sábado, 14 de Novembro de 2009

FÁBRICA DE LETRAS - PRETO E BRANCO

Enquanto não sai, mais logo, o grande final da "Estrada nacional 103", o escriba contribuiu com uma pequena participação na blogagem colectiva da Fábrica de Letras com umas pequenas linhas subordinadas ao tema: Preto e Branco.
Preto e branco, assim estampado em grossa letra de imprensa na prata mágica do chocolate, sucedâneo das melhores marcas “à venda nas casas da especialidade”, que a mãe lhe comprava, numa memória longínqua, enrodilhada em café torrado e feijão branco a granel, na mercearia do senhor Rodrigues, encravada num prédio a cair de podre no declive acentuado da General Taborda, para as bandas de Campolide onde hoje funciona um banco, lembrava-lhe, com clareza, o gesto rotineiro do senhor Rodrigues ao balcão. Após as compras, sacava do rectângulo carcomido de madeira com uma mola a prender meia dúzia de folhas amarelecidas e enroladas onde assentava, no rol, as dívidas, os calotes e a vida da vizinhança penhorada de remedeio omnipresente. O melhor de tudo era quando o senhor Rodrigues oferecia um chupa daqueles coloridos , aos montes dentro dum boião enorme de vidro com tampa vermelha, embrulhado no cinismo das parcelas amontoadas a eito no rol. O chupa sabia a ginjas mesmo sem nunca as ter provado. Outro gesto rotineiro numa praxe instituída, eram os vinte e cinco tostões que a mãe dava sempre ao homem em cadeira de rodas, junto à berma, que se esquecera das pernas, numa mina cravada no meio do mato, naquele pontinho pintado a amarelo no globo terrestre com umas letras a dizer Guiné.Na chegada a casa, derretia paulatinamente o chocolate na companhia do “Jornal do Cuto” sob o pano de fundo do “Simplesmente Maria” do Rádio Clube Português.


Saudades… Tinha saudades das memórias doces, do cheiro do café, do chocolate…

Da Mãe…

14 comentários:

Anónimo disse...

Quanta ternura...
Mais um momento de escrita belo e intenso.
Um beijo nosso.

Lu.a disse...

:)

Sirigaita disse...

ola!

Obrigada pelo teu comentario e por teres perdido alguns minutos a ler os meus devaneios e estupida autobiografia :)
As portas estão sempre abertas e não há consumo minimo,portanto..feel free ;)

Kiss Kiss,
Sirigaita*

Ana Paula Motta disse...

Que texto carregado de sensibilidade.Como ando chorona...trouxe-me lágrimas.

Gingerbread Girl disse...

"aos montes dentro dum boião enorme de vidro com tampa vermelha, embrulhado no cinismo das parcelas amontoadas a eito no rol"

Muito bom shô Bento... muito bom. =D

*

maristela disse...

Bento. Guardadas as distâncias de geografia e de idade entre nós, muito do que você conta lembra do que vivi na infância de cadernetas de compra, de rádio ligado em novelas, de solidariedade de pobre. Mesmo que seja ficção, não tem importância. Rememorei tempos idos mas ficados.

MZ disse...

Saudades...
Também me recordo da radionovela "Simplesmente Maria" que ouvia com a minha mãe e do sabor único do chupas-chupas que ela me fazia com açucar queimado envolto num chapelinho de papel vegetal... (lá na aldeia não havia chupa-chupas com sabor a frutas)

(encontrei-te na "Fábrica")

Adoro chocolate negro!
bjs

Luiz Ramos disse...

Seus textos são sempre lindos.
Luiz Ramos

El Matador disse...

Recordações com sabor a chocolate. Bela viagem.

Silvana Nunes .'. disse...

Navegando pela grande rede sem rumo com a intenção de divulgar o meu blog, cheguei até você e gostei do que vi, tanto que pretendo voltar mais vezes.
No momento estou impedida de fazer leituras muito extensas, pois a claridade da tela do computador está prejudicando um pouco a minha visão, devo tomar cuidado. Em breve resolverei esse problema. Bem, já que estou aqui aproveito para convidar a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... em http://www.silnunesprof.blogspot.com
Eu como professora e pesquisadora acredito num mundo melhor através do exercício da leitura, da reflexão e enquanto eu existir, vou lutar para que os meus ideiais não se percam. Pois o maior bem que podemos deixar para os nossos filhos é o afeto e uma boa educação. Isso faz com que ela acredite na própria capacidade, seja feliz e tenha um preparo melhor para lidar com as dificuldades da vida. Nós professores temos a faca e o queijo na mão, temos conteúdo para isso. Dá trabalho sim, mas nada paga a sensação do dever cumprido, faz bem para a alma. VAMOS TODOS JUNTOS PELA EDUCAÇÃO NA LUTA POR UM MUNDO MELHOR ! SIM, NÓS PODEMOS.
Se gostar da minha proposta, siga-me.
Peço que ao responder deixar sempre o link do blog, pois às vezes a mensagem entram com o link desabilitado ou como anônimo. Por causa disso fico sem ter como responder as pessoas.Os meus comentários também entram via e-mail, pois nem sempre a minha conexão me permite abrir as páginas: moro dentro de um pedacinho da Mata Atlântica, creio que mais alto que as antenas, com isso a minha dificuldade de sinal do 3G. Espero que entenda quando não puder responder. Os únicos sons que escuto aqui é o dos pássaros, grilos, micos., caipora, saci pererê, a pisadeira, matintapereira ... e outras personagens que vivem pela mata.
Por hoje fico por aqui, Espero nos tornarmos bons amigos.
Que a PAZ e o BEM te acompanhem sempre.
Saudações Florestais !

Brown Eyes disse...

Uma maneira inteligente de fazer uma homenagem a mãe, resumo deste post.

Miguel Ferreira disse...

Dominas a lingua portuguesa com pericia e bom gosto...
Gostei

Natália Augusto disse...

Será que as memórias, as melhores memórias são as que ficaram lá atrás no tempo deixando na boca o gosto e perfume da saudade?

Acho que sim!

Belo texto, como sempre.

meldevespas disse...

Gostei imenso deste texto. Trouxe-me lembranças da minha meninice, dessas mercearias a cheirar a cartuxos de papael pardo recheados de café acabado de moer, o rol dos calotes " É pra assentar, Sr. Estevo, se faxavôr!". Foi bom vir até aqui. Estes beliscões de nostalgia fazem-nos saborear o que lá vai de uma outra forma.
Beijo