Medo de existir? Teimosia de insistir! É a vida!...
José Gil
Editora Relógio d'água
11ªedição Maio de 2007
(...) Os portugueses são particularmente sensíveis à ausência, o que os faz constantemente ansiar pelo pleno. (...) Pleno de palavras, pleno de pensamentos, pleno de agitação, pleno de movimentos (...) "uma estranha semiótica rege este país. Um português pergunta a outro: "Aonde vais este fim-de-semana?" O outro responde: " Fico por aí..." (...) " É a vida." Esta frase com que o apresentador da RTP termina amiúde o Jornal da Noite dá o tema do ambiente mental em que vivemos (...) Depois de assistirmos às notícias sobre raptos, assassinatos, acidentes de viação, mortos palestinianos e israelitas (...) surge uma notícia que, como uma luz divina, redime todo o mal espalhado pela Terra: nasceu um bebé panda no Zoo de Pequim! (...) É a vida, pois. Que mais quereis? É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei a vossa com paz e serenidade, não há nada a temer (...) ide, ide às vossas ocupações que a vida continua.
(José Gil)
Às dez da manhã a agência bancária já se encontrava cheia. Nervosa por ir "pedir batatinhas", ainda mais ficou ao ver tanta gente. A seu lado, a filha, com pouco mais de sete anos, insistia que lhe doía a barriga e queria comer bolachas. A mulher, visivelmente nervosa, revirou pela centésima vez a sua carteira em busca de moedas perdidas. Nada. Nada de nada. Niente. Zero! Nem umas moedas para o raio das bolachas nem para o que quer que fosse. Chegada a sua vez, expôs o seu caso, em surdina envergonhada, a um dos caixas. Sabia que tinha esgotado e ultrapassado o plafond da conta ordenado e que tinha ficado com o cartão de crédito retido e o empréstimo da casa em atraso... "sim! SIM! eu sei disso tudo.... as prestações o cheque do pediatra devolvido etc.etc. etc. muitos etecéteras na minha vida!" A mulher, típico recorte de classe média, à beira da bancarrota, com um divórcio de permeio, tentava levantar cinquenta euros que, garantia, viria depositar na manhã seguinte, acrescida das prestações em atraso, logo que o patrão lhe adiantasse o vale. Recostando-se na cadeira, o caixa, com ar triunfalmente idiota, levantou a voz para mostrar a toda a gente ser detentor da razão. " Não podia... não podia, estava a cumprir ordens... a senhora já esgotou todos os limites e, para além disso, encontra-se inibida do uso de cheques!" - Olhando ainda em redor para aferir do impacto das suas palavras.
A filha insistia de modo irritante que tinha fome e queria comer uma bolacha. A chapada, seca de raiva, se a calara com a história das bolachas fizera-lhe soltar os soluços e as lágrimas numa torrente de choro convulsivo. À minha frente, a fila, impaciente pela demora no atendimento, insistia no fim da conversa e apelava à mulher para que se desviasse. Indiferente ao drama, enquanto o outro caixa convidava o colega para o pequeneo almoço logo que se despachasse, o sujeito que me antecedia virou-se para trás e encolhendo os ombros, abriu a boca com um sorriso matreiro e despejou: É a vida!...

36 comentários:
Ahhhhhhhhhh vida madrasta
bento-que-bento!
ainda me espanta saber a frieza de algumas pessoas que mediante ao caos, permanecem intactas.
bom dia, querido!
tetê
.
A indeferença é a mãe de todos os males. No entanto, a indiferença é uma defesa. Imagine-se que começamos a dar atenção a todas as desgraças à nossa volta? Um pesadelo...
Às vezes... dá mesmo vontade de distribuir bofetadas a torto e a direito, quando somos confrontados com certas situações... e se depois me perguntassem o porquê, se sofria de algum espasmo de loucura súbita... responderia calmamente... É a vida.
( Mas teria feito o gosto ao dedo )
A indiferença é a mãe da nossa "desumanização".
No entanto a vida é tão madrasta que se fóssemos dar crédito a tudo a nossa volta acho que sucumbiríamos. Um triste dilema...
É triste que as pessoas não se apercebam que podem ser os próximos... esquecem-se! Que triste...
su
eu ainda acredito que a solidariedade não é um conceito em falência...
por outro lado o que um bocaidnho de poder não faz às pessoas...
su
retrato(s) de VIDA!
a tua sensibilidade é absolutamente desarmante!!!
deixo um beijo
Se o objetivo era nos deixar pensativos...conseguiste...É a vida.
Beijos
C'est La Vie.
Un Bijou*
Conheço caso parecido, mas ao contrário, por sorte bateu na porta certa, de quem tem o mau hábito de ser solidário e ouvir as mazelas alheias. Não tem a vida resolvida, mas sabe que alguém vai sentir a sua falta no mundo caso parta, assim como outros que ali foram parar.
Quanto ao que foi solidário, só lhe resta isso, mesmo, porque sabe que dificilmente vai conseguir tratamento igual. É a vida...
Boa semana, querido
Sou tao sensivel que a frieza dos outros me choca profundamente.
As chapadas secas, silenciosas, ausentes de palavras, sao as que magoam mais.
Pequenas passagens que tocam as almas sensíveis. Triste, porém um ótimo alimento para os pensamentos.
Parei aqui depois de sua visita e fiquei muito contente ao me deparar com o texto que me prendeu por uma boa meia hora. Voltarei sempre!
Beijo!
Conhecendo-me como me conheço, se eu tivesse presenciado esta história ao vivo não a deixava a preto e branco garantidamente.
Num impulso levantava 50€ no multibanco e dava a essa senhora...Se é defeito ou virtude não sei...De uma coisa tenho a certeza não sofro da doença da indiferença aos males dos outros. Pelos vistos tu também não, senão não tinhas partilhado esta história...
bjinhos
Às vezes encontro blogs fantásticos; outras vezes, blogs fantásticos encontram-me a mim :)
Por aqui, tb se está muitíssimo bem! vou ficar...mas dispenso as batatas fritas lá de cima, ok? é que estou de dieta :)
de resto... mais textos como este, por favor!
Caro Luís:
"O medo de existir" mostra a nossa pequenez como nenhum outro livro que tenha lido sobre a alma lusa, mas também nos aponta novos caminhos.
Quem sabe um dia isto não muda tudo? :)
cheers
Inês
Luis..não pude deixar de vir te agradecer a gentileza e generosidade do comentário no noVÍTÁ...me deixou encantada e orgulhosa...não tive também como não postá-lo nos Comentários Notáveis que coloco ocasionalmente dos que me impressionam...Um grande abraço obrigada e até já...Parabéns pelo blog que já conhecia através do Varal.Adorei seu texto...ide ás vossas ocupações que a vida continua! Tão bem dito...!
Oh Bento:
Que coincidência... Tenho o meu exemplar do livro aqui mesmo ao meu lado. Fui hoje procurá-lo na estante!
Coincidências... é a vida!
:)))
É... é a vida e ela insiste em nos encantar sempre e a nos ensinar a sermos sensíveis ao que ela nos apresenta de forma sutil,sofredora e por muitas vezes bela demais.
abraço
É a vida, mas ainda acredito muito no ser humano.
beijinhos prá ti!
Façamos a diferença lutando contra a indiferença.
Fiquei curiosa em relação ao livro.
Parabéns pelo seu blog. Vou voltar com mais tempo para apreciar e comentar :)
Uma honra estar com você na mesma editora (Novitas). Uma delícia descobrir-te e receber-te lá no VAN FILOSOFIA!
Vou linkar você pra encurtar os caminhos.
;)
Beijucas e prazer em ler-te.
Não resisteir em comentar.Seu blog é espetacular!
parabéns!
Olá Bento, valeu pela visita, obrigada pelo elogio, apesar de não merece-los...rs!
Adorei seu blog tbm e com ceretza faremos uma troca...voltarei!
bjus
Excelente post!
Estou abismaravilhado com a tua versatilidade analítica. :D
De facto o caso retratado, nos dias que correm, está a banalizar-se cada vez mais por todo o país, devido à crise e à nossa estranha forma de viver.
Sou um grande apreciador de José Gil e gostei bastante do livro citado. ;)
Nem fazes ideia da forma como esta história me toca ou se calhar fazes, bastou ler uns textos no meu blog.
Cambada de carneirada embrutecida e que só olha para o próprio umbigo.Só sabem como é quando lhes bate à porta.Incrível!Desculpa mas estas coisas mexem comigo.
Beijos
Tem uma música maravilhosa, do Gonzaguinha, que se chama O que é, o que é? E diz:
Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...
E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!...
E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luxo e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Um beijo cá do sul do Brasil.
maris
O vida viuuuu
a vida ás vezes é muito cruel!
bom fim de semana
bj*
é a realidade à vista. escrita com uma precisão emocional de quem não consegue abstrair-se e ficar indiferente. muito bom, gostei muito!
...um prazer ler este seu texto!
Cotovia...um prazer tê-la no meu blog
meh...é importante não nos abstrairmos...obrigado pela visita
Sad tear..às vezes...mas realmente temos que pôr certas coisas ao largo ou a vida torna-se um inferno
Filipe Rangel...êta vida!
Maristela...é sempre bom tê-la por aqui e com um poema para amenizar a vida!
Humana...obrigado pela visita, pela partilha, pela sensibilidade...
Maldonado...versátil e interventivo.
Zana e adriana...obrigado pela visita e plas palavras de incentivo.
Van...isso!Caminhos curtos para a tua poesia.
Paula...façamos a diferença
Izinha...obrigado pela visita
Teórico, mdsol e Vi... a vossa visita e as vossas palavras fazem a diferença e a luta contra a indiferença
Inês Leitão...é bom que mude...
Marta...Vou tirar as batatas fritas...fica a pita shoarma embora com mais calorias
Felina e camisinha...vida madrasta mesmo...
Expresso da linha...às vezes é um pesadelo mesmo...
Gabrielle, sue, menina wow irradia uma luz quando chegam...
raq paulino, senhora, sanxeri...sensibilidade à flor da pele..
Carla por dentro...andamos em sintonia
Ora pois!
Fiques tu a saber, oh gajo, que a palavra saudade não existe em muitas línguas (os franceses, por exemplo, dizem "tu me manques", ou seja, algo como "tu me fazes falta", não há em francês uma palavra específica para saudade e "nostalgie" é demasiado genérica, não se refere diretamente à saudade que se pode ter por uma pessoa), mas em outras línguas há sim uma palavra para a nossa tâo querida "daudade".
Em árabe é "al hnin"; em romeno é "dor" - igual à nossa palavra "dor" mas se pronunciando "dór".
É um prazer poder te ler.
Gosto da tristeza, ficar triste não é ruim: a tristeza é senhora.
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