(Paula Rego)
Auscultadas as opniões do público decidiu, o escriba, dar seguimento à história da Vinda. Porventura, não é o final libertador ou libertário que todos esperavam, mas é, isso sim, o mais verosímil e, em certos pontos, o mais próximo de uma certa realidade que ainda perdura.
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Ali, naquele cantinho bombeado a oitenta e cinco batimentos por minuto, ainda soçobrava, esbracejante, uma réstea de amor próprio, náufrago, no meio de dúvidas e questões. A frase caíra como uma facada. Desabituara-se de esperar uma palavra de conforto, quanto muito, uma imperativa ou interrogativa, nunca uma exclamação sincera, ainda que coxa por tardia, alicerçada na deficiência. Tanta dúvida ortográfica e gramatical não era apanágio do seu raciocínio, o cérebro há muito que fora classificado de zona morta, local de estudo arqueológico em busca de vestígios de pensamento e cogitação. O que poupara em tempo de escola não o gastara sequer com a Maria ou a Caras. Letras e algarismos eram sinalefas míopes no verso de contratos e livranças assinados na apressada hora de almoço, diante do gestor de conta, o mesmo que agora lhe exigia a honorabilidade dos seus compromissos. Sim… Assine aqui… Carência de juros e capital… Vá lá… Durante três meses não paga nada, depois… Depois logo se via… Entre o Fiat Punto lavado, parafinado e encerado todo o santo sábado, a dormir amedrontado, ao relento, entre a ameaça do vidro escaqueirado e o roubo do auto-rádio, entre a avaria do microondas, do frigorífico e o aparelho dos dentes do miúdo, sobrava em incisivos e molares o que havia em débito excessivo para mastigar. Fosse a familia desdentada e o problema estaria resolvido. Não tivera cabeça para a escola. Farta de servir os senhores deixara-se levar pela mão do marido. Agora… Agora deixara os sacos tombados no chão com o garrafão de água do luso a rebolar até ser travado pela arrastadeira, a meio, debaixo da cama.
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“RODAR PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”, era a inscrição no metal ferrugento da enxerga saída de filme do canal dois sobre o Vietname. Aqueles também, coitados… esventravam a existência em caixas de sapatos minadas por engraxadores meia leca de chupa chups na boca : - Quer graxa? Quer graxa? - Bum! Quilo e meio de fígado esfrangalhado e pedaços de pâncreas solidários com a vitrine da barbearia por onde escorria o intervalo com anúncios do Oculista Cristal de Ouro e da mistela capilar do Restaurador Olex que recuperava, autênticos tufos de relva, em carecas seborreicas fascinadas com o milagre imediato a troco de cinco escudos e cinquenta centavos. Sem intervalos era a vida dela que passava numa fita dolente e sem côr entre a tarefa hercúlea de acordar o marido enterrado, a sono solto, nas molas lassas e cheias de fome a comer tecido a olhos vistos, da poltrona que ele trouxera das obras de remodelação do consultório do doutor Evaristo, que apalpava as mamas das pacientes na auscultação da tísica e na prescrição avulsa e distraída de remédios para os nervos. Parecia mal… Queria ela bem saber que parecesse mal. Más eram as berlaitadas ao sábado à noite, de empurrão, com a ajuda do canal dezoito a servir de motor de arranque, as mãos ásperas da lexívia na camisa branca que ele tanto gostava e que era lavada e esfregada com pedra pomes para não ficar encardida, assim como má era a lancheira preparada, de madrugada, para sobrar para a gasolina para a praia das maçãs, onde molhava os pés sempre de olho no miudo e comia um cornetto, ao final da tarde, num prazer lânguido e sensual sorvido aos bocados e de forma obscenamente ruidosa. E se tinha tido oportunidades... O gestor do banco. Sim… Aquele boneco de matraquilho de cabeça enterrada no pescoço e com os pés perdidos e coladinhos no fundo da palmilha trinta e três de bailarina de caixa de jóias, comprada na Praça da Concórdia durante a lua de mel dos tios, muito amigos do senhor Cabral da contabilidade, que o conheciam desde o ventre torturado em pontapés num ânsia de nascer. De dedinhos trémulos roçava-lhe as costas da mão, enquanto fazia mais uma cruz nos poucos espaços em branco da livrança armada em chagas de uma cruz que viera, na companhia doToyota, para ficar … Ou o senhor Rodrigues do mini-mercado… Esse sim, homem com arcaboiço de touro do Farmville que se babava todo sempre que lhe sentia os vapores da colónia de drogaria usada com parcimónia. Sempre arranjava alguma coisa para arrumar e roçar-se no rabo dela, em bicos de pés, a tirar os pickles da prateleira para chegar às azeitonas pretas em rodelas, mesmo boas para o bacalhau à Gomes de Sá. Ele esvaía-se em suor, antecipando orgasmos na vontade indómita de a agarrar à força e possuí-la entre as paletes do Mimosa meio gordo e as caixas repletas de melão de Almeirim. Sempre se contivera até ao dia em que a fizera rodar e a encostara ao escadote, aberto para trocar a lâmpada fluorescente, salpicada de caganitas de moscas mortas em combate desigual, num campo de batalha mortífero que grelhava, sem piedade, o insecto mais incauto ou atrevido. Só lhe percebeu a vontade férrea quando sentiu os dedos, doidos, aos saltos, a forçar a entrada no seu sexo , dócil, a oferecer uma ténue resistência embalada pela língua que lhe invadiu a boca quase até ao esófago… Ainda o empurrara e tentava recuperar a respiração, mas já os mamilos túrgidos se escondiam nas mãos ávidas do merceeiro. Não fosse a dona Cristina , típico exemplar de coxinha de novela dando umas bengaladas, inspiradas no Eça, no ferro de trancar a porta: - Ó senhor Rodrigues ! Esqueceu-se das minhas compras? Tou que nem posso das minhas costas! Vá lá a ver… E rodou nos calcanhares ruminando imprecações pela falta grave , mancha negra e irrecuperável na folha de serviço do profissionalismo ostentado a retalho e a aventura teria terminado lá no fundo, húmido e sem reservas, da lascívia fértil em prazer, tanto mais saboroso quanto proibido. Mas desde aí nunca mais houvera nada. Fosse por medo das léguas que a conta já levava no asfalto da dívida, fosse porque a empregada da casa de móveis lhe escancarava as coxas, sem rebuço ou interesse, enquanto se extasiava com as páginas da Maria, mastigadas de boca aberta numa chiclete a desfazer-se em excesso de saliva, ele nunca mais a procurara. Ainda bem que não… Se descobrissem , parecia mal… Com o miúdo na escola e a vizinhança, recomeçar tudo do zero cheirava-lhe a vida recauchutada na fábrica Dunlop com pneu acabadinho de tratar que durava mais uns anitos, mas com jeitinho e sem avarias….
- Vinda ? Em que estás a pensar Vinda?
- Nada! Não estou a pensar em nada – Acordara do torpor de lembranças e emoções. Parecia mal… Parecia mal era a distância entre ajeitar a gola do pijama de flanela mal engomado do aleijadinho e deitar a correr pelas escadas abaixo na companhia do Cloney ou outro qualquer, em direcção ao infinito da ficção, onde o amor acontece sempre entre um take repetido por capricho do realizador ou na amálgama retorcida de argumentos e frases fáceis dos capítulos pobres e de letra miudinha do Corin Tellado.
- Estás estranha! Logo hoje que estás tão bonita….
“RODAR A MANIVELA PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”… Deparara, de novo, com o anúncio no ferro quando se baixava para apanhar o garrafão que rebolara até à arrastadeira. Rodou a manivela enquanto lhe ajeitava a almofada atrás do pescoço. Sim… Estava bonita. Era bonita. Assim como ele… Que também fora bonito desde o momento em que chegara à vida e até ao momento em que a abandonara…


