Domingo, 27 de Junho de 2010

PRESENÇA NO LIVROS E LITERATURA



Generosidade da Márcia Lourenço Beraldo do blog livros e literatura numa referência tão elogiosa e cuidada.

Por mais que ele puxasse as baínhas à memória não encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsmo para a alma, mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual com o dicionário dos afectos…




Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que ,ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela assoalhada vaga no coração.

Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda. Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados numa forma única, consumiam-se num movimento lânguido e lento, através dos cabelos dela escorregando teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo com que ela lhe acariciara os lábios. A lua a estender-se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, experimentando num último estertor de prazer, um sorriso amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.

Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta:



- E tu? Em que pensas?



Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou-lhe por sua vez:



- E tu? Sabes o que é amar?


Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos porquês, aninhou-se-lhe no peito , atirando-lhe num sussurro:

- Amar? Amar…É gostar de ti com muita força…


Biografia


Luís Bento é mais um autor que participa da I Coletânea Scriptus. É autor da Editora Novitas, e ainda esse ano lança seu livro de contos. Nascido em Lisboa, a 26 de Dezembro de 1964. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1990,onde é professor de Francês no Ensino Secundário durante dois anos. Desde 1992, trabalha em uma instituição bancária, em Lisboa. Publicou alguns poemas e alguma prosa em suplementos literários de jornais diários portugueses durante a década de 1980.

Gere, desde Outubro de 2008, o blog bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com, onde publica textos de prosa sobre diversos temas, ligados à crítica de costumes, refletindo sobre a sociedade portuguesa contemporânea. Publicou recentemente dois contos na Coletânea Balaio de Idéias, editada pela Novitas (lançamento programado para março de 2009). Colabora com o Movimento Lusofonia e com a revista Nova Águia.





Quarta-feira, 16 de Junho de 2010

ESTAVA VAZIO




Tem a criatividade andado arredia destas paragens… Entre o excesso de trabalho e a marotice do tempo, aproveitaram as palavras para se esconder sabe-se lá onde… Mas voltam! Voltam sempre! Mais vírgula menos vírgula, entre pausas e ritmos, hão-de acabar na formatura, alinhadas num texto com sentido. Até lá, uma breve participação na Fábrica de Letras para fazer o gostinho ao dedo…







- Jovem! Tem um minuto para a palavra do Senhor?



Entre as unhas encardidas, o hálito fétido polvlhado de cebola e a cultura bacteriológica aninhada no sovaco desde o período bizantino, o indivíduo insistia com o jovem, em pé, agarrado ao varão num equilíbrio bamboleante e precário, de olho nas mensagens do telemóvel,  em ler uma breve passagem da Epístola aos Gálatas enumerando as benesses e bem-aventurança do Trono do Céu onde se sentaria Jesus, convenientemente milagreiro, ao lado do Pai. Absorto, o jovem disparou-lhe uma resposta ausente sobre o facto de não ser hora nem local para Deus arregimentar jogadores para a equipa. O pregador de circunstância, fechou a torneira ao sovaco, isnpirou resignadamente e alertou, entre dentes, para os perigos de Satanás se acoitar, traiçoeiramente, na falta de fé das almas descrentes saindo após travagem brusca. Só então o jovem se deu conta de que se encontrava mais aliviado... não dos pecados lavados na pureza do rio Jordão, mas da carteira, quando levou a mão ao bolso, agora quase vazio, onde soçobrava o bilhete e umas poucas moedas de cêntimo...