Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

FASHION HEROINE

 internet tem destas coisas...conhecemos pessoas, trocamos ideias  e, geralmente, faz-se luz! É o caso da Paula Lamares e do seu blog http://fashionheroines.blogspot.com/ onde Glamour e vanguardismo se  passeiam de mãos dadas...Com ilustrações do Renato e a excelente tradução da Paula Lamares, deixemos então as palavrinhas à solta nas duas versões que podem ser lidas aqui também.

 


Às vezes escorregava em ,prestações suaves, pela memória desfiada a preto e branco desde os acordes do hino nacional a encerrar a emissão televisiva com estrondo, até aos bancos da escola onde se grafava ainda, teimosamente, Goa, Damão e Diu como territórios ultramarinos, no mapa-mundi de pontas enroladas a querer baldar-se para o chão junto de um circunspecto e inútil corta-fitas num retrato com pose de presidente, faixa, medalha e comenda com os dizeres em bold cínico: SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA ALMIRANTE AMÉRICO TOMÁS. Era da alvura das batas torturadas pela lexívia e pelo OMO branco mais branco não há, que divisava a figurinha minúscula e atarracada, em redondo carica, da Dona Irmelinda nascida nas entrelinhas dos sessenta, já de casaquinho de malha assertoado pelo botão do meio de madrepérola reluzente que se vendia na retrosaria, em caixas de inocência rosácea, acantonadas nas prateleiras por trás do costado curvo do senhor Arnaldo, de óculos presos na ponta do nariz esmiuçando e remexendo até à eternidade , carrinhos de linha da coats and clark entrecortados por um chiça! envergonhado quando se espetava nas agulhas número três dolorosamente desarrumadas.


Esbaforida, pela rua General Taborda acima com a alcofa atafulhada de peixe, grelos e nabiças vinda da praça onde era mais barato e fresquinho, sem réstea de brilho, pigmento, laca ou perfume há muito perdidos nos vestígios arqueológicos dissecados por peritos do Neolítico. Apenas o vermelho afogueado lhe acariciava a face na pressa com que roubava tempo ao macadame para evitar o fedor a atraso em direcção à tabacaria onde, vício supremo do luxo de pobre, comprava a Crónica Feminina e se deixava levar pela fantasia da fotonovela ou pelo conforto dos anúncios dos vestidos, das malas e casacos de inverno que ela bem precisava de um, numa alienação inocente e consentida apenas interrompida pelas letras do carro que, paulatinamente apresentadas pelo cobrador, grunhiam nos dentes amarelos do tabaco que o marido ainda andava a pagar.
Se do céu caíra uma estrela, na passserele, lânguida e sensual, rica de decotes e ousadias, passeava-se um anjo livre, poderoso e reluzente onde o diabo até podia vestir Prada, Armani ou pele corada em pecado, mas acima de tudo, a vida se trajava de texturas quentes e garridas numa miscelânea de cor, romântica e despojada de preconceitos. Fora aí que o conhecera. Meio palmo de cara bem tratada e escanhoada com o beneplácito de Apolo em dia de tiro aos dardos. Chegara à conclusão, contudo, que Darwin só germinara e evoluíra no universo feminino e se pusera a fancos ao primeiro sinal de alerta da coutada do macho ibérico. Tolo! Era um tonto! De sorriso idiota de conquistador em saldos confundindo Louboutin com a lobotomia que o assistente do doutor Egas Moniz fizera à cabeça, numa operação delicada, da sua tia Emília.

Esfumaçava, perdidamente, todo nu seguro da sua virilidade canhestra pensando que lhe tomara o corpo e não se dando conta, sequer, que ela apenas lho emprestara para que ele se perdesse no cárcere das suas coxas. Ela esboçava um sorriso malicioso e interior. Ele soltava baforadas confiantes de Torquemada de queluz ocidental, olhando, de soslaio, ar de asno inquisidor. E ela voltava, sorrateiramente, à D. Irmelinda e aos seus brincos , batons, pó de arroz e outros acessórios reluzentes que, só por milagre ou distracção do Senhor, deixariam as páginas de papel.
Ela bem gostaria de andar na moda, mas só a cunhada, que era uma desbragada que fintara as desgaças da vida e lhe trouxera um conjunto de batons da África do Sul onde elas andavam de mini saia, bebiam como os homens e até já fumavam e tudo, lhe concedia carta de alforria , ainda que por breves instantes, para a terra do sonho. E foi num desses dias em que, por distracção , se atrevera a experimentar a prenda da cunhada diante do espelho gasto e roído de ferrugem, que não dera pela chegada do marido. Contrariado por não haver almoço na mesa e estarrecido pelas cores dos trapos, ficou furibundo quando vislumbrou a imagem fálica do batom esgaçando por entre os dedos, pronto a tomar de assalto os seus lábios ressequidos. Alçou o braço direito e deu-lhe uma palmada com força estilhaçando o batom em pedaços no chão da casa de banho. E então sem pensar, decidira que era altura de romper com o medo que a agrilhoava numa tacanhez e subserviência fora de moda. Ainda ele se preparava para alçar o braço de novo quando levou, violentamente, com um jarrão de loiça de sacavém que custara uns bons cinco kilos de escudos, na cabeça…

Baixou-se para apanhar um coto de batom e , não reprimindo um sorriso, inflou o peito de ar , inclinou-se sobre o espelho e começou, calmamente, a pintar os lábios, percebendo, então, que a diferença entre subserviência e emancipação distava apenas doze pontos bem cosidos na testa do marido pela destreza e perícia do enfermeiro de serviço no posto clínico e que, estar no tom da moda era ousar viver numa liberdade conceptual e estética em que a vida… era o tom…

Texto: Luis Bento

Ilustração: Renato Abreu

Tradução: Paula Lamares

FIVE MINUTES FICTION: FASHION HEROINES - A shortstory by Luis Bento, Illustrated by Renato Abreu



Our friend and writer Luis Bento, author of the amazing blog bento-vai-pra-dentro agreed to the challenge of Fashion Heroines and created a shortstory for our "Five Minutes Fiction." As we found that the inspired text would be much more complete with an illustration, we challenge the illustrator Renato Abreu - author of the excellent site MAREAR - who was inspired by Luis' shortstory, and also with his amazing talent, creating an original illustration to add to the story.



Now is the happy result of these exclusive collaborations (Bilingual) that Fashion Heroines is pleased to present. Get inspired!




Sometimes it slides, in a smooth performance, by the memory shredded in black and white from the chords of the national anthem to the end of the broadcast with a bang, up to the classroom where it still misspelled, stubbornly, Goa, Daman and Diu as overseas territories on the world map of scrolled ends, wanted to revoke the floor with a circumspect and pointless ribbons-cut in a picture with a President’s pose, full, medal and commendation in bold cynical sayings: EXCELLENCY THE PRESIDENT OF THE REPUBLIC ADMIRAL AMÉRICO TOMÁS. It was the whiteness of the tortured robes by the lye and the bleach OMO detergent, whitest white there, that it was discerned a tiny and stocky little figure, in round capsule, of Dona Irmelinda who was born between the lines of the sixties, already breasted with a cardigan knitted by the middle shiny pearl button, which was sold in the haberdashery, in an innocence pinky boxes cantoned in the shelves, behind the curved side of Mr. Arnold, with glasses stuck on the tip of the nose, scrutinizing stirring until eternity, sewing thread by coats and clark cut by a shit ! Embarrassed when he stabbed on the number three needles, which were in a painfully mess.



Breathless by General Taborda street up, with a basket crammed with fish and greens coming from the market where it was cheaper and fresh, without residual gloss, pigment, hair spray or perfume which were long lost in the archaeological remains of the Neolithic dissected by experts. Only the red stroked flushed her face in the haste, which she stole time on the macadam to avoid the smell of late towards the tobacconist, where supreme vice of luxury for the poor, she bought the “Crónica Feminina”/ The Female Chronicle magazine, to indulge in the fantasy of the illustrated novelette or the comfort of the dresses advertisements, bags and winter jackets that she needed one, in an innocent and consented alienation which was interrupted only by the car payments, gradually presented by the collector, growling in the yellow teeth of tobacco, that her husband also went to pay.







If a star had fallen from heaven, in the runway, languid and sensual, rich of necklines and boldness, a free angel was walking, powerful and shiny where the devil could even wear Prada, Armani or stained skin with sin, but above all, life was dressed in warm textures and a mix of brightly colored, romantic and devoid of prejudice. It was there where she knew him. His middle span and clean-shaven face, treated with the blessing of Apollo on the day of shooting darts. She came to the conclusion, however, that Darwin only germinate and evolved in the female universe and had set to flee of the first warning sign of the male iberian hunting. Fool! He was a fool! With his idiot smiling of a cheap conqueror, who mistook Louboutin with lobotomy that the Doctor Egas Moniz’s assistant made to the brain, a delicate operation of his aunt Emily. Smoky, yeah, all naked, so sure of his clumsy virility, thinking that he had taken her body and not realizing, even, that she only lent it to him for he was lost in the prison of his thighs. She outlined a malicious and inside smile. He let out a Torquemada’s Queluz west confident puffs, looking askance, air of an ass inquisitor. And she came back, surreptitiously, to D. Irmelinda and her earrings, lipsticks, face powder and other sparkling accessories that only a miracle or distraction of the Lord, let the pages of paper.







She would like to be fashionable, but only her sister-in-law, who was an unbridled who circumvent the misfortunes of life, and brought her a set of lipsticks from South Africa where women wore miniskirts, and they drank like men and smoked and everything, gave her a letter of manumission, though briefly, to the land of dreams. It was one of those days where, for distraction, she dared to try the sister-in-law’s gift, in front of the mirror, old and gnawed by the rust; she did not by the arrival of her husband. Upset because there was no lunch on the table and stunned by the colors of the rags, he was furious when he saw the phallic image of the lipstick torn threads between the fingers, ready to storm their parched lips. Raised his right arm he gave her a hard slap, the lipstick shattering into pieces on the bathroom floor. And then without thinking, she decided it was time to break the fear that shackled her in a narrowness and subservience outdated. Although he was preparing to raise the arm again when he was taken violently by a ceramic vase of Sacavem which cost a good five pounds of coins, in the head...







She bent down to pick up a stub of lipstick and, without repressing a smile, she inflated her chest with air, leaned over the mirror and began, calmly, to paint the lips, realizing then that the difference between subservience and emancipation was distant from only twelve points well done on her husband forehead by the dexterity and skills of the nursing service of an hospital, and being in the fashion tone was daring to live in a conceptual and aesthetic freedom in which life ... was the tone...







Text: Luis Bento



(Lost in) Translation: Paula Lamares



Illustrations: Renato Abreu






Terça-feira, 27 de Abril de 2010

SABOR E HISTÓRIAS - A ENTREVISTA

Grato! Muito grato  à Ana Paula Motta, à Maria Lessa e à Natália Augusto por esta entrevista ao Sabor e Histórias. Um blog com sabor a escrita e um toque de sensibilidade e bom gosto. A entrevista pode ser lida aqui ou neste vosso espaço...

Hoje o Sabor e Histórias não traz uma receita ou dicas culinárias.


Convidamos o escritor Luís Bento para uma entrevista, o que muito nos honrou.

Luís Bento, português, 45 anos, licenciado em Letras, gere o Blog Bento Vai Pra Dentro. Publicou no Brasil o Livro Lusitânia Online e prepara outros projetos literários.

Bento nos falou da infância, de onde nasceu o gosto pela literatura, do mercado editorial português e de...culinária.





1-Como era o menino Luís Bento, como era sua relação com a leitura? O que gostava de ler na infância?





O menino Luís Bento era um miúdo normal com as brincadeiras e os sonhos dos miúdos da mesma idade. Talvez porque o pai tivesse emigrado e a educação tivesse ficado exclusivamente a cargo da mãe, não saía muito de casa. Assim sendo e juntando o facto de sr filho único, o tempo era devorado em leitura constante. Desde muito cedo que me habituara a receber livros. Li os tradicionais: Moby Dick, As viagens de Gulliver e, mais tarde, a colecção dos Sete e dos cinco da Enid Blyton. Depois foi em progressão constante pela auto-estrada da leitura.









2- Quando surgiu a vocação para a escrita, ainda na infância ou mais tarde?





Surgiu ainda na infância na sequência dessa educação ministrada, em exclusividade, pela mãe. Para saber ler e ler bem, teria que saber escrever melhor. Daí que, ao invés do amigo imaginário, imaginava histórias, rabiscava palavras onde quer que fosse. A dificuldade na aritmética e, mais tarde, na matemática, deram um empurrão final e definitivo para a escrita.





3- Sabemos que o gosto pela leitura deve ser estimulado pelos pais, mas muitas vezes isso não ocorre. E a escola,tem cumprido bem esse papel de estimular o gosto pela leitura?





Acima de tudo, o gosto pela leitura TEM que ser estimulado em casa. A escola também tem essa função mas não pode substituir-se aos pais. Aliás, o que se assiste hoje é a uma total demissão dos pais a todos os níveis. Os pais passam o dia fora de casa limitando-se a depositar os filhos no armazém/escola, substituiram os livros pela televisão no quarto mais a Nintendo e a playstation. Não acompanham a evolução do conhecimento ou a socialização limitando-se apenas a exigir boas notas e passagens de ano. O resultado está à vista: uma população jovem que, ainda que com “canudo”, muitas vezes, apresenta níveis preocupantes de interpretação e leitura. Na minha actividade profissional recordo, por exemplo, um jovem que se gabava de ter feito um curso universitário sem ter lido um romance literário. Era confrangedor assistir à sua dificuldade em interpretar um documento ou a nota explicativa de um produto bancário diante do olhar atónito dos clientes... A escola, efectivamente, tem cumprido o que se lhe pede: elaborar os programas, seleccionar os autores, etc. mas não pode imprimir uma leitura coerciva…





4-Acha que editar em Portugal é difícil por haver uma espécie de "lobbie" entre os editores?





Editar em Portugal? Lobbie?? Editoras? O tema dá pano para mangas. Tenho uma opinião muito crítica sobre o assunto, devidamente fundamentada no estado geral da nossa sociedade. Foi nos anos oitenta, no liceu Pedro Nunes, pela mão de um excelente professor de Português que decidi seguir Letras, ainda que contra a vontade do meu pai, beirão dos quatro costados, qu achava que a cultura “não enche barriga”. À sua maneira, tinha a sua razão quando me recordava o facto de Camões ter morrido na miséria embora eu ripostasse que não seria necessário ter as qualidades estéticas do poeta para, a qualquer momento, se morrer na miséria. Mas, dizia eu, esse excelente professor de Português tinha concorrido dois anos antes ao cargo de professor na Faculdade de Letras. O homem tinha curriculum, conhecimento, empatia, mas não tinha nome sonante ou importância política. Estranhamente, no seu lugar, fora admitido um intelectual da resistência que se limitava a fazer ditado nas aulas teóricas semanas a fio. Não sou iconoclasta. Não pretendo ser deselegante, mas a realidade é que a nível cultural e académico tudo funciona pelo lobbie, pelo nome, pelo compadrio político. O meio é pequeno e se algum novo autor tiver a veleidade de querer penetrar no mercado, há como que um código de silêncio, de clã, desde os autores aos críticos e jornalistas. O simples facto de editar uma obra de autor e pretender vê-la publicitada nos meios de comunicação é de uma dificuldade extrema. Os que vegetam na mediocridade do elogio mútuo e recíproco não admitem a entrada de “gente estranha” na área.





5- Os leitores também determinam o que é editado?





Editar em Portugal? Lobbie?? Editoras? O tema dá pano para mangas. Tenho uma opinião muito crítica sobre o assunto, devidamente fundamentada no estado geral da nossa sociedade. Foi nos anos oitenta, no liceu Pedro Nunes, pela mão de um excelente professor de Português que decidi seguir Letras, ainda que contra a vontade do meu pai, beirão dos quatro costados, qu achava que a cultura “não enche barriga”. À sua maneira, tinha a sua razão quando me recordava o facto de Camões ter morrido na miséria embora eu ripostasse que não seria necessário ter as qualidades estéticas do poeta para, a qualquer momento, se morrer na miséria. Mas, dizia eu, esse excelente professor de Português tinha concorrido dois anos antes ao cargo de professor na Faculdade de Letras. O homem tinha curriculum, conhecimento, empatia, mas não tinha nome sonante ou importância política. Estranhamente, no seu lugar, fora admitido um intelectual da resistência que se limitava a fazer ditado nas aulas teóricas semanas a fio. Não sou iconoclasta. Não pretendo ser deselegante, mas a realidade é que a nível cultural e académico tudo funciona pelo lobbie, pelo nome, pelo compadrio político. O meio é pequeno e se algum novo autor tiver a veleidade de querer penetrar no mercado, há como que um código de silêncio, de clã, desde os autores aos críticos e jornalistas. O simples facto de editar uma obra de autor e pretender vê-la publicitada nos meios de comunicação é de uma dificuldade extrema. Os que vegetam na mediocridade do elogio mútuo e recíproco não admitem a entrada de “gente estranha” na área.





6- Será que as editoras se tornaram em empresas de fazer dinheiro em vez de transmitir cultura?





Há muito que é assim! Com a chegada dos yuppies à gestão das empresas nos anos oitenta, o universo editorial passou a ter como objectivo o lucro fácil, rápido e garantido. A vertente de transmissão de cultura, de exemplo, de tendência, desapareceu. Atente-se no exemplo da Leya que consegue comercializar obras de cariz mais popular, por norma associados à Oficina do Livro, e obras de grandes temas e causas como as da Editorial Caminho. Causa-me alguma estranheza ver os livros da Caminho seguirem os mesmos ditames de comercialização da Oficina… no meio de T-shirts, sacos plástico, balões e abanadores…





7- Só vingam os escritores que escrevem literatura dita "light" ou com um mentor conhecido?





Decididamente, só vinga quem tem um mentor, quem tem nome na rádio ou na televisão, quem tem família com larga tradição no mundo artístico. Uma vez frequentei um curso de escrita criativa em que o escritor foi peremptório: “As editoras não lêm os manuscritos. Ou vocês têm um escritor amigo que vos encaminhe a obra ou nada feito”. Acredito piamente nisto. Até porque conheço gente ligada ao mundo editorial com tese de doutoramento na área que defende o mesmo. A diferença é que em Inglaterra diz-me assim: “ arranje um agente literário, ele lê a obra, se ele gostar nós publicamos e você paga-lhe direitos de intermediação” Em Portugal não lêm, apostam no nome sonante ou no mentor passando, muitas vezes, ao largo de obras de vulto. Até em termos comerciais as nossas editoras têm falhado redondamente. Recordo que o Código da Vinci foi oferecido para tradução a uma editora portuguesa que o recusou, por sorte, uma senhora de nome Zita Seabra, na altura responsável editorial de uma editora importante, leu a obra e apercebeu-se do que tinha entre mãos. Não se enganou…em termos comerciais o livro foi um sucesso. Quanto à literatura light…não me choca. Todas as correntes literárias deverão coexistir sem atropelos. O problema em Portugal é que a literatura light se tornou norma. O que me choca é ver um imberbe desconhecido, fazer umas pantominas na televisão, dizer uns palvrões, ser fotografado com umas “chicas” na noite e, de repente, o indivíduo pavoneia-se e desdobra-se em entrevistas para explicar o seu “sucesso literário”.





8-Sabendo um pouco das suas origens e da sua formação académica em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, e partindo do pressuposto que raros são os que querem fazer carreira pela escrita até pelas dificuldades que os escritores encontram, gostaríamos de questioná-lo sobre a razão que o leva à procura e à consequente descoberta do mundo literário Português.





Seria fácil fazer carreira… Com a facilidade que tenho em brincar com as palavras, bastava-me escrever uma história de vampiros, misturar um pouco de sangue, crime e mistério, regar tudo muito bem com sexo “à fartazana”, tornar-me amigo das vedetas “fast food” da televisão e vendia uns bons milhares, maas não é isso que está em causa. O que está em causa é fazer passar uma mensagem, questionar este nosso mundo ainda que pela via do humor e da mordacidade. Escrever é a minha forma de fazer a revolução, de agitar as consciências. Para além disso creio que há espaço ainda para uma outra tendência. Algures entre a literatura light sem preocupação social e a obra literária, mais pesada, rígida nos seus cânones estabelecidos por uma academia cristalizada, há espaço para uma escrita de leitura e interpretação acessível, solta, ágil e com o mínimo de qualidade literária.





9-Pela leitura atenta dos seus textos, reconhecemos doses de mordacidade, sarcasmo e ironia. Não é um risco neste país onde há pessoas tão comezinhas, mentalmente castradoras e sem hábitos de leitura que se insurjam ou simplesmente rejeitem a sua escrita?





É um risco e, pior, é uma certeza. O português lida bem com a ironia sobre o outro, sobre o estrangeiro, sobre o diferente. Fazer humor com os nosso próprios traços é o melhor humor, mas ao mesmo tempo, o mais perigoso. Não é d estranhar que quando abri o blog, 90% dos leitores eram brasileiros…inclusivé havia leitores da Argentina e do México. Tive que instalar um tradutor à conta disso. Até aí se nota o lobbyng…um blog recém chegado não vingaria nunca num meio onde já andavam outros com créditos firmados. O sucesso do meu blog começou no leitor brasileiro, daí que tivesse optado pela edição do Lusitânia Online no Brasil, mais propriamente, em Rio Grande do Sul através da editora Novitas. Só depois disso se inverteu a tendência. Para além do risco da mordacida há outros factores de dificuldade a ter em conta. O volume do livro. A ideia errada de que o “calhamaço” é um bom livro. Cheguei a receber mensagens de leitores questionando o volume do livro e o facto de, feitas as contas, custar “nove cêntimos por página”… Além disso, uma grossa fatia das pessoas não quer perder tempo a ler nas entrelinhas. Quer a história simples, concisa, princípio, meio e fim sem grandes dilemas interiores. Assim se explica a formação das “elites”. Estas aparecem quando a generalidade das pessoas se demite da sua função interpretativa ou interventiva.









10-António Lobo Antunes, um dos seus autores de referência afirma “Não acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham.” Concorda? Porquê?





Concordo em parte. Embora Lobo Antunes seja a minha referência maior na literatura e, pese embora o facto de achar que 90% do ofício de escrita reside no trabalho contínuo e persistente em moldar a palavra, considero também que o resto é inspiração. Inspiração entendida como uma predisposição natural para a escrita. Da mesma forma que se não tivermos uma predisposição para os números, por mais trabalho e persistência que haja, jamais seremos excelentes matemáticos…





11-Manuel da Fonseca dizia: “Ser espontâneo dá muito trabalho”. O Luis Bento adoptou algum método de escrita? Criou um? Como se manifesta o seu processo criativo?





O único método que melhores resultados traz: Escrever como falo. Sou muito observador por natureza, por vezes fixo-me em pequenos pormenores, em episódios acessórios e imagino situações e brinco com elas. Sou bem humorado por natureza, às vezes deixo a criança que vive cá dentro tomar conta do corpo todo. É assim que funciono. É assim que escrevo. Com simplcidade, com humor, com recurso ao trocadilho e ao duplo sentido, porque sou assim no dia-a-dia. Dá muito trabalho ser expontâneo sim…às vezes nem eu próprio me aturo…





12-Fale-nos um pouco sobre a sua obra "Verde Código Verde”. Como surgiu a ideia inicial para a criação deste seu novo romance?





“Verde, código verde surgiu de uma conversa com um colega e amigo da mesma idade. Ambos nascidos em 1964, acabámos a conversar à mesa de um café sobre o Eça de Queiroz e a amargura do mesmo em relação ao seu tempo. Quarentões de gema, facilmente chegámos à conclusão de que nos sentimos inadaptados à voragem consumista desta sociedade, desta…”next generation”. Uma geração que se divorcia apenas alterando o estado civil no facebook, uma geração que se despede do patrão por SMS, relações descartáveis e descartadas em minutos, uma geração que se desvia da idosa que tropeçou nas escadas e não pára para não perder o comboio…é uma geração perdida no presente e de futuro incerto. E isto, ou muda, ou muda! E então recordámos os nossos tempos de escola, o verão quente de 75, os episódios caricatos, as nossas diversões na época. Ficaram alguns amargos e boca, a conclusão de que este não é o nosso tempo. Revimo-nos n’Os Maias…cotinuando a correr a ver se apahávamos o eléctrico. Daí surgiu a ideia do romance. Constituido em dois planos: Verão quente de 75 e actualidade. Assistimos aos sonhos, ao burlesco de algumas situações de um grupo de miúdos de bairro a quem foram proporcionadas condições de estudo e outras de modo a triunfar na vida. Trinta anos mais tarde reunem-se num jantar e aí ..bom..aí…era bom que alguma editora se interessasse de modo a podermos saber o fim da história…





13- Agora uma pergunta sobre o tema central do nosso blog.O Luís Bento costuma ler livros de culinária ou visitar blogs como o Sabor e Histórias? Qual o seu prato predileto?





Costumo ler sim. Aliás, começou com a leitura do Pantagruel na faculdade de letras na disciplina de literatura francesa… Leio, gosto de ler e…cozinho..Gosto de cozinhar. Tudo menos bolos…Bolos não me ajeito. Do arroz, às massas, dos refogados aos pratos no forno, normalmente, sai-me tudo bem. Ah…e sopas e saladas também. Tenho mesmo prazer em fazer comida, descascar, cortar, lavar os alimentos. È um processo criativo. Transformamos algo em bruto numa coisa elaborada. Da mesma forma que a escrita mexe com os nossos sentidos, cozinhar mexe com a criação, com a visão, com o olfacto, o paladar. Sim, costumo visitar o Sabor e Histórias. Primeiro porque acompanho a actividade de escrita da Ana Paula Motta desde o início dos blogs, depois porque nos traz uns pratos tradicionais, quer de cozinha portuguesa quer de cozinha brasileira, deliciosos. Muitos deles desconhecidos. Também foi no Sabor e histórias que fiquei a conhecer a história do bolo rei…

Favas! Sem dúvida…o prato preferido!

Resta-me agradecer a excelente oportunidade que me proporcionaram e lamentar pelo profundo atraso na resposta.





Então que assim seja,uma receita de favas.

Favas Guisadas









Ingredientes:

Para 4 a 6 pessoas





3 kg de favas

150 g de toucinho

200 g de chouriço de carne

1 molhinho de coentros

2 folhas de alho

200 g de pão

sal

Confecção:





Escolhem-se as favas bem tenras e lavam-se depois de descascadas.

Corta-se o toucinho às tirinhas e o chouriço às rodelas e fritam-se num tacho em lume brando. Retiram-se quando tiverem largado bastante gordura.

A esta gordura junta-se o molhinho de coentros ao qual se ataram as duas folhas de alho. Deixa-se fritar um pouco e juntam-se-lhe então as favas. Tapam-se e deixam-se cozer, agitando o tacho e juntando pinguinhos de água à medida que vai sendo necessário para impedir que as favas agarrem ao fundo do tacho e se queimem.

A meio da cozedura das favas, introduz-se novamente o toucinho e o chouriço e deixa-se apurar bem.

Coloca-se numa travessa ou num prato fundo (prato de meia cozinha) o pão cortado às fatias sobre as quais se deitam as favas.

Acompanha-se com salada de alface cegada, isto é, cortada em caldo-verde e temperada com coentros e hortelã picados, azeite, vinagre, sal e um pouco de água.

Fonte: Gastronomias.com (Roteiro Gartonómico de Portugal)

Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

PALAVRINHAS


Se alguém encontrar por aí umas palavrinhas... diga-me...que eu preciso de fazer um texto!

Domingo, 4 de Abril de 2010

ENTREVISTA COM LUÍS SEPÚLVEDA



Encerramos com um grande escritor que dispensa apresentações o ciclo de entrevistas aqui iniciado.  Uma vez falaram-me no "Velho que lia Romances de Amor", comprei-o... e, de uma assentada, li todos os seus romances. A capacidade de efabulação, as descrições, as personagens, os ambientes são reveladores de uma vivência em prol de causas e de justiça. É uma grande honra poder publicar aqui, hoje, esta entrevista que Luís Sepúlveda tão generosamente concedeu.

Luis Sepúlveda 12/3 às 15:36



Estimado amigo Luis: de acuerdo, mándame esas preguntas y las responderé con mucho gusto


un abrazo


Luis

1 -Además del trabajo, el talento y la inspiración encontrar sus experiencias son una constante en su escritura. Su escritura es la encarnación, el retrato de estas experiencias o, por el contrario, fueron las experiencias que llevaron a la escritura como un vehículo para la voz de desacuerdo con las injusticias?



Luís Sepúlveda: Supongo que las dos cosas al mismo tiempo. Siempre he sido un hombre de izquierda, es decir que tengo un fuerte concepto ético de la vida y eso está siempre presente en lo que escribo. Soy un hombre, un ciudadano atento a lo que ocurre en el mundo, y esa atención de transforma más tarde en literatura.


2 -Recientemente ha mostrado su profundo pesar por la victoria de la derecha en Chile. Estas victorias de las derechas quieren decir qué? La memoria de la gente es corta? Una reconciliación con el pasado? O algo falló en la izquierda?


Luís Sepúlveda: La victoria de la derecha en Chile significa que el llamado "centro izquierda" que gobernó durante veinte años no logró la confianza de los chilenos. La pesidente Michelle Bachelet terminó su mandato con un 84 % de aceptación ciudadana, pero el candidato del "centro izquierda" no convenció a nadie, además, hubo orto candidato también auto denominado de "centro", Marco Enriquez Ominami, que construyó el triunfo de la derecha. Y el triunfo de la derecha demuestra además que la izquierda aún no tiene un proyecto político convincente. El pueblo no tiene la culpa de lo que hacen o no hacen sus dirigentes.


3 -En su escrito, junto con una excelente descripción de ambientes y una enorme capacidad para contar historias, hay espacio para las grandes causas en un aura de romanticismo. Ese es el secreto? Una cierta aura de romanticismo en la lucha por los principales problemas y las causas?


Luís Sepúlveda: No me siento un romántico pues a los románticos los mueve una especie de compasión individualista y yo creo en el esfuerzo colectivo, en la lucha de todos. Sucede que , simplemente, a veces el escritor tiene que ser la voz de su época.


4 -Ser un escritor de vida y de la escritura y como lengua materna hablada por 500 millones de personas, ¿alguna vez sintió acondicionado y trató de escribir de una otra forma o, por el contrario, esta responsabilidad le dio fuerza para no estar condicionado?


Luís Sepúlveda: No, nunca me he sentido condiconado. es cierto que pertenezco a una lengua compartida por casi 500 millones, pero el español es mucho más que es; es la pertenencia a una comunidad cultural profundamente contradictoria, a un crisol de diversidad cultural, social, política, étnica, económica , y esto genera un sentimiento de responsabilidad.


5 -Hoy en día, "los viejos todavía leía novelas de amor?"


Luís Sepúlveda: Creo que sí, ha estupendas novelas de amor.

A ENTREVISTA...DENTRO DE MOMENTOS...




Encerramos hoje o ciclo de mini entrevistas a escritores com chave de ouro! Estamos nos preparativos finais. O blog do bento lançou o reptro a alguns escritores para uma mini entrevista de cinco perguntas. Três deles aceitaram! Resta-nos agradecer à Margarida Rebelo Pinto, ao professor José Leon Machado e ao grande Luís Sepúlveda que, mais logo, teremos o prazer de aqui publicar.