Por vezes, o escriba perde o pio… Longas e penosas temporadas sem ouvir o trinado das palavras. Fosse ele siciliano e há muito que estariam a fazer parte da composição molecular do betão armado, mas não… anos de carga cultural judaico-cristã, amparada no encosto terno e sábio da experiência do avô materno a vergar-lhe o dorso , não lho permitiriam. “Isto é como as ovelhas… é deixá-las ir que quando tiverem fomeca regressam! Até se encavalitam umas nas outras!” E voltaram… um emaranhado de hieróglifos confuso na sintaxe, mas prenhe na sensibilidade e no sentido… E assim, nas entrelinhas da noite cerrada, deu-se um click … Uma prenda da madrugada…
Por mais que ele puxasse as baínhas à memória não encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsmo para a alma, mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual com o dicionário dos afectos…
Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que ,ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela assoalhada vaga no coração.
Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda. Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados numa forma única, consumiam-se num movimento lânguido e lento , através dos cabelos dela escorregando teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo com que ela lhe acariciara os lábios . A lua a estender-se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, experimentando num último estertor de prazer, um sorriso amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.
Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta:
- E tu? Em que pensas?
Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou-lhe por sua vez:
- E tu? Sabes o que é amar?
Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos porquês, aninhou-se-lhe no peito , atirando-lhe num sussurro:
- Amar? Amar…É gostar de ti com muita força…


13 comentários:
ohhhhhhh!!! linda resposta!
:D
escrever tem destas coisas... dias em que as palavras se atropelam, semanas mudas e silenciosas, inconstâncias e desalentos, mas algo me diz, que a paixão pela escrita acaba sempre por vencer... é uma peninha que não acredites em mim! ;)
beijinho e parabéns (excelente madrugada)
As palavras voltaram...tu voltaste.
Um regresso ansiado de parte a parte, não fora a urgência de ler um néctar de alma. A tua alma.
O texto é absolutamente surpreendente em vagas de ternura e composição poética. És tu. Somos nós...na madrugada.
Amei o que escreveste.
Gosto de ti, com muita força.
Amar......verbo difícil de conjugar....
Bom fim de semana para ti....
Beijo doce
Gosto do texto Luis.Palavras certeiras e não vulgares para falar de algo belo entre pessoas. Não acho atrevidote; a literatuta fala da vida. Inês Pedrosa, numa entrevista a propósito do último livro OS INTIMOS que irei ler (gosto da escrita da Inês) diz que tem sido um traço da literatura portuguesa essa ausência, e que este seu livro rompe com isso mesmo.
Bom trabalho Luís!
Disse-te que voltarias, disse-te que apenas tinha que relaxar e o resto viria naturalmente. Sendo o escritor que és, sabia que seria assim e foi e da melhor maneira:escrevendo,amando que melhor forma de relaxar :)
Bjs Luís.
É tão bom ouvir isso...
Muitas vezes...
Vezes sem conta!
Amar é prender para libertar
Amar é isso é gostar de alguém com muita força.
Venho retribuir (e voltar com mais tempo), as palavras que deixou no meu cantinho, adorei, levanta a "moral" a qualquer uma...rs
Beijo cheio de luxuria
Caro Luiz!
Que linda prosa poética! Fizestes um ninho aconchegante de palavras e nos encontramos no meio dessa trama amorosa sentindo a levesa desse amar tão terno e lírico!
Estou feliz de reencontrá-lo, desde o meu antigo e extinto blog Esterança não o via.
Um grande e forte abraço no meu amigo!
Ester.~
PS: Fiquei contente de ver que ainda guardas o selo de participação na blogagem coletiva Inclusão Social.. que bom! :)
Este texto está SIMPLESMENTE MARAVILHOSO! Continue...
Conceicão Carvalho
Amar...é isto! Escrever com Paixão!
E... voltando a ler este lindo texto...
Está sim... SIMPLESMENTE MARAVILHOSO!
Relendo esta maravilha... em que o Escritor Luis Bento, descreve um momento tão lindo... " dois corpos moldados num só..." e a força do amar...porque "Amar é gostar, gostar mesmo... com muita força"… as palavras têm mesmo que se soltar...
Escritor... Como descreve um acto tão natural e belo... É que...ainda que alguém não tenha amado tão intensamente... fica (porque ficará mesmo...)com uma vontade sem limites de ser amado... sentir e ouvir... "Amar... Amar.. é gostar de ti com muita força!"
Grande ESCRTOR... É a sua escrita...é o seu saber escrever...É A SUA DIFERENÇA!
Continue!
Parabéns! UM MARAVILHOSO TEXTO!Acrescento... SOBERBO!!!
Conceição Carvalho
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