
Hoje, para além da terceira parte da história do Bento, temos uma novidade: para aqueles que residem na área de Lisboa estamos em condições de anunciar que o livro Lusitânia Online estará à venda na livraria Trama, um espaço alternativo e de vanguarda, muito bonito, local de tertúlias e debates.
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite.
Para os não residentes na área de Lisboa poderão continuar a receber, no recato do lar, a obra devidamente acondicionada e almofadada nas fronhas do envelope de correio verde.
A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite.
Para os não residentes na área de Lisboa poderão continuar a receber, no recato do lar, a obra devidamente acondicionada e almofadada nas fronhas do envelope de correio verde.
E agora vamos à terceira parte da saga que já se faz tarde...

(CONTINUAÇÃO)
LISBOA, BAIRRO DE CAMPOLIDE 1974
A dona Antónia, para além de reivindicar a propriedade da única televisão no prédio, era uma senhora afável, baixinha, com um irritante tique nervoso de usurário judeu no olho esquerdo. Fosse pela precisão matemática e pesada do cíclico tabefe marital fosse pelo levantar de mão num gesto mais brusco, já os olhos lhe piscavam numa intermitência ora à esquerda ora à direita, escorada nos parcos conhecimentos de leis da física, estranhamente empírica e receosa, por forma a avaliar e medir o lado de onde tombava a mão pesada do férreo e firme amor marital. O Bornal, aliás, José Bandeiras, era alto e entroncado, rosto com fortes traços de cavalgadura que se conjugava com a sua forma ruidosa, intensa e contínua de sorver a comida directamente da malga. Guarda prisional e bufo da PIDE, sem grandes escrúpulos ou ambições, pronto a obedecer e a executar, herdara uma carvoaria e mercearia onde mantinha um empregado ronceiro, vindo da Guarda, de aspecto seboso, gordinho de careca luzidia e óculos com fortes dioptrias garrafais, sujos e riscados, com o eterno perfume de lixívia entranhado no corpo. Com inusitada frequência, o espécime suíno palitava os dentes ora com a lasca de madeira, ora com os dedos, arrancando os pedacinhos de presunto dos intervalos enquanto, alegremente sentado num banco, meneava a cabeça e grunhia umas ordens para a mulher vender, atender, arrumar, descarregar, limpar e demais conjugações verbais a terminar em er e em ar.
A mercearia era um pequeno espaço com cheiro nauseabundo proveniente dos odores misturados de comestíveis com produtos de higiene; pacotes rançosos de amendoins, arroz, pevides e chás que já para ali se encontravam perdidos desde o tempo da dinastia Ming, eram companhia assídua de prateleiras cheias de pó, sabão azul e branco em barra e cera Búfalo. A loja tinha um arco que dava passagem para uma pequena tasca com três mesitas e uma bancada de pedra. Na parede, por trás da bancada, erguiam-se duas pipas enormes na vertical com dois
pratinhos de madeira para aparar as sobras. Ao longo do dia, depois dos mergulhos em voo picado de sucessivas e constantes esquadrilhas de moscas e moscardos, o suíno voltava a reaproveitar o vinho. As sandes de ovo expostas na vitrina, amarelas ao raiar da aurora, esverdeavam com a rotação terrestre, devidamente acompanhas de um desconto cerimonial e ruidoso: as verdes eram cinco tostões mais baratas que as amarelas...
pratinhos de madeira para aparar as sobras. Ao longo do dia, depois dos mergulhos em voo picado de sucessivas e constantes esquadrilhas de moscas e moscardos, o suíno voltava a reaproveitar o vinho. As sandes de ovo expostas na vitrina, amarelas ao raiar da aurora, esverdeavam com a rotação terrestre, devidamente acompanhas de um desconto cerimonial e ruidoso: as verdes eram cinco tostões mais baratas que as amarelas...
Muito meticulosamente, enquanto o eterno palito escarafunchava e prosseguia a higiene oral na profundidade fedorenta de interstícios e crateras de dentes e gengivas, procedia à limpeza do chão com o mesmo pedaço de trapo com que limpava a bancada. Enquanto vendia carvão e petróleo a granel e a sinusite e o catarro apertavam, não raras vezes se baixava, enfiando “o focinho “ no caixote do lixo e com um suíno grunhido de “Abominável Homem das Neves” repuxava uma valente escarradela. A surdez e a distracção não esmoreciam o apetite dos clientes enquanto deglutiam as sandes e as caras de bacalhau.
Era lá que a vizinhança ia comprar o que precisava, porque era a loja do Bornal, porque era mais barato, porque de vez em quando dava para surripiar alguma coisa, mas, acima de tudo, porque fazia fiado...
A brigada da PiDE que recolhia informações do Bornal era constituída por dois agentes. O fininho, chupado de carnes e de sensibilidade, com a inteligência a rondar a robustez de um tronco de árvore e o Botas... O Botas ia nos seus vinte e cinco anos de inteligência mal medida e maldade bem aviada. Alto, forte, burro e bruto exibia orgulhosamente os seus atributos num curriculum de torturas e atropelos galhardamente anunciado. Na rua, todos o temiam. Era sobejamente conhecido o facto de que ouvir o ranger das suas botas calcando os degraus das escadas era sinónimo de detenção certa e intemporal. No prédio, ouvíamos amiúde os seus passos que se detinham no primeiro andar onde residia o Bornal. Ouvidos colados às portas, os vizinhos suspendiam a respiração até ao alívio do sonoro trinco do primeiro esquerdo engolir aquela sinistra figura. Com os nervos em franja e o coração apertado entre as mãos enrodilhadas sob o avental, a mãe do escriba, por força das linhas milimetricamente manuscritas e arquivadas na cartolina cadastral do seu pai (José Gonçalves) e das invectivas contra o Marcelo Caetano do seu marido, temia que, algum dia seria dia de Santa Maria e o Botas viria buscá-lo. Não tardou muito... um dia, os passos do Botas não se detiveram no primeiro andar esquerdo do Bornal. Lenta e pesadamente prosseguiram a sua marcha até ao nosso andar. Eu começara a ver a vida a andar para trás num flashback imberbe e receoso, a mãe, com as mãos enrodilhadas e nervosas sob o avental, já ia a meio da terceira Avé-Maria quando nos bateram à porta...
-Truz! truz! truz! - Três pancadas nodosas e firmes acompanhadas de uma frase lapidar:
- Polícia Internacional de defesa do estado! Faz favor de abrir!!!
(CONTINUA)











18 comentários:
tramado então, daí a Trama...tudo faz sentido...
Será? E.. em que sentido?
Luís,
Parabéns!
fantástica 'saga'!
Tenho estado a 'por a leitura em dia'
deixo uma mão-cheia de cerejas e o meu sorriso :)
mariam
nota:já estava com saudades deste 'Universo' tão especial... mas tive alguns problemas informáticos rsrs
Mariam..obrigado pela visita. Já lá fui debicar umas cerejas...
Menino, que personagens fantásticos e perversos você encontrou pelo caminho!
Fiquei em dúvida de quem seria o pior: Botas ou o homem da mercearia (eca!).
Agora... o Botas só queria um pouco de açucar, né não? ;)
beijinhos
Parti-me a rir com a descrição do Botas!! :)))
A infância foi terrível, entre minimercados suspeitos e suspeitas pidescas, parece que o nosso autor viu criatividade onde outros viram medo e repugnância... está a ficar muito boa este história!
Venha de lá mais...
Muito bom amigo!
Abraço.
Cá estou a acompanhar a saga...
Continua Bento, continua.
:)))
Obrigada pela visita e pelo simpático comentario. Voltarei para ler a saga do início.:)
Obrigada pela visita e pelo simpático comentario. Voltarei para ler a saga do início.:)
Esta parte da PIDE fez-me lembrar aquela "cena" do filme do Indiana Jones, em que ele é empurrado pela multidão e sem o conseguir evitar, fica coladinho ao Hitler, que lhe dá um autógrafo.
Vá, confessa... na parte IV da verdadeira história do Bento, vais mostrar o autógrafo do Marcelo Caetano, não vais?
Um abraço...
Entremares... he he he...Vou tentar colocar hoje a parteIV autógrafo? Não, mas também vai ser desconcertante... he he he...
Paula.. obrigado! Cá te espero.
Mdsol..é só mais um pouco... de suspense...
Tiago Almeida... Obrigado! fica por aqui para veres o resto da história.
Lua.. O botas existiu mesmo... e cheguei a ter um encontro imediato com ele... na idade adulta...
Horus... sempre generoso nos comentários!
Senhora...era o ambiente dum bairro típico nos anos 70. Pronto tá bem! Excessos literários à parte, era mesmo o ambiente da altura...
saudades destas viagens :)
lá passarei na trama,
sei onde fica, sim!!
ai bento estais perdoné!:)
beijos
~
Fiquei entre a angustia lembrando um tempo que conheço bem e a vontade de rir das descrições fantasticas dos personagens
Minha nossa..., que ambiente mais asqueroso...!! Rsrss Que turminha mais desajeitada...!!Rs Cruzes..., que horror... de lugar...!!
Beijos,
Ana Lúcia.
Oi somos colegas de Tertúlia e agora de editora! Estou na II Coletânea da Novitas, e lhe vi por lá. Vim dá um alô! Abraços!
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