Tem a criatividade andado arredia destas paragens… Entre o excesso de trabalho e a marotice do tempo, aproveitaram as palavras para se esconder sabe-se lá onde… Mas voltam! Voltam sempre! Mais vírgula menos vírgula, entre pausas e ritmos, hão-de acabar na formatura, alinhadas num texto com sentido. Até lá, uma breve participação na Fábrica de Letras para fazer o gostinho ao dedo…
- Jovem! Tem um minuto para a palavra do Senhor?
Entre as unhas encardidas, o hálito fétido polvlhado de cebola e a cultura bacteriológica aninhada no sovaco desde o período bizantino, o indivíduo insistia com o jovem, em pé, agarrado ao varão num equilíbrio bamboleante e precário, de olho nas mensagens do telemóvel, em ler uma breve passagem da Epístola aos Gálatas enumerando as benesses e bem-aventurança do Trono do Céu onde se sentaria Jesus, convenientemente milagreiro, ao lado do Pai. Absorto, o jovem disparou-lhe uma resposta ausente sobre o facto de não ser hora nem local para Deus arregimentar jogadores para a equipa. O pregador de circunstância, fechou a torneira ao sovaco, isnpirou resignadamente e alertou, entre dentes, para os perigos de Satanás se acoitar, traiçoeiramente, na falta de fé das almas descrentes saindo após travagem brusca. Só então o jovem se deu conta de que se encontrava mais aliviado... não dos pecados lavados na pureza do rio Jordão, mas da carteira, quando levou a mão ao bolso, agora quase vazio, onde soçobrava o bilhete e umas poucas moedas de cêntimo...

4 comentários:
Um olhar atento da realidade das almas...
Tens razão. As palavras voltam...voltam sempre.
Parabéns.
Estes jovens sempre mais atentos ao tmv do que ao resto, depois queixam-se que são vigarizados!
Curta, breve e sucinta a forma de mostrares a forma simples de como actua um carteirista.
Já nem a palavra do senhor está a salvo!
O meu vazio é mto mais saboroso que o teu... (risos)
Olá Bento!
Passei a correr, mas vim!
:)))
Providencial a sua visita, Bento. Veio clarear um pouco a escuridão deste dia (aqui ainda é sexta-feira) tão aziago para a literatura em nosso idioma. Em nome (em Todos os nomes!) disso, guardo a viola da ironia no saco e o saúdo com a devida gravidade. E digo somente que o privilégio é todo meu: este seu espaço literário é um dos melhores dentre os inúmeros que conheço. Um abraço
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