Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

PRENDA DA MADRUGADA


Por vezes, o escriba perde o pio… Longas e penosas temporadas sem ouvir o trinado das palavras. Fosse ele siciliano e há muito que estariam a fazer parte da composição molecular do betão armado, mas não… anos de carga cultural judaico-cristã, amparada no encosto terno e sábio da experiência do avô materno a vergar-lhe o dorso , não lho permitiriam. “Isto é como as ovelhas… é deixá-las ir que quando tiverem fomeca regressam! Até se encavalitam umas nas outras!” E voltaram… um emaranhado de hieróglifos confuso na sintaxe, mas prenhe na sensibilidade e no sentido… E assim, nas entrelinhas da noite cerrada, deu-se um click … Uma prenda da madrugada…


Por mais que ele puxasse as baínhas à memória não encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsmo para a alma, mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual com o dicionário dos afectos…

Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que ,ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela assoalhada vaga no coração.

Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda. Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados numa forma única, consumiam-se num movimento lânguido e lento , através dos cabelos dela escorregando teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo com que ela lhe acariciara os lábios . A lua a estender-se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, experimentando num último estertor de prazer, um sorriso amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.

Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta:

- E tu? Em que pensas?

Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou-lhe por sua vez:

- E tu? Sabes o que é amar?

Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos porquês, aninhou-se-lhe no peito , atirando-lhe num sussurro:

- Amar? Amar…É gostar de ti com muita força…

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

CONTRA-CORRENTE - A PARTICIPAÇÃO

Não sendo o escriba dado a birras ou amuos, só uma explicação se perfilaria no horizonte para tão prolongada ausência: Bloqueio criativo. Pois é, as palavras andaram fugidas, essas marotas, mas acabei por encontrá-las aqui. A revista literária CONTRA-CORRENTE, uma publicação online, gratuita, graficamente irrepreensível, deu à estampa o seu segundo número. "Este projecto dedicado à palavra, tem como propósito dar voz aos poetas, aos escreventes, aos coleccionadores de palavras, desconhecidos do universo literário ". Pois bem, a minha voz esta lá também nas páginas 24 e 25 acompanhada de um soberbo trabalho de ilustração.

A primeira vez que experimentara a sensação de desejo fora em terra. Chegara à idade da líbido aos saltos e, mal a vira, o desejo trepara penhascos, montes e vales da geografia dos afectos numa pulsão firme e constante. O desejo de lhe consumir as carnes, sentir o cheiro, saborear a pele e morrer dentro dela em espamos e soluços eram a única estrutura gramatical, coesa de sintaxes e morfologias, que o seu alfabeto parco de conhecimento formulava. Rebolaram dias a fio num palheiro perdido à saída da vila. O trabuco de dois canos frio e firme na mão paterna, encostado à sua nuca, arrancara-lhe as dúvidas, metódicas ou não, sobre a importância dos laços do sagrado matrimónio. Foguetório, rancho folclórico, comes e bebes, vinhaça... muita vinhaça. Uma berlaitada já de madrugada e pronto! O desejo fôra-se como viera: sorrateiramente!
Embrutecera. Embruteceram ambos. Fosse pelo sol tisnando a tez numa constância estonteante, fosse pelo sal do mar gretando as mãos roxas de cumprimentar cordame e redes, a pouco e pouco, as falas passaram a limitar-se ao básico: o tempo, a faina e o paradeiro do crucifixo. O crucifixo que sempre o acompanhara nas saídas, desde o tempo do seu avô, protejendo-o das tentações do demo e do mau feitio do tempo.
A segunda vez que sentira desejo fora no mar. Ia para a faina ainda noite cerrada. Sibilino, o céu escuro e vagamente estrelado qual carta de marear virada do avesso, anunciava borrasca. A mulher perguntara pelo paradeiro do crucifixo. Não sabia... procurara pela casa toda e pela traineira... nada! Talvez estivesse perdido no caixas do pescado...
- Não te faças ao mar homem... sem o crucifixo não homem! - pedira-lhe com a voz a sumir-se no sexto sentido de leoa a proteger as crias.



- Tenho que ir... - Lacónico e seco virou costas. A dor de estômago não tinha compaixão pelos caprichos do boletim metereológico.



Já no regresso, o temporal aumentara de intensidade. A traineira, velha na musculatura, não resistira. O veio de transmissão partira-se e o motor ficara a trabalhar a seco. À mercê das vagas de seis metros desfizera-se nos rochedos do ilhéu a duas milhas da costa. Com metade do corpo enterrado em água e a outra metade agarrando-se aos restos de amurada da embarcação amaldiçoava o raio do crucifixo. Fustigado pelo vento e pela chuva lambendo-lhe a face de sal, o mesmo que lhe dava facadas nos dedos fincados com desespero nas ranhuras e farpas do destroço, agarrava-se agora à vida com a mesma intensidade que desejara a mulher a primeira vez que a vira.



Não era homem de se curvar. Se precisava de Deus era nas horas de aperto, não nas horas vagas. Deus queria criadagem na fé... Vassalagens? Vassalagem só à sua fome e, no momento, ao seu desejo de viver.
A notícia chegara célere à vila, sem fios, sem rodeios, sem piedade. No meio do pranto e das benzeduras, a guarda avisara a força aérea para enviar um helicóptero.



A pressão das ondas esmorecia-lhe a vontade aliviando a força nas mãos forradas a dor de sangue e sal. O destroço não aguentaria muito mais, nas próximas vagas seria esmagado contra as rochas... De repente, a luz forte e sonora que se aproximava despertara-lhe os sentidos. Não... Deus não era... nem o diabo, nem a morte. Era... o helicótero de resgate da força aérea. Ao invés de asas, o arcanjo Gabriel descia por um cabo de aço com capacete e tudo...
Na manhã seguinte, um sol radioso pintava a vila em tons de bonança. Na praia, as crianças apanhavam conchas e búzios, descontraidamente, chapinhando nas poças. No meio de destroços, algas e alforrecas trazidas pelas ondas da maré baixa repousava, preso na areia, um crucifixo imaculado e reluzente...