Neste espaço, para além dos textos do escriba, sempre se deu lugar à divulgação e discussão de ideias, acontecimentos e autores. Margarida Rebelo Pinto dispensa apresentações. Amavelmente aceitou o convite deste blog para uma pequena entrevista respondendo a cinco singelas questões que, cremos, será mais um caminho para desfrutar da escrita de uma autora que pôs os portugueses a ler. Conhecia-a na Faculdade de Letras de Lisboa no tempo em que mantinha estreita colaboração com o jornal Se7e. Cedo se lhe adivinhava o reflexo da sua personalidade na sua escrita ágil, firme, determinada e irrequieta. O seu primeiro livro, Sei lá, publicado em 1999, foi um dos maiores sucessos de vendas em Portugal, atingindo números de vendas pouco usuais para o país. O seu último livro atingiu, até ao momento, a marca de sessenta e cinco mil livros vendidos, num inequívoco sinal de adesão do público que se revê na escrita contemporânea e ágil e no retrato de um quotidiano urbano, nem sempre, em sossego. Reiterando os nossos agradecimentos, passemos à entrevista...
Como surge Margarida Rebelo Pinto no mundo literário?
Sempre quis ser escritora. Tive a sorte de crescer entre livros, os meus pais sempre me deram várias opções para escolher desde muito cedo. A partir dos 10 anos já lia todos os dias, é uma paixão que nasceu comigo. Nem me lembro quando comecei a escrever, deve ter sido mais ou menos nessa idade. O Sei Lá, publicado em 1999, (1º Prémio Literário Fnac em 2000) foi o primeiro romance a singrar por entre alguns manuscritos que andava a trabalhar há alguns anos. Os outros ficaram na gaveta, nunca mais lhes peguei.
Tom intimista,agilidade narrativa e personagens que se passeiam no espelho de uma realidade quotidiana. É esse o segredo do seu sucesso?
Não sei. Às vezes penso que ainda é mais simples do que isso, é uma questão de empatia. As pessoas lêem os meus livros com o coração porque se identificam com o que escrevo, é como se elas fossem os meus personagens, há uma identificação profunda e natural e esse fenómeno, enquanto escritora, nunca imaginei possível a tão larga escala
Como encara a "ameaça" de blogues e redes sociais ao livro em papel?
São coisas muito diferentes! Nunca fui fã da blogosfera, há muito pouca coisa boa e muitos delírios de autoreferência, não é nada a minha onda. As redes sociais têm um papel muito importante, elas aproximam as pessoas e são uma meio de divulgação especialmente eficaz e interessante.
Em "Não há coincidências" assistimos a uma resistência ao machismo não se deixando cair, contudo, no folclore feminista. É um equilíbrio real ou uma estratégia narrativa?
As duas coisas. Portugal ainda é um país de misóginos, essa é uma das minhas batalhas enquanto mulher e enquanto escritora, denunciar e combater a misoginia. O foclore feminista irrita-me imenso, acho uma coisa foleira, démodé. O que me interessa é perceber porque é que os homens têm medo das mulheres, por exemplo. Ou perceber porque é que as mulheres se deixam maltratar e não se conseguem libertar de relações doentias. As intrigas familiares e as relações amorosas são a base dos meus livros. A ficção serve para eu arrumar o caos interior. Mas nunca está arrumado, nunca, é uma tarefa perpétua.
Rui Veloso cantou: "Não há estrelas no céu", Margarida Rebelo Pinto escreveu: "Não há coincidências". Afinal em que ficamos?
Claro que há estrelas no céu, claro que há coincidências. Acredito que nada acontece por acaso, e o que semeamos é o que colhemos, mas para isso é preciso semear.

3 comentários:
Parabéns Luis Bento.
Uma entrevista esteticamente perfeita, fluida. Dois escritores que se encontram...
Há estrelas no céu...vocês são duas das muitas que brilham.
Quanto às coincidências...esta entrevista não foi uma certamente, mas se foi, resultou em pleno.
É verdade, nada acontece por acaso...tudo na vida tem razão de existir e acontecer. Que esta seja a primeira de muitas entrevistas!
Beijinhos.
adorei a entrevista
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