Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

PORTUGAL DOS PEQUENITOS - PARTEII

Courbet

A internet tem destas coisas, de vez em quando prega-nos partidas e ausenta-se sem dar cavaco. As minhas desculpas pelo facto. Sem ser um primor de fino recorte literário não deixa de ser um texto actual que só peca pelo atraso...


Nascera numas águas furtadas esconsas, pequenas e obscuras numa zona mal-frequentada, divisando os esparsos raios de luz através das frestas na madeira e de uma nesga de janela esconchavada. Escorado mais na força bruta do que no reduzido número de neurónios, porfiara alcançar o expoente máximo da sua ambição. Seguindo uma tradição ancestral de linhagem de esbirros do Rei, acabara, através de uma troca de presuntos, chouriças, garrafões de azeite, um par de notas de mil e uma entrevista farrusca, o almejado lugar de agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado. Entre cacetadas, pontapés e outros mimos, por entre buscas domiciliárias, despedaçando telefonias sintonizadas na rádio Moscovo ou detenções por murais contra Salazar, a sua carreira seguira a bom ritmo, sempre solícito e fiel à voz do dono e fazendo tudo em prol da defesa do Estado. Apanhado na euforia da Revolução, andara acoitado no Brasil onde o filho prosseguira os estudos. Após o sopro revolucionário a poeira assentara e decidira regressar ao “seu” Portugal onde, rapidamente, fora repescado, reciclado e reaproveitado. Entre uma pensão por trabalhos prestados à Pátria, arranjara um biscate nos Serviços de Informação e Segurança, onde ministrava umas aulas de formação de operacionais. O filho cursara Letras, mais propriamente História… Estudara noites a fio, decorara datas, vomitara compêndios e regurgitara teorias e correntes de pensamento. Findos os estudos, não escapara à tradição de família… E entre favores, pressões e em atenção ao pai, lá fora ele imbuído do mais fino espírito de missão ingressar no SIS para perseguir terroristas e outros perigosos meliantes que atentassem contra a segurança e dignidade do Estado. Entre a vigilância aos sindicalistas, estudantes e manifestações de professores, não lhe sobrava grande tempo para amizades; mantinha uma dos bancos da faculdade, seu colega de curso, inacabado por sinal, por força da volúpia em excesso e das mesadas gastas a esmo. Farto de tanto dispêndio de dinheiro, o pai chamara-o à sua beira e entregara-lhe o negócio de família. Numa terra onde ignorância, aliada a estupidez, é uma mistura mortal para a cultura, fulminante se completada com poder, o pai, que sempre andara escondido pelos livros subversivos que trazia à socapa de França, sempre fora liberal e de mente aberta. Na senda do seu progenitor, decidiu o amigo prosseguir o negócio promovendo fóruns, encontros e tertúlias. Numa dessas ocasiões, o destino, pródigo em pregar partidas, fizera-os tropeçar num mosaico de recordações e desencanto com o rumo do país. Se, por um lado, o agente do SiS se mostrava desmotivado com as ordens de serviço e se deixara filmar ostensivamente pelos telejornais na vigilância ao protesto dos professores, dado que tal tarefa estava muito aquém na geografia de espionagem e defesa da Democracia, por outro lado, o amigo além da crise, invectivava os poderes instituídos e a mentalidadezinha barroca de estado novo que se manifestava em atitudes espúrias tais como apreender livros com reproduções de pinturas de Courbet. A distância mínima entre a noite de cristal ou o lápis azul era mínima. Ou andavam a ver Goddard ou então que se pusessem a pau que ainda confiscariam a Vénus de Milo por atentado ao pudor… No meio da risota o agente recordou-se fugazmente da excursão da escola primária ao Portugal dos Pequenitos... Quando o professor dissera que fora construído para mostrar os grandes feitos da Pátria. Era um Portugal para os pequenitos onde, porventura, poderiam viver todos os pequeninos de Portugal...

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

PORTUGAL DOS PEQUENITOS...



Apesar de não ter andado por aqui, tenho andado por aqui... Por entre participações em espaços alheios e a preparação para publicação de um livro de contos como autor isolado (mais um a ser editado no Brasil), o escriba desmultiplicou o tempo e a criatividade... Fervilhando de ideias... será posto, ao longo do dia de hoje, uma história verrinosa sobre o Portugal dos pequenitos...

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

COPY PASTE

PORQUE HÁ IDEIAS E GESTOS QUE DEVEMOS ADOTAR... HOJE FIZ COPY PASTE DO BLOG DA SUSANA...



Criei esta semana um grupo online para que haja um espaço de partilha para quem foi adoptado. O que vos pedia é que o divulgassem nem que seja pela via tradicional. Se conhecerem alguém que tenha sido adoptado e que deseje partilhar experiências reencaminhem-na para este endereço:
Obrigada desde já pela vossa ajuda.
Publicada por susana em 19:57

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL - FEVEREIRO... O TEMPO...





Ainda a mãe se encontrava prostrada na maca da ambulância berrando de dor de parto e já ela lhe esgadanhava as coxas metendo a cabeça de fora, ávida de ganhar o mundo. Nascida antes de tempo, com pressa de atingir a perfeição, tudo na sua vida fora uma olimpíada sem obstáculos. Dispensara as primeiras letras porque as segundas, trouxera-as com o cordão umbilical. Clássicos, modernos e assim-assim; contas, números e rabiscos foram segredos breves e acelerados, desvendados de forma esparsa e apressada. Faculdade, emprego, administração, adormecer em Londres, almoçar em Paris, jantar em Madrid, reuniões, accionistas e congressos... Foram degraus esgalhados a quatro e quatro numa escalada vertiginosa rumo ao sucesso, num sprint a contra relógio sem tempo para olhar para trás.
- “Não casas mulher?... Não tens filhos?... Vamos ao teatro?... Cinema? Um cafezinho?”- A tudo respondia com uma leveza insustentável:
- “Não tenho tempo!”

Até que um dia, por volta dos quarenta, numa curva da vida sem travões, durante uma viagem de carro com destino aos negócios, numa ultrapassagem com erro de cálculo foragido às leis da física vira, de repente, aquela luz frontal… A mesma que a encadeava agora vinda do tecto e iluminando todas aquelas batas brancas. Sentia frio, muito frio. Uma dormência letal no seu corpo banhado a hemorragia por dentro… Ao longe e de forma esbatida, ouvia murmúrios e o fraco tremeluzir do gráfico… E aquela luz… Aquela luz que a ofuscava… Se ao menos conseguisse fechar os olhos…

Então, de repente, de segadeira em punho, surgindo do meio do nada, esquálida, gélida e envolta no seu manto lúgubre surgiu a morte com o indicador espetado indicando-lhe que a seguisse…
"Que não… Que não ia, tinha muita coisa para fazer… Holdings para vender, contratos para assinar, posições para assumir"…
- "Piiiiiiiiiiiiiiiiii"… - O alarme sonoro e os acenos de cabeça foram a pedra de toque para desligar a máquina e apagar, finalmente, aquela luz…

A morte apontou-lhe o dedo de novo insistindo para que a seguisse…
- Não! Não me leves ainda! Deixei tanta coisa por fazer… Dá-me tempo…
Meneando a cabeça para a esquerda e para a direita, num movimento lento e sentenciador, a morte inclinou-se e com uma leveza insustentável proferiu:
- Desculpa! Não tenho tempo…

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

BALAIO DE IDEIAS...


É isso mesmo... A capa da colectânea de contos e poemas "Balaio de Ideias" da editora Novitas do Brasil. No meio de vários escritores, alguns deles consagrados e publicados, aqui o escriba teve a honra de participar com dois contos. O livro sairá no mês de Março e poderá ser adquirido pela Net ao preço de R$ 14,00. Infelizmente não poderei estar presente no sarau de lançamento. Deixo as indicações do blog e endereço electrónico dos editores para eventuais pedidos bem como, a resenha dos próprios sobre a edição.

Os autores já enviaram seus textos re-re-re-revistos e editados, diagramados. A capa está escolhida.Breve, a primeira Coletânea editada pela Novitas estará a disposição de todos, através de nosso site, deste blog e pelos meios de seus autores.

Para nós, Letícia e David, a empreitada vem carregada de vários momentos de prazer:
-A qualidade dos autores é impressionante, com uma originalidade nos textos - seja quanto a forma ou quanto ao conteúdo- que há muito não víamos. É muito bom ter em mãos material diversificado;

-A confiança em nosso trabalho nos honra;

-A descoberta de que, em meio ao caos de informações que as gráficas nos passam, temos conseguido navegar em mar calmo, separando o joio do trigo e com isso aprendendo a melhor maneira de oferecer nossos produtos. Digo isso porquê, desde o princípio, nossa idéia tem sido o atendimento ao AUTOR, e não abrir um negócio onde ficássemos ricos e famosos.

Essa visão, que compartilhamos com muitos bons e queridos amigos - mesmo aqueles que ficam no plano virtual semi real de nossas vidas - é pautada por um sentimento não só cultural, mas também educacional e, por quê não, político. Precisamos de cultura em nossas vidas diárias, precisamos educar e precisamos conscientizar a todos de que sem saber não existe futuro.

É muito comum dizer-se que "brasileiro não lê". Infelizmente é verdade, pois as bibliotecas não conseguem renovar (claro que existem excessões) e o leitor avulso não dispõe de dinheiro suficiente para pagar os quarenta reais - preço médio - por um livro. Vamos então fazer cultura de baixo custo. Não importa se impresso em papel jornal. Esse tem sido o cabo de guerra com as gráficas, e temos conseguido boas vantagens.

Aqui tentaremos por todos meios fazer nossa parte. Toda publicação que fizermos, mediante autorização do autor, terá alguns volumes destinados a bibliotecas públicas, seja aqui em Santa Cruz do Sul, seja da escolha do autor.

Como alguém disse uma vez (e realmente não consigo lembrar quem foi): "Escrever é um prazer, ser lido é uma honra".

Aqui cabe a relação dos autores participantes desta primeira Coletânea:

adriana da silva costa
angelo panisson
bárbara stracke
carlos emerson junior
carlos fonttes
cármen neves
cláudia gonçalves
conceição riachos
david nóbrega
ery roberto corrêa
gerana damulakis
isiara mieres caruso
letícia coelho
luís alberto gonçalves bento
madalena barranco
marcos antônio bulgos de andrade
maria dias
neida da costa rocha
paulo ricardo diesel
sandra almeida
sandra veronezi
sandry hussein
stephanos demetriou stephanou neto
van luchiari
veneide cherfen de souza bogusz


http://blog.editoranovitas.com.br/

blog@editoranovitas.com.br

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

DIVULGAÇÃO II


Como é sabido, a Revista A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:- Primeiro número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.- Segundo número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.- Terceiro número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.- Quarto número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa (recepção de textos até ao final do presente semestre).

Mais um projecto divulgado no no nosso espaço ao qual aderi e darei um pequeno contributo.

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

HISTÓRIAS DA TERRA - OS PANFLETOS...





“Um mal nunca vem só! Mais vale só que mal acompanhado”! A sabedoria popular se é desprovida de esperança não deixa de ser certeira. Não que a frequência das companhias andasse mal classificada na tabela periódica dos elementos criativos, mas… Fosse pelo excesso de trabalho e solicitações, fosse pelo infortúnio das maleitas oportunistas, o espírito criativo do escriba andou arredio, ausente e alheado como notas da carteira em tempo de crise. “O homem é um animal de hábitos”. Não querendo entrar em discussões estéreis ou classificações Darwinistas, não vesti o hábito do monge, mas fiz-me à estrada em busca da escrita perdida, na companhia do apoio e do carinho do público e, como alguém disse: Se penso, logo insisto, à força de muito pensar e mais insistir, lá consegui esmiuçar a neurologia do neurónio parasita e arrebanhar umas quantas palavras e trazê-las para o curral do texto…

Foi logo a seguir ao último cruzamento entre a História e a Civilização, já os dinossauros tinham recolhido aos compêndios de ciências naturais, que José Gonçalves, à força de muitas flexões do estômago à hora da refeição, abraçara as teorias Marxistas. Levando atrasos de comboio regional para juntar duas letras da dimensão duma junta de bois, achava, contudo, que a justiça só punha palas na manta verde e retalhada de aridez endémica no terreno sinuoso de Castelo Branco e, apesar das intermitências com que dedilhava o alfabeto, a ideia de justiça, igualdade, pão e trabalho para todos, fora cultura que germinara, sem esforço, no terreno ávido e fértil do seu cérebro. Após o despedimento pelo capataz depois do episódio do almoço condimentado a pedradas, não arranjara outro sustento melhor que uns vagos e dispersos biscates pastoreando umas cabras e limpando mato. Nas suas longas passeatas pelos pinhais fora recrutado por um finalista universitário para lhe guardar e distribuir panfletos subversivos de apelo à luta armada contra a ditadura. A princípio, atraído pelos símbolos do trabalho, a foice e o martelo e, mais tarde, pela conversa do estudante, acabara por se empenhar na guarda e distribuição dos panfletos. Ao certo, não sabia o que continham, mas sabia aferir da sua importância…

Três dedos, assim alcunhado desde que, na festa em honra de Santo André das Tojeiras apanhara um foguete perdido e o mesmo lhe rebentara entre os joelhos, acabando com a serventia das partes pudibundas e destroçando-lhe dois dedos da mão direita, aliara a frustração ao desempenho activo e alarvemente zeloso da função de agente da P.I.D.E. Perseguia sem dó, ré, piedade ou outra inscrição de pauta, os “inimigos” do estado. Célebres tinham sido as suas investidas, com ajuda dos militares da GNR, na caça a perigosos subversivos vermelhos que tinham posto em cheque a segurança da Pátria. Certa ocasião, Sebastião Béu Béu, onomatopaico por baptismo e borracho pelas vicissitudes da vida, alegara ter visto o Armando do Lagar a caminhar sobre as águas do rio Ocresa…” Milagre”!! A notícia rastilhara célere e chegara aos ouvidos enfarinhados em serume do agente. “Que não! Não podia ser… Milagres só em Fátima com a bênção de sua excelência o Presidente do Conselho” (fazendo uma vénia reverencial), “se o povo começa a ver milagres fora da órbita do regime, ao invés de termos todos a ver para o mesmo lado, temos uma zarolhice subsversiva que põe em causa a argamassa sustentadora do regime: Deus Pátria e Família… Se não respeitam a família é como o outro... Estes burros só sabem pedir forragem na manjedoura, mas confrontar o milagre oficial sancionado pela Pátria... Isso é que não!” Sebastião andava sempre borracho e a visão fôra atribuída ao seu estado de embriaguês permanente, mas perante a insistência nas visões, Três dedos, num dia em que ele andava a regar umas leiras de terra num povoado distante, empurrara-o para dentro do poço… A explicação oficial dita em tom irónico era que “Deus escrevera por linhas tortas: o homem que andava sempre borracho acabara por morrer afogado… em água… “Deus estendera-lhe a mão e ajudara-o a lavar os pecados nas mesmas águas puras que batizaram São João Baptista…” Abriam-se-lhe as portas do céu para uma vida imaculada que não soubera levar em terra”… A explicação não convencera ninguém, muito menos o José Gonçalves... Três dedos, apenas por curiosidade mórbida, ainda se deslocara ao local indicado tendo, com a ajuda de uma vara, detectado um caminho de pedras bem no meio do rio… Milagre não era, decididamente! Quanto muito, algum comunista que ali plantara os seixos para escapulir à polícia ou para mangar com a fé cristã…

José Gonçalves tinha alguns animais de criação e uma cavalo tingido comprado nos ciganos chamado Russo, o bicho era má rês, arisco, agitado, não tolerava arreios ou cangote. Escouceava tudo e todos, bastas eram as vezes em que tinha que consertar o estábulo, não servia para trabalhar mas afeiçoara-se ao bicho e, entre eles, estabelecera-se uma cumplicidade de estado de espírito, ambos queriam ser livres. Limitava-se a dar-lhe comida, guarida no palheiro e a passeá-lo pelos matos. Tinham grandes diálogos, o cavalo já ouvira os postulados de Marx, Trotsky e outros teóricos, José Gonçalves discorrera sobre o paraíso na terra lá para as bandas de leste numa sociedade onde os homens não eram explorados pelos homens ou qualquer outro tipo de besta.

Três dedos, pressionado pelo chefe de brigada, queria encontrar, a todo o custo, os panfletos do partido comunista, não pela mensagem, pois aquela gente não sabia ler, mas porque lhe custava andarem a mangar com o estado e porque contava passar, ele próprio, a chefe de brigada se apanhasem o tipógrafo. Não fôra preciso muito para desembocar no encalço do José Gonçalves. Numa noite, acompanhado de dois cabos da guarda, batera-lhe à porta. À força de bastonadas vasculharam tudo em busca dos panfletos e de um tal Marx…”Que não o acobertassem porque era pior!” Perante o choro e a resposta atabalhoada da mulher de José Gonçalves, a ignorância, que aliada à maldade e ao poder constituem uma trilogia perigosa e violenta, só se saciou com a senhora prostrada no chão jurando por Deus e todos os cromos da santíssima trindade que o tal Marx pernoitara ali mas abalara há meia hora atrás…Não querendo aparecer de mãos a abanar, até porque não tinha dedos suficientes para contar até dez, levou-o para o posto da guarda onde deu continuidade à sessão de sevícias e tortura… O chefe de brigada, homem arguto e enfadado com ridicularias menores, decidira mandar soltar josé Gonçalves: “solto ele indica mais facilmente onde estão os panfletos, quiçá a tipografia, quiçá o tipógrafo...”

José Gonçalves regressara a pé levando uma eternidade de via sacra, lenta e dolorosa, a chegar a casa, mas o tempo suficiente para arquitectar a resposta à altura da baixeza do infame três dedos…

Alguns dias depois andava a guarda, esbaforida, revolvendo céus e terra em busca do Três dedos. O agente não mais fora visto desde a noite do interrogatório ao José Gonçalves, ninguém lhe pusera a vista ou outro órgão em cima…decidiram ir a casa do José...
Nada… Ninguém… Silêncio absoluto, apenas o escoucear e relinchar do Russo… Arrombaram a porta, nem vivalma, nem sinais, verrugas ou cheiro do josé Gonçalves e da mulher... “Ai o madraço que preparou alguma! Vai ter muito que contar no Torel! Vasculharam tudo deixando para o fim o palheiro, ninguém se atrevia a chegar perto do Russo. O cabo decidu ir buscar a carabina ao carro...
À mesma hora, José Gonçalves, ainda combalido, seguia com a mulher no carocha preto e discreto do tipógrafo rumo a Espanha, com um sorriso nos lábios...

Bang! Bang! - Dois tiros para o ar e o Russo, assustado, rebentou com o que restava da porta e deitou a correr em direcção à liberdade do pinhal… De lanterna na mão, os polícias entraram, a medo, dentro do palheiro… A uma canto, completamente ensaguentado e marcado pelas ferraduras do Russo, jazia inanimado, o agente da P.I.D.E. junto a uma prensa artesanal, no meio de centenas de panfletos subversivos esvoaçando pela força da corrente de ar…

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

AS PALAVRAS...

Palavras leva-as o Bento... Por entre uma gripe de caixão à cova, afazeres profissionais, o término do livro e a participação numa colectânea de contos e poemas a ser publicada este mês no Brasil, as palavras meteram folga e rolaram na companhia dos Stones sem dar cavaco ou satisfação... Quem não tem cão caça com gato. Na falta de ambos dedica-se à pesca... Lancei a rede e apanhei umas quantas vogais e consoantes menos avisadas, adicionei-lhes uns sujeitos e predicados e conto confeccionar, brevemente, uma nova caldeirada literária com sabor a terra... até lá, vou continuar a persegui-las num lógica cartesiana:




"PRENSO, LOGO EXISTO!"