Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

VINDA - SIM. ERA BONITA...

(Paula Rego)




Auscultadas as opniões do público decidiu, o escriba, dar seguimento à história da Vinda. Porventura, não é o final libertador ou libertário que todos esperavam, mas é, isso sim, o mais verosímil e, em certos pontos, o mais próximo de uma certa realidade que ainda perdura.
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Ali, naquele cantinho bombeado a oitenta e cinco batimentos por minuto, ainda soçobrava, esbracejante, uma réstea de amor próprio, náufrago, no meio de dúvidas e questões. A frase caíra como uma facada. Desabituara-se de esperar uma palavra de conforto, quanto muito, uma imperativa ou interrogativa, nunca uma exclamação sincera, ainda que coxa por tardia, alicerçada na deficiência. Tanta dúvida ortográfica e gramatical não era apanágio do seu raciocínio, o cérebro há muito que fora classificado de zona morta, local de estudo arqueológico em busca de vestígios de pensamento e cogitação. O que poupara em tempo de escola não o gastara sequer com a Maria ou a Caras. Letras e algarismos eram sinalefas míopes no verso de contratos e livranças assinados na apressada hora de almoço, diante do gestor de conta, o mesmo que agora lhe exigia a honorabilidade dos seus compromissos. Sim… Assine aqui… Carência de juros e capital… Vá lá… Durante três meses não paga nada, depois… Depois logo se via… Entre o Fiat Punto lavado, parafinado e encerado todo o santo sábado, a dormir amedrontado, ao relento, entre a ameaça do vidro escaqueirado e o roubo do auto-rádio, entre a avaria do microondas, do frigorífico e o aparelho dos dentes do miúdo, sobrava em incisivos e molares o que havia em débito excessivo para mastigar. Fosse a familia desdentada e o problema estaria resolvido. Não tivera cabeça para a escola. Farta de servir os senhores deixara-se levar pela mão do marido. Agora… Agora deixara os sacos tombados no chão com o garrafão de água do luso a rebolar até ser travado pela arrastadeira, a meio, debaixo da cama.
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“RODAR PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”, era a inscrição no metal ferrugento da enxerga saída de filme do canal dois sobre o Vietname. Aqueles também, coitados… esventravam a existência em caixas de sapatos minadas por engraxadores meia leca de chupa chups na boca : - Quer graxa? Quer graxa? - Bum! Quilo e meio de fígado esfrangalhado e pedaços de pâncreas solidários com a vitrine da barbearia por onde escorria o intervalo com anúncios do Oculista Cristal de Ouro e da mistela capilar do Restaurador Olex que recuperava, autênticos tufos de relva, em carecas seborreicas fascinadas com o milagre imediato a troco de cinco escudos e cinquenta centavos. Sem intervalos era a vida dela que passava numa fita dolente e sem côr entre a tarefa hercúlea de acordar o marido enterrado, a sono solto, nas molas lassas e cheias de fome a comer tecido a olhos vistos, da poltrona que ele trouxera das obras de remodelação do consultório do doutor Evaristo, que apalpava as mamas das pacientes na auscultação da tísica e na prescrição avulsa e distraída de remédios para os nervos. Parecia mal… Queria ela bem saber que parecesse mal. Más eram as berlaitadas ao sábado à noite, de empurrão, com a ajuda do canal dezoito a servir de motor de arranque, as mãos ásperas da lexívia na camisa branca que ele tanto gostava e que era lavada e esfregada com pedra pomes para não ficar encardida, assim como má era a lancheira preparada, de madrugada, para sobrar para a gasolina para a praia das maçãs, onde molhava os pés sempre de olho no miudo e comia um cornetto, ao final da tarde, num prazer lânguido e sensual sorvido aos bocados e de forma obscenamente ruidosa. E se tinha tido oportunidades... O gestor do banco. Sim… Aquele boneco de matraquilho de cabeça enterrada no pescoço e com os pés perdidos e coladinhos no fundo da palmilha trinta e três de bailarina de caixa de jóias, comprada na Praça da Concórdia durante a lua de mel dos tios, muito amigos do senhor Cabral da contabilidade, que o conheciam desde o ventre torturado em pontapés num ânsia de nascer. De dedinhos trémulos roçava-lhe as costas da mão, enquanto fazia mais uma cruz nos poucos espaços em branco da livrança armada em chagas de uma cruz que viera, na companhia doToyota, para ficar … Ou o senhor Rodrigues do mini-mercado… Esse sim, homem com arcaboiço de touro do Farmville que se babava todo sempre que lhe sentia os vapores da colónia de drogaria usada com parcimónia. Sempre arranjava alguma coisa para arrumar e roçar-se no rabo dela, em bicos de pés, a tirar os pickles da prateleira para chegar às azeitonas pretas em rodelas, mesmo boas para o bacalhau à Gomes de Sá. Ele esvaía-se em suor, antecipando orgasmos na vontade indómita de a agarrar à força e possuí-la entre as paletes do Mimosa meio gordo e as caixas repletas de melão de Almeirim. Sempre se contivera até ao dia em que a fizera rodar e a encostara ao escadote, aberto para trocar a lâmpada fluorescente, salpicada de caganitas de moscas mortas em combate desigual, num campo de batalha mortífero que grelhava, sem piedade, o insecto mais incauto ou atrevido. Só lhe percebeu a vontade férrea quando sentiu os dedos, doidos, aos saltos, a forçar a entrada no seu sexo , dócil, a oferecer uma ténue resistência embalada pela língua que lhe invadiu a boca quase até ao esófago… Ainda o empurrara e tentava recuperar a respiração, mas já os mamilos túrgidos se escondiam nas mãos ávidas do merceeiro. Não fosse a dona Cristina , típico exemplar de coxinha de novela dando umas bengaladas, inspiradas no Eça, no ferro de trancar a porta: - Ó senhor Rodrigues ! Esqueceu-se das minhas compras? Tou que nem posso das minhas costas! Vá lá a ver… E rodou nos calcanhares ruminando imprecações pela falta grave , mancha negra e irrecuperável na folha de serviço do profissionalismo ostentado a retalho e a aventura teria terminado lá no fundo, húmido e sem reservas, da lascívia fértil em prazer, tanto mais saboroso quanto proibido. Mas desde aí nunca mais houvera nada. Fosse por medo das léguas que a conta já levava no asfalto da dívida, fosse porque a empregada da casa de móveis lhe escancarava as coxas, sem rebuço ou interesse, enquanto se extasiava com as páginas da Maria, mastigadas de boca aberta numa chiclete a desfazer-se em excesso de saliva, ele nunca mais a procurara. Ainda bem que não… Se descobrissem , parecia mal… Com o miúdo na escola e a vizinhança, recomeçar tudo do zero cheirava-lhe a vida recauchutada na fábrica Dunlop com pneu acabadinho de tratar que durava mais uns anitos, mas com jeitinho e sem avarias….
- Vinda ? Em que estás a pensar Vinda?

- Nada! Não estou a pensar em nada – Acordara do torpor de lembranças e emoções. Parecia mal… Parecia mal era a distância entre ajeitar a gola do pijama de flanela mal engomado do aleijadinho e deitar a correr pelas escadas abaixo na companhia do Cloney ou outro qualquer, em direcção ao infinito da ficção, onde o amor acontece sempre entre um take repetido por capricho do realizador ou na amálgama retorcida de argumentos e frases fáceis dos capítulos pobres e de letra miudinha do Corin Tellado.

- Estás estranha! Logo hoje que estás tão bonita….

“RODAR A MANIVELA PARA A DIREITA PARA SUBIR A CABECEIRA”… Deparara, de novo, com o anúncio no ferro quando se baixava para apanhar o garrafão que rebolara até à arrastadeira. Rodou a manivela enquanto lhe ajeitava a almofada atrás do pescoço. Sim… Estava bonita. Era bonita. Assim como ele… Que também fora bonito desde o momento em que chegara à vida e até ao momento em que a abandonara…

Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

VINDA... CONTINUA OU ACABA AQUI?

(Do álbum my photos de Maria Lessa)



Sim, o escriba é um provocador! Para além dos parágrafos perdidos e das palavras arredias houve quem achasse que a alegria da Vinda não se poderia esgotar na pobreza vocabular do: "Estás tão bonita!"
E agora José? Não sabia o Drummond nem sabe o escriba! Entre a dúvida metódica e existencial de elaborar um texto novo, prolixo, verborreico e a fazer festinhas ao humor e dar continuidade ao texto da Vinda, muitas interrogações se levantaram. Prosseguir com a grandeza de coração da Vinda? Emancipá-la? Deixá-la cair nas garras da vingança?
Um mail, um comentário na caixa, um aceno, um sopro... o leitor sugere...o escriba escreve!

Domingo, 10 de Janeiro de 2010

BEM VINDA E A BELEZA


Bem Vinda não chegara a acertar contas com a beleza, mas o algoritmo matemático do cálculo não era matéria que lhe tirasse o sono. O sono era pesado e justo e matéria era coisa que não lhe faltava, ali, no lado direito do lava-loiças onde escorriam preguiçosamente uns fiozinhos de água dos pratos acabados de lavar ou no monte de roupa amarfanhada no cesto de plástico do Ikea, comprado em promoção, a pedir com urgência umas festas de ferro de engomar. Primeiro passear a vassoura pela marquise repleta de pêlos do snoopy que ainda não fora à rua e fazia cruzes com as patas em aflitiva contenção urinária, mas só depois de estender a roupa, ainda húmida e vincada, acabadinha de sair do carrossel lento e ruidoso dos sessenta graus de AEG Lavamat a estrebuchar de ferrugem , que não escolhera hora para cair doente e que tinha sido prenda de casamento dos padrinhos. Umas jóias de pessoas que Deus os tivesse no céu, em boa conta e a seu lado, na companhia de anjos e querubins por entre nuvens de algodão e árias de harpa afinada. Nunca lhes faltaram com nada, graças a Deus, mas também não se podiam queixar. Fora ela que lhes valera com caldos e carinho na fase terminal da doença. O mal já andava lá dentro e a gangrena traiçoeira sugara-lhes uns previsíveis bons anos de vida.Vinda distraía-se com as horas. Vinda … Sempre se habituara ao diminuitivo. Os pais, lavradores de profissão e remediados por afinição, já sustentavam uma prole ranhosa e aflita de cinco mancebos, o descuido nocturno por gula intempestiva do macho fizera o resto, obrigando ao milagre da multiplicação dos pães por força de arranjar espaço para mais um na gamela. Foi a tia Emília mais a mulher do lugar, aquela lojeca das ferramentas, potassa e carvão a granel com um arco feito de barrotes à entrada ,enfeitado com um reclame de metal corroído e desbotado com o cavaleiro dos correios telegramas e telefones onde se ia levantar o vale da pensão nas vezes da Casa do Povo, fechada, porque a dona Mina andava sempre doente, quem acalmou os berros e enxugou as lágrimas com toalhas quentes. Por ser uma gravidez extemporânea e pela pressa em nascer, o pai baptizara-a logo ali, no quarto pequeno e atarrcado onde o soalho exibia mazelas profundas dos pregos soltos.
-Bem Vinda ao mundo! - Bem Vinda chegara e Vinda ficara. Assim que ganhara corpo os pais mandaram-na para Lisboa para casa do doutor Rodrigo proveniente de uma família com uma carrada de nomes, para servir. Que Deus os tivesse em boa conta pois que os senhores lhe providenciaram cama, mesa, roupa lavada e ainda a meteram a estudar. Ficara-se pelo nono ano, o suficiente para ler os recados e fazer contas na praça sem se enganar no troco. Enamorara-se dele, do seu homem. Um artista. Fora a casa dos doutores para compôr umas tomadas e dar luz aos candeeiros. Algures, entre a fase e o neutro, dera-se o curto-circuito da paixao. Era esbelto, olho vivo e resposta pronta, trabalhador e despertava o olho gordo da cobiça das amigas. Quase três horas!... E ainda tinha que ir levantar o dinheiro para pagar o condomínio, porque já tinha vergonha de encontrar a velha da administação, uma antiga professora de piano, reformada, chata, má como as cobras rumorejando sem descanso dichotes sobre a vida alheia. Desde que o marido morrera, ficara amarga destilando fel às postas a cada meia sílaba do discurso. Desculpe o atraso o patrão não pagou ao meu marido mas esta semana faço o depósito. Se pudesse, ainda passaria pela mercearia a acrescentar mais umas parcelas na conta que já chegava à China. O mal de tudo era o Pingo Doce não aceitar cheques. Que vergonha! Desde que lhe voltara um para traz, cheio de pressa para anunciar ao mundo que andava a descoberto e em pêlo, que nunca mais fora ao supermercado. Desculpe trouxe os cheques da outra conta, deixo aqui o carrinho e já volto… Nunca mais! O empregado do piercing na língua e a tatuagem dos Scorpions que o arrumasse nas prateleiras na companhia do ordenado mínimo. Tinha que se despachar ou perdia o autocarro para ir buscar o miúdo à escola arrojando com ele por uma mão e a mochila na outra, mais a nintendo dependurada, a lancheira e a bola de futebol. Era só o tempo para passear o snoopy, dar banho ao miúdo e preparar o jantar. Por vezes, enevoa-se-lhe a vista com uma sombra de tristeza. Ela bem suspeitava e a suspeita ganhara força quando o subsídio de Natal estoirara por completo na oficina do Carriço, para arranjar o carro que o marido espatifara no cruzamento da João Crisóstomo com a Defensores de Chaves. A vizinha do segundo esquerdo, mesmo por cima da padaria, bem lhe dizia que ele andava às gatas… Pois era zona de elas irem miar. Depois disso a cunhada do Victor do banco afirmara tê-lo visto com uma mastronça e a partir daí, o enredo ganhara forma e volume. Lá lábia para as outras tinha ele, mas olhos ou uma palavra de conforto para ela haviam-se perdido, há muito, na via láctea da indiferença e do esquecimento, tanto mais injusto quanto doloroso. Ela bem sabia quando ele chegava bem disposto e sorridente. Um beijo de fugida com receio de que lhe tomasse o gosto da outra… Havia moura na costa. Na costa, nas ancas, no sexo… Era um fartote, ela bem sabia ele dizia que tinha muito trabalho, mas ia ter com ela. Cambalhotas no quarto a rebolar nos lençóis encardidos do prazer alheio, quarenta euros de aluguer e dois de gorjeta para a recepcionista e não se fala mais nisso… Imaginava as gargalhadas, as volúpias, o prazer, o duche com sabão azul e branco, de ph neutro, para tirar o cheiro. Certamente, a outra fazia aquelas coisas dos filmes. Vinda também faria de bom grado, mas ele não pedia. Era um frete quando ele se encostava. De mau humor, bem lhe via, pelo canto do olho, o ar enjoado pelo seu cabelo com cheiro a fritos do peixe do jantar que ficara a descongelar, desde manhã, em cima da bancada lavada com neoblanc. Montava-se em cima dela sem a fitar nos olhos, esses estavam presos no mastro que metia logo todo. De uma só vez… E depois começava a tremer, forte, cada vez mais forte como se estivese cheio de frio. A rapidez com que fugia de dentro dela e se virava para o lado não lhe dava margem para protesto ou questão. Tou cansado, despejava ele, hoje tive muito trabalho. Já dormia a sono solto por entre roncos e silvos enquanto ela, de olhos postos no tecto e a mão entre as coxas, ia acabar o resto que ele não chegara a começar, para a casa de banho silenciando, a custo, o prazer que teimava em romper os pulmões e arranhar a garganta rouca de raiva. Deixava-se tombar sobre a sanita em sobressalto. E se a ouviam? Não. Ele roncava longe, num sono pesado imaginando-se, porventura, num quarto de lençóis encardidos de prazer alheio e o miúdo trilhava, a fundo, o caminho de sonhos e fantasias. Não. Ninguém a ouvira. Era hora de deitar porque no dia seguinte a rotina começaria bem cedo…
A partida era difícil. Duas equipas em campos diametralmente opostos. De um lado: lavar, passar, engomar, cuidar do filho, no final: ganhava a das mamas grandes… Ela bem queria, mas a hérnia não lhe permitia avarias. Ela tinha que ficar por baixo, direitinha, de perna aberta e ele não lhe podia dar com muita força, por isso lhe justificava os desvarios. Apesar de tudo, gostava dele. Era um bom homem, quanto mais não fosse pelo amor e carinho que devotava ao filho. Isso já lhe bastava. O que não bastava era a indiferença. A ausência da palavra. Ao menos uma palavra. Pequena , por mais pequena que fosse, assim a mais pequena do dicionário Michaelis, aquele muito pesado que havia na biblioteca da escola onde ela esmifrava, às prestações, o seu cérebro fraco num nono ano tirado a ferros. Mas não. Nada! De certeza que as dizia à outra. Ela tirara-lhe a radiografia numa reles partida do destino. Sentira na noite anterior umas fortes dores abdominais que a levaram a aceitar quatro horas de espera na urgência. Cocktail de Voltaren na nádega esquálida ao léu, credencial para análise e exames complementares e ala que se faz tarde. Contrariado, o patrão deixara-a sair mais cedo sob promessa de compensar a hora num dia a combinar, para ir buscar as análises. E foi aí, na rua, que os vira. Saíam da pensão. Abracinhos e miminhos… Ele, um matulão… Embevecido, debicando-lhe os dedinhos em beijos e chupadelas e ela, bonita, alta, loura, de mamas grandes, contorcendo-se de riso e suspiros enlevados. A princípio estacara, mas rápido se recompusera. Não era mulher de chorar. Cada um carrega a sua cruz, a dela era maior que a dos outros todos, fazia chispas no chão e calos no lombo, mas não chorava. Água havia muita da chuva de outono evaporando-se na calçada. Fora buscar as análises.
- Vesícula… Seguir o tratamento, a dieta e daqui a quinze dias venha cá para vermos como é que isso tá… Tá bem?... Sim senhor doutor, reverencial e pronunciado às arrecuas, saindo rápido do consultório porque, o senhor doutor ,já fechava a porta do alto da proeminente responsabilidade de ter que atender uma chamada no telemóvel que acabava de se anunciar… Não se lhe ouvira um queixume. Nada. O jantar continuava a estacionar a horas sobre a mesa impoluta e posta com esmero, o miúdo asseado, trabalhos de casa feitos e o leitinho quente ao deitar, a roupa, o chão o pó, a casa de banho as camas lavadas… Tudo! Às vezes, o calendário estendia o fim do mês para além do admissível. Nessas alturas, a economia familiar, já de si débil, entrava em rota de colisão com o equilíbrio bancário. E era nas vagas de fragilidade que ela mais sentia o peso da ausência de uma palavra. Que lhe dissesse que ainda gostava dela,que a queria, que estava bonita. Mas não. Pobre ou remediado, o pão cai sempre da mesma maneira: com a manteiga virada para o chão. E caíra!… Num segundo de distração, a fatalidade dum andaime mal escorado rebentara com ele no asfalto dando-lhe guia de marcha para o hospital. Se voltasse a andar era um milagre…Deus era injusto… Se escrevia direito por linhas tortas, então a caneta estava romba. O miudo tinha que ficar nos avós. Três quartos de hora de sobressalto e sevícias no comboio até à agualva-cacém , o patrao a moê-la com argumentos estafados para não lhe dar folga, a ginástica da visita hospitalar a fazer mossa na economia débil sempre a nadar no vermelho. Ainda assim, arranjara tempo e coragem para se entregar nas manápulas nodosas da chica cabeleireira para uma mise a preceito , para deixar as camas feitas, fazer a canja, a maçã cozida, arranjar as flores, o garrafão de água mineral, as bolachas e levar as melhoras do Arnaldo da tabacaria, do Armindo e do primo que estava na Guarda e soubera, por um compadre taxista, do acidente e lhe mandara cumprimentos e mais os do Manel que andava lá fora a lutar pela vida. Chegara a tempo mesmo do início da visita, com aquele vestido que só punha nos casamentos e os sapatos pretos, a pedir verniz desde a chegada dos Romanos à península. mas sem ínfimo traço de cansaço. Carregada de sacos, sentara-se na borda da cama, numa respiração entrecortada pela enumeração exaustiva das coisas que lhe trazia. Foi então, naquele momento, talvez porque tivesse ganho consciência, talvez pelo arrependimento ou pela reacção aos sedativos ou talvez porque , afinal, Deus talvez tivesse acabado por comprar uma caneta nova, que ela abrira a boca de espanto enquanto ele, com um fiozinho de lágrimas piegas, quase a descambar para o choro convulsivo a escorrer pela face, vermelho e tremelicando, lhe estendeu a mão balbuciando:
- Estás tão bonita!

Domingo, 3 de Janeiro de 2010

ENTREVISTA À ALAGAMARES


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A ALAGAMARES é uma associação cultural sem fins lucrativos, sedeada em Galamares, na freguesia de S. Martinho, em área classificada de património mundial, fundada com o objectivo de promover o debate e a acção cultural nas áreas da história, património, artes e ambiente do concelho de Sintra. Fundada em Março de 2005, a ALAGAMARES-Associação Cultural é actualmente constituída por cerca de 280 associados.
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A ela agradeço a oportunidade de poder participar no encontro literário por si promovido e a presente entrevista ao escriba.

Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

BOM ANO! ESTAMOS DE ACORDO??



Water Effect by Crazyprofile.com



Após tão prolongada ausência por excesso de trabalho, vem o escriba desejar aos seus leitores um excelente ano e uma auspiciosa entrada, com pena leve, no novo acordo ortográfico. De fato, a manhã amanheceu úmida e fria e, apesar de se ter perdido na volatilidade das borbulhas de champanhe e no estrelejar do fogo de artífício, não foi por gralha tipográfica ou devaneio lírico que o escriba grafou os termos iniciais sem C e sem H... De fato, o escriba, com ou sem gravata, já tirara um bilhete para o novo acordo em Junho, altura em que O Lusitânia Online foi impresso no Brasil já segundo a grafia do novo acordo posto em prática, de imediato, pelo país irmão. Assim sendo, e apesar do fato estar consumado, o escriba vai continuar a usar as mesmas linhas para coser um texto procurando que o mesmo, confusões retais à parte, fique, isso sim, correto à luz da gramática.