Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

A VERGONHA POR DELIBERAÇÃO


“Palavras leva-as o “bento”… pois é o que parece… O escriba prometeu ontem desenhar uns textos com humanismo e humor e numa semana aziaga em acontecimentos acabou por folhear umas páginas da cartilha política… Prometeu e não cumpriu! A ajudar à festa, dificuldades técnicas no acesso ao blog, mas mais vale tarde que nunca, pois tarde e a más horas, aqui fica mais uma história lá da terra…

Lá pelas bandas dos anos oitenta, no capítulo em que os santinhos abraçaram o esquecimento e deram o flanco à crise, em Cebolais de Cima há muito os teares tinham recolhido à ferrugem e as únicas tecedeiras que milimétrica e diariamente exerciam a sua labuta eram as aranhas com teias simétricas e viscosas. As mulheres da vida desabrocharam às dezenas para colorir a gradação monótona da secura daquela terra quente e desempregada. À beira da estrada municipal amparavam-se, serenamente, a capela e um bordel de má morte onde umas quantas mulheres de sotaque espanhol aliviavam o viço e os calores dos portadores de subsídio de desemprego. Numa terra despida de oportunidades, os dias passavam-se entre orações aos santos e as carícias frouxas, streap teases mal amanhados e sexo ao desbarato. Vergado ao peso da responsabilidade divina, o padre, de pescoço esquálido e face comida pelas bexigas doidas. Doidas pela ausência de carnes e pelo ritmo com que lhe esburacavam a cara, resmungava em surdina contra a pouca vergonha do sexo de tarifa bi-horária executado a preceito, sem dó nem piedade, a qualquer hora do dia incomodando com os seus arfares, estertores e desfalecimentos ruidosos, os salmos harmoniosos e pueris dos acólitos, a quem, na sua diminuta existência, tinham tido como visão mais parecida com símbolo fálico, as velas acesas em honra da padroeira da freguesia.
O presidente da junta, homem modernaço que viera transportado a pontapé para Lisboa, fugido ao trabuco de dois canos da ira paterna de uma menina a quem tinha rompido, no meio das estevas, a sua honra sem mácula, achava que todos tinham direito à vida nem que fosse com sífilis à mistura. Às reclamações e reparos do padre respondia o presidente da junta com o lado positivo da questão:
- A igreja não precisava de obras? O telhado da igreja não se encontrava podre e cheio de buracos? Então! Quanto mais gente vier à aldeia mais bago alimenta a caixa de esmolas… E se o dinheiro não é fêmea para procriar a eito no meio dos xistos ou cair da árvore das patacas, então deixe-se de lérias e não resmungue, porque as mulheres antes de pegar ao serviço vêm falar com Deus na sua igreja e deixam cair, sem espinhas, umas moedas na caixa e se Ele, passivamente, aceita a lembrancinha sem vénia ou queixume porque se inquieta vossemecê? Que lhe interessa se vem do suor dos braços ou da ginástica da xoxa?
Os dias caíram lentamente numa modorra abafada e ociosa, de forma a calar o padre, compensar o dono do prostíbulo e agradar ao excitado cromossoma masculino, ouvidas todas as partes, numa reunião apressada e envergonhada, reuniu-se a assembleia de freguesia e deliberou, por unanimidade, permitir o alargamento do horário da actividade comercial e flexibilizar o zelo inquisitório da Guarda Nacional Republicana. O movimento engrossou num ritmo estonteante. A estrada tinha agora um fluxo que engarrafava o trânsito num congestionamento ruidoso e escondido nos focos perdidos por entre moitas e silvas.No meio de tanto movimento e procura habitual, só o padre não via a oferta de carnes em mini-saias curtas e coloridas estacionada, descaradamente, à porta do prostíbulo, pois o seu espírito apaziguado contemplava, embevecido, o telhado novinho da igreja, agora em condições de receber os fiéis que tão generosamente tinha sido oferecido pelo dono do bordel…

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O REGRESSO




Não! Não desapareci na companhia do Chuck Norris. O motivo é bem mais prosaico: desenvolvimento excessivo de actividade profissional... Voltámos, contudo, ao ritmo inicial, mais logo estaremos de volta nas asas das letras, essas marotas que, por vezes, teimam em alhear-se para uma Twillight Zone desconhecida. A aguardar, a nova história da terra humana e plena de humor.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL - MAIO

O desafio da Tertúlia Virtual deste mês consiste em nomear cinco itens absolutamente necessários para sobreviver numa ilha deserta durante dez anos. Pois bem, levaria:


Um Varal de ideias para pensar.
Rosasiventos para contemplar
Branco no Branco para "me sentir"
Infinito pessoal para me emocionar
Uma espécie de mim para me descobrir

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

BENTO STRIKES AGAIN


José Gonçalves (o meu avô) no meio da foto, em pé, junto ao poste, na sua primeira visita a Lisboa com a família.
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O escriba regressou! Preparado e revigorado para mais uma dura jornada de trabalho e para o ritmo estonteante das palavrinhas que brincam sem pedir licença. No calor da serra com vista para o mar e na companhia do Torga revisitado, salvaguardadas as devidas distâncias, mais centímetro menos centímetro, lembrou-se o escriba de mais uma história daquelas com sabor a húmus e cheiro de alecrim.

Às vezes o tempo bebe Red Bull e ganha asas. Deita-se a correr e nós deitamo-nos com ele numa gincana esgazeada por entre resmas de meses e anos gastos a esmo. Se a vida é boa companheira, a memória é boa amante, zelosa e solícita em derramar o mel doce das recordações.

Corriam a bom correr os idos de setenta no pino do verão de Santo André das Tojeiras, numa prova de corta mato e pinheiros desgarrados onde, por entre estevas e giestas, alguns quadrados de terra teimavam em dar à luz algumas couves e batatas numa banda desenhada lavrada a sacrifício e à força de braços e de bestas. José Gonçalves, com marcação constante no livro de faltas da instrução primária, mas presença assídua no manual do desenrasca descobrira, num terreno sinuoso e fértil em xistos e falta de água, um furo à custa de muita enxada e escavação. Fazê-la seguir pela caleira fora o mais fácil, difícil, muito por força do veneno destilado pela mulher repudiada, em tempos, por José Gonçalves num bailarico da aldeia, era enfrentar os humores virados do avesso de José Botas por causa da serventia de dois palmos de terra. Daí para cá a inveja, os remoques e as “bocas” engrossaram diariamente o rol de queixas na matemática da coexistência atribulada de ambos. As vezes em que concordavam sobre o que quer que fosse contavam-se pelos dedos de uma mão, normalmente, em duas situações: ou na barbearia do Manuel Coxo onde, estrategicamente colocadas na parede frontal sobre os espelhos conviviam duas imagens do sagrado e do profano sob o beneplácito de todos. (O calendário dos pneus Dunlop, com uma pin-up daquelas com protuberâncias bem redondinhas e salientes insinuava-se mesmo ao lado da pagela de Nossa Senhora de Fátima). Se, por um lado Lhe agradeciam por ter dotado a natureza com uma Eva de mamas descomunais, por outro tinham sempre presente a formação cristã, pois, invariavelmente, a exclamação era sempre a mesma ao colocar o olhar bovino e sequioso sobre as imagens: “ Noooossaaa senhoooora!” Ou no fundo vazio de vários copos emborcados na adega do Quim Bainha. Fartos de tanta peleja e desavença, acharam por bem puxar os marcos mais uns metros e colocar um ponto final na serventia de terrenos em papel azul de vinte e cinco linhas. Chegaram à cidade numa manhã de nevoeiro abençoada por Dom Sebastião, pela Nossa Senhora e pelas mamas da pin-up para registar na conservatória a paz de espírito, ante o mau humor da mulher calado com dois encontrões e um tabefe de autoridade marital.
Escanzelado por natureza e inquisidor por feitio, o amanuense, em mangas de alpaca curtas e puídas, mirou e remirou a caderneta predial pousando o resto do seu olhar avaliador naquelas duas alminhas parcas de instrução. O funcionário puxou então dos seus dotes oratórios elevou o seu tom de voz numa semínima prenha de firmeza e ganância, aludiu ao custo de registos, buscas, processos, averbamentos e afins. Adicionou-lhe uma amálgama de termos técnicos e uma mão cheia de dificuldades e obteve a equação pretendida: o registo iria ser complicado, demorado e necessitava de óleo para desempenar a máquina… Apercebendo-se do olho gordo e luzidio ávido de amealhar umas “lecas” com facilidade, Zé Botas, muito a contra gosto, tirou da carteira uma nota de mil escudos, novinha em folha e colocou-a dentro da caderneta. O funcionário pegou na caderneta, coçou o nariz e ao abri-la franziu um sobrolho estupefacto e resmungou:
- Ó meu amigo eu não sei como é que é na vossa casa, mas na minha casa a cama faz-se com dois lençóis: o de cima e o de baixo…Os dois amigos entreolharam-se, era óbvio que o malandrim queria mais dinheiro… José Gonçalves sereno, seguro e confiante, não se conteve:
- Ò meu amigo… e lá nessa sua casa onde faz a cama com dois lençóis e coisa e tal,o senhor sabe a diferença entre um penico e uma panela? – Que não… que não sabia! – Ante tamanha ignorância José Gonçalves encheu o peito de ar e aconselhou-o vivamente a debruçar-se sobre tão profunda problemática, pois o desconhecimento de tal matéria obviava a vários perigos, sendo os maiores, a forte possibilidade de comer o conduto do penico e aliviar a tripa na panela… viraram costas e foram assinar o registo em dois copos de três, bem medidos, na tasca mesmo ao lado da estação dos CTT..





Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

EXPLICAÇÃO


Nunca a ausência deste blog foi tão prolongada... Não... Não foi desleixo ou crise criativa, somente uma carga de trabalho excepcional. para além das participações literárias, revisões de texto e afins. A nível profissional sofri uma sobrecarga fora do comum. Com tanto mister o tempo bebeu Red Bull...ganhou asas e voou. Vou ganhar energias assim...num sítio sem rede de telemóvel, sem internet, etc. etc. etc. Domingo à noite cá estará uma história daquelas que brinca com as palavras... Bom fim de semana!!