Sábado, 28 de Novembro de 2009

ALAGAMARES - ENCONTRO LITERÁRIO

O escriba teve a oportunidade de participar no encontro literário promovido pela associação Alagamares com o excelente profissionalismo organizativo do Dr.Fernando Gomes e moderado pela generosidade e empenho do escritor Miguel Real. O evento decorreu no dia 26 na Casa do Teatro, em Sintra, com uma boa afluência de público manifestamente interessado e participativo.
Não podíamos deixar de agradecer a generosidade e intermediação da escritora Ana Martins nesta primeira participação do escriba num evento de grande qualidade. Agradece- se também o voluntarismo e o excelente trabalho fotográfico do Nuno Pires na cobertura do evento.http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/cultura/334-decorreu-o-encontro-literario-da-alagamares


Os oradores da direita para a esquerda: Dr.Fernando Gomes, Ana Costa Ribeiro, Ana Martins, Miguel Real, António Salles, Filipe de Fiúza e Luís Bento

Miguel Real na leitura dos textos


Miguel Real Ana Martins e Ana Costa Ribeiro.


Luis Bento e Filipe de Fiúza.




Leitura de um texto.




António Salles e Miguel Real


Parte do painel e das obras em divugação.




Uma perspectiva do público

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

ESTRADA NACIONAL - O FIM...


Passado tão longo prazo sobre a história inicial convém aqui fazer um breve resumo antes de entrarmos no gande final.
Um casal da Rinchoa segue pela estrada nacional numa Renault 4L desconjuntada, a desoras, rumo à terra após uma chamada da mãe. Deparam-se com um corpo morto no meio da estrada, aparece a brigada de tânsito, dois indivíduos armados perseguem outros dois exigindo-lhes o dinheiro e acabando por matar um deles. O condutor da Renault 4L é detido, quando aparece um dos fugitivos afirmando que pode explicar a história toda… Confusos? Nah… Vem já aí o finalzinho…


O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:
- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?
- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…



UM PAR DE HORAS ANTES


O tempo habituara-se a uma marcha lenta para lugar nenhum, na pacatez da aldeia onde o casal de velhotes levava uma vida de privações e fintas ao estômago, na frugalidade diária de um cardápio constante de pão com azeitonas , sopa e carne assada em domingo de festa, mais por vício do que necessidade. Saúde de ferro sem indícios de ferrugem e uma casa a gritar por electrodomésticos e outros “luxos”, tinham ajudado a amealhar um bom pecúlio ao longo do seu rotineiro quotidiano de sol a sol. Apesar da partilha das terras, o grosso do dinheiro proveniente da venda de uns terrenos fartos em oliveiras que deram origem a um projecto de turismo rural, aumentou-lhes, de forma significativa, o peso dos cifrões no banco. Haviam decidido dividir o dinheiro pelos dois filhos, tendo adiado a sua entrega dvido aos contínuos afazeres citadinos destes. O dinheiro, à muito que repousava no fundo da arca das cebolas enroladinho num saco plástico do Pingo Doce junto aos dentes de alho e ramos de louro. O velho, entretanto, desenferrujara a língua, oleada pela pomada nova, na tasca do Aires até ao pormenor do cêntimo e do logotipo do saco. Se as paredes tinham ouvidos, mais depressa ganhariam olhos ávidos e gananciosos. Bateram-lhe à porta. Pensando ser o filho mais velho que tinha ido à caça com o amigo, nem tempo tivera para uma ave-maria. As tenazes da mão direita fincaram-se-lhe nos gorgomilos bem como um soco potente na cara do velho que caiu inanimado no chão. Indiferentes à gritaria e frouxa resistência da mulher sairam a correr rés-vés com o regresso dos homens da caça que, de imediato, se lançaram no seu encalço. A mulher pressentindo desgraça no horizonte apressara-se a ligar ao filho que estava em Lisboa obrigando-o a vir a desoras no seu chaço velho. “Com sorte ainda os apanharia na mata” – Remoía o caçador. E apanhou-os, com a ajuda dos cães pisteiros, em menos de nada, muito menos que um advérbio, alcançara-os no meio do mato junto ao declive sobranceiro à estrada…


ENTRETANTO NO POSTO DA GUARDA

O maltrapilho desbobinara a cassette sobre a conversa na tasca do Aires e o ataque à casa dos velhos garantindo que não lhes tocara tendo aquele, provavelmente, quinado com o susto. Susto apanhara ele com a perseguição dos caçadores valendo-lhe contas antigas ajustadas por via da misericórdia divina. O resto da história era por demais conhecida. Os guardas limitaram-se a ouvi-lo, preencher os autos e mandar aguardar em lberdade. Quanto ao atirador o mais provável ,caso se entregasse, ficaria obrigado apenas a apresentações periódicas no posto, dado não ter antecedentes criminais e por não se encontrar na “posse momentânea das suas faculdades” tendo por isso, cometido tão tresloucado acto num momento de cegueira psiquiátrica. O casal, verificada a licença de uso e porte de arma e a consulta do registo criminal, fora também mandado em paz gozar a paisagem, sem percalços, até à malfadada praceta na Rinchoa.

EPÍLOGO

O carro, tossindo por todos os lados, a cada curva simulava o último estertor de um moribundo. Mais do que uma suite de luxo num clínica privada necessitava de uma campa condigna num cemitério automóvel. Na sinuosidade esburacada do tapete esfarrapado em tiras de alcatrão e gravilha, a ronceirisse da velocidade máxima do chaço potenciava o constante matraquear da mulher. Agora com o dinheiro da divisão materna, era hora de trocar o frigorífico, o microondas, a televisão e demais quinquilharia electrodoméstica. Renovar o guarda roupa, arranjar os dentes e inscrever-se num ginásio. Ideias não faltavam para aplicar despudoradamente o pecúlio.

- Sabes há quanto tempo não vou ao cabeleireiro? Sabes? Pois... tu nem sequer olhas para mim! Deves andar lá pelo beicinho com as tuas colegas…


“Rais partam que já não aguento mais”… Encostou à berma , deu mais uma olhadela ao monte de notas, trinta mil euros bem redondinhos , maços ainda cintados e carimbados pelo banco. Ela continuava a pregar em causa própria. “Aquele jarrão muito bonito do tempo dos chineses na loja do Victor e um telemóvel novo daqueles que faz tudo…” Olhou para ela, não a ouvia, apenas lhe divisava, de forma turva, o maquinal abrir e fechar da boca. Sem saber como, a sua mão direita deslizara, sorrateiramente, para debaixo do banco entre o tapete puído e as molas partidas sacando, com uma calma de morte, da nove milímetros…

- Então paraste porquê? - Não chegaria a conhecer a resposta, a canhonaça bem no meio da testa abriu-lhe, com estrondo, uma brecha enorme. Com a massa encefálica a escorrer pelo vidro, o homem maldizia da sua sorte face à necessidade absoluta de ter que levar o chaço à oficina do Carriço para mandar limpar os estofos…

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

ENCONTRO LITERÁRIO ALAGAMARES


Mesmo antes de colocar o final da Estrada Nacional ... O escriba teve a oportunidade de poder fazer parte de um encontro literário moderado pelo escritor Miguel Real.


"Nesta primeira sessão, serão abordadas as temáticas dos modernos caminhos da literatura nacional, com enfoque em nomes que vão surgindo e querendo criar espaço na cena literária.A Alagamares convidou para tanto António Augusto Sales, Ana Martins,Filipe de Fiúza,Luis Bento e Ana Costa Ribeiro para falaram da sua obra, em diálogo com os leitores, actuais e futuros, lerem partes da sua obra e divulgarem a mesma.Assim se pensa encorajar novos valores em torno das palavras escritas num contexto de palavras ditas.Leia sobre os autores propostos para esta primeira sessão em" www.alagamares.net



Aqui deixamos os dados a quem estiver interessado em aparecer.



quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Hora:
21:30 - 23:30
Local:
Casa de Teatro de Sintra,R.Veiga da Cunha, na Estefânea

Sábado, 14 de Novembro de 2009

FÁBRICA DE LETRAS - PRETO E BRANCO

Enquanto não sai, mais logo, o grande final da "Estrada nacional 103", o escriba contribuiu com uma pequena participação na blogagem colectiva da Fábrica de Letras com umas pequenas linhas subordinadas ao tema: Preto e Branco.
Preto e branco, assim estampado em grossa letra de imprensa na prata mágica do chocolate, sucedâneo das melhores marcas “à venda nas casas da especialidade”, que a mãe lhe comprava, numa memória longínqua, enrodilhada em café torrado e feijão branco a granel, na mercearia do senhor Rodrigues, encravada num prédio a cair de podre no declive acentuado da General Taborda, para as bandas de Campolide onde hoje funciona um banco, lembrava-lhe, com clareza, o gesto rotineiro do senhor Rodrigues ao balcão. Após as compras, sacava do rectângulo carcomido de madeira com uma mola a prender meia dúzia de folhas amarelecidas e enroladas onde assentava, no rol, as dívidas, os calotes e a vida da vizinhança penhorada de remedeio omnipresente. O melhor de tudo era quando o senhor Rodrigues oferecia um chupa daqueles coloridos , aos montes dentro dum boião enorme de vidro com tampa vermelha, embrulhado no cinismo das parcelas amontoadas a eito no rol. O chupa sabia a ginjas mesmo sem nunca as ter provado. Outro gesto rotineiro numa praxe instituída, eram os vinte e cinco tostões que a mãe dava sempre ao homem em cadeira de rodas, junto à berma, que se esquecera das pernas, numa mina cravada no meio do mato, naquele pontinho pintado a amarelo no globo terrestre com umas letras a dizer Guiné.Na chegada a casa, derretia paulatinamente o chocolate na companhia do “Jornal do Cuto” sob o pano de fundo do “Simplesmente Maria” do Rádio Clube Português.


Saudades… Tinha saudades das memórias doces, do cheiro do café, do chocolate…

Da Mãe…

Domingo, 8 de Novembro de 2009

NACIONAL 103 - O CRIME...

(CONTINUAÇÃO)
Passada esta longa ausência vamos hoje dar seguimento à história, num registo livre de humor, esse, fica para o final. Para já, é necessário pegar no último parágrafo do texto anterior e tentar perceber que aconteceu ao típico casal de classe média da Rinchoa que, a altas horas em direcção à terra após uma chamada da “velha”, se depara com um corpo morto no meio da estrada. Vamos apenas levantar a ponta do véu… dado ser mais excitante, vamos lá começar a despir a história aos poucos em vez de a destapar de uma vez só…

- Tás parva mulher? Contorno o quê? Contorno e vamos pelo barranco abaixo que o espaço é curto! Estúpida! Fosses tu um fósforo e chegava-te o lume para alumiar a estrada… tá calada e…cala-te!
De pistola em punho saiu do carro e avançou, receoso, um par de metros e de repente…
- Não acredito!
Lá de dentro, estirada sobre o tablier com a fronha colada no vidro a mulher guinchava:
-Que é homem? Diz lá! O que é?
- É um corpo!... É um homem… E parece morto! - Disse enquanto espreitava para o barranco.De repente… arregalou o olhar… ao fundo, a alta velocidade…

MEIA HORA ANTES…

Sob o mesmo céu estrelado, sem mácula de nuvens, com uma luazinha cheia de cumplicidade, só a respiração pesada e ofegante dos dois homens em corrida desenfreada cortava o silêncio de morte naquela mata densa e traiçoeira. Experimentavam o terror puro e absoluto lapidado no pânico de que a sua corrida vertiginosa não lhes evitasse a morte. Perto, cada vez mais perto, sentiam os latidos dos cães e dos outros dois homens que os perseguiam, longe, cada vez mais longe, esfumava-se o declive junto à estrada nacional, sua única hipótese de escapar com vida naquela terra ensopada e cheia de ratoeiras.
Do bafo gélido e esparso do homem que seguia na frente sairam-lhe as últimas frases que conseguira articular:

- Só mais um esforço…arf, arf… Acolá, onde estão aqueles dois carvalhos, há um declive e depois a estrada nacional… arf, arf… Se chegarmos à estrada estamos safos… a seguir é uma ribanceira lisa, lisinha é so escorregar até ao rio… Corre… se nos apanham matam-nos… Corre caraças!

O outro ainda balbuciara qualquer coisa entaramelada no meio da espuminha a escorrer pelo canto da boca e deixara-se cair exausto.Preparava-se para voltar à corrida, mas num ápice foram alcançados pelos dois perseguidores de camuflado, caçadeira em punho e muita raiva nas palavras, acompanhados dos cães.
Um indivíduo alto e entroncado estacou e, apontando-lhe a caçadeira, perguntou-lhe de chofre:
- O dinheiro? Onde está o dinheiro? Dá-mo já!

O homem só pensava na ribanceira lisa, lisinha que os levaria até ao rio, mas estendendo a mão direita atirou-lhe aos pés um volumoso saco de plástico cheio de notas. É então que o atirador repara no outro caído no chão. Reconhecera-lhe as feições, o seu amigo Chico duma infancia feliz e longínqua e do dia em que, sem saber nadar, caíra no poço e quase morrera afogado não fosse a pronta intervenção do amigo estendendo-lhe um pequeno tronco para o ajudar a sair.
- Eu não tenho nada a ver com isto, não fiz nada! Juro! Foi ele – Apontando o companheiro com a mão a tremer.
- Raspa-ta! Ordenou-lhe o atirador – Raspa-te! E Oxalá eu não me arrependa…
O indivíduo levantara-se a custo, embora receoso de ser abatido pelas costas não se fizera rogado e ante tal benesse nem olhou para trás… Já mais recomposto , estugou o passo e embrenhou-se no emaranhado de arbustos e ramos rasteiros.
O atirador virou-se então para o indivíduo que levava o dinheiro:

- Quanto a ti… Vais arrepender-te aqui e explicar-te lá em cima - Disse apontando com o queixo para o céu.
Aterrorizado, o homem começou a cambalear às arrecuas implorando que o deixasse ir também… Que nunca mais o veria… A chumbada fora certeiramente fatal no peito. Com o embate, o homem rodopiou e, estando já à beira do declive, rebolou pela encosta abaixo só estacando no meio da estrada.

- Merda! - Pragejou o companheiro - Isto vai dar raia!
- Agora já está… - Ripostou o atirador…

Lá do alto avistaram a 4L que se aproximava…

- Vamos, vem lá um carro…
- E se o outro dá com a língua nos dentes?
- Agora já não há nada a fazer… Vá, vamos…
- Deixaste-o ir embora pá!
- Pois… Logo quem havia de dizer… Coicidências dum raio, o gajo salvou-me a vida em miúdo…
- Tá bem, tá bem… Só espero que ele desapareça e não dê com a língua nos dentes… Tens o dinheiro?
- Sim… - Disse-lhe exibindo o saco na sua mão - De caçadeira ao ombro afastaram-se dali.

ENTRETANTO NA ESTRADA…

O homem ainda contemplava com espanto animal o corpo morto à sua frente, quando, num repente, se lhe arregalaram os olhos…

Só me faltava mais esta, disse para com os seus botões, ante a visão do carro da brigada de trânsito da GNR de cujo interior acabavam de sair dois agentes.
Os homens vinham para o autuar pela falta da luz de presença traseira, mas ao sair do carro, de imediato, lhe deram voz de prisão. No meio da confusão o condutor esquecera-se que tinha a pistola na mão. Coincidência dum raio… Ter-se esquecido de que ainda empunhava a pistola. Bom ou mau pagador, o certo é que não lhe aceitaram desculpas ou justificações. Dentro do carro, a mulher não resistira a tanta emoção mais forte que a novela das oito e desmaiara. De repente, quando os guardas se preparavam para algemá-lo, vindo dos arbustos junto à valeta, do lado esquerdo da estrada, surgiu aquele a quem os dois perseguidores tinham poupado a vida. Demasiado exausto e cambaleante, sucumbira ao remorso e ao pragmatismo duro da realidade, sem forças, cheio de sede, arranhado e ensanguentado das silvas, o homem decidira entregar-se…

O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:

- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?

- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…

(CONTINUA - O próximo episódio “ Estrada Nacional 103 – O regresso” será o último ficando, desde já, assegurado um regresso ao humor e sarcasmo e um final… inesperado…)





Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

DENTRO DE MOMENTOS...



Para além da constipação de caixão à cova, também as palavrinhas deram às de Vila Diogo deixando o escriba numa camisa de onze varas para justificar o aparecimento do corpo morto e explicar quem vinha na direcção do casal. Foi grande o esforço e empenho na tentativa de alinhar as palavrinhas com a coerência suficiente para manter o suspense. Sem mais delongas, agora que a forte constipação parece estar controlada, a emissão vai seguir dentro de momentos. Mais daqui a pouco... A revelação do crime da estrada nacional 103... Até já!