Domingo, 28 de Junho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO - PARTE II



(CONTINUAÇÃO)



... Na parte norte, na zona de confluência entre a Marquês de Fronteira e a rua de Campolide até à Conde das Antas, moravam os que tratavam o dinheiro por tu e com quem ele se portava à laia de fêmea em desvario reproduzindo-se às três pancadas. Na parte sul, junto ao Tarujo, paredes meias com a Praça de Espanha, aqueles cujos vínculos familiares com o vil metal há muito tinham entrado em ruptura. Entre uns e outros, viviam os remediados em prédios que apresentavam enorme saldo devedor na contabilidade dos anos, mas onde o ramo de salsa e a miga de sal eram sinónimo de solidariedade e pretexto para amena cavaqueira.



LISBOA, BAIRRO DE CAMPOLIDE 1974



Atarracada e redonda, na sua figurinha de letra minúscula dum alfabeto esquecido, a Dona Antónia exultava com a sua recente condição de única proprietária de um aparelho de televisão no prédio, o que lhe conferia um grau de inaudita importância junto da vizinhança.

O aparelho, um "Pilips", ufanamente pronunciado com a sua boca de onde, em tempos, os dentes tinham encetado uma fuga prisional em larga escala, era daqueles enormes, pesados, com naperonzinho no topo para resguardar do pó e um pequeno castiçal para dar graça. Fora colocado no quarto de dormir sobre a cómoda onde, todas as noites de quarta-feira decorria a sessão de cinema. Pequenos bancos de cozinha, todos em fila indiana devidamente encostados ao guarda-fatos, filtro azul preso por chumbadas de pesca sobre o écran para não ferir a “vista”, pratinho com palitos de la Reine e lá ia a procissão de judeus reconverter-se à sacrossanta fé das imagens, comer os palitos e ver filmes do Dany kaye enquanto o velho Bornal, marido da dona Antónia, assim alcunhado pela forma alarve como normalmente digeria as refeições, enrolado em posição fetal dentro da cama, arremessava poderosas bombas da segunda guerra mundial empestando a atmosfera com os seus eflúvios. O escriba ria-se a bandeiras despregadas; o estrondo flatulento dos alívios do Bornal no ranking da “Ars comica” estava ao nível das melhores cenas do Danny Keye, mas de imediato era sacudido por um valente safanão da sua mãe, fosse pelo que fosse, ele não estava ali para achar graça, a sua diminuta presença naquele campo de batalha gazeado servia apenas para ler as legendas e resumir a história do filme. Era o único que sabia ler...

Se às quartas-feiras havia sessão de cinema, às segundas à tarde havia sessão de escrita. Era em casa da Dona Judite, uma viúva muito bonita de porte fino e elegante, mas analfabeta. Descendente de uma família rica da zona de Guimarães que se enredara nas teias do jogo e perdera, assim, todo o património, viera para Lisboa casara com um senhor muito bem posto e enviuvara logo de seguida após uma apoplexia fulminante que dera muito falatório na rua. Em cima da mesa da sala pousava os bolinhos, as moedas, o bloco, a caneta, a sua mão esquerda entre as coxas e a direita em intermináveis carícias às glândulas mamárias... Ditava as cartas para as irmãs com um entusiasmo ofegante com vários níveis de intensidade; entre apalpadelas, esfregadelas e suspiros a roçar o uivo, lá ia debitando queixumes, enumerando desejos de muita saúde e outras banalidades que o escriba se encarregava de parafrasear. No final, fazia questão de as “ler” antes de meter nos envelopes, passando os seus olhos de espanto bovino sobre aquelas linhas de caligrafia irregularmente orgásmica e cheias de parágrafos para aumentar o número de páginas...
O círculo de amigos circunscrevia-se aos filhos e netos de dois ou três prédios contíguos, já que da parte norte não havia misturas. A fina-flor era frequência constante e assídua nos Maristas e nas Doroteias e a erva daninha medrava, timidamente, à sombra dos pinheiros da escola pública do Tarujo. A única vez em que as distintas categorias da flora se encontravam na mesma página do manual de biologia era na missa dominical, sorrateiramente folheadas, pelo vento benevolente e cristão entoando salmos ordeiros e afinados. Nas parcas conversas de salvação e de circunstância traçavam-se destinos e previam-se futuros: as filhas do Mateus da empresa de construção iam para professoras e médicas os demais tinham um autocarro de oportunidades à espera com bons cursos de serralheiro, carpinteiro e afins realçando ainda, dando graças a Deus, a sua bem aventurança em terem acesso à leitura e escrita na escola. O grupo era constituído pelos netos da D. Antónia, e seus primos, os sobrinhos da dona Judite e a mais dois ou três miúdos da rua. Entre eles a Madalena e o Filipe do dono da loja de pronto-a-vestir. Das duas filhas da D. Antónia uma tinha ido viver para a Reboleira. “O Jota Pimenta tinha lá construído umas casas muito boas”... A outra filha tinha ido para Santo António dos Cavaleiros onde “as rendas mensais já iam nos três mil e quinhentos escudos”, dito com uma expressão de orgulho infantil pelos sinais exteriores de progresso que tal facto representava, pelo que os filhos ficavam na avó durante o dia. O grupo levava uma vida pacata entre as traquinices da idade e o pouco espaço de manobra dado pelos pais. Entre a xinxada e a ida à piscina do areeiro à pendura no eléctrico vinte e quatro até à praça do Chile, calcorreando depois, no regresso, o monte Sinai numa via sacra, penosa e longa, a pé até Campolide, o grupo, constituído por cerca de uma dezena de amigos, estava prestes a terminar a quarta classe e a entrar num mundo inatingível pelos seus pais: o do ciclo preparatório, unidos e coesos, pelo menos até à chegada do Francisco e a tudo o que aconteceu umas semanas depois...


(CONTINUA)

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO BENTO



Aí está! A Angelina Jolie veio à procura do Lusitânia Online e ouvir a história do Bento… para os mais incautos deixamos o aviso à navegação: Com mais ou menos brejeirice, iniciamos hoje, um ciclo de histórias da vida do escriba, aqui e ali, salpicada de humor, crítica de costumes e pinceladas de análise social duma era, da qual, não foram tiradas fotocópias…

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LISBOA, 1964


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Com mais de dois dedos de testa e outros tantos de dilatação dera entrada na maternidade, às nove horas da noite, aflita de dores e rebentada de águas. Numa consoada abençoada por Deus e apadrinhada pelo Natal dos Hospitais, fora obrigada a suportar as dores com paninhos quentes, supositórios bem-uron e muito “schiu” de enfermeira para não acordar as “outras”.
Às nove da manhã de vinte seis de dezembro de mil novecentos e sessenta e quatro dera à luz um macho raquítico, lingrinhas, roxo de berraria e excesso de permanência uterina no meio de dúzia e meia de médicos mal encarados, bêbados de sono e a arrotar bolo rei temperado a vinho do Porto.

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Numa época em que o inglês ainda não era obrigatório por força duma reles redacção de vinte e cinco linhas cheias de erros ortográficos do engenheiro Sócrates, o moço, ganhara o nome em homenagem ao mexicano que aquecia os corações das donas de casa, no constante circular das setenta e oito rotações de Luis Alberto del Paraná, aos microfones da Emissora Nacional mesmo antes do folhetim diário da “coxinha do Tide”. Abençoado pela casualidade divina do apelido paterno e da coragem e intrepidez do avô José Gonçalves, dava à estampa, no meio de outros cromos ilustres, Luís Alberto Gonçalves Bento.

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À semelhança das toneladas de gente oriunda da “terra”, os seus pais tinham vindo para Lisboa em demanda, não do Santo Graal, mas sim em busca do milagre da multiplicação dos pães. Mesmo ao virar da esquina do engrossar das fileiras na luta contra “os turras”,junto ao cruzamento dos ventos de liberdade e abundância da França onde, os mais novos começariam a ter marcação constante no livro de faltas, o futuro escriba idolatrado por Angelina Jolie, passaria a infância num bairro de gente envelhecida, com a quarta classe mal alinhavada, completada, já na idade adulta, levando atrasos de comboio regional para juntar três ou quatro letras, num espaço urbano delineado à boa maneira do Estado Novo, numa arquitectura e tipologia que estruturava as pessoas com maiores e menores recursos. Na parte Norte…


(CONTINUA)



NOVO POST...



(atuleirus.weblog.com.pt/arquivo/arte-moderna.jpg)


Após o post de divulgação da luta dos professores em Campos e enquanto não aprendemos a conduzir ou não revelamos o verdadeiro motivo da vinda da Angelina Jolie a Portugal, vamos lá a esgotar a primeira edição do Lusitânia Online... até lá... preparem-se para o próximo post para a noite de hoje...uma história começada a 26 de Dezembro de 1964... Isso mesmo! A verdadeira história do Bento...

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

PORQUE DO LÁ DE LÁ OS PROBLMAS DOS PROFESSORES SÃO COMUNS...

...E A SOLIDARIEDADE EXISTE...




O SEPE, Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação/Núcleo Campos, realiza amanhã assembleia da rede municipal . O Sindicato convoca os profissionais a intensificarem a luta pelas eleições para diretores de escolas.
A Direção do Sindicato afirma que O princípio básico da democracia passa pela escolha livre de representantes nas diversas esferas de poder e na escola não pode ser de outra forma. Gestão democrática não é apenas eleição de diretores, mas esta é imprescindível para que uma gestão com participação de pais, professores, funcionários e alunos aconteça de fato.Negar à comunidade escolar o direito de escolher seus gestores é o primeiro ataque que o governo faz à categoria, tentando impor “apadrinhados” para as direções das escolas municipais.Abaixo a pauta básica de reivindicações apresentada pelo SEPE ao governo municipal.
· Realização imediata de eleições diretas para a direção das escolas.· Convocação de concursados aprovados e classificados em 2008.· Realização de concurso público para funcionários de escolas.· Enquadramento por tempo de serviço.· Equiparação salarial entre pedagogos (as) e demais cargos de profissionais da educação.
A assembléia acontece às 17 h na sede do Sindicato dos Bancários.
Ana Paula Motta - ASCOM- SEPE/CAMPOS

Ana Paula
Blog Todos os Sonhos de Abril

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL - SENTIR-SE EM CASA


Sentir-se em casa...

Mais um desafio da Tertúlia Virtual ao qual não resisti!! A empresa é de monta, pois o tema é difícil, a hora adiantada, mas as histórias da terra, mais uma vez, não me vão deixar na mão… nem no pé…
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Castelo Branco, ferrarias, interior profundo de Portugal 1964,

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A mãe berrava em tons agudos que espantavam os animais no palheiro. Epidural era um termo que distava trinta anos de calendário. Ia tê-la ali, naquela cama desconchavada com uma malga de água quente e a ajuda de duas vizinhas com mais buço que dentes na boca. Bébé no mundo, cordão cortado com tesoura romba e de pontas ferrugentas, daquelas que serviam para tosquiar as ovelhas e pronto! Nascera!
Mal tivera tempo de abraçar a sua menina. A única frase de parabéns que ouvira do marido, seca e apressada ,prendia-se com a janta:
- “Vê se te alevantas! Tenho fome! Preciso comer e deitar cedo que amanhã vou pra trás do Tojal, bem cedo, ajudar o chico na Eira”…
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E assim dera à estampa, a menina Olinda Botelho, no meio de uma caderneta amachucada com cromos amarelecidos. A mãe, finara-se semanas depois após luta desigual com uma infecção interna. Olinda fora recolhida por madrinhas, amigas, vizinhas, tios, primos e assim saltara os anos e a escola em casas alheias. Aos doze, o pai achou que estava em boa idade de trabalhar e assegurar a lida da casa. Fora a primeira vez que conhecera a sua casa… amontoado de xistos com reboco envergonhado, móveis a pedir licença pela inexistência, tectos de cozinha mascarrados e a pedir limpeza desde o Eça de Queiroz… não esmorecera…era a sua casa! Com o tempo tornou-se moça viçosa, roliça de carnes, prendada e esperta. O rol de qualidades despertara as vontades e cobiça do Manuel Zarolho.
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“Quem casa quer casa”… pois… a muito custo deixara a casa paterna para viver com o marido. De início, encaixara na gaveta do esquecimento os modos ríspidos , a voz entaramelada e o hálito fétido do álcool, mas breve, breve, experimentaria a mão pesada do dono pelos motivos mais fúteis em ritmo cada vez mais intenso e constante. Farta do amor pautado pela lambada e insulto, entornou-se-lhe a água do caldeirão no dia em que, grávida de três meses, fora premiada com mais manifestações do seu carinho doméstico:
- E pára de choramingar! Dás-me azia no estômago! Vai mas é preparar a janta minha porca! Tás na minha casa... fazes como eu quero!
Não! Não era porca porque os bácoros comiam a tempo e horas eram bem tratados e não levavam paulada…
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Manuel Zarolho fora ao palheiro, no alto do barranco mesmo a espreitar as margens do rio Ocresa, buscar feno para os animais. Olinda Botelho, toldada pela raiva e pelos anos de servilismo e impotência não pensou duas vezes: dirigiu-se à adega, levantou as sacas das cebolas e tirou a espingarda guardada debaixo do estrado. Rapidamente voltou à cozinha e, por detrás das latas amolgadas de farinha e arroz, sacou dois zagalotes da caixa de cartão que estava aberta. Desatou a correr na companhia de papoilas e calhaus e assim que o viu mesmo antes de chegar ao barranco gritou-lhe:
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- Manuel! Ò Manuel! Olha pra mim malvado!.. que lá pró inferno que é pra onde tu vais…não te vais esquecer da minha cara!!
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Um bando de pássaros debandou do alto da copa duns quantos pinheiros após o estrondo… Olinda pousou a espingarda junto ao corpo inerte e voltou para casa. Sentou-se no banquinho de cortiça e sacou dum bocado de pão, duma navalha e da chouriça cortada sobre o prato em cima da mesa. Aliviada, mais repousada, escorada na vingança e com o remorso a léguas de distância, comeu uma bucha de pão com chouriço e então sim… sentiu-se em casa…

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

NÃO SE LIVRAM DE MIM...


Já nem vou falar mais no livro... tal foi o susexo... na feira do livro de Rio Grande do Sul, no Brasil, como podem comprovar pela foto... Depois de terminar mais um projecto literário e de uma intensa actividade profissional eis-me de novo em dedicação total ao blog. Irei responder a todos quantos teceram comentários nos últimos dias e continuar a aguardar o número elevado de reservas de livros. Para hoje, preparamo-nos para divulgar a verdadeira razão da vinda de Angelina Jolie a Portugal em busca de casa... Mais uma brejeirice do Bento... com a preciosa ajuda do Horus...

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

FINALMENTE, O LIVRO!

Finalmente, o livro! Amavelmente prefaciado por Eduardo Penteado Lunardeli, e generosamente comentado por quem segue com regularidade o blog, deu à estampa, num parto ansioso e sem dor, o projecto há muito delineado. Não posso deixar de, mais uma vez, agradecer a generosidadedo Eduardo e o empenho, carinho e extremo profissionalismo da Letícia e do David da Editora Novitas que, desde sempre, sempre acreditaram no projecto e agradecer a generosidade do Trono do Horus na divulgação da obra.




Além de receber uma simpática dedicatória, o PREFÁCIO do livro é nosso! Sobre o livro, num comentario no blog do autor





manuel afonso disse...
Peço desculpa pela minha ignorância, mas deparei-me logo de seguida com o blog NOVA ÁGUIA: O BLOGUE DA LUSOFONIA, onde está um post com o lançamento do livro "Lusitânia Online", livro de Luís Bento, Texto do Prefácio do Livro, escrito por Eduardo Penteado Lunardelli, que diz (e eu subscrevo inteiramente com base no texto supra): " Sua escrita é contemporânea, ágil, irônica, bem-humorada e cheia de criatividade. Escreve para os portugueses de Portugal e para os leitores de língua portuguesa, no Brasil e no mundo, com grande desenvoltura e imaginação. Seus temas são os do cotidiano, mas tratados de forma universal. Não há detalhes incompreensíveis, ou desnecessários.A originalidade do novo é permeada pela cultura e saber da língua, das tradições e da boa prosa. Cada palavra de seu texto foi sopesada no significado, na grafia, e na singularidade. Um grupo delas fazem as frases de um plural brilhante e de conteúdo inédito, ainda que tratando de temas conhecidos.Sua cultura é trocada em miúdos (sem falar nos trocadilhos) e sua leitura tem diversas possibilidades. Desde a mais direta e óbvia até a mais requintada, sutil e complexa subjetividade. É uma leitura prazerosa, portanto muito recomendável. Um escritor dos nossos e novos tempos!"Por que era devido fica o reparo, e fica a congratulação do meu ego por não obstante ter feito uma única leitura, não me ter enganado na classificação da escrita do Luis Bento.
Aos interessados a EDITORA é a NOVITAS
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Para adquirir o livro com o preço de 18,00 Reais no Brasil e 10,00 Eur com portes incluídos em Portugal basta contactar:
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