Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

A NOITE



Carregada em ombros pela madrugada, a noite ia alta com umas quantas casas de avanço sobre o sono da mulher perdida e enredada em metáforas farruscas, sonhos e palpitações embrulhados numa angústia desmedida cravada sobre o peito mesmo ao lado do coração. Tivesse andado mais tempo com os Lusíadas à ilharga e regurgitaria estrofes e palavras doces numa métrica de sentido que lhe amenizasse o desassossego da alma, irrequieta e afoita, lembrando-lhe a desoras que estava ali. Estava exausta. Exausta de palavras e de espera. O destino tecia teias em linhas de amor cúmplice e inesperado. Uma série de curvas e contra-curvas numa recta imaginária em aceleração máxima em direcção à vontade. Vontade de o ter nos braços, de lhe sentir o cheiro e a pele suada, colada à sua. Sentia-lhe a falta e exigia-lhe a presença. Ambas se erguiam num torvelinho de emoções que, para além de a deixar exaurida a mantinha viva na esperança quase certeza de que ele viria. Sabia que ele viria, por isso esperava. Esperava só mais uma vírgula, mais um parágrafo, para sorrir com o desvelo e o carinho das suas palavras doces e seguras. Ele acabava por chegar. Chegava sempre. Um sono tardio e incompleto num bocejo quase sorriso que lhe escancarava a porta para o encontro físico, na matemática de dois corpos que se enrolavam num algarismo mágico livre de tralha estílistica e pleno de química e afecto, numa equação infinita onde o tempo era apenas um espaço entre linhas.

14 comentários:

AnaLee disse...

Bem valeu a pena esperar!

lili disse...

Que bonito :)

Anónimo disse...

"Sabia que ele viria, por isso esperava..."
Eu sabia que o resultado da espera das palavras seria inevitavelmente este...um texto magnífico, um texto em que as palavras se unem e se afastam ao ritmo do tempo de espera e dos corpos, que mesmo longe, se desejam.
Amei cada palavra e cada sentido.
Um beijo nosso.

Ana Paula Motta disse...

Que texto lindo,que delicadeza mesmo com tanta intensidade. Um texto repleto de fino estilo,de elegância na escrita, de arrebatamento de sentimentos.

catwoman disse...

Vale sempre a pena esperar por ti, Bento: nunca nos desiludes. :)
Bjs.

Eva Gonçalves disse...

A metáfora muito bem conseguida, de uma forma belíssima :) O problema mesmo é quando apesar da espera, ele não chega(como a minha insónia de ontem, rrss). Valeu a pena esperar por este texto também. Como sempre... Abraço

Escrevo Palavras e Choro Poemas disse...

DELICIA!!! amei o texto!! bj*

Johnes Hebert disse...

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maristela disse...

Tudo já foi dito. Pouco a acrescentar. Talvez inveja de seu texto, de sua disciplina, de seu talento. abraço apertado daqui do sul do brasil

Felina disse...

Palavras para quê?

ValériaC disse...

Que texto mais lindoooo... fascinante... Luis...
Beijos...

Su disse...

Simplesmente spaixonante...

Anónimo disse...

Admirável hermenêutica...

Anónimo disse...

Se a memória não me engana... pensava que já tinha deixado um comentário.
Não tendo essa certeza, somente digo: Texto Excelente, Brilhante!
Conceição Carvalho