Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

ENTREVISTA DE MARGARIDA REBELO PINTO


Neste espaço, para além dos textos do escriba, sempre se deu lugar à divulgação e discussão de ideias, acontecimentos e autores. Margarida Rebelo Pinto dispensa apresentações. Amavelmente aceitou o convite deste blog para uma pequena entrevista respondendo a cinco singelas questões que, cremos, será mais um caminho para desfrutar da escrita de uma autora que pôs os portugueses a ler. Conhecia-a na Faculdade de Letras de Lisboa no tempo em que mantinha estreita colaboração com o jornal Se7e. Cedo se lhe adivinhava o reflexo da sua personalidade na sua escrita ágil, firme, determinada e irrequieta. O seu primeiro livro, Sei lá, publicado em 1999, foi um dos maiores sucessos de vendas em Portugal, atingindo números de vendas pouco usuais para o país. O seu último livro atingiu, até ao momento, a marca de sessenta e cinco mil livros vendidos, num inequívoco sinal de adesão do público que se revê na escrita contemporânea e ágil e no retrato de um quotidiano urbano, nem sempre, em sossego. Reiterando os nossos agradecimentos, passemos à entrevista...
                                                                                                                           

Como surge Margarida Rebelo Pinto no mundo literário?


Sempre quis ser escritora. Tive a sorte de crescer entre livros, os meus pais sempre me deram várias opções para escolher desde muito cedo. A partir dos 10 anos já lia todos os dias, é uma paixão que nasceu comigo. Nem me lembro quando comecei a escrever, deve ter sido mais ou menos nessa idade. O Sei Lá, publicado em 1999, (1º Prémio Literário Fnac em 2000) foi o primeiro romance a singrar por entre alguns manuscritos que andava a trabalhar há alguns anos. Os outros ficaram na gaveta, nunca mais lhes peguei.



Tom intimista,agilidade narrativa e personagens que se passeiam no espelho de uma realidade quotidiana. É esse o segredo do seu sucesso?



Não sei. Às vezes penso que ainda é mais simples do que isso, é uma questão de empatia. As pessoas lêem os meus livros com o coração porque se identificam com o que escrevo, é como se elas fossem os meus personagens, há uma identificação profunda e natural e esse fenómeno, enquanto escritora, nunca imaginei possível a tão larga escala



Como encara a "ameaça" de blogues e redes sociais ao livro em papel?

São coisas muito diferentes! Nunca fui fã da blogosfera, há muito pouca coisa boa e muitos delírios de autoreferência, não é nada a minha onda. As redes sociais têm um papel muito importante, elas aproximam as pessoas e são uma meio de divulgação especialmente eficaz e interessante.



Em "Não há coincidências" assistimos a uma resistência ao machismo não se deixando cair, contudo, no folclore feminista. É um equilíbrio real ou uma estratégia narrativa?



As duas coisas. Portugal ainda é um país de misóginos, essa é uma das minhas batalhas enquanto mulher e enquanto escritora, denunciar e combater a misoginia. O foclore feminista irrita-me imenso, acho uma coisa foleira, démodé. O que me interessa é perceber porque é que os homens têm medo das mulheres, por exemplo. Ou perceber porque é que as mulheres se deixam maltratar e não se conseguem libertar de relações doentias. As intrigas familiares e as relações amorosas são a base dos meus livros. A ficção serve para eu arrumar o caos interior. Mas nunca está arrumado, nunca, é uma tarefa perpétua.


Rui Veloso cantou: "Não há estrelas no céu", Margarida Rebelo Pinto escreveu: "Não há coincidências". Afinal em que ficamos?





Claro que há estrelas no céu, claro que há coincidências. Acredito que nada acontece por acaso, e o que semeamos é o que colhemos, mas para isso é preciso semear.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

A NOITE



Carregada em ombros pela madrugada, a noite ia alta com umas quantas casas de avanço sobre o sono da mulher perdida e enredada em metáforas farruscas, sonhos e palpitações embrulhados numa angústia desmedida cravada sobre o peito mesmo ao lado do coração. Tivesse andado mais tempo com os Lusíadas à ilharga e regurgitaria estrofes e palavras doces numa métrica de sentido que lhe amenizasse o desassossego da alma, irrequieta e afoita, lembrando-lhe a desoras que estava ali. Estava exausta. Exausta de palavras e de espera. O destino tecia teias em linhas de amor cúmplice e inesperado. Uma série de curvas e contra-curvas numa recta imaginária em aceleração máxima em direcção à vontade. Vontade de o ter nos braços, de lhe sentir o cheiro e a pele suada, colada à sua. Sentia-lhe a falta e exigia-lhe a presença. Ambas se erguiam num torvelinho de emoções que, para além de a deixar exaurida a mantinha viva na esperança quase certeza de que ele viria. Sabia que ele viria, por isso esperava. Esperava só mais uma vírgula, mais um parágrafo, para sorrir com o desvelo e o carinho das suas palavras doces e seguras. Ele acabava por chegar. Chegava sempre. Um sono tardio e incompleto num bocejo quase sorriso que lhe escancarava a porta para o encontro físico, na matemática de dois corpos que se enrolavam num algarismo mágico livre de tralha estílistica e pleno de química e afecto, numa equação infinita onde o tempo era apenas um espaço entre linhas.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

AUSÊNCIAS...

Mark Kostabi (Tomado de empréstimo da Maria Lessa)

É cíclico. O esciba bloqueia, as palavras raspam-se e a intermitência dos textos acentua-se. Para além da carga laboral a tolher a margem de manobra, o êxodo das palavras para parte incerta e o vazio a preencher o espaço vago entre os parietais tornaram o passeio pela escrita numa viagem pela noite branca. Ainda andou o escriba a esgravatar na história da mediocridade do Governador premiada com um vetusto cargo internacional ou na sacanice dos têxteis do Vale do Ave contratando dias a fio, sem salário, operários inocentes a torrar o resto de dignidade enriquecendo crápulas à custa de miséria num país que nada em águas turvas, desde a história dos robalos à história do arroz de polvo…malandrinho… Afinal, parece que histórias não faltam… De peito aberto e face… iluminada… É pegar no papel e lápis que os parágrafos brotam em torrente. Quanto ao público, um pouco mais de paciência que a mordacidade não tarda a chegar…(Aqui calhava bem o Maré Alta do Sérgio Godinho)

Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

INCLUSÃO SOCIAL


O texto de hoje faz parte de uma iniciativa da Fábrica de Letras sobre a temática da Velhice. O escriba optou por reutilizar um post de 2009 não por falta de matéria, mas porque esta se mantém bem actual. Não pretende ser um ataque a nenhum extracto social, apenas põem a nu um flagelo global fruto do rumo de uma sociedade virada para o consumo e para a imagem, totalmente desprovida de valores. A cena desenvolve-se numa família de classe média na periferia de Lisboa.

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Cravou mais um prego na cruz do crédito bancário.

Fiat Punto, novinho em folha e reluzente, estacionado à porta do prédio rabiscado de graffitis.

Puxou os lençóis do cartão visa até ao topo e "ala que se faz tarde" para a rodagenzinha da viatura até ao Algarve, numas mini-férias recheadas de prazer.

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- António! O teu pai está doente! Tens que o levar ao médico!

- Logo agora!? Irra que o "velho" arranja sempre boas alturas para ficar doente!

"Não o vou meter no carro... ainda se vomita e suja-me o carro todo. Chamo mas é os bombeiros que eles levam-no."

Nem esperaram pelo cumprimento dos formalismos. Mal o homem deu entrada na triagem, assim que as portas se fecharam atrás dos maqueiros, apanharam um táxi, rapidamente e em força, com destino a casa. Um Algarve divertido esperava poreles.

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A semana passou a correr. Queimados da praia, cansados da viagem, foi só o tempo de ir passear o cão que estava "à rasca" para mijar e ir buscar "o velho" ao hospital.

Sim, era o seu pai... mas era um estorvo! A reforma que lhe esmifravam mensalmente nos correios, à força de botar o indicador direito no recibo, mal dava para os medicamentos. Queriam sair e não podiam. Adoecia a torto e a direito. Não tinham dinheiro para o pôr no lar... grande bico de obra!

"Agora chego lá e invento a desculpa que tivemos uma gastrointerite e ficámos sem telemóvel... Também... que se lixe.. o"gajo" ali ainda teve cama, mesa e roupa lavada... e ainda andou no trolaró com os outros... Portanto! Não se queixe.

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Já em casa, "o velho"manifestou a sua vontade em ir ao jardim. Uns meneios de cabeça, uns gestos e uns sons guturais era quanto bastava para exprimir as suas vontades. Desabituara-se de falar. Fosse pela trombose, fosse pela impaciência e má vontade da família em tentar entendê-lo, desabituara-se de falar.

Lá fora, vagarosamente, dirigiu-se ao muro de pedra sentando-se junto dos demais, apanhando as últimas réstias de um sol que teimava em não fugir de si...