Domingo, 29 de Agosto de 2010

A FOME REVISITADA

Foto: Nuno Pires

Lembram-se deste texto? O Volkswagen, na época com vinte anos, foi um dos protagonistas de uma história amarga. Agora, com novo dono, esperemos que protagonize outras... mais doces...


...Acordo num salto impulsionado por mola invisível. O despertador há muito que estrebuchara em alarmes perdidos na twilight zone...sete e um quarto!!! A dor de cabeça aumentou proporcionalmente à consciência do atraso... nem tempo tinha para pequeno almoço...O banho ! Rápido... um duche forreta com água semi quente, uma passagem de máquina ao de leve pela pele, metade dos pelos teimosamente semeados na face...não há tempo a perder...tou atrasadíssimo!!!... Detesto isto! e esta dor de cabeça... e de estômago... que seca! Os patamares descem-me sob os pés ao ritmo de records olímpicos, deito rua abaixo até à esquina onde está estacionado o meu amado Golf de 1989... mochila arremessada , cinto... sapatada no acelerador... sapatada no acelerador...chave...Não! hoje não! não me vais dar nega...que nervos!...vá lá!!...vá lá... pegou!!... Rápido!... autoestrada e ainda chego a tempo... o pior é esta dor de estômago... porra! Nem café, nem pequeno almoço, todo desalinhado... o Golf rola em aceleração máxima para os seus cavalos cansados da fadiga acumulada ao longo de 19 anos...Filipe Massa faz uma prova impressionante, destreza máxima na descida do monsanto... e esta dor de cabeça potenciada pela fome... que dor de estômago... Amoreiras... lá tá... a tal ruazinha com parquímetros avariados. A sorte brilha na forma dum lugar vago... mesmo à maneira... 8h15... vamos...corre... corre Carlos Lopes... do Rato à Castilho, frente ao Heron, é um tirinho... passo em corrida desenfreada pela faustosa sede do partido do governo, detenho-me trinta insignificantes segundos a pensar nos sapatos Prada do primeiro ministro ao preço de dois salários mínimos...chego à esquina da Herculano, cinco minutos... se não chego em cinco minutos os telefones já devem estar todos a tocar... detenho-me diante do velho que, à falta de rendimento mínimo garantido, arredonda a pensão de sobrevivência distribuindo o Destak... e é então que reparo na velha... olhar vago, aflito, desesperado, tom lamentoso, roupas puídas e as mãos retorcendo-se em movimentos infinitos:
- Hoje não estão a dar nada?
- Não... - respondeu o velho - hoje nem os da Danone, nem os da Matinal...nada!
Olhei para o relógio...já está...vou chegar atrasado...A curiosidade matou o gato e eu, que de felino e belo ainda me restam seis vidas...perguntei:
- Estão a dar o quê?
- Ah...Normalmente estão aí as carrinhas a fazer publicidade e dão iogurtes, leite, sumos...mas hoje não vieram...a velha vem cá todos os dias para comer qualquer coisa...
...Olhei para ela... o seu olhar, vago, perdido, olhando em redor na esperança de que ainda aparecessem...



... o Velho deu-me o Destak...levei as mãos ao estômago... Foda-se! Perdi a fome...

Sábado, 28 de Agosto de 2010

O REGRESSO DO MORTO-VIVO



“O português, mal nasce, deixa de ser criança, e fica, logo, com oito séculos” (1) talvez, por isso achasse ser esse o peso que o vergava contorcendo-se em esgares, pantominas e outros sinais exteriores de síndroma de dor aguda às seis da manhã de um domingo obscenamente quente e provocador. Fosse por falta de fé em milagres ou porque, simplesmente, Deus se esquecera dele no rol de actividades, um par de horas depois entrava na ambulancia do INEM com a vizinhança a lambuzar-se com o espectáculo sem tirar bilhete. Lá explicou ao médico imaculadamente estático e enfadado, numa equação tormentosa por A + B os sintomas de que padecia na zona lombar. Numa época de contenção de custos em que até a vida estava pela hora da morte, e dado que uma caixa de robalos de pescar à Vara já ia nos dez mil euros, o clínico limitou-se a prescrever uma análise e um raio x. Inconclusiva a primeira, optou pelo resultado da segunda: Hérnia discal! De novo, imaculado e estático, escancarou um sorriso contemporizador: “São as hérnias! São as hérnias…” Uma intravenosa de genéricos, dois comprimidos de paracetamol estendidos como hóstias e siga a marinha que atrás vem o exército. Estupefacto, o paciente ainda tentava alertar para o facto de, sendo contabilizáveis, sair com mais três mil trezentas e setenta e oito dores do que as que trouxera de casa, mas já o clínico fanhava perdigotos ao microfone, qual locutor da Emissora Nacional ,de voz nasalada regozijando-se com a letra e música do Gabriel Cardoso clamando pelo paciente seguinte.



Se Deus fosse brasileiro o inferno, seguramente, seria português, mais propriamente localizado na área de residência do escriba, tais as duras penas a que fora condenado durante dois tormentosos dias, findos os quais, voltou de ambulância já sem se aperceber do protagonismo no espectáculo de rua balbuciando uns queixumes nos intervalos dos tremores febris numa situação que, mais do que grave, se tornara aguda e exibida de forma esdrúxula. Gramáticas à parte, a burrice e distracção com que as alminhas lusas teimam em sustentar no poder os responsáveis pelos cortes orçamentais, talhantes e coveiros de uma pátria que, felizmente lhes sobreviverá, não permitiu prescrever ao novo clínico um Tac. “Tac nas urgências só muito bem explicadinho e justificadinho”, em português correcto livre de polémicas ortográficas, mas plena de empecilhos políticos, só andando a passear à beira dos terrenos do rigor mortis. Análise e raio x, sim…mas desta vez - Vá lá - Era dia de festa e lá foi autorizada a eco renal. O Prognóstico, para além de vir no fim do jogo, não podia ser pior: complicação renal de braço dado com a residente hérnia discal. Pobre é assim, para além do pão cair com uma frequência irritante da lei de Murphy com a parte barrada para baixo… do que é bom tem míngua, do que é mau, tem sempre em dobro. Meia dúzia de injecções mais tarde lá concederam a benesse da alta ao paciente, termo que, fora deste contexto, caracteriza todos os portugueses que há largos anos suportam cortes orçamentais, crises e apertos de cinto sussurrados no aconchego aveludado das arcadas do Terreiro do Paço. E então, deu-se o milagre! A acreditar no documento emitido pela instituição hospitalar conforme atesta a imagem supra no seu canto superior esquerdo, o paciente ou regressava ou partia para a outra margem … Em bold ostensivo exibia-se, sem margem para dúvidas, o destino do doente: FALECIDO COM AUTÓPSIA… não fosse o paciente estar quente e a mexer as perninhas e acreditaria que a vida era mesmo uma miragem. No meio de tanto constrangimento ainda arranjara tempo para pensar na sua falta de fé e nas palavras da sua avó: Deus mastiga! Pois parece que sim, que mastiga… O maroto… E desta vez, dera uma dentada das valentes por conta dos pecados em mora…

(1) José Cardoso Pires

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

BENTO - O REGRESSO


José Gonçalves (o meu avô) no meio da foto, em pé, junto ao poste, na sua primeira visita a Lisboa com a família.

Tão longa ausência quase deixou este espaço à beira da trombose. Ressequido de ideias e visitas, está o escriba a preparar a necessária justificação para o regresso atribulado do mundo dos mortos-vivos... com o humor habitual...  Até lá, revisitemos esta história mais antiga...

O escriba regressou! Preparado e revigorado para mais uma dura jornada de trabalho e para o ritmo estonteante das palavrinhas que brincam sem pedir licença. No calor da serra com vista para o mar e na companhia do Torga revisitado, salvaguardadas as devidas distâncias, mais centímetro menos centímetro, lembrou-se o escriba de mais uma história daquelas com sabor a húmus e cheiro de alecrim.

Às vezes o tempo bebe Red Bull e ganha asas. Deita-se a correr e nós deitamo-nos com ele numa gincana esgazeada por entre resmas de meses e anos gastos a esmo. Se a vida é boa companheira, a memória é boa amante, zelosa e solícita em derramar o mel doce das recordações.



Corriam a bom correr os idos de setenta no pino do verão de Santo André das Tojeiras, numa prova de corta mato e pinheiros desgarrados onde, por entre estevas e giestas, alguns quadrados de terra teimavam em dar à luz algumas couves e batatas numa banda desenhada lavrada a sacrifício e à força de braços e de bestas. José Gonçalves, com marcação constante no livro de faltas da instrução primária, mas presença assídua no manual do desenrasca descobrira, num terreno sinuoso e fértil em xistos e falta de água, um furo à custa de muita enxada e escavação. Fazê-la seguir pela caleira fora o mais fácil, difícil, muito por força do veneno destilado pela mulher repudiada, em tempos, por José Gonçalves num bailarico da aldeia, era enfrentar os humores virados do avesso de José Botas por causa da serventia de dois palmos de terra. Daí para cá a inveja, os remoques e as “bocas” engrossaram diariamente o rol de queixas na matemática da coexistência atribulada de ambos. As vezes em que concordavam sobre o que quer que fosse contavam-se pelos dedos de uma mão, normalmente, em duas situações: ou na barbearia do Manuel Coxo onde, estrategicamente colocadas na parede frontal sobre os espelhos conviviam duas imagens do sagrado e do profano sob o beneplácito de todos. (O calendário dos pneus Dunlop, com uma pin-up daquelas com protuberâncias bem redondinhas e salientes insinuava-se mesmo ao lado da pagela de Nossa Senhora de Fátima). Se, por um lado Lhe agradeciam por ter dotado a natureza com uma Eva de mamas descomunais, por outro tinham sempre presente a formação cristã, pois, invariavelmente, a exclamação era sempre a mesma ao colocar o olhar bovino e sequioso sobre as imagens: “ Noooossaaa senhoooora!” Ou no fundo vazio de vários copos emborcados na adega do Quim Bainha. Fartos de tanta peleja e desavença, acharam por bem puxar os marcos mais uns metros e colocar um ponto final na serventia de terrenos em papel azul de vinte e cinco linhas. Chegaram à cidade numa manhã de nevoeiro abençoada por Dom Sebastião, pela Nossa Senhora e pelas mamas da pin-up para registar na conservatória a paz de espírito, ante o mau humor da mulher calado com dois encontrões e um tabefe de autoridade marital.

Escanzelado por natureza e inquisidor por feitio, o amanuense, em mangas de alpaca curtas e puídas, mirou e remirou a caderneta predial pousando o resto do seu olhar avaliador naquelas duas alminhas parcas de instrução. O funcionário puxou então dos seus dotes oratórios elevou o seu tom de voz numa semínima prenha de firmeza e ganância, aludiu ao custo de registos, buscas, processos, averbamentos e afins. Adicionou-lhe uma amálgama de termos técnicos e uma mão cheia de dificuldades e obteve a equação pretendida: o registo iria ser complicado, demorado e necessitava de óleo para desempenar a máquina… Apercebendo-se do olho gordo e luzidio ávido de amealhar umas “lecas” com facilidade, Zé Botas, muito a contra gosto, tirou da carteira uma nota de mil escudos, novinha em folha e colocou-a dentro da caderneta. O funcionário pegou na caderneta, coçou o nariz e ao abri-la franziu um sobrolho estupefacto e resmungou:

- Ó meu amigo eu não sei como é que é na vossa casa, mas na minha casa a cama faz-se com dois lençóis: o de cima e o de baixo…Os dois amigos entreolharam-se, era óbvio que o malandrim queria mais dinheiro… José Gonçalves sereno, seguro e confiante, não se conteve:

- Ò meu amigo… e lá nessa sua casa onde faz a cama com dois lençóis e coisa e tal,o senhor sabe a diferença entre um penico e uma panela? – Que não… que não sabia! – Ante tamanha ignorância José Gonçalves encheu o peito de ar e aconselhou-o vivamente a debruçar-se sobre tão profunda problemática, pois o desconhecimento de tal matéria obviava a vários perigos, sendo os maiores, a forte possibilidade de comer o conduto do penico e aliviar a tripa na panela… viraram costas e foram assinar o registo em dois copos de três, bem medidos, na tasca mesmo ao lado da estação dos CTT..

Sábado, 14 de Agosto de 2010

O FUMO E O FOGO...




Enquanto não sai o novo texto e a explicação para tão prolongada ausência, revisitemos um texto, infelizmente, actual...

- Há fogo! Há fogo! – Lapidar, a frase acompanhada dos sinos a rebate, acordara a vila estremunhada. Começara no cimo do cabeço, durante a noite, as labaredas cavalgaram a galope em direcção ao casario encontrando-se a duas braçadas de distância da casa de Manuel Pereira que, em pijama, se dirigiu para o quintal pegando no primeiro objecto que encontrou. O fogo já lambia o muro e ele, no auge do desespero, tentava apagá-lo à paulada. Impotente, ficara hipnotizado contemplando aquela magia oscilante entre o laranja e o vermelho. Num ápice. Vieram-lhe à memória a sucessão de imagens da sua vida como se fosse morrer agora… Ali…

Se os animais precisavam de forragem, a fome também dava nó cego no estômago dos homens. Farto de brincar aos pastores, trocara as cabras pela colher de pedreiro. Viera para Lisboa com dezasseis anos no bolso mais cento e cinquenta escudos. Entre a serventia de pedreiro e os biscates diários, Lisboa era terra de horizontes negros e vistas curtas. Com a guerra colonial a bater à porta, e, dado a sua vida não ser tatuada com amor de mãe e Guiné 64, entre a argamassa e o gesso, jogara ao monopólio geográfico e, sem passar pela casa partida, saltara directamente para França onde se tratava a liberdade por tu e se virava a esquina para encontrar emprego. Correra a eito várias páginas do dicionário de profissões, comera o pão que o diabo amassou, bem duro por sinal, acompanhado de azeitonas ressequidas e latas de conservas fora de prazo. Dado que o saber não ocupa lugar, o seu cérebro alugou quatro assoalhadas amplas com vista para o conhecimento, encaixotado nas entrelinhas das escassas horas vagas. Metera-se a estudar… Os negócios floresceram, assistira ao golpe de estado travestido de revolução. Marcado pela saudade, regressara na esperança de encontrar um país diferente e investira tudo na terra.

A sua querela com João Godinho, o “doutor João Godinho”, vinha de longe, do tempo do José Mário Branco. À discussão sobre marcos e palmos de terra somara-se um outro episódio numa equação de difícil resolução. O pai de Manuel Pereira, após uma jornada nas terras, deparara-se com um burro morto à entrada da vila. Dirigira-se ao posto da Guarda Nacional Republicana onde o pai de João Godinho exercia a autoridade de sub-chefe, de forma displicente e autoritária, a fim de dar conta da ocorrência. Lerdo das ideias mas pronto a zombar do homem, o guarda, acompanhado da mais fina grosseria e mau humor perguntara-lhe secamente:

- Um burro morto à entrada da vila? Que tenho eu a ver com isso?

- O pai de Manuel Pereira , homem inteligente, dono de um humor refinado, não se ficara: - Achei por bem avisar primeiro a família… E virou costas. A partir desse dia João Godinho ficara conhecido como o filho do burro… Mais uma acha para a fogueira do desentendimento entre ambos. João Godinho, verme apreciável na cadeia de invertebrados da vila, apaixonado pelo dinheiro e pela ostentação, caíra de amores pela política. Vá-se lá saber como, conseguira chegar às esferas partidárias e ser eleito presidente da Câmara. Com o ar de fuinha e poucochinho que nunca perdera, um ano antes, chegara às falas e tinha sondado Manuel Pereira sobre os terrenos adjacentes à casa… “Um consórcio estrangeiro estava interessado em comprar a zona, ele tinha a Assembleia Municipal na mão… Iria ser construído um hotel de charme e campo de golfe… Se tudo corresse bem, aquela gente era generosa e sabia reconhecer favores… Ele só teria que vender a sua parcela, a Câmara já assinara o processo de cedência dos terrenos do cabeço…” Recusara… A fábrica ardera em Outubro passado misteriosamente… Agora, no pico do verão, o fogo começara à meia noite…

- Anda daí homem de Deus! És doido? Morres queimado! – E foi, agarrado pelo seu vizinho, que Manuel pereira, a custo, se deixou levar… Morto e enterrado estava ele, simples figurante nos destroços calcinados daquela tragédia…

Na manhã seguinte, no rescaldo do incêndio, o inspector da judiciária teorizava com pormenores lúgubres sobre os indícios recolhidos fazendo gala dos seus conhecimentos técnicos…

- Sabe, isto é experiência… Ando nisto há muitos anos… Fogo posto… Claro! Um gato ou um coelho regados com gasolina… E a dor faz o resto…

“Que não, que não… Pois… Apanhá-los… Não há flagrante, nem testemunhas…

Manuel Pereira, a poucos metros de distância, ouvira o suficiente, não precisava de flagrante ou indícios, as roupas caras, o carro recente, a vida faustosa e o novo-riquismo atingido em flecha, os estranhos amigos de botões de punho e camisa imaculada em seu redor com constantes e afáveis palmadinhas nas costas, sorrisinhos e esgares eram indícios mais que suficientes para decretar a sentença…

Passaram-se os dias e as noites, até que, indo João Godinho pela estrada em direcção a mais uma reunião com o consórcio, Manuel pereira se lhe atravessou à frente de canos serrados em punho:

- Salta cá para fora meu cabrão! – O tom da ordem era um rio sem margens para galgar dúvidas. De mãos no ar e voz trémula, João Godinho balbuciava aterrorizado:

- Ó homem de Deus… Tu não te desgraces! Não dês cabo da tua vida… Vamos conversar…

- Ó meu cabrão! Deus não é chamado para estas contas… e o gajo, se uma vezes é magnânimo… Outras vezes sabe ser lixado! Eu dei cabo da vida no dia em que te salvei de morrer afogado no poço quando eras miúdo… Invejoso de merda! Sanguessuga! – E fitando-o com desprezo ainda o invectivou – Farpelas novas… Fina cambraia, gravatas de seda, os amigos do consórcio tratam-te bem… Deves cagar pão de ló…

- Ó... Homem… Deixa-me explicar-te…

A coronhada na testa já não deixou nada…
 
Na manhã seguinte, no meio do banquete amanhado no adro da Igreja, o aplauso do povoléu e o barulho das máquinas eram a nota dominante no toque a finados que pairava no ar. O assessor do presidente anunciara a concessão ao consórcio sob a promessa de criação de riqueza e postos de trabalho para a vila. Se antes se submetiam à cartilha Deus, Pátria e Família, agora sucumbiam à terapia dos almoços grátis… Os buldozzers, de forma trepidante, iniciaram a marcha para as terraplanagens e medições topográficas… E eis que, chegados ao cimo do cabeço, avistaram um corpo inerte meio tombado sobre uma cova natural. Quando se aproximaram, depararam-se com um cadáver… Era João Godinho… enfiadas na testa rebentada, erguiam-se, imponentes, duas enormes orelhas de burro feitas de cartolina.