor refinado, não se ficara: - Achei por bem avisar primeiro a família… E virou costas. A partir desse dia João Godinho ficara conhecido como o filho do burro… Mais uma acha para a fogueira do desentendimento entre ambos. João Godinho, verme apreciável na cadeia de invertebrados da vila, apaixonado pelo dinheiro e pela ostentação, caíra de amores pela política. Vá-se lá saber como, conseguira chegar às esferas partidárias e ser eleito presidente da Câmara. Com o ar de fuinha e poucochinho que nunca perdera, um ano antes, chegara às falas e tinha sondado Manuel Pereira sobre os terrenos adjacentes à casa… “Um consórcio estrangeiro estava interessado em comprar a zona, ele tinha a Assembleia Municipal na mão… Iria ser construído um hotel de charme e campo de golfe… Se tudo corresse bem, aquela gente era generosa e sabia reconhecer favores… Ele só teria que vender a sua parcela, a Câmara já assinara o processo de cedência dos terrenos do cabeço…” Recusara… A fábrica ardera em Outubro passado misteriosamente… Agora, no pico do verão, o fogo começara à meia noite…
- Anda daí homem de Deus! És doido? Morres queimado! – E foi, agarrado pelo seu vizinho, que Manuel pereira, a custo, se deixou levar… Morto e enterrado estava ele, simples figurante nos destroços calcinados daquela tragédia…
Na manhã seguinte, no rescaldo do incêndio, o inspector da judiciária teorizava com pormenores lúgubres sobre os indícios recolhidos fazendo gala dos seus conhecimentos técnicos…
- Sabe, isto é experiência… Ando nisto há muitos anos… Fogo posto… Claro! Um gato ou um coelho regados com gasolina… E a dor faz o resto…
“Que não, que não… Pois… Apanhá-los… Não há flagrante, nem testemunhas…
Manuel Pereira, a poucos metros de distância, ouvira o suficiente, não precisava de flagrante ou indícios, as roupas caras, o carro recente, a vida faustosa e o novo-riquismo atingido em flecha, os estranhos amigos de botões de punho e camisa imaculada em seu redor com constantes e afáveis palmadinhas nas costas, sorrisinhos e esgares eram indícios mais que suficientes para decretar a sentença…
Passaram-se os dias e as noites, até que, indo João Godinho pela estrada em direcção a mais uma reunião com o consórcio, Manuel pereira se lhe atravessou à frente de canos serrados em punho:
- Salta cá para fora meu cabrão! – O tom da ordem era um rio sem margens para galgar dúvidas. De mãos no ar e voz trémula, João Godinho balbuciava aterrorizado:
- Ó homem de Deus… Tu não te desgraces! Não dês cabo da tua vida… Vamos conversar…
- Ó meu cabrão! Deus não é chamado para estas contas… e o gajo, se uma vezes é magnânimo… Outras vezes sabe ser lixado! Eu dei cabo da vida no dia em que te salvei de morrer afogado no poço quando eras miúdo… Invejoso de merda! Sanguessuga! – E fitando-o com desprezo ainda o invectivou – Farpelas novas… Fina cambraia, gravatas de seda, os amigos do consórcio tratam-te bem… Deves cagar pão de ló…
- Ó... Homem… Deixa-me explicar-te…
A coronhada na testa já não deixou nada…
Na manhã seguinte, no meio do banquete amanhado no adro da Igreja, o aplauso do povoléu e o barulho das máquinas eram a nota dominante no toque a finados que pairava no ar. O assessor do presidente anunciara a concessão ao consórcio sob a promessa de criação de riqueza e postos de trabalho para a vila. Se antes se submetiam à cartilha Deus, Pátria e Família, agora sucumbiam à terapia dos almoços grátis… Os buldozzers, de forma trepidante, iniciaram a marcha para as terraplanagens e medições topográficas… E eis que, chegados ao cimo do cabeço, avistaram um corpo inerte meio tombado sobre uma cova natural. Quando se aproximaram, depararam-se com um cadáver… Era João Godinho… enfiadas na testa rebentada, erguiam-se, imponentes, duas enormes orelhas de burro feitas de cartolina.