Segunda-feira, 29 de Março de 2010

AUSÊNCIA

Não há como escamotear... De vez em quando o escriba tem tiques de escritor e entra em crise criativa. O caudal de ideias entra em débito, as palavras fogem para parte incerta e, assim sendo, faz-se uma paragem e remodela-se o espaço onde se produz o bento-vai-pra-dentro...Se, a tudo isso, somarmos o excesso de trabalho e a falta de tempo, temos o caldo preparado para a crise. Foi o que aconteceu. Ainda em obras, o escriba abriu à curiosidade o espaço onde se alinhavam as ideias e se publicam os textos. Ainda faltam umas quantas prateleiras para acomodar outros tantos livros, mas, para já, agora que a remodelação está quase terminada, voltemos então aos textos... 




Não está lá muito arrumadinha...



                                  É o que se pode dizer: "livros até ao tecto"...





Sexta-feira, 12 de Março de 2010

ENTREVISTA A JOSÉ LEON MACHADO



O convidado desta semana, que gentilmente acedeu ao nosso pedido é o professor José Leon Machado. Nascido em Braga a vinte e cinco de Novembro de mil novecentos e sessenta e cinco é, actualmente, Professor Auxiliar do Departamento de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde se doutorou em Linguística Portuguesa. Tem colaborado em vários jornais e revistas com crónicas, contos e artigos de crítica literária. A par do seu trabalho de investigação e ensino, tem-se dedicado à escrita literária, especialmente à ficção, onde a influência de autores clássicos greco-latinos e autores anglo-saxónicos, se reflecte na sua escrita simples e concisa. Ganhou vários prémios literários, de que se destacam o Prémio Edmundo Bettencourt 2001 da Câmara Municipal do Funchal com a obra Os Incompatíveis (contos, Campo das Letras, 2002) e o Grande Prémio de Literatura ITF 2002 (actual DST) com a obra Fluviais (contos, Campo das Letras, 2001). Descobri-o recentemente por causa do seu último romance O Cavaleiro da Torre Inclinada, com o subtítulo de "Cenas da Vida Académica", onde, num registo simples, numa estrutura narrativa equilibrada, plena de ironia e com algumas pinceladas de sensualidade, nos revela um ambiente e uma praxis de tradição medieval e inquisitorial que ainda hoje subsiste no mundo académico.


Passemos então à pequena entrevista que o professor José Leon Machado amavelmente concedeu ao nosso espaço:



– Como surgiu o professor Leon Machado no mundo literário?



JLM – Antes do professor, já existia o escritor. Eu comecei a escrever um diário aos doze anos e foi nessa altura que surgiu a minha vocação para esta maroteira que é inventar histórias sobre a miséria alheia.



- O Cavaleiro da Torre Inclinada retrata uma certa forma de investigação e arguição académica "inquisitorial". Apesar de Bolonha, ainda se mantém essa perspectiva?



JLM – As coisas, a nível académico, não mudaram muito. O que mudou é superficial: os cursos de quatro ou cinco anos passaram para três e o financiamento do Estado ao Ensino Superior viu-se reduzido, levando à asfixia financeira das universidades, que não têm dinheiro para comprar livros e para pagar a luz eléctrica. De resto, tudo se mantém, infelizmente.



– A personagem principal enfrenta o enfado e a indiferença da mulher pela investigação e aposta no conhecimento do marido. De certa forma, é o retrato da nossa sociedade?



JLM – Sim, é. As pessoas são cada vez mais superficiais. Um lavrador ou um sapateiro analfabetos de há cinquenta anos atrás eram mais cultos do que o cidadão médio actual. Pelo menos sabiam tudo o que era necessário saber para exercer com mestria a sua profissão: tratar a terra e consertar sapatos. Além de terem uma opinião avalizada da vida e do mundo. Hoje em dia o conhecimento (e falo do conhecimento científico e erudito) é considerada, de um modo geral, uma coisa aborrecida, própria de cientistas malucos e de ratos de biblioteca. As pessoas, todavia, esquecem-se de que, sem o conhecimento e a investigação, não há evolução tecnológica.



– A dado passo, Marco Túlio, a personagem principal, cede à tentação de coleccionar certificados de presença a eito. Não estará o autor a "desconstruir" a essência da investigação académica?



JLM – Uma coisa é a investigação e outra a subida na carreira académica. Para se subir na carreira, é necessário fazer investigação. Mas esta é trabalhosa. Por isso, não falta quem opte por apresentar nos congressos uns textozinhos com uma dúzia de citações colhidas aqui e ali sobre determinado tema e ir fazendo o seu percurso académico dessa maneira. E quem faz isto está realmente a coleccionar certificados.



– No final do romance, dá-se uma ruptura na vida da personagem. Foi o final de um ciclo rotineiro em termos de vida académica? Ou o assentar (finalmente) da sua vida amorosa? Acidente de percurso motivado pelo resultado das provas de agregação?



JLM – Não propriamente. Na vida académica não há ciclos. Há um continuum até à cátedra. Como subir uma escada. O Ferreira merecia um castigo. E a esposa também. Numa boa história, os maus no final são castigados. Haja moralidade! Teremos de esperar para saber o que acontece na segunda parte que estou de momento a escrever.



9 de Março de 2010

Domingo, 7 de Março de 2010

DO SILÊNCIO



Mais uma participação na tertúlia virtual patrocinada pela Fábrica de Letras. Tarde e a más horas, mas com muito empenho. Três pequenas histórias, três perspectivas sobre o silêncio com leituras nas entrelinhas. A morte, o quotidiano e o amor.


O SILÊNCIO - I




Num frémito, a brisa acenara-lhe à janela onde passava páginas em branco, noites a fio, a desenrolar o silêncio das palavras de olho nas estrelas. Sibilina, a morte segredara-lhe que cair nos seus braços era viver como estrela, brilhando, as boas, mais que as más. Não havendo pecados a expiar, nem grandes nem pequenos, pegou na alma, subiu ao terraço, galgou o parapeito e deixou-se levar, de um sopro, no brilho do silêncio…



SILÊNCIO! - II



Amarelecida de inutilidade, ciosa do traço tosco da enfermeira de dedinho em riste sobre a boca, a placa sobrevivia, a custo, num equilíbrio precário entre a força de gravidade e a cola ressequida, escorregando numa lentidão imperceptível pela parede abaixo, ante a algazarra anárquica instalada na sala de espera do centro de saúde. Novos, velhos e assim-assim, exibiam com orgulho bacoco e ruidoso, chagas, fístulas, feridas infectadas e outras enfermidades constantes dos alfarrábios clínicos, como condecorações de guerra de uma vida esgotada, com esforço, numa olimpíada masoquista repartida em retalhos e privações entre a Sueca no jardim e as filas intermináveis, em pé, sobre joanetes inflamados, à cata do primeiro prémio da lotaria de consultas. De um lado, uma conformada brigada do reumático onde soldados sem brazão no apelido ou homem de peso à beira da pia baptismal remexiam, com irritante insistência, na sacaria repleta de embalagens vazias de analgésicos e ampolas esmolando assinatura e vinheta do sotôr na receita. Do outro, uma exaurida plebe de classe média empregada por conta de outrém, irrequieta, prisioneira do crochet nervoso e miudinho, da fofoca de novela e do quotidianozinho semeado de injustiças, esgravatando no divórcio frequente das vedetas ou na maldade da besta da professora da Nini do quinto esquerdo da travessa que a tomara de ponta, embirrara com ela e insistia em dar-lhe más notas preparando-se para lhe oferecer uma raposa mais que certa. Alguns miúdos espojavam-se no chão numa descontraída gritaria para desjejuar do fastio das horas de cárcere involuntário na sala. O Sotôr, de nervos em franja, arrepanhava a melena por entre relatórios e credenciais, mal dormido pelo peso do enfeite com que o presenteara a namorada que, apesar de vestir mal de cara se evidenciava em intermináveis jogos de cintura que, afinal andava distribuindo de forma generosa, por seara alheia. Mais pelo peso do ruído do que pela força do ciúme, num assomo de ira, abriu a porta do gabinete de rompante e, rubicundo, vomitou-se em berros e imprecações exigindo silêncio:



- Se torno a ouvir uma mosca, um verme ou uma lesma rastejando no mosaico vou-me embora, não dou mais consultas hoje e não há receitas pra ninguém!



Enfiou-se para dentro fechando a porta com enfadado estrondo.







A placa não resistiu ao apelo das leis da física e estatelou-se no chão desagregando-se , com o impacto, em parcelas de composição molecular.







E então fez-se silêncio…


O SILÊNCIO - III


No princípio, apenas o verbo, lento, sorrateiro, conjugado no verbo amar insinuando-se aos pedaços. Logo a seguir a paixão, tomando forma escrita na espera transformada em desejo dos corpos nus, em pé, contra a parede, consumindo-se em silêncio…