Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

DIVULGAÇÃO...


Apesar do mealheiro da inspiração estar a abarrotar de moedas e projectos achámos por bem fazer a divulgação de um novo espaço na Net: http://sociedadeblog.blogspot.com/

O Sociedade Blog, nascido nas terras de Vera Cruz, é gerido por Gustavo Rangel, Gervásio Neto e Ana Paula Motta. Espaço de debate e informação política, desportiva, cultural e ..."amenidades", conta já com cerca de cinco mil visitas, numa atmosfera dinâmica, fresca e activa sendo, por isso, um espaço a frequentar com assiduidade.


Brevemente, por gentileza dos administradores do blog, será postada uma pequena colaboração do Bento em parceria com a Ana Paula.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

HISTÓRIAS DA TERRA - O GRANDE INCÊNDIO



"O vento mudou e ela não voltou..." Deixá-la estar! A inspiração é uma moeda… Mal gasta desaparece, bem aplicada, volta... E em dobro! Nem uma coisa nem outra... Entre os sucessivos percursos iniciáticos nem encontrámos o tempo perdido nem ficámos do lado de Swan. Deixemo-nos de contabilidades, Proust não escreveu o plano oficial de contas e nós não ganhámos o "Prix Goncourt". Voltemos pois, com tempo, à escrita simples e cheia de realidade.

- Há fogo! Há fogo! – Lapidar, a frase acompanhada dos sinos a rebate, acordara a vila estremunhada. Começara no cimo do cabeço, durante a noite, as labaredas cavalgaram a galope em direcção ao casario encontrando-se a duas braçadas de distância da casa de Manuel Pereira que, em pijama, se dirigiu para o quintal pegando no primeiro objecto que encontrou. O fogo já lambia o muro e ele, no auge do desespero, tentava apagá-lo à paulada. Impotente, ficara hipnotizado contemplando aquela magia oscilante entre o laranja e o vermelho. Num ápice. Vieram-lhe à memória a sucessão de imagens da sua vida como se fosse morrer agora… Ali…
Se os animais precisavam de forragem, a fome também dava nó cego no estômago dos homens. Farto de brincar aos pastores, trocara as cabras pela colher de pedreiro. Viera para Lisboa com dezasseis anos no bolso mais cento e cinquenta escudos. Entre a serventia de pedreiro e os biscates diários, Lisboa era terra de horizontes negros e vistas curtas. Com a guerra colonial a bater à porta, e, dado a sua vida não ser tatuada com amor de mãe e Guiné 64, entre a argamassa e o gesso, jogara ao monopólio geográfico e, sem passar pela casa partida, saltara directamente para França onde se tratava a liberdade por tu e se virava a esquina para encontrar emprego. Correra a eito várias páginas do dicionário de profissões, comera o pão que o diabo amassou, bem duro por sinal, acompanhado de azeitonas ressequidas e latas de conservas fora de prazo. Dado que o saber não ocupa lugar, o seu cérebro alugou quatro assoalhadas amplas com vista para o conhecimento, encaixotado nas entrelinhas das escassas horas vagas. Metera-se a estudar… Os negócios floresceram, assistira ao golpe de estado travestido de revolução. Marcado pela saudade, regressara na esperança de encontrar um país diferente e investira tudo na terra.
A sua querela com João Godinho, o “doutor João Godinho”, vinha de longe, do tempo do José Mário Branco. À discussão sobre marcos e palmos de terra somara-se um outro episódio numa equação de difícil resolução. O pai de Manuel Pereira, após uma jornada nas terras, deparara-se com um burro morto à entrada da vila. Dirigira-se ao posto da Guarda Nacional Republicana onde o pai de João Godinho exercia a autoridade de sub-chefe, de forma displicente e autoritária, a fim de dar conta da ocorrência. Lerdo das ideias mas pronto a zombar do homem, o guarda, acompanhado da mais fina grosseria e mau humor perguntara-lhe secamente:
- Um burro morto à entrada da vila? Que tenho eu a ver com isso?
- O pai de Manuel Pereira , homem inteligente, dono de um humor refinado, não se ficara: - Achei por bem avisar primeiro a família… E virou costas. A partir desse dia João Godinho ficara conhecido como o filho do burro… Mais uma acha para a fogueira do desentendimento entre ambos. João Godinho, verme apreciável na cadeia de invertebrados da vila, apaixonado pelo dinheiro e pela ostentação, caíra de amores pela política. Vá-se lá saber como, conseguira chegar às esferas partidárias e ser eleito presidente da Câmara. Com o ar de fuinha e poucochinho que nunca perdera, um ano antes, chegara às falas e tinha sondado Manuel Pereira sobre os terrenos adjacentes à casa… “Um consórcio estrangeiro estava interessado em comprar a zona, ele tinha a Assembleia Municipal na mão… Iria ser construído um hotel de charme e campo de golfe… Se tudo corresse bem, aquela gente era generosa e sabia reconhecer favores… Ele só teria que vender a sua parcela, a Câmara já assinara o processo de cedência dos terrenos do cabeço…” Recusara… A fábrica ardera em Outubro passado misteriosamente… Agora, no pico do verão, o fogo começara à meia noite…
- Anda daí homem de Deus! És doido? Morres queimado! – E foi, agarrado pelo seu vizinho, que Manuel pereira, a custo, se deixou levar… Morto e enterrado estava ele, simples figurante nos destroços calcinados daquela tragédia…
Na manhã seguinte, no rescaldo do incêndio, o inspector da judiciária teorizava com pormenores lúgubres sobre os indícios recolhidos fazendo gala dos seus conhecimentos técnicos…
- Sabe, isto é experiência… Ando nisto há muitos anos… Fogo posto… Claro! Um gato ou um coelho regados com gasolina… E a dor faz o resto…
“Que não, que não… Pois… Apanhá-los… Não há flagrante, nem testemunhas…
Manuel Pereira, a poucos metros de distância, ouvira o suficiente, não precisava de flagrante ou indícios, as roupas caras, o carro recente, a vida faustosa e o novo-riquismo atingido em flecha, os estranhos amigos de botões de punho e camisa imaculada em seu redor com constantes e afáveis palmadinhas nas costas, sorrisinhos e esgares eram indícios mais que suficientes para decretar a sentença…
Passaram-se os dias e as noites, até que, indo João Godinho pela estrada em direcção a mais uma reunião com o consórcio, Manuel pereira se lhe atravessou à frente de canos serrados em punho:
- Salta cá para fora meu cabrão! – O tom da ordem era um rio sem margens para galgar dúvidas. De mãos no ar e voz trémula, João Godinho balbuciava aterrorizado:
- Ó homem de Deus… Tu não te desgraces! Não dês cabo da tua vida… Vamos conversar…
- Ó meu cabrão! Deus não é chamado para estas contas… e o gajo, se uma vezes é magnânimo… Outras vezes sabe ser lixado! Eu dei cabo da vida no dia em que te salvei de morrer afogado no poço quando eras miúdo… Invejoso de merda! Sanguessuga! – E fitando-o com desprezo ainda o invectivou – Farpelas novas… Fina cambraia, gravatas de seda, os amigos do consórcio tratam-te bem… Deves cagar pão de ló…
- Ó... Homem… Deixa-me explicar-te…
A coronhada na testa já não deixou nada…

Na manhã seguinte, no meio do banquete amanhado no adro da Igreja, o aplauso do povoléu e o barulho das máquinas eram a nota dominante no toque a finados que pairava no ar. O assessor do presidente anunciara a concessão ao consórcio sob a promessa de criação de riqueza e postos de trabalho para a vila. Se antes se submetiam à cartilha Deus, Pátria e Família, agora sucumbiam à terapia dos almoços grátis… Os buldozzers, de forma trepidante, iniciaram a marcha para as terraplanagens e medições topográficas… E eis que, chegados ao cimo do cabeço, avistaram um corpo inerte meio tombado sobre uma cova natural. Quando se aproximaram, depararam-se com um cadáver… Era João Godinho… enfiadas na testa rebentada, erguiam-se, imponentes, duas enormes orelhas de burro.


Sábado, 17 de Janeiro de 2009

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM...

Sem a verve demencial de Ezra nem a claustrofóbica garatuja deKafka, um novo escriba assomou à janela da cidade branca e anestesiada. Entre a crítica Queirosiana e a caricatura do Gervásio... medrou uma ervinha cáustica e teimosa no eucaliptal da Aurea Mediocritas Lisboeta. Entre "Les Beaux Lettres de L'Academie" e os subsídios da Gulbenkian, não regressou o Sebastião nem estamos em Brideshead, por isso, revivamos o presente em Alcacer Kibir e aproveitemos os Bentos da nova Literatura...
Foi com estas palavras que se inicou este blog... por esta altura, já devem estar a pensar: "olha só as companhias do moço..." Pois...é melhor não falar no Jean Genet ou na Casa dos budas ditosos ou... em tantas outras teorias, fórmulas, estéticas ou intervenções, pois passaria de um caso de escrita pretensamente criativa a caso clínico digno de tese de mestrado. Acontece porém, que desapareceu do alcance das dioptrias progressivas do artista, a tão necessária inspiração... Menos por falta de tema e mais por falta de ideias, as palavras foram saltar ao eixo, entre sujeitos e predicados, algures num qualquer sonho da madrugada perdido no meio do nevoeiro. Não sendo acólito nem adepto do mito sebastiânico, e a fim de manter o nível inical da escrita resta, ao artista, não esperar pelo seu regresso em adiantado estado de decomposição, mas ir em busca dessa formosa senhora e trazê-la, segura, pela verdura.



Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

QUEBRAR O RITMO...



Sem preâmbulos, introitos ou resenhas para evitar frisson com a Lou Camille... devemos, contudo, fazer uma nota explicativa... O texto de hoje é diferente... em todos os aspectos... pelo tema sugerido por uma amiga, pela seriedade, pela ausência de prolixia rebuscada, pelo Português com sotaque...

O FILHO

Foi assim de chofre, no final da peça, após o termo do aplauso geral, quando o público se começava a levantar das cadeiras, ao dirigir-se para as felicitações da praxe no camarim que, sem mais delongas, recebera, preto no branco, (mais preto do que branco), que a relação acabara. "Instalou-se a rotina, não amo mais! Não quero mais você! Descurti!" Marcas gravadas, a ferro em brasa, no cérebro aos coices de dor e medo... "Mas porquê? Eu mudo, Nós mudamos, conjugamos todas as formas e tempos do verbo: estar juntos... a gente não se esconde mais, fazemos tudo diferente...se está direitinho, desarrumamos, se tá desarrumado, coloca no sítio, se tá sujo faz faxina.."

- A-c-a-b-o-u!!!


Foi assim... explícitamente, tácitamente, sem soluços nem copo de água... caíra o pano de comédia ou ópera buffa e virara tragédia com intervalo de cinco minutos para descanso dos artistas. Entraram em cena os figurantes todos: a culpa a angústia o medo o choro e a depressão. Saudade e recordação é como xanax e receita médica: um não passa sem o outro... as noites de luar, os passeios na praia, o calor dos corpos... acordar às sete sair às oito, almoçar às 13hoo regressar às 18h00... "agora vou fazer tudo diferente... quebrar rotina..."


A MÃE

Mãe é para isso mesmo... lavar, passar, dar colo, dar conselho, tomar as dores do filho..."Almoço tá pronto! Picanha ou cebolada? Bife com batatas?... prefere hamburguer? peixinho? tava bom? Jura?...Vai sair? Tem cueca lavada na cômoda, camisa nova e calça engomada a preceito. Tem dinheiro? Cuidado à noite viu?..." Mãe vive na caverna farejando o perigo com a mudança de vento...filho criado, cuidado redobrado..."Tá em depressão? Sai dessa filho!! Como é que faz? Oras! você tem vinte e cinco anos...tá me deixando encucada..."


QUEBRAR O RITMO

A mãe foi ter com eles à hora marcada no restaurante..."beijinho, beijinho" mãe... tou quebrando o ritmo... fui buscar meu namorado ao emprego... tá com fome? então senta mãe..." e pespegou com um valente beijo na boca ao companheiro... indiferente... às bocas de todo o mundo...




Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

BENTO-VAI-PRA-DENTRO-BENTO!


Eu sei que vaidade é pecado, mas o Hyde, do lado de lá do Atlântico, teve a gentileza de fazer uma "tira" com o meu nome... e não resisti a divulgar...

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

O AZAR DO PADRE BALTAZAR...

Jorge Pinheiro
O Bispo (azul)
1981
Centro de Arte Moderna
Afastado do blog por motivos de força maior (ou menor consoante o ponto de vista) regresso hoje, rapidamente e em força, para a atmosfera bloguista com uma história sagrada deliciosamente profana.
O bairro de Campolide tinha sido estruturado e delineado à boa maneira Salazarista. Na confluência do alto de Campolide com a Marquês de Fronteira residiam os que tinham vínculos de familiariedade muito próxima com o dinheiro. Da rua de Campolide até ao Tarujo aqueles, cujos vínculos familiares com o vil metal há muito tinham entrado em ruptura. Estávamos em mil novecentos e setenta e três, mesmo no finalzinho da cena hippie que acabava de sair pela esquerda baixa do palco. Na oficina do Bogas, o calendário, besuntado de manchas de óleo nas mamas da pin-up, marcava o início de Janeiro. Ainda a queimar os últimos dias de férias da escola, com a maior parte dos pais emigrados e as mães a trabalhar; as avós não tinham mão, pé ou outro membro para atalhar os devaneios da miudagem, que passava o tempo palmando fruta na mercearia da Conde das Antas e atazanando o juízo ao Bogas. Fora isso, a frequência da catequese, supostamente, era o ponto onde as distintas classes da fauna se encontravam, o modo de dar algum freio à rapaziada e o entreabrir da janela para o jardim de Deus. O padre Baltazar, peão de brega da primavera Marcelista que despencara em Outono cinzento e frio, era bera... seco de carnes, voz sibilina, sotaina e botas que rangiam, a evangelização dos indígenas fazia-se por força da separação de sexos, origem económica e tratamento reverencial e desprezível consoante os casos. Paralelamente, a palavra do Senhor fazia-se sentir à força de reguadas sempre que um vil esquecimento de data ou festividade ecuménica ocorria, o que levava a miudagem a acreditar que, se Deus não jogava aos dados andava, pelo menos, bastante distraído, permitindo aquela chacina que não ficaria sem resposta...
Fosse pelas manchas de óleo das cambotas, bielas e demais capítulos dos manuais de princípios gerais de mecânica, fosse porque, estando nas mãos do enviado do senhor o pecado seria perdoado, a mulher do Bogas, não sendo capa de Playboy, era, apesar do seu corpo roliço, um naco de carne a degustar na refeição sacerdotal. Nos últimos tempos a mulher do Bogas atingia a plenitude e bem aventurança, ajoelhando-se, solícita, diante do padre Baltazar numa oração com valentes meneios de cabeça num frenesim ritmado. O rastilho de pólvora da boataria ardeu num ápice. Fartos da bordoada e do desprezo do padre, a miudagem, mais afoita, pregava-se à porta da oficina com uma ladainha em tom de salmo, insinuando que o fervor do acto oral era bem distinto dos salmos e passagens bíblicas... O desgraçado largou a árvore de cames que tinha na mão e pegou num maço de bater chapa. Fechou a porta e desatou a correr como foguete em dia de festa na aldeia de São Romão... a igreja ficava no tarujo, no cimo de uma ruazinha íngreme junto ao quartel. A panhado de surpresa, o padre jogou ao corre corre por entre corredores e imagens de santinhas, candelabros, ais e uis... nem escudado com o evangelho e o crucifixo escapou à fúria do Bogas. Então, depois de ter saltado por uma janela de uma salinha de arrumos que dava para um saguão... desatou a correr rua abaixo, esfarrapado, ensanguentado e dorido, em busca de um táxi, os quatro pneus do seu Fiat 124, vá-se lá saber porque artes do Demo, estavam todos em baixo...


Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

HISTÓRIA LOUCA PARA INTELIGENTES...


“Às cinco da manhã dera entrada no hospital, acometido de doença súbita, sem pré-aviso registado em papel azul de vinte e cinco linhas averbado com quinze dias de antecedência. Transportado para Santa Maria, apetrechado ao melhor nível dos hospitais de topo do Burkina Faso, o homem, na casa dos cinquenta com cinco assoalhadas, corredor, cozinha e serventia de águas quentes e frias, raquítico por natureza e louco por excesso de exposição às modernas teorias e métodos de avaliação do ensino em Portugal, parecia possuído de delirium tremens com as suas veiazinhas salientes, os olhos esbugalhados e o corpo numa tremedeira digna de pudim "boca doce pró avô e bébé". Não havendo antecedentes de alcoolismo na família e não tendo registo médico de Alzheimer, uma só hipótese se colocava… Chamada a família, mulher, cunhada, primos, o gato e o canário; atestaram e testemunharam, juntamente com o Zorro, o Bonanza e o Super Homem que, na véspera, partira em busca de sinais sobre o sentido estético da vida. Questionados com afinco sobre a possível persistência em assistir a mais de quinze minutos ao último filme de Manoel de Oliveira, a afirmativa, pronta e firme dos interrogados, não deixou margem para dúvidas: o seu fraco cérebro esgotado pela velocidade de reacção das sinapses não tinha resistido ao raciocínio tortuoso do cineasta. Já resistira aos quinze minutos iniciais, a preto, do Branca de Neve do João César Monteiro, já assistira, de pé, a um concerto de Roberto Carlos em final de carreira no estádio de Alvalade, mas, quase de certeza, ficara assim por causa do Manoel de Oliveira após busca exaustiva dos princípios do sentido estético da vida. Tudo começara quando perdera em Caxias o paradigama do Edgar Morin, aí se enrodilhara na oposição entre Natureza e Cultura tão ao gosto dos cientistas e de algum, pouco, senso comum. O anestesista apontara para o livro que o paciente tinha no bolso do casacão, mas o cirurgião- chefe fôra peremptório: - Esta loucura não se banhou nas delícias literárias e experimentais do Ezra Pound! O assistente, dado ter ouvido os palavrões do paciente mimando-os com nomes carinhosos para os seus parentes mais directos, diagnosticou um síndrome de Jean Genet, mas não não podia ser, a amoralidade e perversidade não iam tão longe… quanto muito até Algés e Dafundo. Será da chuva? Será da gente? Não que aqui não neva certamente e o poema já caíu em desuso depois do uso e abuso do Herman José. A enfermeira-chefe interpelou o cirurgião-chefe: - Pelo seu discurso, o chefe andou a ler a crítica da razão pura… e ele, respondeu de (es)Kant(ilhão)… nem pura nem adulterada, tenho razão e não admito críticas…Vai-me dizer que raramente se engana e nunca tem dúvidas? Não lhe respondo afirmativamente porque EU…sei comer bolo-rei de boca fechada. O cirurgião chefe, sabendo comer bolo rei de boca fechada, lendo Kant, Hegel e outros do mesmo team, farto de idealismo fenomenico, e dado ser insuspeito na elaboração de diagnósticos, colocou a hipótese de ter caído na esparrela de ler Eugene Ionesco. Porque dizes isso? A mulher dele é cantora e tem uma careeca.., Isso, é um absurdo! - Disparou o assistente… Colocaram a hipótese do cinema… terá assistido aos Monuty Phyton? - Que vida… isso, não fazia sentido… Já sei ! dedicou-se à pintura entornou latas e espalhou pinceladas e descobriu que não era o Jakson Pollock… não o Pollock tinha uma quota nas tintas Robiallac... Leu o Platão e fez a apologia de Sócrates: "Só sei que nada sei…" Que o Sócrates não sabe nada de nada isso já nós sabemos… andou à procura de um político competente… até os loucos sabem que isso é como o pai natal… não existe! Já sei! Estamos no Inverno, síndroma de Steinbeck... Steinbeck? Sim, não descobriu o sentido estético nem na vida nem nas artes e exacerbou-se-lhe o descontentamento…" enquanto decidiam o diagnóstico do paciente chegou um médico daqueles a sério com diploma e tudo:
- Que raio se passa aqui…tá tudo louco ou quê? Lá estão vocês a brincar aos médicos e enfermeiros de novo…
E rapidamente definiu o espaço e a brincadeira: a vida era um enorme tacho onde todos saltariam, desordenadamente, a imitar pipocas a estalar, o último, encostado à parede, teria a função de dar cabeçadas na parede... a imitar a pipoca agarrada ao tacho...

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

DE DO DO DO, DE DA DA DA PARA LOU CAMILLE

PERDOEM-ME OS CRENTES, MAS HOJE TEMOS UMA PEQUENA PROVOCAÇÃO ESTÉTICA...





MEU AMO... AGUARDO PACIENTEMENTE QUE ME DEIXES FALAR...



EU ESTOU A FALAR!! E TU CALAS-TE!!!



ENTÃO, MAGNÂNIMO, CHEGOU DEUS E DISSE: HOJE ... SOU EU QUE... FALO !...

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

TODOS OS SONHOS DE ABRIL - A OUTRA HISTÓRIA DE PRINCESAS


Dado que os contos de fadas ainda não pagam IRS nem reservas geográficas e, uma vez que a narrativa apanhou o avião na Disneylandia e aterrou num país tropical, os nossos pajens não vestem de azul debruado a ouro, nem tocam trombetas, mas vestem de verde e amarelo e, tocam pandeiro, dançam e anunciam à Princesa, com ordem e progresso, a boa nova... Não! Não eram notícias do Príncipe ausente em parte incerta e sem saldo no cartão do telemóvel, era o moço da Pizza Hut a vir fazer uma entrega. A Princesa recolheu de novo aos aposentos. Melosa e apaixonada, passava os dias na sua Terra de Sonhos plantando flores e escrevendo posts de amor e primavera. Os seus poemas eram bordados cheios de vida e esperança. Apaixonada por poesia, cinema, gastronomia e crianças, na sua vida havia espaço para ser piegas, para choro em filme romântico, para um pedaço de lua, de rua e quotidiano comum. Empenhada em causas sociais, várias vezes a realidade crua atropelara os sonhos, mas não os deixara à míngua por falta de socorro. Dor maior que lhe apertava o peito era a do seu Príncipe. Sumira! Assim de repente. Não porque tivesse os tipos das finanças ou da ASAE à perna, sumira, decerto nem ele próprio sabia o porquê. As últimas notícias dos arautos da desgraça davam conta da sua presença num país distante e inacessível. Por medo atávico ou fuga à responsabilidade, o Príncipe saltara das páginas do conto para uma incerta narrativa digna de bula de medicamento. Sem outra medicação que lhe curasse os males da alma ia recolhendo os sonhos do chão, limpando as suas feridas expostas, colocando lacinhos de fita neles, ganhando novas asas e um tantinho de coragem na esperança, de que, o seu Príncipe ganhasse o céu e que o vento norte o trouxesse de volta ao lar. Mas o vento mudou e ele não voltou. Exacto! Como na música dos anos sessenta... E a Princesa passava os seus dias no jardim plantando flores e fazendo mais bordados de vida. Até que um dia, ouviu grande burburinho nos átrios do palácio. Andava um lobo à solta na floresta e alguém tinha posto uns graffitis nas paredes dizendo que era muito mau! Mas a Princesa ouvira o seu uivo... melodia ímpar, nova, diferente. Pusera-a em desassossego e confusão. Ordenara ao séquito que abrisse a porta, apesar do receio da criadagem, aventurou-se pelo caminho até à entrada da floresta. Cruzou-se com ele ao contornar um carvalho majestoso... o seu olhar flamejante e hipnotizador, o seu sorriso miúdo, o seu ar ao mesmo tempo felino e terno relembrou-lhe que a felicidade não se pode comprar, nem na loja do chinês nem nos contos dos irmãos Grimm. A felicidade encontra-se entre livros de poemas, contos de meninas, rimas de pé quebrado e lufadas de vento. A Princesa desencantada, antes culpada e confusa, tornara-se, agora, quase alada. Nem o lobo era assim tão mau nem ela era assim tão temerosa! Então, com o seu lobo conduzindo a mota deixou-se levar floresta a dentro rumo ao arco íris onde ia, então, encontrar todos os seus sonhos de Abril...



P.S. O conto é dedicado à Ana Paula Motta para quem é urgente descobrir rosas, rios e manhãs claras... Para quem acredita em contos de fadas... uma verdadeira Princesa!

PSICOLOGIA DOS CONTOS DE FADAS...


Ultrapassados todos os deadlines para terminar o famoso romance de crítica social de que já ninguém quer ouvir falar, está agora o escriba em posição (sentado) de garantir o seu términus para o final da próxima semana. Até lá, porque o novo ano ainda é uma criança, nada melhor do que brindá-lo e aos leitores, com o fim da saga dos contos de fadas. Porque nem o lobo é assim tão mau e nem as fadas são assim tão temerosas, correndo o risco da crítica literária contundente de algumas almas progressistas que não toleram manifestações de sentimentos pequeno-burgueses, preparai-vos pois, para um novo conto de princesas a publicar ainda hoje.