Passado tão longo prazo sobre a história inicial convém aqui fazer um breve resumo antes de entrarmos no gande final.
Um casal da Rinchoa segue pela estrada nacional numa Renault 4L desconjuntada, a desoras, rumo à terra após uma chamada da mãe. Deparam-se com um corpo morto no meio da estrada, aparece a brigada de tânsito, dois indivíduos armados perseguem outros dois exigindo-lhes o dinheiro e acabando por matar um deles. O condutor da Renault 4L é detido, quando aparece um dos fugitivos afirmando que pode explicar a história toda… Confusos? Nah… Vem já aí o finalzinho…
O cabo da GNR, confuso e irado, mais habituado a controlar rixas de bêbedos e zaragatas de futebol distrital que à contabilização daquela meada pródiga em pontas soltas, não se conteve:
- Ora bem… Um chaço sem luz traseira, um morto na estrada, um condutor de pistola na mão e um maltrapilho a dizer que se entrega, mas que raio de história vem a ser esta? Alguém é capaz de me explicar o que se passa aqui?
- Eu… Posso explicar… - Disse o maltrapilho…
UM PAR DE HORAS ANTES
O tempo habituara-se a uma marcha lenta para lugar nenhum, na pacatez da aldeia onde o casal de velhotes levava uma vida de privações e fintas ao estômago, na frugalidade diária de um cardápio constante de pão com azeitonas , sopa e carne assada em domingo de festa, mais por vício do que necessidade. Saúde de ferro sem indícios de ferrugem e uma casa a gritar por electrodomésticos e outros “luxos”, tinham ajudado a amealhar um bom pecúlio ao longo do seu rotineiro quotidiano de sol a sol. Apesar da partilha das terras, o grosso do dinheiro proveniente da venda de uns terrenos fartos em oliveiras que deram origem a um projecto de turismo rural, aumentou-lhes, de forma significativa, o peso dos cifrões no banco. Haviam decidido dividir o dinheiro pelos dois filhos, tendo adiado a sua entrega dvido aos contínuos afazeres citadinos destes. O dinheiro, à muito que repousava no fundo da arca das cebolas enroladinho num saco plástico do Pingo Doce junto aos dentes de alho e ramos de louro. O velho, entretanto, desenferrujara a língua, oleada pela pomada nova, na tasca do Aires até ao pormenor do cêntimo e do logotipo do saco. Se as paredes tinham ouvidos, mais depressa ganhariam olhos ávidos e gananciosos. Bateram-lhe à porta. Pensando ser o filho mais velho que tinha ido à caça com o amigo, nem tempo tivera para uma ave-maria. As tenazes da mão direita fincaram-se-lhe nos gorgomilos bem como um soco potente na cara do velho que caiu inanimado no chão. Indiferentes à gritaria e frouxa resistência da mulher sairam a correr rés-vés com o regresso dos homens da caça que, de imediato, se lançaram no seu encalço. A mulher pressentindo desgraça no horizonte apressara-se a ligar ao filho que estava em Lisboa obrigando-o a vir a desoras no seu chaço velho. “Com sorte ainda os apanharia na mata” – Remoía o caçador. E apanhou-os, com a ajuda dos cães pisteiros, em menos de nada, muito menos que um advérbio, alcançara-os no meio do mato junto ao declive sobranceiro à estrada…
ENTRETANTO NO POSTO DA GUARDA
O maltrapilho desbobinara a cassette sobre a conversa na tasca do Aires e o ataque à casa dos velhos garantindo que não lhes tocara tendo aquele, provavelmente, quinado com o susto. Susto apanhara ele com a perseguição dos caçadores valendo-lhe contas antigas ajustadas por via da misericórdia divina. O resto da história era por demais conhecida. Os guardas limitaram-se a ouvi-lo, preencher os autos e mandar aguardar em lberdade. Quanto ao atirador o mais provável ,caso se entregasse, ficaria obrigado apenas a apresentações periódicas no posto, dado não ter antecedentes criminais e por não se encontrar na “posse momentânea das suas faculdades” tendo por isso, cometido tão tresloucado acto num momento de cegueira psiquiátrica. O casal, verificada a licença de uso e porte de arma e a consulta do registo criminal, fora também mandado em paz gozar a paisagem, sem percalços, até à malfadada praceta na Rinchoa.
EPÍLOGO
O carro, tossindo por todos os lados, a cada curva simulava o último estertor de um moribundo. Mais do que uma suite de luxo num clínica privada necessitava de uma campa condigna num cemitério automóvel. Na sinuosidade esburacada do tapete esfarrapado em tiras de alcatrão e gravilha, a ronceirisse da velocidade máxima do chaço potenciava o constante matraquear da mulher. Agora com o dinheiro da divisão materna, era hora de trocar o frigorífico, o microondas, a televisão e demais quinquilharia electrodoméstica. Renovar o guarda roupa, arranjar os dentes e inscrever-se num ginásio. Ideias não faltavam para aplicar despudoradamente o pecúlio.
- Sabes há quanto tempo não vou ao cabeleireiro? Sabes? Pois... tu nem sequer olhas para mim! Deves andar lá pelo beicinho com as tuas colegas…
“Rais partam que já não aguento mais”… Encostou à berma , deu mais uma olhadela ao monte de notas, trinta mil euros bem redondinhos , maços ainda cintados e carimbados pelo banco. Ela continuava a pregar em causa própria. “Aquele jarrão muito bonito do tempo dos chineses na loja do Victor e um telemóvel novo daqueles que faz tudo…” Olhou para ela, não a ouvia, apenas lhe divisava, de forma turva, o maquinal abrir e fechar da boca. Sem saber como, a sua mão direita deslizara, sorrateiramente, para debaixo do banco entre o tapete puído e as molas partidas sacando, com uma calma de morte, da nove milímetros…
- Então paraste porquê? - Não chegaria a conhecer a resposta, a canhonaça bem no meio da testa abriu-lhe, com estrondo, uma brecha enorme. Com a massa encefálica a escorrer pelo vidro, o homem maldizia da sua sorte face à necessidade absoluta de ter que levar o chaço à oficina do Carriço para mandar limpar os estofos…
10 comentários:
Quando eu crescer quero ter uma imaginação igual à tua. Como se já não bastasse um enredo cheio de reviravoltas, ainda nos surpreende com um final desses. Bem haja, Luís Bento.
Santo Deus!!!!
Fiquei presa ao ecran do pc, do principio ao fim! Claro que tive que voltar a ler, tal não foi a sofreguidão. Espectáculo, sim senhor, e tristemente o fado de muitos velhos esquecidos por esses montes e vales e buracos.
Beijinho
E a lingua solta do velho era a culpada! :))
E quem leva a pior é a tal mulher reclamona.
Muito,muito, muito bom!!
beijinhos
não viste o Pulp Fiction? "Vincent: Jules, did you ever hear the philosophy that once a man admits that he's wrong that he is immediately forgiven for all wrongdoings? Have you ever heard that?"
Não se leva o carro a ser lavado em lado nenhum, lava o próprio e reclama de tanta porcaria por TODOOOOO o carro, não um fiozinho de massa encefálica nos estofos. Tirando essa imagem avassaladora a la Tarantino que povoa a minha mente, Luís Bento no seu melhor :o)
Só o Bento para um final destes, e subscrevo o que foi dito: o velho bebe a pomada, dá com a língua na bendita dentadura e depois a desgraçada que só queria ir ao cabeleireiro e comprar o potinho chinês é que leva com o balázio. Possas, que injustiça Bento, é por essas e outras que eu não digo quando quero ir o cabeleireiro. Pelo menos ele ainda tem que lavar o carro:) Adorei, bjs.
... e tudo por causa do dinheiro...
magnifico como sempre...
Grata pela sua visita e palavras, de há dois dias, no Horas-e-Deshoras, espaço que deixei em repouso há um tempo. O meu novo canto, ainda que diferente, é
www.divagarde.blogspot.com
resto de boa semana
cumprimentos
Oi Luís Bento,
Que estória mais doida...rs
Pela torpeza dos fatos, as suas pitadas de humor se fizeram bastante propícias.
Beijos,
Ana Lúcia.
......
Já não basta o poder que tem de escrever... (poder sim... escreve muito bem!) ainda tem uma imaginação invulgar... pois... imaginação de um bom Escritor!
Aí está o "FIM"...que história.. que descrição... que maneira de saber fazer estar o leitor em "suspense" ...mesmo... mas mesmo... até ao FIM!
Só...o Luis Bento.
Parabens Escritor... Que bela escrita... que bom é o "saborear" as palavras que escreve!!!As que... ao pegar nelas...compõe os seus Textos! Sempre magníficos!!!
Conceição Carvalho
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