“O português, mal nasce, deixa de ser criança, e fica, logo, com oito séculos” (1) talvez, por isso achasse ser esse o peso que o vergava contorcendo-se em esgares, pantominas e outros sinais exteriores de síndroma de dor aguda às seis da manhã de um domingo obscenamente quente e provocador. Fosse por falta de fé em milagres ou porque, simplesmente, Deus se esquecera dele no rol de actividades, um par de horas depois entrava na ambulancia do INEM com a vizinhança a lambuzar-se com o espectáculo sem tirar bilhete. Lá explicou ao médico imaculadamente estático e enfadado, numa equação tormentosa por A + B os sintomas de que padecia na zona lombar. Numa época de contenção de custos em que até a vida estava pela hora da morte, e dado que uma caixa de robalos de pescar à Vara já ia nos dez mil euros, o clínico limitou-se a prescrever uma análise e um raio x. Inconclusiva a primeira, optou pelo resultado da segunda: Hérnia discal! De novo, imaculado e estático, escancarou um sorriso contemporizador: “São as hérnias! São as hérnias…” Uma intravenosa de genéricos, dois comprimidos de paracetamol estendidos como hóstias e siga a marinha que atrás vem o exército. Estupefacto, o paciente ainda tentava alertar para o facto de, sendo contabilizáveis, sair com mais três mil trezentas e setenta e oito dores do que as que trouxera de casa, mas já o clínico fanhava perdigotos ao microfone, qual locutor da Emissora Nacional ,de voz nasalada regozijando-se com a letra e música do Gabriel Cardoso clamando pelo paciente seguinte.
Se Deus fosse brasileiro o inferno, seguramente, seria português, mais propriamente localizado na área de residência do escriba, tais as duras penas a que fora condenado durante dois tormentosos dias, findos os quais, voltou de ambulância já sem se aperceber do protagonismo no espectáculo de rua balbuciando uns queixumes nos intervalos dos tremores febris numa situação que, mais do que grave, se tornara aguda e exibida de forma esdrúxula. Gramáticas à parte, a burrice e distracção com que as alminhas lusas teimam em sustentar no poder os responsáveis pelos cortes orçamentais, talhantes e coveiros de uma pátria que, felizmente lhes sobreviverá, não permitiu prescrever ao novo clínico um Tac. “Tac nas urgências só muito bem explicadinho e justificadinho”, em português correcto livre de polémicas ortográficas, mas plena de empecilhos políticos, só andando a passear à beira dos terrenos do rigor mortis. Análise e raio x, sim…mas desta vez - Vá lá - Era dia de festa e lá foi autorizada a eco renal. O Prognóstico, para além de vir no fim do jogo, não podia ser pior: complicação renal de braço dado com a residente hérnia discal. Pobre é assim, para além do pão cair com uma frequência irritante da lei de Murphy com a parte barrada para baixo… do que é bom tem míngua, do que é mau, tem sempre em dobro. Meia dúzia de injecções mais tarde lá concederam a benesse da alta ao paciente, termo que, fora deste contexto, caracteriza todos os portugueses que há largos anos suportam cortes orçamentais, crises e apertos de cinto sussurrados no aconchego aveludado das arcadas do Terreiro do Paço. E então, deu-se o milagre! A acreditar no documento emitido pela instituição hospitalar conforme atesta a imagem supra no seu canto superior esquerdo, o paciente ou regressava ou partia para a outra margem … Em bold ostensivo exibia-se, sem margem para dúvidas, o destino do doente: FALECIDO COM AUTÓPSIA… não fosse o paciente estar quente e a mexer as perninhas e acreditaria que a vida era mesmo uma miragem. No meio de tanto constrangimento ainda arranjara tempo para pensar na sua falta de fé e nas palavras da sua avó: Deus mastiga! Pois parece que sim, que mastiga… O maroto… E desta vez, dera uma dentada das valentes por conta dos pecados em mora…
(1) José Cardoso Pires

6 comentários:
não é um texto literário, mas o humor corrosivo e a leitura de entre-linhas marcam forte presença...
Marcam e de que maneira!!!
Mas marcar... marcar... marcam as palavras do Escritor Luis Bento! Está de regresso! Mas que regresso... não fora a situação que viveu... eu diria... Mas vou dizer mesmo!DIA DE FESTA! Sim, Dia de Festa... porque aqui temos o Escritor a encantar-nos com a sua escrita!
Como o Escritor escreve bem... Como consegue com as suas palavras descrever uma situação... que nos põe(nós... os leitores e admiradores da boa escrita) a vivê-la e a senti-la paredes meias com o "morto-vovo" ... sim morto-vivo... (o Luis Bento...) esse Grande Escritor!... aquele que as editoras não querem reconhecer o valor da sua escrita!!!
Continue Escritor! Continue sempre! Nunca desista... Persista... Escreva... O seu dia há-de chegar!!! Aquele dia que há tanto.. há tanto tempo merece! Ver os seus livros... os seus romances... os seus contos... expostos nas prateleiras das Grandes Livrarias deste PAÍS.. que tanto precisa da sua escrita!!!
Parabéns ESCRITOR...o texto está como nos habituou... Belíssimo!
Conceição Carvalho
Ainda longe daquelas palavras que te distinguem e que nos fazem reconhecer a diferença entre tantos escritores mas, após tão prolongada ausência, sabe bem ler o que de melhor tens para oferecer num período ainda de convalescença. Por experiência própria, por respeito e por princípio, não brinco com a vida...nem tão pouco com a morte. É quase surreal que um ser humano tenha de passar por uma situação como a que tu experienciaste, no total desrespeito pela vida. Seja como for, fico feliz por ti pois durante todo este período de tempo menos bom e com dor(es), provavelmente terás conseguido ter tempo para pensar, para reflectir e para retirar lições agora importantes. Desejo o teu total restabelecimento e que possas voltar a presentear-nos com os teus escritos de humor (ou amor) corrosivos.
Um beijo...
Olá, Luís. Ainda bem que o escriba sobreviveu. Bons bentos o tragam saudável e como sempre criativo.
Boas e francas melhoras Luís Bento!
Já se sintia a ausência!
Em força agora, todo o gáz na pena, afinal a "hérnia" não é na mão do escriba, pois não?!
Com dôr sem dôr, vamos lá a "arribar"!
Os artigos pra cá! (diz o chefe de redacção)
Tudo do melhor!
Elevada estima,
"um seu seguidor literário!
Só posso estar grato a todos pela presença e pelos comentários. Ainda à procura do ritmo... Que venha rapidamente e em força, o que não duvido com o vosso apoio.
Conceição...Como sempre, generosa nas palavras...
Maria Lessa... É verdade, o texto está longe de outras coisas que produzi, mas é um começo. Estive demasiado tempo parado.
Ana Paula... esperemos...esperemos regressar os velhos tempos...
Protagonista...Mais palavras elogiosas...É verdade.. a hérnia não manietou as mãos, mas fortemente o espírito...passei no seu blog...Actualização? Hum?...
Fez-me lembrar de um sketch do "Top Secret", em que um general alemão recebe um telefonema:
- E então, como é que ele está? Ai é? Muito bem, avise-me se o estado dele se modificar. Morreu.
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