
(CONTINUAÇÃO)
... Na parte norte, na zona de confluência entre a Marquês de Fronteira e a rua de Campolide até à Conde das Antas, moravam os que tratavam o dinheiro por tu e com quem ele se portava à laia de fêmea em desvario reproduzindo-se às três pancadas. Na parte sul, junto ao Tarujo, paredes meias com a Praça de Espanha, aqueles cujos vínculos familiares com o vil metal há muito tinham entrado em ruptura. Entre uns e outros, viviam os remediados em prédios que apresentavam enorme saldo devedor na contabilidade dos anos, mas onde o ramo de salsa e a miga de sal eram sinónimo de solidariedade e pretexto para amena cavaqueira.
LISBOA, BAIRRO DE CAMPOLIDE 1974
Atarracada e redonda, na sua figurinha de letra minúscula dum alfabeto esquecido, a Dona Antónia exultava com a sua recente condição de única proprietária de um aparelho de televisão no prédio, o que lhe conferia um grau de inaudita importância junto da vizinhança.
O aparelho, um "Pilips", ufanamente pronunciado com a sua boca de onde, em tempos, os dentes tinham encetado uma fuga prisional em larga escala, era daqueles enormes, pesados, com naperonzinho no topo para resguardar do pó e um pequeno castiçal para dar graça. Fora colocado no quarto de dormir sobre a cómoda onde, todas as noites de quarta-feira decorria a sessão de cinema. Pequenos bancos de cozinha, todos em fila indiana devidamente encostados ao guarda-fatos, filtro azul preso por chumbadas de pesca sobre o écran para não ferir a “vista”, pratinho com palitos de la Reine e lá ia a procissão de judeus reconverter-se à sacrossanta fé das imagens, comer os palitos e ver filmes do Dany kaye enquanto o velho Bornal, marido da dona Antónia, assim alcunhado pela forma alarve como normalmente digeria as refeições, enrolado em posição fetal dentro da cama, arremessava poderosas bombas da segunda guerra mundial empestando a atmosfera com os seus eflúvios. O escriba ria-se a bandeiras despregadas; o estrondo flatulento dos alívios do Bornal no ranking da “Ars comica” estava ao nível das melhores cenas do Danny Keye, mas de imediato era sacudido por um valente safanão da sua mãe, fosse pelo que fosse, ele não estava ali para achar graça, a sua diminuta presença naquele campo de batalha gazeado servia apenas para ler as legendas e resumir a história do filme. Era o único que sabia ler...
Se às quartas-feiras havia sessão de cinema, às segundas à tarde havia sessão de escrita. Era em casa da Dona Judite, uma viúva muito bonita de porte fino e elegante, mas analfabeta. Descendente de uma família rica da zona de Guimarães que se enredara nas teias do jogo e perdera, assim, todo o património, viera para Lisboa casara com um senhor muito bem posto e enviuvara logo de seguida após uma apoplexia fulminante que dera muito falatório na rua. Em cima da mesa da sala pousava os bolinhos, as moedas, o bloco, a caneta, a sua mão esquerda entre as coxas e a direita em intermináveis carícias às glândulas mamárias... Ditava as cartas para as irmãs com um entusiasmo ofegante com vários níveis de intensidade; entre apalpadelas, esfregadelas e suspiros a roçar o uivo, lá ia debitando queixumes, enumerando desejos de muita saúde e outras banalidades que o escriba se encarregava de parafrasear. No final, fazia questão de as “ler” antes de meter nos envelopes, passando os seus olhos de espanto bovino sobre aquelas linhas de caligrafia irregularmente orgásmica e cheias de parágrafos para aumentar o número de páginas...
O círculo de amigos circunscrevia-se aos filhos e netos de dois ou três prédios contíguos, já que da parte norte não havia misturas. A fina-flor era frequência constante e assídua nos Maristas e nas Doroteias e a erva daninha medrava, timidamente, à sombra dos pinheiros da escola pública do Tarujo. A única vez em que as distintas categorias da flora se encontravam na mesma página do manual de biologia era na missa dominical, sorrateiramente folheadas, pelo vento benevolente e cristão entoando salmos ordeiros e afinados. Nas parcas conversas de salvação e de circunstância traçavam-se destinos e previam-se futuros: as filhas do Mateus da empresa de construção iam para professoras e médicas os demais tinham um autocarro de oportunidades à espera com bons cursos de serralheiro, carpinteiro e afins realçando ainda, dando graças a Deus, a sua bem aventurança em terem acesso à leitura e escrita na escola. O grupo era constituído pelos netos da D. Antónia, e seus primos, os sobrinhos da dona Judite e a mais dois ou três miúdos da rua. Entre eles a Madalena e o Filipe do dono da loja de pronto-a-vestir. Das duas filhas da D. Antónia uma tinha ido viver para a Reboleira. “O Jota Pimenta tinha lá construído umas casas muito boas”... A outra filha tinha ido para Santo António dos Cavaleiros onde “as rendas mensais já iam nos três mil e quinhentos escudos”, dito com uma expressão de orgulho infantil pelos sinais exteriores de progresso que tal facto representava, pelo que os filhos ficavam na avó durante o dia. O grupo levava uma vida pacata entre as traquinices da idade e o pouco espaço de manobra dado pelos pais. Entre a xinxada e a ida à piscina do areeiro à pendura no eléctrico vinte e quatro até à praça do Chile, calcorreando depois, no regresso, o monte Sinai numa via sacra, penosa e longa, a pé até Campolide, o grupo, constituído por cerca de uma dezena de amigos, estava prestes a terminar a quarta classe e a entrar num mundo inatingível pelos seus pais: o do ciclo preparatório, unidos e coesos, pelo menos até à chegada do Francisco e a tudo o que aconteceu umas semanas depois...
(CONTINUA)
17 comentários:
E o conto melhorando cada vez mais !!! Quero ver o que enlouqueceu a Joulie!! Ah, se quero =D
A parte mais picante e escabrosa é lá mais prá frente... he he he
Fantástico:))) E isto de se ser contemporâneo e de ter crescido na mesma cidade tem muito que se lhe diga. As tuas recordações são tão parecidas com as minhas: O Jota Pimenta, eh eh eh , a debandada para Sto. António dos Cavaleiros que nessa altura era chique, eh eh eh .
Também ias ao aeroporto ver os aviões? E ver os barcos chegarem e partirem para África? E ver o espectáculo de Natal ou da Páscoa ao Coliseu?.... bem, obg por este "voltar minha à infância".
Oh! OH!... lá se vai a minha história...eu a pensar que ia surpreender o público...
Realmente ia ver os aviões, havia um lago com patos no alto do parque eduardo VII... vai aparecendo...o melhor ainda está para vir...
tinhas um livros igual ao meu :-)
E eu a conhecer o Bento... :)
beijinhos
Muito bem, muito bem... O suspense aumenta.
Do criador do blog My-Overdose que infelizmente já acabou! Chegou agora http://dose-de-cavalo.blogspot.com/
Um blog com imagens e videos que te farão rir! Prometo-te umas boas gargalhadas! Visita o blog e segue-nos! Gostariamos imenso de o ter como nosso seguidor!
Continuo a acompanhar embevecida! Ah e a capa do livro da terceira o máximo
:))))
Nossa..., parece uma aventura no lar...!!
Bjs,
Ana Lúcia.
Luís!! Cuidado, não corra o risco em prometer...rss Pois, não se esqueça que promessa é dívida...
Estou lendo o seu livro desde o dia em que o recebi, entretanto, apenas não o terminei por falta de tempo... Avisarei quando...
Beijos,
Ana Lúcia.
Terminei o outro mesmo porque perdi o interesse nele! Tenho pena disso e depois tambem se envolveram alguns problemas pessoais e pronto, acabei por desistir dele! Mas fico feliz por o teu ainda estar de pé ^^
E a criatividade flui que nem viagem no tempo ao sabor das palavras...
Luís meu querido!!
Rsrsss... Promessa assim, com ressalvas até eu faço umas 20...!!
Quanto a dedicatória, me deve mesmo uma...!!Rs
Beijos,
Olha...adorei!! :)
Tanto talento não pode mesmo se limitar a um blog...
o que eu procurei por esta imagem. já agora falta o da 1ª, 2ª e 4ª classe para ficar completo. será que consegue?
aguardo ansiosamente
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