
À hora marcada os presos recolheram à rudeza fria e esfíngica das celas. Todos, excepto Manuel da Cruz de Sousa Tobias Lettermann. A kilometragem do nome não o impedira de tirar guia de marcha para a penitenciária com carimbo de dolo e burla agravada. Tomara todos os cuidados e precauções: unira-se ostensivamente aos indivíduos de maior índice de massa muscular por centímetro quadrado, untara as mãos aos guardas, habituara-se a olhar de soslaio por cima dos ombros, evitara deixar cair o sabonete no duche e passara uma estadia agradável e isenta de preocupações. As diversas contas em off-shore ali para os lados entre o cruzamento de Gibraltar com New Jersey almofadavam-lhe, comodamente, o sono na tarimba despida de lençóis e preconceitos. Contudo, a permanência no cárcere ao longo daqueles três anos, exacerbara-lhe o desejo e a ansiedade. A privação da liberdade, o carinho da mulher e da filha, os passeios de domingo, as viagens e as mordomias inerentes à qualidade de homem livre, eram chagas num crucifixo ferrugento arrastado, penosamente, num calvário de olho posto naquele dia gizado na parede. Foram sem conta, as cartas manuscritas numa caligrafia ávida de notícias, trémula de nervosismo e faminta de liberdade. Escrevia de rajada, sem pontuação porque não era concurso e sem acentos porque as relia de pé... Piada fácil de escritor, que acentuava a dor e a tormenta duma personagem farta dos exíguos metros quadrados do recreio, calcorreados numa "Ronda dos Prisioneiros" para a qual ele não tinha estofo. Mago de finança fraudulenta, sim! Mago da paleta, não! O daltonismo não lhe deixava margem para sentidos estéticos e pictóricos dignos de Rembrandt.
À hora marcada, vestido e perfumado, olhou uma vez mais para o relógio. Os portões começaram a rodar ruidosamente nos gonzos. Ouvia o bater compassado do coração atingir a velocidade da luz num nervisismo sem fim. O bater era cada vez mais forte, mais intenso, ensurdecedor, quase lhe cortando a respiração. Os portões giravam numa lentidão exasperante. Limpava o suor da testa com o suor das mãos. O esgar incial tornou-se numa torrente de riso. Não aguentou mais! Com os portões escancarados num convite libidinoso, deitou a correr mal divisou a mulher e a filha no outro lado da estrada.
- GRRINCCHHHHH!!! - Tarde demais... na ânsia, não reparara no camião basculante que se apresentava pela direita a alta velocidade... E ali mesmo, transformado em Ketchup, vendera a alma ao criador em papel de vinte e cinco linhas, livrança e estampilha fiscal...
MORAL DA HISTÓRIA:
Podes querer ser livre, mas... convém olhar para a estrada!
31 comentários:
Que texto maravilhosamente lindo.
Sou nova aqui, mas já estou querendo voltar.
bjs
Amigo distante: o preço que cobra dona liberdade de cada um. Pode nao ser sempre um carro a nos amassar, mas pode ser até mesmo um ser querido que nos corta as asas.
Pensando bem, ele ficou livre de vez.
bj
Luis,
como sempre seu belo texto nos segura até o fim.
A liberdade e a cautela; será que devem andar juntas?
beijos
li
Viva, Bento!
Excelente texto, uma vez mais. A qualidade é timbre sempre presente.
Quanto à imagética: conhece Possidónio Cachapa e o seu "O mar por cima"?
Abraço
Ruben
Lindo e uma mensagem pra refletir e lembrar na nossa caminhada da vida...abração e tudo de bom,Pena que acabou a Tertúlia,ná?chica
Mas que bela lição... ao sabor destas palavras... gostei da moral da história!
A liberdade tem um preço, por vezes demasiado elevado.
Em nome dela tem-se perdido, ao longo dos tempos, muitas vidas. Mas essa é uma luta que vale a pena travar em nome da Humanidade.
Belo texto, como sempre.
a liberdade é composta de vários fatores, inclusive olhar os limites (a estrada)!
Não consegui me inscrever, mas estou participando!
http://multiplasrealidades.blogspot.com
Bjs!
LOOOOOOOOOOOOL
Ah ganda Bento! Assim é que é!=D
Camião por cima do gajo. Era assim que eu acabaria isto também... mais coisa, menos coisa. ^^
kiss*
Obrigada pela visita no Café e por seu comentário.
Que leitura deliciosa. Como voce escreve, que poder de descrição impressionante! Meu grande parabens!
Um abraco!
Luís, esse texto foi um "soco no estômago", em nome da pretensa liberdade acabam-se tantas vidas.
Como sempre um ótimo texto.
Olá,Luis
Realmente ,o texto é um "tapa na cara"...
E a moral da história nos chama a atenção pra que a ansiedade´pela liberdade,nos prenda mais qainda..
Belo texto!Parabéns!
Obrigada pela visita e comentário!
Bjus
Pois... convém! :)
Fica um abraço.
É a chamada ironia da vida...
Bento,
A liberdade do Manoel transformou-se em poeira de estrada, estrelas e sonhos... Um conto, uma vida, e tantas semelhanças com a realidade.Parabéns!
Bentooo! qué alegría me dás!!! yo tampoco me olvido de vos! Felicitaciones por el libro, muchos exitos!!
Un abrazo muy grande!
Caro Bento,
Esta história dá margem a muitas interpretações. Gostei especialmente do desfecho. A vida fica mais fácil quando abrimos mão de esperar que as coisas se resolverão no futuro.
Obrigado pela sua gentil visita.
Abraços e até breve.
E passar na passadeira... Bela história, para variar. Obrigado pelo entusiasmo que sempre deixaste nos teus textos. Vamos à próxima brincadeira...
Oi Bento...
venho retribuir a visita...
mas fico pelas batatas fritas...
hummmmmmmm...
Bento, fora a qualidade já decantada de seus textos, obrigado pelos comentários e visitas que fez durante essa Tertúlia! Sua energia e vibração são contagiantes! Muito obrigado!
Estou a compartilhar dessa liberdade precavida, em meu blog, embora não com o talento ímpar tão bem retratado por você.
Essa sua moral de história é muito pertinente em tempos atuais, onde o fazer é tão fugaz quanto uma fumaça, todos almejam conseguir, sem controle.
Beijos,
Mas os SEUS comentários estão fazendo falta em meu blog... Se não desejar tomar café, tem poltrona para um papinho, que sempre me alegra em sua companhia,
Ana Lúcia.
nossoa caminhos escolhemos, mas não sabemos ao certo se foi o certo... na vida temos que faer escolhas e apartir delas seguir em frente...
pena que esta seja a última tertulia, mas com ela fica a amizade e o carinho que ela nos proporcionou a todos nós!!! aguardamos novos projetos destes amigos incriveis...
bjocas
ps: tbm participo.
Quando ele começou a contar os dias para sair, já percebi a aflição. A agonia na hora de sair... E eu dizia: é agora! Mas... uma camião?! :)))) Eu pensei que morreria infartado! :))
Muito bom!!!
beijinhos
Muitas vezes não chegamos a tempo.
O destino deita-nos a mão sem mais nem menos.
Há prisões para as quais nunca temosum plano de fuga possivel :)
Só para dizer que tem um pequeno prémio lá no Rochedo.
Caro amigo. Excelente naco de história, apesar de a liberdade não passar de utopia, quer as pessoas queiram, quer não! Ainda por cima dá para reflectir, assim cada um de nós o entenda. Foi um prazer relembrar os seus textos, um tanto mordazes, mas certeiros. Um abraço.
Olá!
Aqui quem fala é o Murilo, dos blogs Palavras de Osho e Os nascimentos das palavras.
Assim como você e dezenas e dezenas de outros amigos blogueiros, eu participava das blogagens coletivas do Tertúlia Virtual, belíssimo projeto de promoção de blogagens coletivas que infelizmente chegou ao fim em julho de 2009.
Para mim, a inicitativa do Tertúlia foi responsável pela realização de muitas das melhores blogagens coletivas da blogosfera em língua portuguesa.
A idéia de a cada mês reunir blogueiros em torno de um tema foi tão bem-sucedida que não podemos deixá-la morrer.
Para colaborar, lancei o Vou de coletivo!
Todo dia primeiro do mês será proposto um tema para ser abordado por blogueiros por meio de textos, imagens, vídeos e o que mais a criatividade permitir.
Assim que o tema do mês é apresentado, é aberta uma lista de inscrições. Basta você inscrever sua postagem que automaticamente será inserido um link para ela na relação de participantes. As inscrições ficam abertas o mês todo.
E você, gostou da idéia? Espero que sim!
Então não vamos perder o embalo. Logo sai o primeiro coletivo de 2009! Clique aqui e acesse o Vou de coletivo!
Abração!
Tem selo para você lá no blog...
Boa semana
Abraço
Olá Bento!
Vim conhecer o seu texto da tertúlia( embora já um bocado fora do prazo...).
No fundo, podem tirar tudo ao homem, privá-lo da sua família, da sua casa, do mundo, mas não ha ninguém que tire a liberdade de pensamento e de o escrever, seja onde estiver!
Quem escreve, de facto é um pássaro livre!
Gostei! Parabéns.
Abraço, Susana
Estou convidando você e os seus amigos para participarem do "Vou de coletivo!", idealizado pelo Murilo H. Abreu. Pelo meu site, se consegue chegar ao dele, para obterem maiores informações. A inscrição é dia 1.º, agora.
Beijos, adoraria se fizessem parte junto comigo...,
Ana Lúcia.
PS: Estou com saudades de você, Luiz...
Ehhh, Luís...Primeiro, minhas óbvias homenagens...
Seu texto é primoroso, e muito me orgulha ser teu leitor...a qualidade do escriba lustra, sem dúvida, o ego dos leitores...É como se diz:
Putz, é bom, e eu consegui captar o significado...!
Mas veja que sobre o tema liberdade tenho cá os meus pitacos...Não literários, pois não posso, mas libertários, pois esses sim, posso:
Eu daria uma nuance sobre a "moral"...
Mesmo que por pouquíssimo tempo, pois como nos ensina a física da vida, ele(o tempo) é relativo em relação a massa do desejo de ser livre, deixe-me dizer:
mesmo que por um nanosegundo: se ele foi feliz, valeu a pena...
quantas pessoas tem o prazer de morrer com a última imagem registrada em suas retinas como o do nosso personagem...?
eis a questão...!
Um abraço, e continue a nos dar o prazer de sermos seus leitores...Siempre...!
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